Archive for the ‘Geopolítica’ Category

Política externa sob Bolsonaro e Ernesto Araújo inaugura a diplomacia populista

Gestão se baseia em propostas simples para problemas complexos, mobilização das massas e construção de inimigos externos

LEIA DIRETO NO ORIGINAL: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/politica-externa-sob-bolonaro-e-ernesto-araujo-inaugura-a-diplomacia-populista.shtml

Guilherme Casarões SÃO PAULO

Desde o início do mandato de Jair Bolsonaro, a política externa sob influência direta do guru intelectual Olavo de Carvalho foi um dos traços mais marcantes do novo governo.

O desejo manifesto de ruptura fez com que muitos buscassem adjetivos para caracterizá-la. Conservadora? Nacionalista? Antiglobalista? Subserviente?

Cada um desses adjetivos descreve aspectos importantes da atuação do Brasil no mundo, mas acredito que a palavra que melhor descreve o estado atual da política externa do país é populista.

A total submissão das diretrizes diplomáticas ao projeto pessoal (ou familiar) de poder de Jair Bolsonaro, marcado pelo reacionarismo ideológico e pela truculência política, é algo inédito no Brasil, mesmo nos períodos autoritários, e desconhecido entre democracias consolidadas.

O chanceler Ernesto Araújo, à esq., e o presidente Jair Bolsonaro durante reunião do G20, por teleconferência, em Brasília
O chanceler Ernesto Araújo, à esq., e o presidente Jair Bolsonaro durante reunião do G20, por teleconferência, em Brasília – Marcos Correa – 26.mar.20/Presidência da República via AFP

Ao tentar indicar seu filho Eduardo, de parcas credenciais, para chefiar a embaixada brasileira em Washington, Bolsonaro deixou claro que se vê como um monarca absolutista, legitimado pelo povo e inspirado pela graça divina.

Esse comportamento subverte a própria lógica do interesse nacional sob a qual operam chancelarias ao redor do globo. À esquerda ou à direita, a ideologia serve como filtro das estratégias para projetar o país no mundo, mas não deve ser tratada como um fim nela mesma.

E nem todo líder populista faz da diplomacia a extensão de seu jogo político interno. A atuação internacional de Getúlio Vargas, até durante o Estado Novo, ficou conhecida por seu pragmatismo na relação com Berlim e Washington.

Mesmo Donald Trump, um dos símbolos do moderno populismo conservador, não radicalizou sua política externa, encontrando certo equilíbrio entre bravatas esporádicas e concessões amplas, como se viu nas relações com a Coreia do Norte.

Não é o caso da diplomacia bolsonarista, cujo traço de populismo revela uma construção ampla, que condena objetivos, princípios e estratégias de relações internacionais à dinâmica própria do personalismo do líder populista.

Este é Ernesto Araújo

Ernesto Araújo é considerado um dos principais líderes da ala ideológica do governo Bolsonaro

Ernesto Araújo é considerado um dos principais líderes da ala ideológica do governo Bolsonaro Ricardo Moraes – 2.jan.2019/Reuters

Ela se baseia em três pilares: propostas de soluções simples para problemas complexos, mobilização direta das massas e aposta na construção de inimigos externos.

Para tanto, dispensa os mediadores institucionais, como o Itamaraty e a diplomacia profissional, além de abusar da comunicação direta, sobretudo via redes sociais.

O simplismo da visão de mundo bolsonarista se revelou desde a campanha. Povos de bem, em defesa da liberdade, da família e da fé, travam uma batalha permanente contra o socialismo e o globalismo.

A solução é igualmente rudimentar: para o governo, o Brasil só reconquistará sua credibilidade se o governo hostilizar Venezuela, China e Irã e abraçar Israel, Hungria e, quem diria, o absolutismo teocrático da Arábia Saudita.

A ideia é rezar pela cartilha trumpista, sem filtros, ressalvas ou concessões, numa adaptação da folclórica frase do ex-chanceler Juracy Magalhães: o que é bom para Donald Trump é bom para Jair Bolsonaro (e, portanto, para o Brasil).

O recurso às massas se traduz na utópica ideia, repetida diversas vezes pela cúpula bolsonarista, de que a política externa deve refletir os valores profundos do povo brasileiro.

Rejeita, portanto, interlocuções com sociedade civil, lideranças políticas progressistas ou organismos multilaterais, acusando-os de serem parte de uma suposta elite globalista que apregoa o marxismo cultural.

Essa apropriação de um povo imaginário, que se confunde com a militância bolsonarista das ruas e das redes, é importante para manter a base mobilizada.

Para atingir o “povo”, a política externa populista precisa de inimigos, que sempre devem ser descobertos, denunciados e combatidos. Ela se nutre, portanto, de espantalhos externos e teorias conspiratórias.

No começo, os alvos eram os socialistas: Nicolás Maduro, Venezuela e o Foro de São Paulo. Aos poucos, o leque de inimigos foi se ampliando para os considerados globalistas: o presidente francês, Emmanuel Macron, a ONG ambiental Greenpeace e a ativista pela mudança climática Greta Thunberg.

A paranoia bolsonarista que inunda o WhatsApp não poupou nem o papa Francisco, acusado de ser agente do bolivarismo.

Como voz institucional do Itamaraty, Ernesto Araújo costuma ser discreto ao revelar seu apetite conspiracionista, deixando suas elucubrações quixotescas para palestras longas ou ensaios em seu blog pessoal.

O chanceler reserva as tiradas mais agressivas a seus colegas, como os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Abraham Weintraub, da Educação, além do assessor Filipe Martins, bem como alguns deputados e influencers da tropa de choque bolsonarista.

Todos que bebem da fonte de Olavo de Carvalho são versados nas táticas de guerrilha informacional do ideólogo e estrategista da alt-right americana, Steve Bannon.

O principal método de ação da política externa populista é disparar fake news contra desafetos internacionais do governo, como no episódio do vazamento de óleo na costa nordestina, que seria parte de uma trama venezuelo-ambientalista.

A ideia, claro, é criar a sensação permanente de que há um complô global contra o presidente, acossado pelo sistema.

Por isso, os bolsonaristas sabotam qualquer movimento mais pragmático no campo político ou comercial, vindo do agronegócio, dos militares ou da equipe econômica. Normalizar com o “sistema” é sinal de fraqueza.

Essa lógica binária e belicosa, inspirada na obra do jurista nazista Carl Schmitt, é um dos pilares da chamada “metapolítica” da extrema direita, que atribui grande importância à guerra cultural, que antecede a disputa política, e opera tanto no campo das ações quanto das narrativas.

A pandemia de Covid-19 escancarou o lado populista da política externa brasileira.

Mimetizando Trump, a insistência na hidroxicloroquina como o remédio milagroso é a típica solução simples para um problema complexo, assim como o slogan, posteriormente negado pelo próprio governo, de que o Brasil não poderia parar.

O apelo direto às massas se manifesta tanto na retórica bolsonarista de “salvar empregos” quanto na deturpação sorrateira das diretrizes do G20 ou da Organização Mundial da Saúde para legitimar as posições aberrantes do presidente no combate à pandemia.

Por fim, a cantilena do nós contra eles agora busca demonizar a China como fabricante de um vírus para destruir o Ocidente. Nascida na ultradireita americana, a expressão “vírus chinês”, de contornos racistas, caiu nas graças do bolsonarismo e estimula delírios conspiratórios de funcionários do governo.

O próprio Ernesto, em texto publicado em seu blog, sugere que o coronavírus e o movimento “sanitariamente correto” que dele emana fazem parte de um plano totalitário para implementar o comunismo em escala global.

Não restam dúvidas de que esse empreendimento populista tem pés de barro. Ao equiparar presidente e Estado, submetendo os interesses estratégicos do país às veleidades e às idiossincrasias da família Bolsonaro e de seus assessores próximos, a política externa populista causa danos irreparáveis à imagem do país.

Não bastassem os males da negligência ambiental na Amazônia, a insistência do presidente em minimizar a pandemia já o tornou uma espécie de pária sanitário, que só se compara aos excêntricos governantes de Nicarágua, Belarus e Turcomenistão.

Ao hostilizar parceiros estratégicos, como chineses, franceses e argentinos, joga por terra os esforços de recuperação econômica pela via do comércio internacional e destrói qualquer possibilidade de liderança brasileira nos temas multilaterais.

Pior ainda: caso o resultado das eleições americanas não seja o que os conselheiros palacianos desejam, o Brasil será jogado no abismo da irrelevância mundial.

Se tivermos sorte, por pouco tempo.

Guilherme Casarões, 37, é cientista político e professor da FGV-EAESP. Foi pesquisador visitante da Universidade de Michigan

O que aconteceria no caso de uma conflagração nuclear em meio à pandemia?

O que aconteceria no caso de uma conflagração nuclear em meio à pandemia?

Ameaça de uma guerra pode ser vencida por meio de bom-senso e solidariedade entre as nações

LEIA DIRETO NO ORIGINAL: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/o-que-aconteceria-no-caso-de-uma-conflagracao-nuclear-em-meio-a-pandemia.shtml

Sérgio Duarte

A pandemia do novo coronavírus é a principal preocupação atual da humanidade inteira. Os governos se esforçam para atender adequadamente à emergência sanitária e social causada pela disseminação do vírus. Muitos meses poderão passar até que a situação seja normalizada.

Que tem isso a ver com as armas nucleares?

No atual clima de temor, incerteza e desamparo decorrente da pandemia, é impossível deixar de pensar no que sucederia no caso de uma calamidade ainda maior, tal como uma conflagração nuclear, mesmo de proporções limitadas.

O poderio destruidor dos arsenais existentes aumenta sem cessar e seus possuidores se declaram dispostos a utilizá-los da forma que estimem necessária.

Suas doutrinas de segurança na verdade trazem insegurança para toda a humanidade. Os sistemas de comando e controle não estão imunes a vírus cibernéticos e acidentes nem tampouco aos caprichos e instabilidade emocional de governantes.

Cerimônia marca 70 anos dos ataques a Hiroshima e Nagasaki, em 2015

Prédio que atualmente abriga o Memorial da Paz de Hiroshima é visto perto da ponte de Aioi Bridge logo após explosão da bomba

Prédio que atualmente abriga o Memorial da Paz de Hiroshima é visto perto da ponte de Aioi Bridge logo após explosão da bomba Toshio Kawamoto – 6.ago.1945

Com as armas atuais, cidades inteiras seriam instantaneamente incineradas. Centenas de milhões de pessoas pereceriam imediatamente nos dias e semanas seguintes, devido à radiação e a outros efeitos danosos.

As consequências, porém, não se resumiriam à catastrófica perda de vidas, edificações e outras estruturas vitais.

Há 75 anos, Hiroshima e Nagasaki foram obliteradas, cada qual por uma única bomba atômica de pequeno porte.

Hoje, a detonação de apenas uma fração das 15 mil armas nucleares existentes em todo o mundo lançaria milhões de toneladas de fumaça e detritos na estratosfera, criando um “inverno nuclear” que bloquearia a luz do sol durante anos e inviabilizaria a produção de alimentos, condenando os sobreviventes à inanição.

Três importantes conferências internacionais, em 2013 e 2014, concluíram que independentemente da causa, o impacto de detonações nucleares não se limitará às fronteiras nacionais e trará danos profundos, duradouros e potencialmente irreversíveis ao meio-ambiente, saúde, desenvolvimento socioeconômico e à ordem social, a ponto de ameaçar a sobrevivência da espécie humana.

Nenhum país, grupo de países ou organização internacional teria recursos suficientes para tratar adequadamente da emergência humanitária imediata decorrente de uma detonação atômica em região habitada.

Enquanto existirem armas nucleares, o perigo de sua utilização também existirá. A única garantia contra seu uso é a completa eliminação.

A humanidade não pode permanecer alheia ao perigo de sua própria extinção.

Talvez não possamos erradicar todos os vírus; o desarmamento nuclear, porém, é não apenas possível, mas uma obrigação juridicamente vinculante estabelecida no Artigo 6o do Tratado sobre a Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), de 1970.

Após meio século, está mais do que na hora de cumprir a promessa de livrar o mundo das armas nucleares.

Paraisópolis tenta proteger mais vulneráveis contra coronavírus e miséria

Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem  no campo de futebol da favela para receber doação de sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores

Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem no campo de futebol da favela para receber doação de sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores Eduardo Knapp/Folhapress

Assim como a Covid-19, a ameaça de uma guerra nuclear pode ser vencida por meio da colaboração, bom-senso e solidariedade entre os povos e as nações.

Decididos a enfrentar esse perigo, 122 países concluíram em 2017 um tratado de proibição das armas nucleares, que complementa e reforça o TNP —81 países já o assinaram e 36 já o ratificaram.

Para que esse instrumento de direito internacional entre em vigor, são necessárias mais 14 ratificações.

O Brasil foi o primeiro a assiná-lo, mas o Congresso Nacional ainda não o aprovou, com vistas à ratificação. O atual momento, que nos induz a refletir com seriedade sobre os riscos e ameaças à humanidade, torna ainda mais urgente essa importante decisão.

Sérgio Duarte é embaixador e presidente das Conferências ​Pugwash sobre Ciência e Assuntos Mundiais. Foi Alto Representante das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento.

FOLHA DE SÃO PAULO

sua assinatura pode valer ainda mais

Você já conhece as vantagens de ser assinante da Folha? Além de ter acesso a reportagens e colunas, você conta com newsletters exclusivas (conheça aqui).

12 disputas de fronteira na América Latina

João Paulo Charleaux 06 de jun de 2016 (atualizado 02/05/2018 às 15h46)

LEIA NO ORIGINAL – NEXO https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/06/12-disputas-de-fronteira-na-Am%C3%A9rica-Latina

Região é a que mais recorre à Corte de Haia para resolver problemas de demarcação entre países. Tensões são mais retóricas e jurídicas do que militares

Não existe hoje nenhuma guerra entre países na América Latina. Mas isso não significa que não haja disputas. Pelo menos 12 divergências fronteiriças se desenrolam atualmente na região, envolvendo 15 países latino-americanos.

“Essa é a região que mais recorre à Corte de Haia para resolver divergências dessa natureza”, disse ao Nexo Alberto Van Kleverer, responsável pela defesa da posição do Chile numa disputa que se arrasta há 111 anos com a Bolívia. “Pelo menos os países daqui não têm recorrido à força”, pondera o jurista. A Corte de Haia à qual Van Kleverer se refere fica na Holanda e serve para resolver impasses entre Estados.

Última guerra foi em 1995

Fantasiados de Bernardo O'Higgins e Miguel Grau, homens vão à praça central de Lima assistir decisão de corte internacional sobre conflito fronteirício dos dois países
 VESTIDOS DE HERÓIS DA GUERRA DO PACÍFICO, HOMENS ACOMPANHAM JULGAMENTO EM HAIA

O último conflito armado internacional na América Latina ocorreu nos meses de janeiro e fevereiro de 1995, entre Peru e Equador, justamente por uma divergência de fronteira, num trecho conhecido como Cordilheira do Condor.

Na época, o Exército equatoriano começou a instalar postos avançados além da linha que os peruanos consideravam como limite de fronteira. As provocações escalaram rapidamente levando a um enfrentamento bélico, com uso de artilharia e bombardeios aéreos. O número de mortos e feridos é um mistério. As cifras oficiais variam de 30 a 350, com os dois governos evitando assumir as próprias baixas.

De lá para cá, outros casos chegaram a mobilizar tropas, mas entreveros de fato não ocorreram. O Nexo listou 12 situações em diferentes níveis de tensão e de indefinição entre países latino-americanos. Nenhuma dessas situações envolvem o Brasil, país que é o maior da região e o que mais comparte fronteiras com países vizinhos.

Colômbia x Venezuela

Os dois países disputam um golfo no Caribe, importante pelas reservas de petróleo que contém. A Colômbia diz que o limite deveria ser determinado pelas ilhas Los Monjes, que projetam as posses colombianas para além do continente. Já a Venezuela, defende que marcos no continente deveriam ser usados como referência, o que aumenta a posse venezuelana.

A disputa ganhou novo capítulo em 2015, depois que a Venezuela expulsou cidadãos colombianos que viviam em seu território, em retaliação a um enfrentamento entre contrabandistas e forças de segurança na fronteira. Na mesma época, a Colômbia disse que caças de combate da Venezuela violaram seu espaço aéreo, reavivando a animosidade latente.

Chile  x Bolívia

Os bolivianos reivindicam soberania sobre uma faixa costeira de 400 km contínuos, o que equivale à distância entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. O Chile anexou o território durante a Guerra do Pacífico, em 1879, e desde então mantém a Bolívia sem acesso soberano ao mar – situação comparável na América do Sul apenas à do Paraguai, que também não possui litoral.

A disputa dura 111 anos e ocupa o topo da agenda de política externa e de defesa dos dois países, que há 37 anos cortaram as relações diplomáticas. O caso foi levado em abril de 2013 pelo presidente boliviano Evo Morales à Corte Internacional de Haia.

Chile x Peru

Assim como a Bolívia, o Peru também perdeu território para o Chile na Guerra do Pacífico. Nesse caso, a divergência está no mar, não em terra. Peruanos e chilenos divergem sobre como traçar a linha imaginária que determina o que é de um país e o que é de outro.

Para o Peru, a linha deve avançar sobre o Pacífico seguindo como um prolongamento da linha em terra, na mesma inclinação, na direção sudoeste, o que tiraria parte do mar chileno. Para o Chile, esse prolongamento deve ser horizontal, paralelo às linhas longitudinais do globo.

Em 2014, a Corte de Haia decidiu que a linha segue como pedem os peruanos até a metade. E, daí em diante, continua como pediam os chilenos. A decisão não pôs fim ao impasse, que se mantém agora em relação a alguns marcos terrestres de apenas centenas de metros.

Na quinta-feira (2), a Justiça militar do Peru condenou um militar a 35 anos de prisão “traição à pátria”, ao passar informações de inteligência ao Chile, envolvendo a disputa territorial.

Chile x Argentina

A fronteira austral entre estes dois países é determinada em vários pontos por marcos naturais mutáveis, o que leva a divergências esporádicas. O acordo que perdura até hoje determinou que, a partir da crista da Cordilheira dos Andes, são os rios que determinam a linha fronteiriça – olhando para o norte, sabe-se que é território argentino toda vez que as águas descem na direção leste (direita), e é território chileno quando elas correm na direção oeste (esquerda).

Antes desse acordo, manobras militares e provocações nacionalistas quase levaram os dois países a uma guerra aberta em 1978. A divergência era latente desde 1888, mas só eclodiu quando os dois governos estavam sob controle dos ditadores Augusto Pinochet, no Chile, e Leopoldo Galtieri, na Argentina. Tropas dos dois países chegaram a cruzar fronteiras e aviões de combate faziam rasantes sobre navios de guerra na época. A escalada só teve um fim depois de uma intervenção direta do papa João Paulo II como mediador. De todas, talvez seja a disputa mais adormecida, mas não está completamente resolvida.

Inglaterra x Argentina

Os argentinos reivindicam até hoje a posse do arquipélago formado pelas ilhas Malvinas, Geórgia do Sul e Sandwich do Sul. A disputa levou a uma guerra contra a Inglaterra em 1982, com vitória britânica. Ao todo, morreram 649 militares argentinos, 255 britânicos e 3 civis em dois meses e meio de intensos combates navais e aéreos a poucos quilômetros da Antártida.

A controvérsia, no entanto, persiste até hoje. A Argentina mantém o tema no topo de sua agenda diplomática – prova disso é a palavra “Malvinas” estampada como primeiro item do menu do site do seu Ministério das Relações Exteriores. Ainda hoje, em jogos de futebol entre os dois países, é comum ver faixas com dizeres sobre a guerra e a posse do arquipélago chamado de Malvinas pelos argentinos, e de Falklands pelos ingleses.

Cuba x EUA

O presidente cubano, Raúl Castro, cobrou a desocupação do “território ocupado ilegalmente na base naval de Guantánamo”, em seu primeiro discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, em 29 de setembro de 2015.

Guantánamo passou a ser posse americana em 1898 e hoje é usada como campo de detenção para prisioneiros da “guerra ao terror”, iniciada em 2001 pelo então presidente George W. Bush, após os atentados do grupo terrorista Al-Qaeda contra as Torres Gêmeas, em Nova York.

Como a desativação da base foi uma das maiores promessas de campanha não cumpridas pelo atual presidente dos EUA, Barack Obama, são remotas as chances de que um diálogo sobre esse assunto venha a prosperar por enquanto.

Nicarágua x Colômbia

A Colômbia usa um tratado de 1928 para reivindicar a posse de um conjunto de ilhas, mas a Nicarágua rechaça a validade do documento, que foi firmado quando o país se encontrava sob ocupação americana.

Em 2007, a Corte de Haia decidiu em favor da Colômbia com relação à posse das ilhas, mas deixou pendente o traçado do limite entre os dois países pelo mar. Para os nicaraguenses, a linha está mal desenhada, pois – assim como alega o Chile no impasse com o Peru – deveria ser traçada num paralelo com as linhas longitudinais do globo.

Venezuela x Guiana

Três quartos do território da Guiana são reivindicadas pela Venezuela. A posse da área de 159 mil km2, chamada Essequibo, é regulada desde 1899 por um pacto firmado entre a Venezuela e o Reino Unido, a quem a Guiana pertenceu até 1966, mas Caracas não reconhece o documento. Se a Venezuela obtiver uma decisão favorável numa instância de arbítrio entre Estados, como a Corte de Haia, tomará para si 75% da Guiana, que já é o terceiro menor país da América do Sul, na frente apenas do Suriname do Uruguai.

No fim de setembro de 2015, o Ministério da Defesa da Venezuela despachou tropas para a fronteira entre os dois países, no que classificou como “exercício de deslocamento operacional”. O governo da Guiana respondeu, dizendo que o vizinho toma “um caminho perigoso em vez de buscar uma solução pacífica”.

Guiana x Suriname

A Guiana é, de longe, o país mais ameaçado quando se trata de demandas territoriais. Além de ter de lidar com a reivindicação da Venezuela sobre três quatros do seu território, os guianeses tentam conter ainda o assédio do Suriname, que pede para si o equivalente a 7% do país vizinho.

A disputa entre guianenses e surinameses envolve uma região de selva chamada Tigri, que também faz fronteira com o Brasil. Embora as rusgas tenham se iniciado no século 19, o clima esquentou de verdade em 1969 entre Guiana e Suriname.

Guatemala x Belize

Os dois vizinhos centro-americanos divergem sobre a posse de dezenas de ilhas e de uma área de mais de 11 mil km2, o que equivale a metade do Estado de Sergipe ou o dobro da Paraíba. A disputa teve início em 1859 na partilha de territórios que foram colônia da Inglaterra e da Espanha.

El Salvador x Honduras x Nicarágua

Os três disputam a fixação de limites fronteiriços no Golfo de Fonseca. O países são pequenos, mas fizeram barulho. O caso foi parar no Conselho de Segurança das Nações Unidas, na Corte de Haia e na OEA (Organização dos Estados Americanos), com sede em Washington.

A Marinha nicaraguense chegou a atacar pesqueiros hondurenhos que estavam supostamente navegando em sua costa. O governo de Honduras reagiu ameaçando usar aviões de combate contra Nicarágua e El Salvador.

Antártida: vários países

Quem viaja ao Chile vê todos os dias, em todos os canais de TV, a previsão do tempo para o “Território Antártico Chileno”, que aparece na tela como um corte em “V” sobre um mapa branco, de gelo. Já Buenos Aires determina que crimes cometidos na parte da Antártica que diz lhe pertencer devem ser julgados na cidade argentina de Ushuaia.

Os procedimentos demonstram como o “território internacional” da Antártida é disputado diariamente por vários países. Alguns desses desenhos fronteiriços na Antártida se sobrepõem, envolvendo mais de dois países.

O Tratado Antártico, que entrou em vigor em 1961, defende o uso da região exclusivamente para fins pacíficos, mas não resolve “reivindicações de soberania” prévias à sua adoção, nem tampouco aceita novas demandas de posse sobre territórios.

O problema é que ele deixa congeladas as divergências acumuladas ao longo de décadas de expedições pioneiras europeias, que clamavam para si a posse de pedaços do polo sul.

Gasto militar global tem o maior aumento da década em 2019

Estudo mostra como EUA e China puxam despesas de defesa; Brasil se mantém estável no ranking

Igor Gielow SÃO PAULO

Leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/gasto-militar-tem-maior-aumento-da-decada-no-mundo.shtml

O mundo teve o maior salto no seu gasto militar em uma década em 2019, devido ao aumento da despesa com defesa dos Estados Unidos de Donald Trump e da China de Xi Jinping.

O dado foi aferido pelo IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, na sigla em inglês), baseado em Londres e referência no assunto no mundo, em sua publicação anual “O Balanço Militar”.

No ano passado, o crescimento real de gastos com defesa subiu 4% em relação a 2018, em comparação ajustada ao dólar constante de 2015. É o dobro do salto registrado de 2017 para 2018, de 1,8%.

Soldados dos EUA participam de treinamento em Fort Campbell, Kentucky – Bryan Woolston – 13.fev.2020/Reuters

Ao todo, o mundo gastou US$ 1,73 trilhão com o setor militar em 2019. Os EUA são a potência incontestável, com US$ 684,6 bilhões aplicados em defesa, ou 39% do valor global.

É uma tendência vista desde que Trump assumiu, em 2017, apesar de seu discurso de que retiraria os EUA do que chama de “guerras inúteis” pelo mundo. Em 2019, o aumento do gasto foi de 6,6% sobre o ano anterior.

O “Balanço Militar” detalha os novos investimentos americanos em programas de armas e segurança cibernética, além de mostrar o incomparável inventário bélico do país, na área convencional estrelado pelos seus 11 grupos de porta-aviões.

A gastança americana,  que em quase 15 dias consome tudo o que o Brasil gasta com defesa no ano, espelha a competição global com a potência emergente do século 21, a China.

O país asiático elevou seus gastos também em 6,6% em relação a 2018, mas nominalmente os EUA ainda têm um orçamento quase quatro vezes maior que o dos chineses, que totalizaram US$ 181,1 bilhões em 2019.

A diferença do aplicado pelos países cresceu de US$ 425 bilhões para US$ 452 bilhões, também pelo fato que o ritmo da despesa chinesa arrefeceu levemente, assim como sua economia.

Outro indicador importante é o que o IISS classifica de investimento: compra de equipamento, desenvolvimento e pesquisa. Aqui, os EUA gastam mais nominalmente do que todo o orçamento chinês, US$ 201 bilhões —o que dá 29% de seu gasto total, comparado com 41% no caso de Pequim.

Os dois países estão muito à frente da competição, mas isso em termos brutos. A Rússia de Vladimir Putin é a quarta no ranking de gastos, mantidos estáveis em 2019, com US$ 61,6 bilhões em defesa.1 20

Desfile militar na China, em outubro

O líder chinês Xi Jinping desfila em carro aberto

Mas o dado escamoteia o óbvio: os russos têm um arsenal de mísseis com ogivas nucleares equiparável ao dos EUA, o que lhes dá uma capacidade dissuasória única por herança da Guerra Fria, quando a União Soviética disputava a primazia militar e política do mundo com Washington.

Assim como os chineses, os russos gastam proporcionalmente mais que os americanos em investimentos, 35% de seu total. Em comparação, o Brasil investe menos de 10% de seu orçamento militar em aquisições e  pesquisa.

EUA e Rússia têm cerca de 1.700 ogivas prontas para uso, e o IISS alerta para os riscos que a dissolução do sistema internacional de controle de armas traz.

No ano passado, Trump deixou um acordo de 1987 que eliminava mísseis de alcance intermediário da Europa com os russos, e em 2021 o principal acerto para limitação nuclear em vigor expira.

A China tem cerca de 300 ogivas, empatando com a França, e analistas se perguntam se Xi irá aumentar o seu inventário.

Tanto Moscou quanto Pequim têm seus avanços nas áreas de mísseis hipersônicos e antinavio dissecados.

Em ambos os casos, os russos estão na frente, e os dois rivais dos EUA suplantam Washington, estimulando novos gastos. Assim, Trump já autorizou um valor de US$ 737 bilhões para 2020, voltando aos níveis nominais corrigidos da chamada guerra ao terror —quando os EUA levaram seu orçamento militar, que era de US$ 294 bilhões em 2000, para a casa dos US$ 700 bilhões com os conflitos no Afeganistão e no Iraque.

O comportamento, por óbvio, tem impacto no resultado total. A década de 2010 começou com uma queda de gastos após o anúncio do fim dos combates americanos no Iraque em 2011, até 2014, quando houve um salto de 2,7% no resultado de 2015 como reação à anexação russa da Crimeia.

O ritmo seguiu mais estável em 2016 e 2017 (1% e 0,7% de aumento, respectivamente, e voltou a subir a partir do resultado de 2018 com o efeito Trump.

O gasto militar global é um poço de desigualdades. A fatia americana equivale quase ao total dos próximos 14 países do ranking (US$ 748,8 bilhões). O resto todo do mundo, cerca de 175 países, gasta US$ 298 bilhões.

O ímpeto militarista de Washington teve outros efeitos. A pressão que Trump faz desde que assumiu para que a Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA, gaste mais na área fez efeito.

A Europa aumentou em 4,2% seu gasto de 2018 para 2019, subindo a taxa de investimento em equipamento e pesquisa de 19,8% para 23,1%.

O principal alvo de Trump, a gigante econômica Alemanha, viu seu gasto militar se elevar enormes 9,7% no período. Isso puxou o aumento regional, que após uma queda contínua a partir da crise mundial de 2009 até 2014, agora recuperou os níveis anteriores.

Só que a Alemanha aplica 1,26% de seu PIB em defesa, ainda distante dos 2% que a Otan pede a seus 29 Estados-membros, algo que só sete deles conseguem fazer, a maioria ex-países comunistas que temem ações da Rússia nas suas fronteiras. Trump seguirá no pé de Angela Merkel no quesito.

Essa métrica da porcentagem do PIB é útil para quantificar o que se depreende do noticiário. O Oriente Médio segue sendo a região do mundo que mais gasta com defesa, segundo essa proporção.

O pequeno sultanato do Omã é o líder do ranking, com 11,7% de seu PIB aplicado em defesa —equivalentes a US$ 2.700 per capita anuais.

A Arábia Saudita, que ostenta um vistoso terceiro lugar no ranking geral de gastos, é também a terceira no quesito: 10,1% do PIB. O Iraque vem a seguir, com 8,1%, enquanto Israel despende 5,8% e o Irã, 3,8%.

Entre os peixes grandes, Moscou aplica 3,7% do PIB, Washington, 3,19%, e Pequim, 1,28%. Mas aqui os números têm de ser relativizados ante o tamanho das economias.

O Brasil manteve seu 11º lugar no ranking de gastos, com US$ 27,5 bilhões na conta do IISS (que é um pouco diferente da do Ministério da Defesa). Só que aqui 80% do dispêndio vai para pessoal, incluindo aposentadorias e pensões, e a fração de investimento é baixa.

Ainda assim, são ressaltados pelo instituto avanços como a entrega do primeiro cargueiro C-390 da Embraer, do primeiro submarino franco-brasileiro e o voo inaugural do novo caça do país, o sueco Gripen.

E nem são analisados dados como o fato de que o governo Jair Bolsonaro preservou gastos militares de cortes e sancionou uma capitalização bilionária para a Marinha comprar novos navios.

Hamilton Mourão: Vice-presidente, é general da reserva do Exército

De todo modo, o país continua, segundo o IISS, como o principal ator militar da América Latina e do Caribe. Aplica 1,48% de seu PIB, na conta do instituto, em defesa, enquanto a média regional é 1,16%.

Soma 45,8% dos gastos militares da região, seguido pela Colômbia, com 17,4%. E tem o maior contingente de tropas: 367 mil, num universo de 1,52 milhão de militares —o mundo todo tem 19,85 milhões de pessoas em uniforme.

Foco de preocupação do governo brasileiro, a Venezuela é descrita como decadente em todos os aspectos militares possíveis devido à contínua crise econômica e política da ditadura de Nicolás Maduro.

Enquanto o apoio russo para manter funcionais caças Su-30 e sistemas antiaéreos S-300, os mais avançados da região, foi mantido em 2019, o IISS não crê que eles estejam 100% operacionais.

O país tinha 55 caças e aviões de ataque em 2009, ante 40 agora. O Brasil, nesta década, caiu de 316 para 97 aeronaves do tipo.

O fenômeno se repete pela região, com o envelhecimento de frotas e a gradual substituição por aparelhos que desempenham funções antes específicas de vários modelos diferentes.

Os 36 Gripen comprados da Suécia pelo Brasil farão o trabalho hoje do F-5 e do AMX, além das tarefas antes dadas aos Mirage.

O plano de paz para o Oriente Médio apresentado por Donald Trump é viável? Sim/Não

O plano de paz para o Oriente Médio apresentado por Donald Trump é viável? NÃO

Não passa de ‘ajuda’ econômica em troca de soberania mutilada

Arturo Hartmann

Donald Trump não quer mudar radicalmente a realidade nos territórios palestinos com o plano articulado por seu representante (e genro) Jared Kushner. Afinal, as sugestões para temas centrais do embate, como a eliminação do controle palestino sobre Jerusalém Oriental, a anexação do vale do Jordão a Israel e o impedimento do retorno de palestinos no refúgio a seus lugares de origem já têm sido implementadas por Israel à revelia da lei internacional. As duas primeiras, desde a ocupação de Cisjordânia e Gaza, em 1967. A última, desde 1948, como parte dos processos que levaram à criação do Estado judeu em parte da Palestina. 

A oferta de Trump é, na verdade, um pacote de “ajuda” econômica de cerca de US$ 27 bilhões, montante a ser coletado com investidores e doadores internacionais, em troca do aceite de uma soberania mutilada —a “visão realista” como recompensa ao consentimento à violência da conquista israelense. 

Arturo Hartmann - Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e ex-pesquisador visitante no Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Exeter (Reino Unido)
Estudioso do conflito Israel-Palestina, Arturo Hartmann é ex-pesquisador visitante no Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Exeter (Reino Unido) – Divulgação

Jerusalém teria suas fronteiras definidas pelo muro levantado desde 2002 sob a alegação israelense de “razões de segurança”, mas que empurra a “Jerusalém palestina” aos subúrbios de Kfar’ Akab, ao norte, e Abu Dis, a leste. A sugestão Trump-Kushner vindica aqueles que viam na barreira um instrumento de anexação do território

O plano também premia Israel com a soberania sobre o vale do Jordão, extensão de terras agrícolas que suas forças de ocupação já controlam. O Banco Mundial apontava em 2016 que “restrições de movimento e acesso” a essa região custavam ao PIB palestino cerca de US$ 3,5 bilhões por ano. 

Como plano de paz, portanto, a proposta inviabiliza-se por princípio ao tentar extrair a aquiescência dos nativos para que nada mude na expropriação de terras e controle de população. Mesmo a liderança palestina, sujeita aos termos de Oslo, recusou as sugestões. Já pedir aos palestinos que renunciem a direitos e conexão com a terra que sustenta sua coesão social parece ambicioso demais. 

O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca – Saul Loeb – 27.jan.20/AFP

O que Trump quis de fato modificar envolve o xadrez regional para avançar sobre o Irã, que se fortalece com a normalização das relações de Israel com governos árabes. Para isso, o fato político palestino precisa ser removido. Kushner formulou então a seção 21, pela qual, definido o fim do conflito, acabariam também “todas as reivindicações entre as partes”, tudo a ser lavrado em novas resoluções da ONU. 

Sob esse novo “contrato”, autoridades palestinas não poderiam processar Israel, EUA ou qualquer um de seus cidadãos em cortes internacionais. Conclusões da ONU, como as vistas no relatório de 2009 sobre o conflito em Gaza, de que políticas israelenses resultam em violações da lei internacional, ou as informações do Banco de Dados de Empresas nos Assentamentos, lançado nesta semana, deixam de ser constrangimentos para o governo israelense. 

Resta saber se governos envolvidos na sustentação de Oslo, nomeadamente europeus, compartilham sobre a necessidade de destruir o horizonte político palestino e o conjunto de direitos associado a ele. A alguns governos árabes, como o saudita, de quem o plano depende financeiramente, e egípcio, politicamente, cabe pesar se sepultar o Estado palestino não lhes causam problemas em casa no caso de parte de suas populações não serem convencidas da ideia de entregar um passe livre a Israel. Trump precisa, também, que um conjunto de governos autoritários, simpáticos à produção de violência israelense, permaneça de pé. A começar pelo dele. Arturo Hartmann

Doutorando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e ex-pesquisador visitante no Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos na Universidade de Exeter (Reino Unido)

O plano de paz para o Oriente Médio apresentado por Donald Trump é viável? SIM

Não é necessário amar Trump ou Bibi, basta amar a paz

André Lajst

Podemos afirmar que a política mundial está polarizada. Eleições populistas, discursos de ódio e radicalização de agendas se fazem presentes em muitos países ocidentais. É comum pessoas e discursos se guiarem por agendas herméticas, as quais não podem ter sequer um dos seus itens alterados.

Porém, é preciso enxergar a política como ferramenta, por meio da qual podemos resolver problemas, melhorar dificuldades sociais ou dar continuidade ao que está funcionando. Nem sempre tudo que uma agenda específica protege é ruim ou bom, não importa de qual ideia ou política seja proveniente.

O diretor da ONG StandWithUs Brasil, André Lajst – Mathilde Missioneiro – 17.jul.19/Folhapress

indignação, após os discursos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, depois do anúncio do plano de paz proposto pela Casa Branca, foi premeditada. Obviamente, aqueles que não gostam de Trump ou Bibi encontraram motivos para rejeitar a proposta de paz, mostrar que ela nunca iria funcionar e já tentar deslegitimá-la. 

Reparem no absurdo: pessoas, muitas das quais instruídas e bem-intencionadas, estão rejeitando o plano sem dar a chance para que ele possa funcionar. Um egoísmo para com palestinos e israelenses, que estão há décadas em conflitos e espirais de violência. O mínimo que podemos esperar dessa proposta é que ela venha servir de base para negociações, promover o diálogo e, quem sabe, tal como está escrita ou com mudanças feitas em comum acordo, funcione e traga paz para a região.

O plano é pragmático e seguro para ambos os lados, caso eles sentem e negociem os termos finais. Como afirmaram oficiais da Casa Branca, a proposta não é engessada e há muito espaço para negociações, mudanças e adaptações.

Desde 2014 não há qualquer iniciativa de paz liderada pelos EUA. Desde então, palestinos se negam a negociar diretamente, a não ser que Israel solte terroristas presos. Por sua vez, Israel adota a política de apenas negociar sem precondições. Deu-se o impasse.

O chamado “Acordo do Século” não é exatamente um acordo, mas, sim, uma proposta. É cedo para esperar apertos de mãos, como os que ficaram famosos, por exemplo, no acordos de paz entre Israel e Egito ou Israel e a Organização para Libertação da Palestina, de Arafat.

O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca – Saul Loeb – 27 .jan.20/AFP

Essas imagens, que ficaram para a posteridade, foram feitas no final de um processo, não no início. Nenhuma proposta ou iniciativa de paz na história das negociações entre palestinos e israelenses foi perfeita. Estamos, porém, diante de um começo: após anos, é a oportunidade de um governo americano próximo de Israel valer-se desse status para levar israelenses e palestinos à mesa de negociações, fazer com que Israel aceite um Estado palestino e que os palestinos aceitem um Estado judeu. 

A ausência da liderança palestina foi sentida durante a cerimônia de revelação do plano, em janeiro deste ano. O motivo: meses antes, o governo de Abbas havia esfriado relações com Washington após deixar de receber verbas do governo dos EUA destinadas a Ramallah —mas que, comprovadamente, eram usadas para pagamento de terroristas presos em Israel e suas famílias, numa soma que chega a US$ 400 milhões ao ano.

Liga Árabe rejeitou o plano de paz. Porém, países árabes, como Oman, Emirados Árabes, Marrocos e Egito, entre outros do Oriente Médio e de diversas regiões ao Ocidente e ao Oriente, manifestaram-se favoravelmente à proposta. A oferta está feita. Não é necessário amar Trump, Bibi ou Abbas para apoiar negociações com base no plano da Casa Branca. Basta amar a paz.André Lajst

Cientista político, mestre em diplomacia e governo pela IDC Herzliya (Israel) e diretor-executivo da ONG educacional StandWithUs Brasil

Sem palestinos, Trump faz palanque com plano de paz Israel-Palestina

Da forma como está sendo colocada, ideia só parece boa para presidente e Netanyahu

Igor Gielow SÃO PAULO

Leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/01/sem-palestinos-trump-faz-palanque-com-plano-de-paz-israel-palestina.shtml

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, irá anunciar nesta terça (28) o que chamou de o “acordo do século” para uma paz entre israelenses e palestinos.

O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca
O presidente Donald Trump e o premiê Binyamin Netanyahu concedem entrevista na Casa Branca – Saul Loeb/AFP

Em preparação, convidou dois líderes para conversar sobre detalhes da proposta à Casa Branca nesta segunda. “Ambos querem o acordo, eles querem ver a paz”, disse Trump a bordo do avião presidencial na quinta (23).

Detalhe: nenhum deles é palestino. Foram chamados o premiê direitista Binyamin Netanyahu e seu rival na eleição do dia 2 de março, o centrista Benny Gantz.

Essa distorção de saída ecoa tratados do século 20 acerca do Oriente Médio, quando potências ocidentais sentavam à mesa para redesenhar o mapa da região de forma arbitrária.

Foi o que ocorreu num dos principais deles, o acordo anglo-francês de Sykes-Picot de 1916, que retalhou o Império Otomano já antes de sua derrota, ao fim da Primeira Guerra Mundial.

Os americanos podem argumentar que os palestinos não quiseram nem ouvir sua proposta, o que é fato, já que desde 2017 os contatos diplomáticos entre Ramallah e Washington estão cortados.

Naquele ano, a gestão Trump anunciou a mudança da embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém, reconhecendo implicitamente que a cidade é a capital de Israel.

Como os palestinos a disputam, e há recomendação das Nações Unidas para que países aguardem o fim do conflito para definir tal mudança, houve o rompimento com os americanos.

Milhões de dólares de ajuda cessaram, tanto para ANP (Autoridade Nacional Palestina) quanto para a agência da ONU que coordena ajuda humanitária aos árabes.

“Eles [os líderes palestinos] provavelmente não vão querer [o acordo] inicialmente. Mas acho que no fim eles vão. É muito bom para eles”, disse Trump ao encontrar Bibi, como Netanyahu é conhecido.

O premiê teve recepção com direito a fotos e entrevista com o presidente, enquanto seu rival foi recebido a portas fechadas.

Os termos do acordo não são conhecidos integralmente, mas vazamentos ao longo dos três últimos anos trouxeram alguns deles, além de aspectos econômicos divulgados numa esvaziada conferência no Bahrein, em 2019.

O que se falou até aqui: os israelenses teriam soberania total sobre áreas de assentamentos na Cisjordânia, haveria algum tipo de Estado palestino na área e um fundo de US$ 50 bilhões seria criado para atrair investimentos para os árabes.

Aparentemente a Faixa de Gaza, outro território palestino que é governado pelo grupo Hamas, classificado de terrorista pelos americanos, não é contemplado no acerto.

Já o Estado na Cisjordânia, que teria um período de até quatro anos para ser estabelecido, ocuparia algo como 70% do território nominal atual.

Também seriam tratadas questões espinhosas, como o status de Jerusalém e a questão do direito de retorno de refugiados palestinos expulsos nos diversos embates da região.

Após o fim do mandato britânico sobre a Palestina, a recém-criada ONU determinou a partilha em dois Estados, um judeu e outro árabe.

Israel se formou em 1948, sendo atacado por vizinhos descontentes com os termos do acerto. Desde então, foram três grandes guerras e inúmeros conflitos regionais.

“Não é nada além de um plano para acabar com a causa palestina”, disse a agências de notícias o premiê da ANP, Mohammad Shtayyeh. Anteriormente, o presidente palestino, Mahmoud Abbas, havia dito que os EUA já não eram mais parceiros confiáveis.7 6

Veja imagens da segunda eleição geral do ano em Israel

Binyamin Netanyahu vota em Jerusalém
Benny Gantz, líder da coligação de centro-esquerda Azul e Branco, se prepara para votar
O premiê Netanyahu e sua mulher votam na segunda eleição geral do ano
Voto sendo colocado em urna em uma zona eleitoral de Tel Aviv
Beduínos do Negev cotam em Beersheva, sul de Israel
Judia ultra-ortodoxa carrega filha enquanto se prepara para votar em Tel Aviv

Judia ultra-ortodoxa carrega filha enquanto se prepara para votar em Tel Aviv Gil Cohen-Magen/AFP

Os EUA foram os patrocinadores de acordos relevantes entre Israel e seus vizinhos árabes, a partir do pioneiro Camp David, que tratou da paz entre o Estado judeu e o Egito em 1979.

Foram fiadores dos acordos que regem a relação entre os dois grupos, os de Oslo (1993 e 1995) são quase letra morta. Eles preconizavam uma negociação dessas questões levando em conta a ideia de dois Estados e duas capitais em Jerusalém.

Desde 2014 não há conversa direta entre palestinos e israelenses. Divisões se dão dentro dos dois lados: entre grupos pró-paz e pró-segurança em Israel, entre a Autoridade Nacional Palestina e o Hamas, que controla a Faixa de Gaza.

“Se você diz ‘dois Estados’, isso significa uma coisa para os israelenses e outra para os palestinos. Então não falamos assim”, disse em maio de 2019 o arquiteto do plano, o assessor presidencial Jared Kushner, genro de Trump.

Houve críticas vindas de outras áreas do Oriente Médio, particularmente do Irã, que quase viu uma crise evoluir para uma guerra contra os EUA neste ano.

“Em vez de um ilusório ‘acordo do século’, os ‘campeões da democracia’ fariam melhor em aceitar a proposta democrática do Irã. Um referendo para todos os palestinos”, postou no Twitter o chanceler iraniano, Mohammad Zarif.

Da forma como está colocado, o plano de paz de Trump parece mais uma peça de propaganda eleitoral para dois atores: o presidente e Bibi.

Ambos enfrentam eleições neste ano e problema internos, com o israelense indiciado criminalmente sob acusação de corrupção, e o americano, com o impeachment em julgamento no Senado.

Já Gantz, que até o começo do ano dizia que qualquer acordo só poderia ser trabalhado depois das eleições de março, ficou em uma situação delicada.

Ele não poderia rejeitar um convite de Trump, o presidente americano mais pró-Israel em décadas, sob risco de ver sua eventual gestão sofrendo retaliações.

 Ao fim do encontro com o americano, disse que quando Israel tiver um “governo estável”, será possível tentar implementar o plano.

Em casa, seu eleitorado de centro-esquerda gostaria de vê-lo rejeitar um eventual acordo nos termos que interessam a Bibi, mas isso arriscaria afastar elementos de centro e mesmo de centro-direita moderados que poderiam o apoiar.

Já Bibi só tem a ganhar. A direita mais radical já disse que não aceitará qualquer provisão de Estado palestino ou mudança no status de Jerusalém, apesar de aprovar a anexação de mais terra.

O premiê pode então dizer que aprova as ideias rejeitadas pelos seus aliados, sabendo de saída que Ramallah não vai topar o que for anunciado de qualquer forma. Logo, nada de Estado palestino.

Analistas políticos israelenses e pesquisas indicam, por outro lado, que nenhum dos lados deverá ter maioria clara —pela terceira eleição seguida em um ano.

Com isso, alguns especulam que o acordo poderia ser a base para uma coalizão entre Bibi e Gantz, embora isso soe algo improvável.

Auschwitz, 75

Zoar o campo é o esporte olímpico da alt-right

Leia no original: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/mathias-alencastro/2020/01/auschwitz-75.shtml

A cerimônia dos 75 anos da libertação de Auschwitz agendada para o dia 27 será especialmente importante: trata-se da última data simbólica que deve contar com a presença de sobreviventes do campo de exterminação. A celebração também acontece num momento sensível para a luta pela memória da história do Holocausto.

Campo de concentração de Auschwitz

Fotos dos prisioneiros do campo de concentração foram preservadas e passaram a fazer parte do acervo
Desenhos de crianças mostram a chegada dos prisioneiros em trens ao campo de concentração de Auschwitz
Piotr Cywinski é o diretor do museu Auschwitz-Birkenau, que preserva a história do campo de concentração nazista
A restauradora Ewelina Bisaga recupera uma das ilustrações do polonês Marian Kolodziej, sobrevivente do campo
Documentos do campo de concentração de Mauthausen são recuperados no laboratório do museu de Auschwitz
Prédios do campo de concentração nazista de Auschwitz abrigam agora algumas das alas do museu polonês
Pelo local, passaram 1,3 milhão de prisioneiros dos nazistas entre 1940 e 1945, dos quais 90% eram judeus
Flores são colocadas ao lado de uma das ruínas das câmaras de gás onde os prisioneiros dos nazistas eram mortos
Sapatos infantis que pertenciam a crianças que estavam entre os mortos do campo de concentração de Auschwitz

A “Lei do Holocausto” acabou sendo abandonada por pressão de Israel, Estados Unidos e União Europeia. Na vizinha Alemanha, o cada vez mais forte partido de extrema direita AfD urge os alemães a deixarem de assumir responsabilidade pelo Terceiro Reich. 

A contestação crescente da narrativa histórica levou Merkel a visitar Auschwitz no final do ano passado e a reforçar a posição institucional da Alemanha, falando em “profunda vergonha”.

Sabendo-se da obsessão da extrema direita com Auschwitz, as tensões devem atingir um novo pico na próxima semana. De fato, negar a veracidade do campo de exterminação onde a quase totalidade das cerca de 1 milhão de vítimas eram de origem judaica é a razão de ser da extrema direita desde a Segunda Guerra Mundial.  

O patriarca dos políticos negacionistas, Jean-Marie Le Pen, marcou a sua carreira política com uma citação sobre as câmaras de gás como sendo um “detalhe da história”. 

A ofensiva contra Auschwitz sofreu derrotas judiciais e historiográficos no começo do século. O historiador David Irving perdeu o processo de difamação contra a historiadora Deborah Lipstadt no Reino Unido e outro historiador negacionista, Robert Faurrisson, foi condenado inúmeras vezes na França. 

No entanto, ela ressurgiu com força com o advento da alt-right, o movimento informalmente comandado por Steve Bannon que tomou conta, ainda que parcialmente, do aparelho ideológico dos governos norte-
americanos e brasileiros.

Não é por acaso que o maior evento da alt-right global, que Donald Trump descreveu como um encontro de “muito boas pessoas”, tinha como principal slogan: “próxima paragem Charleston, destino final, Auschwitz”.

Oportuna para a alt-right, a performance sórdida de Roberto Alvim às vésperas de uma das mais importantes datas da história global coloca o Itamaraty numa posição impossível. Como representar um governo mundialmente conhecido por divulgar vídeos institucionais de imitadores de Goebbels? 

Um dilema profundamente insalubre para qualquer nação, mas ainda mais para o Brasil, terra de acolhimento de tantos sobreviventes do Holocausto.

Mathias Alencastro

Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).