Archive for the ‘Geopolítica’ Category

O que está por trás do isolamento do Catar?

leia no original:   https://www.cartacapital.com.br/internacional/o-que-esta-por-tras-do-isolamento-do-catar

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Paz na capital Doha sobreviverá à crise?

Por Diana Hodali

Foram Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Egito que suspenderam as relações com o Catar, mas foi o próprio presidente norte-americano, Donald Trump, a dar a direção da atual crise: em maio, em sua primeira visita ao exterior, ele fortaleceu a posição de poder saudita na região.

O Irã financia, arma e treina terroristas, mercenários e outros grupos extremistas“, afirmou Trump em Riad, em relação ao maior inimigo regional da Arábia Saudita. O rei saudita, Salman Ibn Abd-Aziz, mostrou-se entusiasmado com a intenção de Trump de formar um novo front contra o Irã. E o pequeno emirado do Catar é agora o primeiro a sentir isso na pele.

Por que? A justificativa oficial para a ruptura é que Catar apoiaria o terrorismo do Estado Islâmico (EI), da Irmandade Muçulmana e do grupo radical palestino Hamas, assim como de grupos extremistas na região de Qatif, no leste da Arábia Saudita, e no Bahrein.

Para Riad e seus aliados, o emirado de colocar em risco a estabilidade e a segurança na região. Numa mensagem no Twitter, o presidente dos EUA definiu a investida contra o Catar como “talvez o início do fim” do terror. E declarou-se satisfeito de que sua visita a Riad tenha rendido resultados tão imediatos.

Extraoficialmente, contudo, a questão não parece ser tanto o terrorismo, mas sim a relação entre Doha e Teerã, que há muito é uma pedra no sapato para os dirigentes sauditas. A nova crise se acirrou quando, algumas semanas atrás, o emir do Catar, Tamim bin Hamad al-Thani, se pronunciou de forma positiva sobre o papel estabilizador do Irã na região do Golfo Pérsico.

Mais tarde, a mídia saudita noticiou, indignada, que o ministro do Exterior do Catar, Mohammed Bin Abdulrahman al-Thani, se encontrara com o chefe da tropa de elite das Guardas Revolucionárias iranianas. Além disso, Doha teria parabenizado o presidente do Irã, Hassan Rohani, por sua reeleição.

Na terça-feira, o chanceler do Catar declarou na emissora Al Jazeera que rechaça qualquer tipo de ingerência por outros países do Golfo, embora não deseje uma escalada da atual crise. Além dos EUA, também o Kuwait se ofereceu para mediar o conflito.

Sunitas versus xiitas

Riad pensa ter em Donald Trump novamente um presidente americano do seu lado, para, juntos, colocarem o Irã no devido lugar – ao contrário do antecessor democrata Barack Obama, que firmou um acordo nuclear com Teerã.

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Trump foi recebido em maio último pelo rei saudita, Salman Ibn Abd-Aziz (Mandel Ngan/AFP)

“Estamos vendo a primeira conta da viagem de Trump à Arábia Saudita”, comentou o político do Partido Verde alemão Omid Nouripour à agência de notícias Reuters. “Depois do apoio demonstrativo dos EUA, a Arábia Saudita impõe agora com dureza seu papel de potência ordenadora na região.”Há muito o governo sunita-wahabita em Riad acusa o vizinho xiita Irã de interferir em seus assuntos, a fim de desestabilizar o reino e ampliar a própria influência no Oriente Médio. Um dos motivos para temer tal coisa é que a minoria xiita reprimida no leste saudita poderia se sentir encorajada a iniciar um levante – justamente lá onde se encontram importantes reservas de petróleo.

Também o Bahrein teme uma influência excessiva dos xiitas iranianos, uma vez que o país é liderado por sunitas, embora a maioria da população seja xiita. Além disso, Teerã ampliou consideravelmente seu papel no Iraque e na Síria durante a guerra civil síria. Mais do que nunca, a Arábia Saudita se sente cercada.

Independência política

Riad conta há muito com aliados confiáveis no mundo árabe-islâmico, tendo os Emirados Árabes Unidos e o Bahrein inteiramente do seu lado. Afinal de contas, os sauditas dominam o Conselho de Cooperação do Golfo (GCC). Também o Egito, com seu governo autocrático dependente das bilionárias injeções de capital saudita, em geral se mostra um parceiro fiel. Ainda assim, em 2016 Cairo intensificou as relações com Teerã, para desgosto dos sauditas.

A independência política do pequeno emirado do Catar, com seus menos de 3 milhões de habitantes, vem incomodando a liderança saudita há um bom tempo. Sob o reinado do xeique Hamad bin Khalifa al-Thani, as relações com Teerã se estreitaram consideravelmente, entre 1995 e 2013.

Seu filho Tamin aparentemente seguiu cultivando esse relacionamento. O que não é de espantar, pois tanto o Catar quanto o Irã reivindicam para si e compartilham o maior depósito de gás natural do Golfo Pérsico, a jazida South Pars ou North Dome. Apesar de os catarianos não contarem como aliados de Teerã, Riad acusa Doha de colocar os próprios interesses diante dos do GCC.

Além disso, ao fundar a emissora panárabe Al Jazeera, o xeique Hamad bin Khalifa conferiu a seu país um caráter moderno e autoconfiança política. Em 2011, o canal de TV irradiou imagens dos primeiros protestos da assim chamada “Primavera Árabe”. O fato enfureceu Riad seriamente, pois na programação em idioma árabe da Al Jazeera, o Catar não ocultava sua simpatia pela Irmandade Muçulmana, a qual, na visão do clero saudita, ameaça o domínio wahabita.

Portanto é improvável e não há provas de que Doha tenha apoiado o EI, o qual, em parte, invoca as ideologias wahabitas. Por outro lado é sabido que particulares tanto catarianos quanto sauditas forneceram dinheiro aos jihadistas.

Catar encurralado

Arábia Saudita, Emirados Árabes, Bahrein e Egito estarem agora voltando as costas ao Catar não é um mero gesto de ameaça, mas sim para encurralar o país. Os catarianos dependem basicamente de importações, e em especial no tocante a gêneros alimentícios seus principais fornecedores são a Arábia Saudita e os Emirados.

A companhia aérea Qatar Airways não tem mais permissão para aterrissar ou levantar voo em nenhum desses países; os sauditas excluíram o Exército catariano de sua aliança militar na guerra do Iêmen. A realização da Copa do Mundo de 2022 no emirado está igualmente em questão, inclusive dentro da federação internacional de futebol Fifa, devido às acusações de apoio ao terror. Até mesmo o futuro da Al Jazeera é incerto.

Consta que, em carta oficial, a Arábia Saudita teria negado a legitimidade religiosa da dinastia Thani, que rege o Catar. Para alguns especialistas, isso já equivale a uma conclamação à derrubada dos governantes. O emir catariano se encontra diante de uma das mais graves crises já atravessadas por sua família.

Enquanto isso, Riad se sente tão seguro pelo apoio de Trump, que até procura convencer Washington a retirar do Catar a base aérea de Udayd, a maior instalação militar americana da região, com mais de 10 mil soldados.

Cabe perguntar de que modo justamente este presidente dos Estados Unidos será capaz de sanar a atual crise, desencadeada por sua visita de maio a Riad.

Islã e terrorismo

leia no original: https://www.cartacapital.com.br/internacional/isla-e-terrorismo-8313.html
por José Antonio Limapublicado 30/11/2015 04h44, última modificação 01/12/2015 12h26
As críticas à religião precisam ser acompanhadas de uma reflexão sobre o ambiente em que ela está inserida
Remy Gabalda / AFP
Muçulmano em Toulouse

Homem carrega cartaz com a inscrição “terrorista não é muçulmano” durante marcha a favor da paz que reuniu 10 mil pessoas em Toulouse, na França, em 21 de novembro

Os atentados terroristas em Paris serviram de estopim para uma nova onda de discurso de ódio direcionado ao islã. Na França, a desconfiança e a hostilidade aos muçulmanos se solidificam, enquanto nos Estados Unidos a islamofobia ganha legitimidade no debate político e, até no Brasil, muçulmanos são alvos de agressões físicas. Tais manifestações mostram que a intolerância caminha de mãos dadas com a ignorância.

Há alguns anos, o mundo se acostumou a relacionar o mundo muçulmano com violência e terrorismo. Ainda que essa percepção seja desproporcionalmente criada, é preciso reconhecer que há relação entre o terror islâmico e o islã. Os integrantes do Estado Islâmico (como os da Al-Qaeda e de outros grupos jihadistas) têm motivações religiosas, agem em nome do islã e acreditam estar representando seu credo, ainda que sua visão de mundo seja amplamente rejeitada no mundo árabe-muçulmano.

Para contrapor a islamofobia, boa intenção de quem costuma negar a conexão entre o terrorismo e a religião, mais útil é examinar a relação entre o islã e o terror praticado em seu nome.

Como as outras religiões, o islã tem escrituras vastas e contraditórias. Há no Corão e nos Hadith (o corpo de relatos sobre a vida de Maomé) justificativas para a violência e a perseguição religiosa, mas também argumentos a favor da paz e da tolerância. O mesmo ocorre no Velho Testamento, que aprova o genocídio e a morte de inocentes, entre outras barbaridades, e no Novo Testamento, no qual Jesus Cristo recomenda a morte de quem recusa seu reinado.

No judaísmo e no cristianismo, prevalecem leituras interpretativas e alegóricas dos textos sagrados, mas o mundo muçulmano está coalhado de literalismo e radicalismo. Por quê? A explicação está menos na religião e mais na história e na política.

Historicamente, o Oriente Médio é uma região dominada por potências estrangeiras. A luta contra o arbítrio externo teve diversas formas, mas ao longo do século 20 o islã político galvanizou-se como uma das mais atrativas e, às vezes, a única possível, tendo em vista o autoritarismo dominante na região. Este movimento político-religioso passou por metamorfoses ao longo dos anos e produziu uma ala violenta, que prospera sob a bandeira do jihadismo.

Em parte, o apelo da “guerra santa” persevera porque é partilhado pela leitura intolerante do islã professada e exportada pela Arábia Saudita – o salafismo, ou, na versão local, wahabismo. Também contribui para a força do jihadismo o fato de ele ter um significativo público passível de ser conquistado, seja na Europa, onde a ideologia é capaz de suprir a desilusão de jovens alienados, ou no Oriente Médio, onde é vista por alguns como uma alternativa crível para a falta de perspectivas imposta pelos Estados fracassados da região.

Acrescente-se a isso o fato de o islã, que serve de pano de fundo civilizacional para muitos no Oriente Médio, ser objeto de uma recorrente manipulação pelas ditaduras da região, inclusive as ditas laicas. Exemplos abundam.

O artigo 2 da Constituição do Egito, que prevê a sharia (lei islâmica) como “fonte primária de legislação” e sobrevive até hoje, foi colocado ali em 1971 por Anwar al-Sadat, ditador militar que usou o islamismo para contrapor o socialismo do período anterior.

Saddam Hussein, do partido pan-arabista Baath, buscou o apoio de religiosos nos anos 1990 com a Campanha da Fé, na qual instituiu mutilações e decapitações como sentença de crimes e a repressão ao consumo de álcool. Atualmente, o ditador do Egito, Abdel Fattah al-Sissi, um militar reformado, persegue a comunidade LGBT no Egito abrindo processos com base no “desprezo à religião” e em violações da “moralidade pública”.

Um dos resultados desta manipulação é uma radicalização ainda maior da sociedade e da religião como um todo. No caso do Iraque de Saddam Hussein, sua Campanha da Fé ocasionou a islamização de diversos integrantes do Baath e do Exército, alguns dos quais fazem parte, hoje, do Estado Islâmico. Como consequência, fecham-se os espaços para o dissenso teológico a respeito do islã. Em grande medida, os jihadistas têm um espaço público sem oposição, e muitas vezes favorável, para escolher as escrituras que mais se adaptam a seus planos totalitários, e geralmente preferem as mais sanguinárias.

Mesquita Baitul Futuh
Cartaz na fachada da mesquita Baitul Futuh, na região metropolitana de Londres, pede orações às vítimas do terror em Paris

Logo após um atentado terrorista, é comum ouvir o clamor para que o islã passe por uma “reforma”, nos moldes da que ocorreu com o cristianismo. As religiões, entretanto, não são análogas. Enquanto Jesus Cristo recomendou dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, o Corão traz embutido em si não só os ditames de uma religião, mas um sistema econômico, jurídico e político.

Um debate aberto que possa discutir a relação do islã com a democracia e o Estado contemporâneo, abrir diálogo sobre conceitos como sharia e jihad e resgatar a herança de pluralismo e tolerância é não só desejável como necessário.

Esta tarefa cabe, é óbvio, apenas e tão somente aos muçulmanos. Deve-se lembrar, no entanto, que cada religião é afetada de maneiras diversas pela história e por eventos geopolíticos. No caso do Oriente Médio, o islã está inserido em um ambiente marcadamente caótico.

Na semana passada, a Nahdlatul Ulama, organização religiosa com milhões de adeptos na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo e uma democracia em desenvolvimento, lançou uma campanha mundial para contrapor o jihadismo e o Estado Islâmico. Faz parte da iniciativa um filme de uma hora e meia no qual clérigos indonésios criticam e classificam de perversas as interpretações do Corão e dos Hadith feitas pelo Estado Islâmico.

Iniciativas como essas podem surgir no Oriente Médio. De fato, diversas organizações e clérigos condenaram abertamente o Estado Islâmico. Cabe uma questão, entretanto. Como um projeto desses ganharia tração e geraria resultados se os regimes locais, apoiados pelas grandes potências mundiais, fortalecem e estimulam o extremismo para se sustentar no poder? Sem responder a essa pergunta, não é possível discutir os rumos do islã no Oriente Médio.

Trump ordena ataque dos EUA à Síria. O que vem pela frente?

leia no original: https://www.cartacapital.com.br/internacional/trump-ordena-ataque-dos-eua-a-siria-o-que-vem-pela-frente

Oriente Médio

por José Antonio Limapublicado 07/04/2017 10h21, última modificação 07/04/2017 10h36
O conflito teve uma nova escalada, mas ainda não se sabe qual a real estratégia de Washington para lidar com Assad e o Estado Islâmico
Jim Watson / AFP
Donald Trump

Trump durante discurso na Flórida, de onde ordenou ataque. Sua posição diante de Assad mudou de forma repentina

A Marinha dos Estados Unidos lançou na noite de quinta-feira 6 um bombardeio contra a base de Shayrat, em Homs, uma das principais da força aérea de Bashar al-Assad, no primeiro ataque de Washington que teve como alvo a liderança do regime sírio. A ofensiva se deu em represália a um ataque químico realizado em Khan Sheikhun, província de Idlib, dominada por rebeldes, que a Casa Branca atribui a forças de Assad. Trata-se de um novo e importante agravamento na guerra civil Síria, que em seis anos deixou centenas de milhares de mortos e 5 milhões de refugiados.

Como foi realizado o ataque?

O bombardeio foi autorizado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e partiu de dois destróieres da Marinha norte-americana, o USS Porter e o USS Ross, estacionados no Mar Mediterrâneo. Segundo o Pentágono, o Departamento de Defesa dos EUA, 59 mísseis Tomahawk foram lançados contra a base de Shayrat. A base teria sido a origem dos ataques contra Khan Sheikhun. “O ataque foi uma resposta proporcional ao ato hediondo de Assad”, disse o Pentágono em um comunicado. “O uso de armas químicas contra inocentes não será tolerado”, afirmou.

Qual foi o resultado do bombardeio?

O Pentágono disse que atingiu aviões, abrigos de aeronaves, depósitos logísticos e de combustível, bunkers de munição, defesa aérea e radares. A agência de notícias oficial do governo da Síria não confirmou danos militares, mas afirmou que a agressão norte-americana provocou a morte de nove civis, incluindo quatro crianças, deixou sete feridos e causou danos importantes em casas das localidades de Al-Shayrat, Al-Hamrat e Al-Manzul, próximas à base.

Ataque à Síria
Mísseis Tomahawk lançados pelos EUA no Mediterrâneo (Foto: Ford Williams / Marinha dos EUA / AFP)

O que Trump alegou para ordenar o ataque?

No discurso que vez logo após o lançamento do bombardeio, o presidente dos Estados Unidos tentou retratar o ato como uma resposta direta ao ataque químico atribuído a Assad. Trump iniciou sua fala afirmando que “Assad sufocou a vida de homens, mulheres e crianças sem esperança”, que sofreram “uma morte lenta e brutal para muitos”.

Ainda segundo Trump, a retaliação representa um ‘interesse vital da segurança nacional dos EUA”, pois ajuda a “prevenir e impedir o uso de armas químicas mortais”.

Fatores da política interna também podem ter pesado para o ataque. Trump se encontra acossado por uma série de críticas a sua administração, como a desorganização no que tange a política externa e a proximidade com a Rússia, que vem sendo investigada pelo FBI, a polícia federal dos EUA.

A demonstração de força pode, para o público norte-americano, mostrar assertividade e independência de Moscou, que apoia Assad firmemente. De quebra, Trump deve experimentar uma alta em sua popularidade, como costuma ocorrer no início de ofensivas militares norte-americanas.

O ataque significa que os EUA vão invadir a Síria?

Não. O discurso de Trump, o alvo localizado do ataque e sua pequena monta indicam que a intenção da Casa Branca é fazer deste bombardeio uma ação pontual, que sirva de recado não apenas para Bashar al-Assad, mas para outros países que possuem armas químicas ou nucleares, como a Coreia do Norte, a respeito da intenção de Washington de impedir o uso desses armamentos.

Então qual é a estratégia dos EUA para a Sìria?

Trata-se de uma incógnita. Na quarta-feira 5, o general Mark Milley, chefe do Estado-maior dos EUA, esteve no Comitê das Forças Armadas da Câmara e foi questionado sobre qual a estratégia de Washington para a Síria. Ele não soube responder e sugeriu ao deputado que o questionou que perguntasse a Trump e seu secretário de Defesa, James Mattis, pois os militares trabalham sob uma cadeia de comando.

Chama atenção, entretanto, a abrupta mudança de discurso dos EUA em relação a Assad. Exatamente uma semana antes do ataque contra a Síria, os principais nomes da diplomacia dos EUA, o secretário de Estado, Rex Tillerson, e a embaixadora na ONU, Nikki Haley, indicaram que aceitavam a permanência de Assad no futuro da Síria.

Após o ataque químico, as posições mudaram. Em seu discurso, Trump falou abertamente sobre promover uma mudança de regime na Síria. “Hoje à noite clamo a todas as nações civilizadas a buscar acabar com o massacre e o derramamento de sangue na Síria e também para acabar com o terrorismo de todos os tipos e de todos os tipos.”

Para a comunidade internacional, fica claro que os EUA com Trump são mais assertivos do que eram com Barack Obama, mas espanta o fato de sua política externa ser modificada de maneira tão repentina.

Mas é possível combater Assad e o Estado Islâmico ao mesmo tempo?

A guerra civil da Síria tem todos os ingredientes para se prolongar por muitos anos. A sociedade se tornou totalmente incoesa, há diversos grupos beligerantes, nenhum deles com força militar ou política para vencer e muita interferência estrangeira.

Hoje, só seria possível tentar colocar fim ao conflito com uma invasão de larga escala, com dezenas ou centenas de milhares de soldados, nos moldes do que os Estados Unidos realizaram no Afeganistão em 2001 e no Iraque em 2003. Esta hipótese, entretanto, não deve ser levada a cabo, pois ela traz em seu bojo um enorme risco de provocar uma épica guerra regional envolvendo o Irã, principal apoiador de Assad, e a Arábia Saudita, que atua para tirá-lo do poder, além de outros países.

Neste cenário, surgem contradições. Qualquer ataque contra as forças de Assad é, na prática, um ato em favor dos rebeldes, mas também do Estado Islâmico. Não retaliar as atrocidades de Assad, em contrapartida, significa apoiar um ditador sanguinário.

Síria
Com imagens das vítimas do ataque químico, moradores de Khan Sheikhun protestam contra Assad

E qual foi a reação da Rússia?

A Rússia foi avisada do ataque e o alvo foi confirmado pelo Pentágono como não tendo militares russos. Ainda assim, Moscou mostrou imensa irritação com a ação militar de Trump, ao chamar o ataque de “agressão contra um Estado soberano”.

O presidente russo, Vladimir Putin, disse considerar o bombardeio uma “agressão contra um Estado soberano” baseado “em pretextos inventados”. “Esta ação de Washington causa um prejuízo considerável às relações entre Estados Unidos e Rússia, que já se encontram em um estado lamentável”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

É importante ter em conta, entretanto, que não é do interesse russo escalar o conflito com os Estados Unidos na Síria. A Rússia continua sendo o ator externo de maior força no país, capaz de alguma forma de ditar os rumos do conflito. Assim como os EUA, Moscou não pretende e não deseja aumentar seu envolvimento na Síria, invadindo e ocupando o país.

Qual deve ser o desfecho do ataque então?

O cenário mais provável é que o ataque dos Estados Unidos à força aérea de Assad seja mesmo um episódio pontual. A tendência é que os ímpetos aflorados desde a noite de quinta-feira 6 sejam acalmados e EUA e Rússia concordem, ao menos tacitamente, em manter suas posições: o primeiro como “polícia moral” do mundo, que combate o uso de armas químicas, e a segunda como uma indignada defensora da soberania dos Estados, ainda que estes sejam comandados por figuras como Assad.

O interesse primário de Washington e Moscou deve continuar sendo o Estado Islâmico, que nos próximos meses sofrerá importantes derrotas militares tanto no Iraque quanto na Síria. Este, sim, será um momento delicado, um divisor de águas. Quando o ISIS, como também é chamado o grupo extremista, perder seus territórios, uma nova disputa se abrirá, talvez ainda mais violenta, pois colocará frente a frente os blocos liderados pelo Irã e pela Arábia Saudita.

O Iraque pós-Estado Islâmico será extremamente complicado, mas a Síria pós-Estado Islâmico representará um desafio monumental à comunidade internacional, por conta dos inúmeros interesses locais, regionais e globais circulando por ali. Como se trata do Oriente Médio, a tendência, sempre, é tudo piorar.

Donald Trump: o que esperar do novo presidente dos EUA?

leia no original:
http://guiadoestudante.abril.com.br/blog/atualidades-vestibular/donald-trump-o-que-esperar-do-novo-presidente-dos-eua/

Republicano sucede Barack Obama na presidência da maior potência econômica e militar em meio a muitas dúvidas sobre o direcionamento de seu governo

A partir do dia 20 de janeiro de 2017, Donald John Trump, de 70 anos se torna o 45º presidente dos Estados Unidos (EUA). Se durante o processo eleitoral sua candidatura foi tratada com desdém por grande parte da imprensa, agora Trump assume o comando da maior potência econômica e militar do planeta. Barack Obama, que presidiu o país por oito anos, deixa agora a Casa Branca.

Um dos homens mais ricos do país, Trump apresentou-se ao eleitorado como um empresário ousado, com capacidade de transferir o seu talento nos negócios para a gestão pública. Também causou polêmica, especialmente por suas declarações contra a presença de imigrantes mexicanos e muçulmanos no país.

A seguir, você confere algumas de suas promessas de campanha, que sinalizam o que devemos esperar desta Era Trump recém-inaugurada.

Estímulo econômico

Trump declarou que pretende reduzir os impostos para os cidadãos comuns com o objetivo de estimular a economia. O corte atingiria não apenas as camadas da população com menor renda, mas também aqueles que possuem rendimentos elevados. O presidente também indicou que pode eliminar qualquer taxação sobre heranças.

Protecionismo comercial

O presidente adota uma plataforma protecionista. Quer aumentar as barreiras comerciais e se mostra contra a participação dos EUA em blocos econômicos como o Tratado Norte-Americano de Livre-Comércio (Nafta) e o Acordo Transpacífico (este ainda não entrou em vigor), alegando tratar-se de parcerias que prejudicam a geração de emprego nos EUA. Além disso, sinalizou que pretende reduzir os impostos para as empresas com o objetivo de estimular a geração de empregos e impedir que elas migrem para países onde a carga tributária é menor. Ao mesmo tempo, quer aumentar impostos das empresas que decidirem deixar o país e não empregar preferencialmente norte-americanos.

Política imigratória

Uma das propostas mais polêmicas de Trump diz respeito à construção de um muro na fronteira com o México para evitar a entrada de imigrantes ilegais. O candidato ainda afirma que o governo mexicano arcará com os custos da barreira. Não menos polêmico é o plano de barrar a entrada de refugiados, especialmente muçulmanos, associando-os diretamente à ameaça de terrorismo. Trump promete, ainda, expulsar os 11 milhões de imigrantes ilegais e obrigar as empresas a priorizar a contratação de cidadãos americanos.

Parcerias internacionais

Trump moldará sua política externa a partir do lema “America First” – ou seja, os interesses norte-americanos em primeiro lugar. Dessa forma, o presidente quer restringir a abrangência das parcerias militares com aliados históricos. Ele alega que os EUA gastam muito repassando ajuda financeira a parceiros históricos como Japão, Coreia do Sul e Arábia Saudita. Também é crítico da Otan, a aliança militar que os EUA mantém com as nações da Europa Ocidental principalmente. Para Trump, a organização é obsoleta e muito dispendiosa para os cofres norte-americanos. Com esta política, Trump pretende abdicar do papel que os EUA desempenharam nas últimas décadas como guardião da ordem mundial e responsável pelo equilíbrio entre as potências.

>> Veja também: Trump e a globalização

Meio ambiente e energia

O republicano contesta a tese do aquecimento global e diz que as políticas para diminuir a emissão de carbono irão comprometer a geração de empregos. Trump se diz favorável à energia nuclear e ao uso de carvão pelas indústrias. O novo presidente também já se mostrou contrário a alguns pactos ambientais internacionais firmados por Barack Obama. O Acordo de Paris, assinado por todos os membros da ONU em dezembro de 2015, impõe limites às emissões de gases do efeito estufa para os próximos anos. Na visão de Trump, os EUA devem rever os termos deste acordo.

Obamacare

Outra medida tomada por seu antecessor que está na mira de Trump é o Obamacare. A reforma no sistema de saúde norte-americano implementada por Obama ampliou o acesso dos cidadãos ao seguro de saúde, por meio de subsídios para as famílias mais pobres. Segundo Trump, o Obamacare fere os princípios do livre mercado e representa uma intromissão indevida do Estado em empresas privadas.

Guerra ao terror

Durante a campanha, Trump disse que em seu governo o país voltaria a ser tão temido pelos rivais que não sofreria mais ameaças, em um recado claro ao Estado Islâmico (EI). Para isso, defende a ampliação dos gastos com Defesa e a modernização o arsenal nuclear – inclusive, não descarta o uso de armas atômicas como reação a ataques terroristas. Em outra declaração polêmica, Trump chegou a defender o uso da tortura.

Cuba e Irã

Alguns dos principais feitos diplomáticos de Obama são contestados por Trump, especialmente a reaproximação dos EUA com antigos rivais, como Irã e Cuba. O republicano já ameaçou romper com o acordo que restringiu o programa nuclear iraniano e é cético quanto ao processo que levou EUA e Cuba a reatarem as relações diplomáticas em 2015.  Por meio de sua conta no Twitter, disse que iria “liquidar o acordo” se Cuba não oferecer melhores condições aos cubanos e aos norte-americanos.

China

As relações dos EUA com a China podem se tornar mais tensas em virtude das medidas protecionistas que Trump promete adotar. Para o novo presidente norte-americano, as relações comerciais entre os dois países beneficiam a China e prometeu impor tarifas maiores de importação aos asiáticos. Também há divergências em relação à expansão territorial que a China promove no Mar do Sul da China.

Rússia

Desde a campanha, Trump vem adotando um discurso conciliatório com o presidente russo Vladimir Putin. A Rússia chegou a ser acusada de hackear e-mails da adversária de Trump nas eleições, Hillary Clinton, numa sinalização de que o republicano seria um presidente mais favorável aos interesses de Moscou. Nos últimos dias, Trump disse que pode rever as sanções econômicas que os EUA impõe à Rússia se houver uma parceria entre os dois países no combate ao terrorismo, no mais assertivo gesto de aproximação até agora. Mas pairam dúvidas sobre as reais intenções de Trump e os interesses envolvidos nesta reaproximação.

 

Donald Trump põe em xeque a relação dos Estados Unidos com a China

Leia no original:
 http://epoca.globo.com/mundo/noticia/2016/12/donald-trump-poe-em-xeque-relacao-dos-estados-unidos-com-china.html

Antes mesmo de assumir a Casa Branca, Donald Trump tensiona as relações dos Estados Unidos com a China. Pode ser apenas um jogo de cena para arrancar vantagens comerciais, mas as consequências da manobra são imprevisíveis

TERESA PEROSA

A última tempestade a emergir do 58º andar da Trump Tower em Nova York – o Q.G. do time que coordena a transição para o governo do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump – começou com uma simples ligação telefônica no dia 2 de dezembro. A interlocutora de Trump era a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. O contato durou poucos minutos e serviu para que Tsai desse a Trump os parabéns pela vitória nas eleições de novembro. O aparente prosaísmo do ato esconde seu relevante significado diplomático: tratou-se do primeiro contato direto oficial entre o alto escalão dos dois países desde 1979, numa quebra do protocolo das relações entre China e Estados Unidos. Oficialmente, os Estados Unidos não reconhecem Taiwan como um Estado soberano.

Trump não só atendeu Tsai como, dias depois, questionou a própria natureza das relações entre China e Estados Unidos. “Não sei por que nós temos de seguir fiéis à política de ‘China única’, a não ser que façamos um acordo com a China que inclua outras coisas, como comércio”, afirmou em entrevista à Fox News, no domingo, dia 11. A declaração do presidente eleito corroborou o discurso do candidato Trump – que culpou a China, na campanha eleitoral, pela desindustrialização americana e pela queda nos empregos no país. Levada a cabo, uma mudança na política de “China única”, consolidada nos últimos 40 anos, significará uma mudança radical na postura dos Estados Unidos na relação com a China e tendem a aumentar os antagonismos entre as duas maiores potências globais.

A o mesmo tempo em criítica a china,Trump escolheu um amigo de Xi Jiping,o presidente da China,para ser seu embaixador em Pequim (Foto: ERIC THAYER / Reuters)JOGO DUPLO
O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao mesmo tempo que critica a China, ele escolheu um amigo de Xi Jinping, o presidente da China, para ser seu embaixador em Pequim (Foto: ERIC THAYER / Reuters)

O arranjo atual tem raízes históricas: Taiwan e China vivem um impasse que remonta a 1927 e à guerra civil no país, que terminou na vitória dos comunistas liderados por Mao Tsé-tung em 1949 e na fuga dos nacionalistas, seus opositores, para a ilha de Taiwan. Desde então, Taipei e Pequim reivindicam para si o status de China soberana. Num primeiro momento, os americanos, para combater a “ameaça comunista”, apoiaram os nacionalistas de Taiwan, romperam relações com a China continental e se confrontaram com aliados de Mao em vários conflitos. Em 1969, o então presidente Richard Nixon, sob a inspiração de seu então conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, iniciou uma aproximação com os chineses. A guinada política dos americanos foi motivada tanto pela necessidade de sair do atoleiro da Guerra do Vietnã quanto pelo desejo de isolar politicamente a União Soviética – o movimento costurado por Kissinger é narrado em detalhes em seu clássico Sobre a China.

Depois da visita de Nixon a Pequim em 1972, o governo americano adotou  o preceito da “China única” e passou a reconhecer o governo de Pequim como o legítimo representante da China na comunidade internacional, com direito a cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidos. O restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países foi oficializado em 1979 – e o degelo político iniciado por Kissinger levou ao modelo econômico dos dias de hoje em que as economias dos Estados Unidos e da China são essencialmente complementares. Em 2015, o fluxo comercial de bens e serviços entre China e Estados Unidos somou US$ 659 bilhões. Os chineses detêm também 7% dos títulos da dívida pública americana e quase 40% de suas reservas estrangeiras são em dólar. Em contrapartida, centenas de empresas americanas operam plantas industriais em solo chinês, num exemplo da globalização econômica tão criticada por Trump na disputa da Casa Branca.

Desde a eleição de Trump, os analistas se desdobram para decifrar se a nova administração americana terá uma estratégia para lidar com a China e se colocará em prática as ameaças de retaliações comerciais aos chineses proferidas durante a campanha eleitoral. Trump não é o primeiro presidente americano depois de Nixon a querer falar grosso com a China: diferentes administrações adotaram tons mais ásperos em temas que variavam das relações comerciais aos direitos humanos. No entanto, Trump é o primeiro não só a questionar o entendimento diplomático entre os dois países, como a sugerir que pretende usar a questão de Taiwan como moeda de barganha. “A política da ‘China única’ nos permitiu colocar de lado diferenças para conseguir benefícios para os dois lados. Usá-la como barganha faz os Estados Unidos parecerem mesquinhos, pois significa uma aposta com a vida de milhões de taiwaneses. A reação da China pode ser  militar”, diz Oriana Skylar Mastro, da Universidade Georgetown, especialista em política de segurança chinesa.

Mao Tsé-Tung e Richard Nixon,na histórica visita dos EUA á China em 1972 (Foto: XINHUA/AFP)PRAGMÁTICOS
Mao Tsé-tung e Richard Nixon, na histórica visita do presidente dos Estados Unidos à China em 1972. O arranjo feito por eles estabilizou as relações entre os dois países (Foto: XINHUA/AFP)

Usar o tema de Taiwan como moeda de troca, além de perigoso, pode ser ineficaz. “Nenhum tema político será suficiente para pressionar a China economicamente”, diz Mastro. Ao mesmo tempo que coloca sobre a mesa a carta de Taiwan, Trump nomeou Rex Tillerson para secretário de Estado. A indicação foi encarada como um movimento de aproximação com a Rússia e uma possível tentativa de apartar Vladimir Putin, o líder russo, dos chineses – uma espécie de estratégia à la Kissinger às avessas. Para tornar sua jogada política ainda mais complexa, Trump, durante a campanha, fez promessas que, em tese, levaram em conta os interesses chineses. Ele ameaçou diminuir o engajamento militar dos Estados Unidos na proteção de dois de seus mais tradicionais aliados na Ásia – Japão e Coreia do Sul. Anunciou também a retirada dos Estados Unidos da Parceria Transpacífico, o acordo comercial desenhado pelo governo Obama para fazer frente à China  no continente. “A base do poder americano é econômica. Sem a fundação econômica, o papel dos Estados Unidos, mesmo permanecendo na condição de importante parceiro militar, vai se erodir na Ásia”, diz Mastro.

Pode ser que Trump, como um homem de negócios afeito a barganhas comerciais, esteja apenas blefando com o objetivo de arrancar concessões da China. Talvez por ter isso em mente, Trump anunciou Terry Branstad, governador de Iowa e amigo pessoal de Xi Jinping, presidente da China, para embaixador em Pequim. Mas as declarações de Trump já  motivam respostas enfáticas de Pequim. “Se a política da ‘China única’ for minada, não poderá haver diálogo para o desenvolvimento saudável e estável das relações Estados Unidos-China”, disse An Fengshan, porta-voz do governo de Xi, na quarta-feira, dia 14. Na sexta-feira, dia 16, o Pentágono confirmou que a Marinha chinesa apreendeu um drone aquático americano no Mar da China Meridional, um foco de tensão na região.

Tendo em vista esse tipo de reação, é bom que Trump, mesmo que esteja apenas trucando com o objetivo de obter vantagens, calcule bem seu jogo. “Em um cenário mais extremo, se os americanos adotarem medidas unilaterais contra os chineses, a resposta pode ser uma desvalorização do iuane e a adoção de medidas contra as empresas americanas que têm operação na China”, diz Marcos Troyjo, diretor do BricLab da Universidade Columbia, em Nova York. A milenar história da China ensina que os chineses são muito pragmáticos, mas também levam algumas ofensas a sério.

Após 4 anos de diálogo com Farc, luta política é novo obstáculo à pacificação

Com parte dos pontos acertados em Havana ganhando aplicação no dia a dia, presidente tenta convencer céticos de que guerrilha cumprirá compromissos e desconstruir discurso de opositores como Uribe, que pretendem derrotar acordo nas urnas

Após a assinatura do acordo final de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), após quase quatro anos de negociações, o governo de Juan Manuel Santos tem agora outro desafio: convencer a população a dizer “sim” ao acordo e, dessa forma, torná-lo efetivo. Para isso, além da “campanha pedagógica” sobre os pontos acertados, o presidente terá de enfrentar uma oposição política que pede a rejeição ao acordo.

Políticos e especialistas acreditam que o trabalho nas ruas para mostrar que os compromissos serão cumpridos pelas Farc é essencial para a vitória do “sim”. “Mesmo parecendo óbvio que para qualquer sociedade o melhor é a paz, existe aqui uma oposição de extrema direita empenhada há meses em mentir, distorcer informações e ganhar muitos eleitores, dizendo que vamos entregar o país à guerrilha. Nenhum desses argumentos delirantes têm a ver com a realidade dos acordos”, afirma o senador Roy Barreras, presidente da Comissão de Paz do Congresso e autor do projeto de lei do plebiscito que será votado no dia 2 de outubro.

Foto: REUTERS/John Vizcaino
Combatentes das Farc patrulham área montanhosa na região central do país

Combatentes das Farc patrulham área montanhosa na região central do país

A economista colombiana e pesquisadora associada do Instituto Igarapé, Katherine Aguirre, afirma que mesmo sendo noticiado que a paz terá um grande impacto econômico no país, “principalmente porque deve direcionar recursos do setor de segurança para setores de produção”, existe uma polarização.

“Muito em razão dos mitos sobre o processo de paz e das ideias falsas que ganharam força por falta de conhecimento do que realmente foi acertado.”

Com a desconfiança de uma população que viveu mais de 50 anos aprendendo que as Farc eram o inimigo a ser derrotado, a melhor forma de o governo mostrar que a guerrilha aceitou os termos impostos é noticiar as etapas do acordo de paz que já vigoram. Na sexta-feira, guerrilheiros começaram deslocar-se para as 23 zonas de concentração onde ficarão até que sejam plenamente reintegradas à vida civil, informou o Alto-Comissariado para a Paz.

“O fim do conflito já é uma realidade: as Farc estão deixando as zonas de conflito e se dirigindo para comunidades rurais”, disse o principal negociador do governo colombiano, Sérgio Jaramillo. “Isso requer uma logística especial, que virá acompanhada de zonas de registro de armas e o início do processo de capacitação para a reincorporação à sociedade”, explica Barreras.

Além dessa ação, a substituição de cultivos – outro ponto da agenda de negociações que ocorreram em Havana desde 2012 – também foi iniciada e reuniu integrantes do governo e da guerrilha mesmo antes do cessar-fogo bilateral ser acertado. Em julho, o conselheiro para o pós-conflito, direitos humanos e segurança, Rafael Pardo, iniciou, ao lado do integrante do secretariado das Farc e negociador, Pastor Alape, um projeto-piloto de substituir a plantação de coca em dez veredas de Briceño, no Departamento (Estado) de Antioquia, local muito afetado pelo conflito.

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Outro programa que já foi iniciado é o processo de desminagem em diversas cidades onde a atuação das Farc foi grande. Esse foi o primeiro programa das negociações de paz a ser implementado e com ações conjuntas entre a guerrilha e representantes do governo.

Capital político. O resultado do plebiscito não depende apenas de provar para os colombianos que as Farc cumprirão os acordos, esbarra na briga política. Na campanha pelo “sim”, Santos terá o apoio do ex-presidente César Gaviria, referência política no país. Ele coordena a campanha a favor do acordo e recebeu do presidente a missão de dar um enfoque regional à campanha e conseguir o apoio de líderes locais.

Encabeçando a campanha pelo “não” está o ex-presidente Álvaro Uribe. “Esse processo transforma as Farc em grupo paramilitar, sócio do Estado para combater outros delinquentes”, disse o ex-presidente dois dias depois do anúncio do acordo de paz.

Uribe tem o apoio do seu partido, o Centro Democrático, e de outro ex-presidente, Andrés Pastrana. O enfoque é dizer que com o acordo aprovado pela população, as Farc serão beneficiadas com a impunidade e a representação na política.

A batalha política será travada nas ruas do país e devem ter enfoques diferentes em cada região. “Nas últimas eleições para o Congresso, ficou comprovado que em vários municípios, como San Vicente del Caguan, onde as Farc têm uma presença e uma influência há anos, a votação das pessoas foi a favor do uribismo”, explica o sociólogo francês especialista em problemas políticos da América Latina e autor do livro Farc: uma guerrilha sem fins?, Daniel Pécault, ressaltando que o governo de Santos terá um longo trabalho até 2 de outubro para evitar que quatro anos de conversas sejam o fim de seu legado político.

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O Oil Boom Estadunidense e o futuro geopolítico do Golfo Pérsico

por José Késsio Lemos

Ao longo das últimas décadas, os EUA gastaram trilhões de dólares com as guerras no Golfo Pérsico. Em nome da segurança nacional, o país carregou o fardo de polícia da região, de garantidor do livre fluxo do petróleo do Golfo para as economias ocidentais. Esta realidade drenou dinheiro, forças militares e recursos políticos. A vulnerabilidade que a dependência do petróleo estrangeiro trouxe ao país, condicionou os movimentos políticos da Casa Branca e afetou diretamente na geopolítica do Oriente Médio. A relação do país com dois dos principais produtores de petróleo da região, Irã e Iraque, foram marcadas por guerras, golpes, revoluções e instabilidade. As Guerras do Golfo (1991, 2003), causaram mudanças na configuração geopolítica do Oriente Médio que são sentidas ainda hoje. Além disso, ajudou a instigar o aparecimento de grupos terroristas como o ISIS. Já com o maior produtor de petróleo mundial, a Arábia Saudita, foi arquitetada uma relação petróleo por proteção. Apesar de mais estável do que as duas outras, a relação positiva da Casa Branca com a monarquia saudita ajuda a oxigenar um dos regimes políticos mais fechados e opressores do mundo.

No entanto, é muito provável que o momento atual se constitua em um turning point nessa dinâmica entre o petróleo, a política externa estadunidense e a configuração geopolítica do Oriente Médio. Afinal, a América retomou o posto de maior produtor de energia do mundo. O desenvolvimento de uma nova tecnologia de extração de petróleo a partir de rochas de xisto tem potencializado a produção interna dos EUA. Segundo estimativas da IEA, entre 10 e 15 anos os EUA poderão se tornar autossuficientes em petróleo. Mediante um histórico contexto de dependência do petróleo estrangeiro, caso os EUA consigam esse feito, toda a lógica que orientou a política externa do país no Golfo Pérsico poderá ser reconfigurada. Ademais, o país tem plenas convicções da necessidade de mudar sua forma de agir na região. Afinal, o preço pago foi alto e impopular. E com a diminuição da importância do petróleo do Golfo na sua agenda, o país poderá manobrar com maior cautela e de forma mais pragmática.

Um claro exemplo disso, é a histórica reaproximação entre os EUA e o Irã, selada pelo acordo sobre o programa nuclear do país. Em nenhum outro momento, nas últimas cinco décadas, os EUA ousaram criar litígios com o grande produtor mundial de petróleo – a Arábia Saudita. Pelo contrário, a estabilidade no reino saudita foi uma prioridade na agenda de Washington por várias décadas. O país estava preso nas garras da dependência energética e o peso da Arábia Saudita e da OPEP no mercado mundial de petróleo, já havia sido demonstrado de forma muito contundente no passado. Agora, contudo, a realidade é diferente.

A aproximação dos EUA com o Irã e o fim parcial das sanções econômicas contra Teerã, anunciado recentemente, tem criado uma clara insatisfação no reino saudita. Além da histórica rivalidade entre Riad e Teerã, os sauditas temem que a reconstrução da indústria petrolífera iraniana possa encharcar ainda mais o mercado mundial de petróleo, gerando mais competição e derrubando os preços. Além disso, o Irã poderá alavancar consideravelmente suas receitas e fortalecer o seu papel de potência regional, enfraquecendo a influência saudita na região. Portanto, essa realidade tem criado em Riad dúvidas sobre qual será o posicionamento dos EUA nessa questão: se os manterão como o principal aliado no Golfo ou se serão substituídos pelo Irã. A partir dessa desconfiança, o acirramento entre Teerã e Riad parece inevitável e pode reverberar de forma muito negativa nos conflitos da Síria.

Deste modo, percebe-se mudanças nos movimentos políticos dos EUA no Oriente Médio, e consequentemente, começam a aparecer vislumbres de uma mudança na configuração geopolítica da região. Na atualidade, o Irã é visto como uma peça importante na estratégia americana de distanciar os seus aliados europeus da influência russa, imposta pela questão energética. Através da reconstrução da indústria energética iraniana, o país poderá se tornar uma alternativa viável ao mercado europeu de energia através da exportação de petróleo e gás. Os EUA e a Turquia desejam concretizar a construção de uma rede de gasodutos que ligaria a Europa ao Oriente Médio através do território turco, e que também contaria com a participação do Catar, Azerbaijão, Turquemenistão e do Iraque como fornecedores. Este projeto contraria os interesses de Moscou, que certamente, não ficará de braços cruzados.

Por fim, resta acompanhar o desenrolar de importantes questões. Primeiro, como a Arábia Saudita e a OPEP irão se portar mediante a volta do Irã ao mercado mundial do petróleo, após o fim das sanções. Eles manterão a postura de não reduzir suas cotas de produção, atacando assim a indústria estadunidense do tightoil? Ou será que retornarão ao comportamento histórico de reduzir a produção para alavancar os preços?

E quanto aos EUA? Qual será o papel do governo e das petrolíferas estadunidenses para salvar a manutenção do oil boom, caso os preços do barril se mantenham abaixo do custo de produção? Outro ponto que merece observação, são as eleições presidenciais de 2016 nos EUA. As propostas de política externa dos candidatos favoritos podem nos dizer muito sobre o futuro.

Mediante esse mar de incertezas, é possível afirmar que: independente dos cenários prospectados, o processo decisório dos EUA continuará envolvendo o Golfo Pérsico em razão de sua posição estratégica. Afinal, o petróleo e o gás da região ainda são elementos fundamentais para as relações de poder e para a saúde econômica de muitos dos seus aliados. Ademais, o Golfo Pérsico é uma importante peça geopolítica que pode ser decisiva em conflitos futuros. Sendo assim, as reservas de petróleo do Golfo podem até mesmo perder a importância para os EUA, mas não para o mundo. Por isso, em um contexto de globalização e interdependência, elas continuarão influenciando na política e na economia global. Para os EUA, no entanto, a margem de manobra política cresceu. O país está menos vulnerável e menos dependente. Deste modo, poderá perseguir seus objetivos geopolíticos sem que o agressivo instinto da vulnerabilidade influencie nas decisões políticas dos seus líderes.

 José Késsio Floro Lemos é Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro do Núcleo de Estudos de Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI-UFPE).

Editoria Mundorama. “O Oil Boom Estadunidense e o futuro geopolítico do Golfo Pérsico, por José Késsio Lemos”. Mundorama – Revista de Divulgação Científica em Relações Internacionais, [acessado em 24/07/2016]. Disponível em: <http://www.mundorama.net/2016/07/24/o-oil-boom-estadunidense-e-o-futuro-geopolitico-do-golfo-persico-por-jose-kessio-floro-lemos/>.