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RACISMO NÃO É GAFE

SER PROGRESSISTA NÃO absolve ninguém do racismo. Quando, na noite de ontem (7), o ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso – conhecido por sua postura progressista em relação a polêmicas como aborto e guerra às drogas – chamou em tom elogioso o ex-ministro Joaquim Barbosa de “negro de primeira linha”, ele foi racista, sim.

Não se trata de uma gafe, como chamou O Globo, mas do racismo nosso de cada dia, que mais uma vez se esconde atrás de boas intenções fantasiadas de elogio. Ou, como o próprio Barroso afirmou ao pedir desculpas por sua “frase infeliz” nesta quinta (8), trata-se do “racismo inconsciente”.

Em seu discurso sobre a trajetória de Barbosa, na solenidade no STF em que foi descortinado o retrato dele na galeria de ex-presidentes da Corte, Barroso afirmou que “a universidade [Uerj – onde os dois lecionaram] teve o prazer e a honra de receber um professor negro, um negro de primeira linha vindo de um doutorado de Paris”.

Será que, se fosse branco, Barbosa seria chamado de branco de primeira linha? Tanto eu quanto Barbosa sabemos que não. Mesmo se negando a emitir opinião sobre a declaração do colega, o semblante do ex-ministro mudou no momento em que recebeu o “elogio”.

Nas suas desculpas, Barroso lamenta que possa ter reforçado estereótipos, mas foi exatamente o que fez. Em sua declaração, ele endossa a ideia de que a qualificação de doutor não combina com um negro, que estaria fadado ao “cerco da subalternidade”. No mesmo inconsciente em que habita o racismo, também mora a imagem do negro feito para servir. Quando esse negro ocupa um lugar diferente deste, a sensação é de estranheza ou de surpresa: “como assim um negro no comando?”.

É preciso apontar onde existe racismo e não camuflar as atitudes racistas como pequenos tropeços.

Em entrevista à BBC Brasil, o sociólogo da UNB Emerson Rocha, que desenvolveu um estudo com base em dados do IBGE sobre o negro no mundo dos ricos, aponta que à medida que os negros ascendem, novas formas de discriminação vão ganhando espaço. Segundo ele, por mais que seja diplomado e tenha uma carreira estruturada, ele sempre será um negro – talvez de primeira linha, mas ainda assim um negro. Situação que fica evidente com a declaração do ministro Barroso.

Sabemos das dificuldades no mercado de trabalho e no meio acadêmico. Por mais que o percentual de negros nas universidade tenha dobrado, graças a políticas afirmativas como as cotas e o ProUni, ele continua sendo menor que a metade de brancos universitários. O negro continua ganhando menos. A renda do branco é mais que o dobro que a do negro. Esse retrato se dá exatamente por conta desse racismo inconsciente e sutil manifestado por Barroso.

Por conta disso, é preciso mostrar onde existe racismo e não camuflar as atitudes racistas como pequenos tropeços. Mesmo que vindo de pessoas que majoritariamente apresentam um discurso progressista como o ministro Barroso ou no recente caso envolvendo a professora escritora Elika Takimoto e a política de cotas no Cefet. Apontar todo e qualquer racismo é um movimento necessário para enfrentá-lo em uma sociedade que insiste em negá-lo.

No Brasil, o ódio aos imigrantes

fonte – https://www.cartacapital.com.br/revista/953/no-brasil-o-odio-aos-imigrantes
No país do racismo cordial, cresce o repúdio às políticas de imigração
Luciano Pontes/Secom/Fotos Públicas
Haitianos

“Imigrantes haitianos e de países africanos, além de sofrerem com xenofobia, são vítimas de racismo frequentes no país do racismo cordial”

A cada um minuto, 24 pessoas são forçadas a abandonar suas casas, trabalhos, famílias e países para tentar sobreviver aos horrores e às perseguições relacionados à violação grave de direitos humanos por conflitos armados, questões de nacionalidade, raça, opinião política ou pertencimento a grupo social.

Essa é a realidade apresentada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), publicada no relatório anual Tendências Globais (Global Trends).

Ainda segundo o relatório, “o Brasil é signatário dos principais tratados internacionais de direitos humanos e é parte da Convenção das Nações Unidas de 1951 sobre o Estatuto dos Refugiados e do seu Protocolo de 1967”.

O País promulgou, em julho de 1997, a sua lei de refúgio (nº 9.474/97), contemplando os principais instrumentos regionais e internacionais sobre o tema. A lei adota a definição ampliada de refugiado estabelecida na Declaração de Cartagena de 1984, que considera a “violação generalizada de direitos humanos” como uma das causas de reconhecimento da condição de refugiado.

Em maio de 2002, o País ratificou a Convenção das Nações Unidas de 1954 sobre o Estatuto dos Apátridas e, em outubro de 2007, iniciou seu processo de adesão à Convenção para Redução dos Casos de Apatridia, da ONU, de 1961.

Em São Paulo, na gestão de Fernando Haddad (PT-SP), foi criada uma coordenação de políticas para imigrantes dentro da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania e desenvolvida uma PL de Políticas para Imigrantes. Porém, o ódio a esses grupos vem crescendo.

No dia 2 de maio, por exemplo, aconteceu uma Marcha Anti-Imigração na Avenida Paulista, em São Paulo, demostrando o quanto o discurso de ódio em relação a povos já marginalizados se acentua no País.

Na ocasião, imigrantes palestinos que se opuseram à marcha foram agredidos e detidos pela polícia. É inadmissível que as pessoas defendam a marcha anti-imigrante com o argumento de liberdade de expressão ou como se isso não culminasse, de fato, em violência.

Há uma grande diferença entre liberdade de expressão e discurso de ódio. Liberdade não é um direito absoluto. Como diz Judith Butler: “A linguagem opressora do discurso de ódio não é mera representação de uma ideia odiosa; ela é em si mesma uma conduta violenta, que visa submeter o outro, desconstruindo sua própria condição de sujeito, arrancando-o do seu contexto e colocando-o em outro onde paira a ameaça de uma violência real a ser cometida – uma verdadeira ameaça, por certo”.

Imigrantes haitianos e de países africanos, além de sofrerem com xenofobia, são vítimas de racismo frequentes no país do racismo cordial.

Com o objetivo de garantir oportunidades e cidadania para essas comunidades, um grupo de estudantes de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) criou o Memorial Digital do Refugiado (MemoRef), projeto que tem como objetivo realizar um conjunto de ações culturais, que resulta em um trabalho social humanizado.

O projeto é desenvolvido com aulas de língua e cultura brasileira, oficinas multiculturais e a elaboração do MemoRef. Também conta com atividades culturais que promovem a integração da universidade entre si e com os alunos refugiados.

São realizadas oficinas de grupos culturais oriundos da própria universidade que possuem relação com a cultura brasileira, como uma oficina de ritmos e outras ministradas pelos próprios alunos, como um ateliê da cultura árabe e de ritmos latinos.

Há também aulas gratuitas de língua portuguesa como meio principal de inserção social e cultural para os refugiados. Com a falta de ferramental específico para esse público, foi desenvolvido o “Recomeçar”, primeiro material didático que atenta para a situação do refugiado, disponível gratuitamente na internet e utilizado em outros projetos em todo o território brasileiro.

“A barreira linguística é o primeiro e principal obstáculo que refugiados encontram ao chegar ao Brasil. Sem o conhecimento linguístico, atividades cotidianas como pedir informação, fazer compras ou trabalhar tornam-se quase impossíveis. Assim, o acesso à língua não é um fim, mas o principal meio de inclusão na sociedade.

Além disso, ser refugiado é uma condição. Ninguém nasce sabendo ser refugiado. Ninguém está preparado para abandonar tudo e chegar em um país tendo total conhecimento das leis que o rege. Por isso o projeto é tão importante”, disseram os organizadores.

Dificuldades da conscientização

Artigo de Roberto Naime

Ainda mais hoje em dia, quando marketing verde facilmente se transforma em “greenwashing” e boa parte dos procedimentos e atitudes sempre carregam muito simbolismo e representatividade, utilizados em formulações e polimentos de imagens institucionais.

William Gates é um ícone. Para além de gênio ou visionário. Não é intenção desta rápida dissertação, contestar qualquer fato quanto a isto. Todas as outras fundações que tem representatividade social extensiva pertencem a figuras quase mitologias. As fundações Rockfeller, Soros, Buffen e outras apresentam procedimentos análogos e similares aos da fundação Gates, então as observações são genéricas para todas as instituições.

Todas as fundações, tem retórica muito incisiva e de acordo com as visões do primeiro mundo, clamando pela realização de economia de baixo carbono. Mas parece que se materializam práticas e atitudes polêmicas. Parece mais fácil para estes agentes pensar que artifícios de geoengenharia podem, de forma isolada e fragmentada, impulsionar resoluções para a questão climática sem necessitar resolver as graves questões de equidade entre as nações.

Todas estas grandes fundações parecem estar envolvidas em cenários relativamente confusos, para não classificar como promíscuos. Interesses políticos se mesclam com interesses financeiros e imposições de imagens. Discernimentos ambientais prevalecem em determinados momentos, e conjunturas negociais parecem se impor em outras oportunidades.

Se é difícil para personagens do maior relevo intelectual praticarem atitudes que se possa atribuir a mais pura conscientização, imagine para as populações mais comuns. Por isto se fala nas dificuldades apresentadas pela conscientização.

Por isso, se compreende bem as contradições das práticas cotidianas. Mesmo com o posicionamento da Fundação de Bill e Melinda Gates de que o aquecimento global representa uma ameaça imediata séria e relevante, a instituição de caridade detém ao menos U$1.4 bilhão de investimentos nas companhias de combustível fóssil ou de hidrocarbonetos, que encabeçam a crise climática, estimulando acusações de caracterizar comportamentos hipócritas.

Não se acredita que sejam caracterizações de hipocrisias e sim emaranhados de redes e intrincadas relações como já comentado, e em molduras onde certamente faltam transparência e translucidez. Em tradução de Isabela Palhares, matérias jornalísticas registram grandes contradições entre os discursos e as práticas cotidianas. Isto ocorre em todas as instituições, e notadamente na fundação Gates, que atrai a atenção por ser a maior fundação de caridade e responsabilidade social do planeta.

O jornal Guardian, assim como o Welcome Trust, lançou uma campanha chamando a Fundação Bill e Melinda Gates, para “remover seus investimentos das 200 maiores companhias de combustível fóssil, e de quaisquer fundos agregados que incluam títulos públicos de combustível fóssil e também laços corporativos, no intervalo de cinco anos.”

A campanha é parte de uma iniciativa global pelo desinvestimento em combustível fóssil, estratégia para deslegitimar o financiamento das indústrias, que se acredita que encabeçam o aquecimento global. Em resposta a tais esforços, mais de 200 instituições já se comprometeram com o desinvestimento, desde faculdades e universidades até o Conselho Mundial de Igrejas e a Associação Médica Britânica. Universidades da África do Sul à Nova Zelândia também já aderiram à campanha.

“Esse desinvestimento significa alinhar nossas finanças com nossos valores e desafiar o poder político de uma indústria que ameaça indígenas, poluem nossa política e nos direcionam a uma catástrofe climática,” disse Adam Zuckerman, ativista ambiental e de direitos humanos do Amazon Watch.

Um estudo publicado ainda esse ano no jornal “Nature’, descobriu que, para combater o desastre climático, a maioria dos depósitos de combustíveis fóssil no planeta incluindo 92% do carvão dos EUA, todo gás e petróleo do Ártico, e a maioria das areias asfálticas do Canadá, devem continuar enterrados nas profundezas dos terrenos.

Mas o que seria principal e mais relevante é que as fundações já citadas pudessem buscar redefinições funcionais e se posicionarem em cenários mais transparentes e bem definidos.

Conciliando discursos com práticas e deixando de terem a pretensão de solucionar os desafios por conta própria, usando artifícios fragmentados para interferir em questões de profunda veiculação ecossistêmica.

E parando de conceber que sua bem sustentada operação financeira possa substituir as necessárias inter-relações políticas e possibilitar suplantar a cada vez mais evidente necessidade de equidade entre os povos e as nações, na busca permanente de equilíbrio ecossistêmico e homeostase planetária.

Referência:
http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Meio-Ambiente/Apesar-da-retorica-por-mudanca-climatica-Fundacao-Gates-investe-U$-1-4-bilhao-em-combustivel-fossil-/3/33122

 

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017

“Dificuldades da conscientização, artigo de Roberto Naime,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 11/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/11/dificuldades-da-conscientizacao-artigo-de-roberto-naime/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Por que os negros não comemoram o 13 de maio, dia da abolição da escravatura?

leia direto na fonte:  http://www.geledes.org.br/por-que-os-negros-nao-comemoram-o-13-de-maio-dia-da-abolicao-da-escravatura/#gs.mB939nA

 A Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel em 1888

Do iG

A Lei Áurea, que aboliu oficialmente a escravidão no Brasil, foi assinada em 13 de maio de 1888. A data, no entanto, não é comemorada pelo movimento negro. A razão é o tratamento dispensado aos que se tornaram ex-escravos no País. “Naquele momento, faltou criar as condições para que a população negra pudesse ter um tipo de inserção mais digna na sociedade”, disse Luiza Bairros, ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).

Após o fim da escravidão, de acordo com o sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), em sua obra “A integração do negro na sociedade de classes”, de 1964, as classes dominantes não contribuíram para a inserção dos ex-escravos no novo formato de trabalho.

“Os senhores foram eximidos da responsabilidade pela manutenção e segurança dos libertos, sem que o Estado, a Igreja ou qualquer outra instituição assumisse encargos especiais, que tivessem por objeto prepará-los para o novo regime de organização da vida e do trabalho”, diz o texto.

De acordo com a Bairros, houve, então, um debate sobre a necessidade de prover algum recurso à população recém-saída da condição de escrava. Esse recurso, que seria o acesso à terra, importante para que as famílias iniciassem uma nova vida, não foi concedido aos negros. Mesmo o já precário espaço no mercado de trabalho que era ocupado por essa população passou a ser destinado a trabalhadores brancos ou estrangeiros, conforme Luiza Bairros.

Integrante da União de Negros pela Igualdade (Unegro), Alexandre Braga explica que “O 13 de maio entrou para o calendário da história do país, então não tem como negar o fato. Agora, para o movimento negro, essa data é algo a ser reelaborado, porque houve uma abolição formal, mas os negros continuaram excluídos do processo social”.

“Essa data é, desde o início dos anos 80, considerada pelo movimento negro como um dia nacional de luta contra o racismo. Exatamente para chamar atenção da sociedade para mostrar que a abolição legal da escravidão não garantiu condições reais de participação na sociedade para a população negra no Brasil”, completou a ex-ministra.

Ela defende, porém, que as mudanças nesse cenário de exclusão e discriminação estão acontecendo. “Nos últimos anos, o governo adotou um conjuntos de políticas sociais que, aliadas à política de valorização do salário mínimo, criou condições de aumento da renda na população negra”.

Inclusão do negro ainda é meta

 Apesar dessas políticas, tanto a ex-ministra quanto Braga entendem que ainda há muito por fazer.

O representante da Unegro cita algumas das expressões do racismo e da desigualdade, no país: “No Congresso, menos de 9% dos parlamentares são negros, enquanto que a população que se declara negra, no Brasil, chega a 51%. Estamos vendo também manifestações de racismo nos esportes, principalmente no futebol. Ainda temos muito a caminhar”.

“Ainda estamos tentando recuperar a forma traumática como essa abolição aconteceu, deixando a população negra à sua própria sorte. Como os negros partiram de um patamar muito baixo, teremos que acelerar esse processo com ações afirmativas, para que possamos sentir uma diminuição mais significativa das desigualdades”, explicou Bairros.

 

O NOVO MUNDO QUE TARDA A NASCER

leia no original:  http://diplomatique.org.br/o-novo-mundo-que-tarda-a-nascer/

A situação atual parece desesperadora. A ofensiva das direitas e das extremas direitas ocupa o espaço e as mentes. Ela se exibe nos meios de comunicação e pretende expressar a direitização das sociedades. Contudo, o jogo ainda está sendo jogado. As sociedades resistem e as contradições estão atuando; são elas que determinam o futuro

por: Gustave Massiah

novo mundo

12 de fevereiro de 2017

Para compreender a conjuntura atual, vamos partir novamente da citação de Antonio Gramsci em Cadernos do cárcere: “O velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”.
Nesse contexto, a estratégia dos movimentos sociais que querem carregar um projeto de emancipação deve articular uma resposta às demandas urgentes com a construção de um projeto alternativo de futuro. Eles devem ao mesmo tempo lutar contra os monstros e se inscrever na construção de um mundo novo.

O velho mundo morre
Os choques financeiros de 2008 confirmam a hipótese do esgotamento do neoliberalismo. O aquecimento climático, a diminuição da diversidade e as poluições globais confirmam o desgaste do produtivismo. Hipóteses são aventadas sobre o esgotamento do capitalismo como modo de produção hegemônica. Entenda-se que aquilo que sucederia ao capitalismo não seria forçosamente um modo justo e equitativo; a história não é escrita e não é linear.
No Fórum Social Mundial de Belém, em 2009, uma convergência de movimentos – de mulheres, camponeses, ecologistas e dos povos da Amazônia – expressou fortemente um novo ponto de vista. Eles afirmaram que, se a questão é redefinir as relações entre a espécie humana e a natureza, não se trata somente de uma crise do neoliberalismo ou do capitalismo, mas de uma crise da civilização, aquela que há cinco séculos colocou em primeiro lugar a modernidade ocidental e levou a algumas das formas da ciência contemporânea.
A situação é marcada pela permanência das contradições. A crise estrutural articula cinco contradições principais: econômica e social, com as desigualdades sociais e as discriminações; ecológica, com a destruição dos ecossistemas, a limitação da biodiversidade, a mudança climática e a colocação em perigo do ecossistema planetário; geopolítica, com as guerras descentralizadas e a ascensão de novas potências; ideológica, com o questionamento da democracia, as arremetidas xenófobas e racistas; e política, com a corrupção nascida da fusão do político e do financeiro, que alimenta a desconfiança em relação ao político e acaba por abolir sua autonomia. A direita e a extrema direita encampam uma batalha pela hegemonia cultural desde o final dos anos 1970, contra os direitos fundamentais e particularmente contra a igualdade e a solidariedade, pelas ideologias de segurança e pela desqualificação ampliada pós-1989 dos projetos progressistas. Elas realizaram ofensivas contra o trabalho por meio da precarização generalizada; contra o Estado social por meio da mercantilização, da privatização e da corrupção generalizada das classes políticas; e pela subordinação do digital à lógica da financeirização.

Os novos monstros
A partir de 2011, os movimentos quase insurrecionais de ocupação das praças testemunham a resposta dos povos à dominação da oligarquia. A partir de 2013, a arrogância neoliberal fica novamente por cima e confirma as tendências que emergiram desde o final dos anos 1970. As políticas dominantes, de austeridade e de ajuste estrutural, foram reafirmadas. A desestabilização, as guerras, as repressões violentas e a instrumentalização do terrorismo se impõem em todas as regiões. Correntes ideológicas reacionárias e populismos de extrema direita são cada vez mais ativos. Os racismos e os nacionalismos extremos alimentam as manifestações contra estrangeiros e migrantes. Eles assumem formas específicas, como o neoconservadorismo libertário nos Estados Unidos, as extremas direitas e as diversas formas de nacional-socialismo na Europa, o extremismo jihadista armado, as ditaduras e as monarquias do petróleo, o hinduísmo extremo etc. Mas, a médio prazo, o jogo ainda está sendo jogado.
É preciso interrogar-se sobre esses monstros e as razões de sua emergência. Eles se apoiam em medos em torno de dois vetores principais e complementares: a xenofobia e o ódio aos estrangeiros; e os racismos em suas diferentes formas. É preciso destacar uma ofensiva em especial que as formas de islamofobia assumem; depois da queda do Muro de Berlim, o “islã” tendo sido erigido como inimigo principal no “choque das civilizações”.
Essa situação resulta de uma ofensiva conduzida com constância há quarenta anos pelas direitas extremas para conquistar a hegemonia cultural. Ela se detém principalmente em dois valores. Contra a igualdade, afirmando de início que as desigualdades são naturais; e pelas ideologias de segurança, considerando que apenas a repressão e a restrição das liberdades podem garantir a segurança.
O endurecimento das contradições e as tensões sociais explicam o surgimento das formas extremas de enfrentamento. Tal endurecimento começa pelo da luta de classes e se estende a todas as relações sociais. O bilionário Warren Buffet declara tranquilamente que “alguns duvidam da existência de uma luta de classes; com certeza existe uma luta de classes, e é a minha que a está vencendo”. A financeirização aprofundou as desigualdades, e a casta dos muito ricos ficou mais restrita. As chamadas classes médias incharam, mas a precarização atinge uma parte delas e a torna insegura.
O desejo de acumulação de riquezas e de poderes é insaciável. Diante desse excesso, assistimos a um refúgio no retorno do religioso esperando que ele conseguirá amenizar as derivas insuportáveis. A confiança numa regulação pelo Estado é fortemente esperada. A classe financeira conseguiu subordinar os Estados. E o projeto de socialismo de Estado se afundou nas nomenclaturas e nas novas oligarquias. A situação é instável. Como acreditar que um mundo onde 62 pessoas, das quais 53 homens e nove mulheres, possuem o mesmo que 3,5 bilhões de indivíduos possa durar indefinidamente? A vontade de impor a reprodução da situação e o medo das revoltas se traduzem pelo crescimento da violência, por repressões e guerras.
No entanto, existe também outra razão para a situação: é o medo do nascimento de um novo mundo. Os novos monstros sabem que seu mundo está sendo questionado; para salvaguardar suas posições e seus privilégios, instrumentalizam o medo do futuro, o temor da perturbação das sociedades que vai marcar o futuro.

O novo mundo que tarda a nascer
Qual é esse novo mundo que tarda a nascer? Um novo mundo que pode amedrontar os ricos e que os movimentos sociais hesitam em perceber.
A proposta é estar atento às revoluções em curso. Há várias, mas elas estão inacabadas. E suas consequências são incertas. Nada permite afirmar que não serão esmagadas, desviadas ou revertidas. No entanto, elas sacodem o mundo; são também portadoras de esperanças e marcam o futuro e o presente. São revoluções de longa duração, cujos efeitos se inscrevem em várias gerações.
Para ilustrar essa proposição, vamos partir de cinco revoluções em curso, que estão, vale lembrar, inacabadas. Trata-se da revolução dos direitos das mulheres, da revolução dos direitos dos povos, da revolução ecológica, da revolução digital e da revolução do povoamento do planeta.
A revolução dos direitos das mulheres é a mais impressionante. Ela questiona relações milenares. As lutas pelos direitos das mulheres sempre existiram. O reconhecimento avançou enormemente nos últimos quarenta anos. Medimos progressivamente as turbulências que essa luta provoca. A revolução está inacabada e engendra resistências bastante violentas. Pode-se medir isso pela violência das reações de certos Estados a qualquer ideia de libertação das mulheres e pela resistência em todas as sociedades ao questionamento do patriarcado. A revolução dos direitos das mulheres já provocou grande mudança na estratégia dos movimentos; é a recusa a subordinar a luta contra a opressão das mulheres a outras. A recusa de considerar sua reivindicação uma contradição secundária foi retomada por todos os movimentos e traduz o reconhecimento da diversidade dos movimentos sociais e cidadãos.
A revolução dos direitos dos povos também é significativa. Ela está inacabada e envolvida com as tentativas de reconfiguração das relações imperialistas. A segunda fase da descolonização começou. A primeira, a da independência dos Estados, atingiu seu limite. A segunda é a da libertação dos povos. Ela coloca novas questões relativas aos direitos dos povos que assumem diferentes denominações; indígenas, primeiros, autóctones. Estas renovam a questão das identidades com a irrupção das identidades múltiplas, como as qualificou o poeta Édouard Glissant. Ela questiona a relação entre as liberdades individuais e as coletivas.
A revolução ecológica está em seu início. Ela já abala a compreensão das transformações e do senso da mudança e introduz a noção do tempo finito e a dos limites em relação ao crescimento ilimitado. Questiona todas as concepções do desenvolvimento, da produção e do consumo. Recoloca a discussão sobre a relação entre a espécie humana e a natureza. Discute os limites do ecossistema planetário. A revolução ecológica é uma revolução filosófica que abala as certezas mais bem estabelecidas.
A revolução do digital é parte determinante de uma nova revolução científica e técnica, combinada sobretudo com a das biotecnologias. Ela dá ensejo a fortes contradições sobre as formas de produção, de trabalho e de reprodução. Impacta a cultura começando a sacudir campos tão vitais quanto os da linguagem e da escrita. De momento, a financeirização conseguiu instrumentalizar as turbulências do digital, mas as contradições permanecem abertas e profundas.
A revolução do povoamento do planeta está em gestação. Todos os grandes abalos históricos têm consequências no povoamento do planeta. Considerar isso permite evitar qualificar as questões das migrações e dos refugiados como uma crise migratória que se poderia isolar e que acabaria por ser absorvida. As mudanças no povoamento do planeta prolongam as rupturas precedentes. A da urbanização e da estrutura urbana mundial, com a multiplicação dos bairros precários. A mudança climática não vai apenas acentuar as migrações ambientais. A elevação do nível da água do mar poderá chegar a 1 metro no final do século. Segundo as Nações Unidas, 60% das 450 áreas urbanas com mais de 1 milhão de habitantes em 2011 – ou seja, cerca de 900 milhões de indivíduos – estariam expostas a um risco natural elevado. A escolarização das sociedades modifica os fluxos migratórios. Os diplomados que partem permanecem em contato com sua geração por meio da internet. Os outros alimentam os desempregados diplomados, nova aliança entre as crianças das camadas populares e as das camadas médias. Os movimentos sociais tentam articular as lutas pelos direitos à liberdade de circulação e de instalação com aquelas pelo direito de permanecer, viver e trabalhar no país. Eles verificam que o desejo de ficar é indissociável do direito de partir. A própria noção de identidade é questionada pela evolução dos territórios e pela mestiçagem das culturas.

O necessário pensamento estratégico
Os movimentos sociais e cidadãos devem adaptar sua estratégia à nova situação. Todo pensamento estratégico se constrói sobre a articulação entre a urgência e a construção de um projeto alternativo. A urgência é a resistência aos novos monstros. Mas, para resistir, um projeto alternativo se faz necessário.
O projeto alternativo começa a emergir. Desde 2009, no Fórum Social Mundial de Belém, ao qual nos referimos anteriormente, a proposta que emerge é a de uma transição ecológica, social, democrática e geopolítica. Essa proposta combina a tomada de consciência sobre as grandes contradições e a intuição em relação às grandes revoluções inacabadas em curso.
É preciso insistir na ideia de transição, que é com frequência utilizada contrariamente à lógica, como uma proposta de temporização. A proposta de transição não se opõe à ideia de revolução; ela está em ruptura com uma das concepções da revolução, a do limbo entre a velha e a nova sociedade; ela inscreve a revolução no tempo longo e descontínuo.
O projeto alternativo sublinha que novas relações sociais emergem já no mundo atual, como as relações sociais capitalistas emergiram, de maneira contraditória e inacabada, no período feudal. Essa concepção confere um novo sentido às práticas alternativas que são buscadas e que permitem, também de maneira inacabada, definir e preparar um projeto alternativo.
Uma das dificuldades deste período tem a ver com essa articulação entre a resistência e o projeto alternativo. A luta de classes é, sem contestação, o elemento determinante da resistência e da transformação. É preciso ainda redefinir a natureza das classes sociais, de sua relação e das lutas de classes. Na concepção dominante dos movimentos sociais, a revolução social deveria preceder e caracterizar as outras revoluções e liberações. A importância das cinco outras revoluções em curso questiona a revolução social, e o atraso da revolução social por sua vez questiona as outras revoluções.
Precisamos voltar à urgência e à resistência contra os monstros, sempre destacando a importância e a necessidade de construir um projeto alternativo. Não é de menor importância compreender como o medo de um novo mundo age sobre o surgimento dos monstros. Tomemos como exemplo um eleitor de Donald Trump, de classe média, branco, do interior dos Estados Unidos; olhando em torno de si, ele vê que os indígenas continuam lá, que os negros não suportam mais o racismo, que os latinos são cada vez mais numerosos e por vezes majoritários e que as mulheres não querem deixar de tomar posição. Ele acaba vendo que sua América sonhada não vai mais existir e está pronto a pegar em fuzis para atirar!
De fato, as sociedades resistem mais do que se pensa à direitização das elites e dos meios de comunicação. Podemos comprovar isso. Na Hungria, o referendo contra os estrangeiros não pôde ser validado, porque, apesar das pressões, apenas 37% dos húngaros foram votar na consulta. Na Polônia, as manifestações maciças fizeram recuar aqueles que queriam proibir qualquer tipo de aborto. Na França, dois terços se opuseram à revogação das leis para o casamento para todos. Uma pesquisa em cinco países europeus mostra que, dependendo da nação, 77% a 87% dos entrevistados são a favor de reforçar as leis contra as discriminações e que, apesar do delírio anti-imigrantes, 55% a 69% dos entrevistados são favoráveis à regularização daqueles que não têm documentação e disponham de um contrato de trabalho. Uma pesquisa da Anistia Internacional em 27 países mostrou que, apesar do discurso antirrefugiados, em vinte dos 27 países mais de 75% dos entrevistados são a favor de acolher os refugiados.
Quando elas podem se expressar, as sociedades são mais abertas e mais tolerantes do que o que querem fazer crer as correntes de extrema direita e os meios de comunicação que difundem suas ideias. Mas essa resistência não aparece, não se traduz por uma adesão a um projeto progressista, demonstrando a ausência de um projeto alternativo digno de credibilidade. É menos “a direita” que triunfa do que “a esquerda” que desmorona.
Precisamos, portanto, resistir no imediato, passo a passo, e aceitar se envolver a longo prazo. Essa resistência passa pela aliança mais ampla com todas aquelas e todos aqueles – e eles e elas são numerosos – que pensam que a igualdade vale mais que as desigualdades, que as liberdades individuais e coletivas devem ser ampliadas ao máximo, que as discriminações conduzem ao desastre, que a dominação leva à guerra, que é preciso salvar o planeta. Essa batalha sobre os valores passa pelo questionamento da hegemonia cultural do neoliberalismo, do capitalismo e do autoritarismo. Podemos demonstrar que resistir é criar. Para cada uma das revoluções inacabadas, por meio das mobilizações e das práticas alternativas, podemos lutar para evitar que sejam instrumentalizadas e sirvam para reforçar o poder de uma elite, antiga ou nova.
Os anos que estão por vir serão sem dúvida alguma muito difíceis, e as condições se mostrarão muito duras. Mas, na escala de uma geração, nada está jogado, tudo se torna possível.

Gustave Massiah é membro do conselho internacional do Fórum Social Mundial e do Centro de Pesquisa e de Informação para o Desenvolvimento (Crid/França).

“A solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca”

leia no original: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/201ca-solidariedade-antirracista-e-o-maior-medo-da-supremacia-branca201d
por Ingrid Matuokapublicado 28/03/2017 04h00, última modificação 28/03/2017 17h18
Gabriela Shimabuko, militante do movimento asiático, fala sobre como o mito da minoria modelo colabora para o racismo anti-negro
Reprodução/Facebook
Manifestação

‘Perigo Amarelo apoia o poder negro’, diz cartaz

Dentre os diversos mitos que existem no ocidente, um deles envolve os japoneses e nipo-brasileiros, a chamada “minoria modelo”, que migrou principalmente para o Brasil e para os Estados Unidos em navios, geralmente fugindo da guerra, e que prosperou.

A história não passaria de uma generalização superficial e aparentemente inocente, não fosse um porém: ela é usada para reforçar o racismo contra negros.

Gabriela Shimabuko, militante do movimento asiático e autora do texto “Anti-negritude é global: a participação asiática no racismo anti-negro”, explica a questão e discute formas de combater esse meio de opressão.

CartaCapital: O que é uma “minoria modelo”? Quem faz parte dela?

Gabriela Shimabuko: A minoria modelo, no ocidente, é um mito dialético do Perigo Amarelo, que são os asiáticos principalmente do extremo oriente vistos como ameaça econômica por terem muita mão de obra e recursos. A minoria modelo não existe sem o mito do Perigo Amarelo, porque ela surge quando o extremo oriente é uma ameaça direta às civilizações do ocidente.

Trata-se de um estereótipo, mas que não é real, materialmente não existe. Seria o “japonês da USP”, alguém bom no âmbito acadêmico, econômico, bem educado.

Fazem parte dela principalmente japoneses e chineses. Como a imigração coreana está aumentando no Brasil, eles também entram. Aqui no país não tem uma migração indiana ou tailandesa intensa, então muitas vezes não incluímos o sudeste asiático.

CC: Essas pessoas se sentem pressionadas a seguir este padrão? Isso é prejudicial a elas?

GS: Nos Estados Unidos já existem estudos sobre isso. O mito da minoria modelo afeta a autoestima de crianças asiáticas de uma forma negativa. Quando somos bons, é o esperado. Quando somos ruins, é o que marca, dizem: “você é japonesa mas não sabe matemática”.

Isso também faz com que professores sejam mais tendenciosos no tratamento dos alunos. A criança que tem dificuldade já sente vergonha porque perante a família ela é uma decepção, e se sente excluída da ajuda dos professores porque o mínimo que se espera é que ela seja excelente.

CC: Ao mesmo tempo em que tem pontos negativos, fazer parte de uma minoria modelo pode ser um privilégio?

GS: No contexto brasileiro, o que a gente enfrenta são micro agressões, que individualmente são prejudiciais, mas que estruturalmente podem nos beneficiar.

Por mais que sejamos racializados, não somos perseguidos pela polícia, não precisamos ficar com medo de alguém preferir uma pessoa branca com o mesmo currículo que o nosso.

Também é preciso um recorte de gênero e imigração. O nipo-brasileiro, em certas ocasiões, está na mesma condição de privilégio do branco, mas um sino-brasileiro, por exemplo, vai enfrentar obstáculos a mais, porque ainda se lê a imigração chinesa como ilegal.

CC: De que forma a existência dessa “minoria modelo” reforça o racismo anti-negro?

GS: Lembro claramente de uma imagem que vi ano passado dizendo que os japoneses também vieram para o Brasil à força em navios, em condições sub-humanas, para trabalhar em condições análogas à escravidão. Em seguida, comparava o sucesso dos nipo-brasileiros com o dos negros.

Isso reforça o estereótipo. Enquanto se coloca os asiáticos como uma minoria esforçada, estudiosa, e que consegue ascensão econômica e social sem assistencialismo, o negro fica do outro lado, como oposição. Isso tem um gosto de determinismo biológico, racial, sendo usado em pleno século XXI.

Então usam duas histórias completamente diferentes para argumentar a favor da democracia racial e contra cotas e ações afirmativas, como se realmente não existe racismo estrutural no Brasil.

Hoje, isso também acontece com muçulmanos. Estamos em uma época em que a islamofobia é o maior instrumento para pavimentar o totalitarismo. Aqui no Brasil esse discurso não é tão pronunciado, mas nos EUA é mais forte.

Civil Rights
Da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos surgiu um laço de solidariedade entre asiáticos e negros

CC: O que essa “minoria modelo” pode fazer para, no mínimo, não reforçar o racismo anti-negro?

GS: É reconhecer privilégios. O movimento asiático é fundamentado em política identitária. O perigo disso é não fazer um recorte de classe e de gênero. Em relação à anti-negritude, é reconhecer privilégios.

Isso significa não tentar equiparar nenhuma das lutas, em nenhum aspecto, e o mais importante é o diálogo dentro das nossas comunidades, que muitas vezes são muito conservadoras. É dialogar para tentar desmantelar a anti-negritude de dentro para fora.

CC: Historicamente, negros e japoneses estiveram juntos na luta pelos direitos civis americanos. A ligação surgiu aí?

GS: Vem daí, com certeza, porque na época que começou o movimento do Perigo Amarelo com os Panteras Negras, foi depois da guerra, depois do internamento forçado de japoneses e nipo-estadunidenses, então começaram a questionar isso, bem como a exclusão a asiáticos que ocorreu nos EUA. Foi então que começaram a criar essa solidariedade, e é lógico que a solidariedade antirracista é o maior medo da supremacia branca.

A minoria modelo existe antes disso, mas ela se reforça, passa a ser essencial no discurso da branquitude para tentar dividir o movimento. Isso, aliado com várias outras políticas, como a guerra às drogas, influenciam muito na desestruturação dos movimentos e das comunidades.

CC: No Japão, mesmo, alguns lugares e seus descendentes são menosprezados, como Okinawa. Por que isso acontece?

GS: Okinawa é étnica e culturalmente diferente do Japão. Eu não sei se é uma comparação que extrapola, mas no contexto brasileiro, para as pessoas entenderem, eu digo que okinawano é tão japonês quanto um Guarani Kaiowá é português.

Tanto o território okinawano, quanto o norte do Japão, são territórios indígenas que sofreram um processo de colonização. Em 1888, aboliu-se a escravidão no Brasil. Apenas dois anos antes Okinawa foi anexado politicamente ao Japão. É muito recente.

Lá, o preconceito é fundamentado principalmente na língua, porque o japonês de Okinawa é quase um dialeto, além de terem outro idioma próprio.

Pela primeira vez desde 2004, IDH brasileiro estaciona no ranking da ONU

leia no original: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/pela-primeira-vez-em-cinco-anos-idh-brasileiro-estaciona-no-ranking-de-desenvolvimento-da-onu

 

por Renan Truffipublicado 21/03/2017 11h00, última modificação 22/03/2017 10h03
Dados mostram Brasil na posição 79ª, com IDH de 0,754, o mesmo patamar de 2014
Edilson Rodrigues / Agência Senado
Mulheres

Quando moderado pela desigualdade de gênero, o IDH do Brasil cai mais ainda

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou, nesta terça-feira 21, a atualização do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 188 países e territórios para o ano de 2015. Os dados constam do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2016 e colocam o Brasil em alerta. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez desde 2004, o IDH brasileiro ficou estacionado na mesma posição, a 79ª do ranking, com IDH de 0,754, o mesmo patamar de 2014.

Anteriormente, a equipe do PNUD no Brasil havia divulgado que a estagnação era algo inédito para os últimos cincos anos. No entanto, os cálculos do IDH para os anos anteriores foram refeitos e o dado foi retificado. Na verdade, há 11 anos o Brasil não registrava uma um índice de desenvolvimento humano igual ou menor que o do ano anterior. A coordenadora do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional, Andréa Bolzon, disse que essa constatação representa uma “luz amarela” para o País.

Calculado desde 1990, o IDH é uma medida composta de indicadores de saúde, educação e renda, que varia entre 0 (valor mínimo) e 1 (valor máximo). Quanto mais próximo de 1, maior é o índice de desenvolvimento do país. De 1990 a 2014, o Brasil vinha apresentando um crescimento contínuo e “consistente”, de acordo com nota técnica feita pelo PNUD no País. Nesse período, saiu de um IDH de 0,611 para o atual 0,745, um aumento de 23,4%. Os crescimentos mais vertiginosos foram registrados, justamente, entre os anos de 2012 e 2014.

A queda da renda bruta per capita parece ter sido o principal fator para que o País interrompesse a escalada de desenvolvimento humano. Dos principais índices que compõe o IDH, apenas o Rendimento Nacional Bruto caiu de 2014 para 2015, voltando a um patamar similar ao registrado pelo PNUD em 2010.

Os outros índices continuam em crescimento: expectativa de vida ao nascer, média de anos de estudo e expectativa de anos de estudo. Com a estagnação, o Brasil continua sendo apenas o 5º país com maior IDH da América do Sul, atrás de Chile, Argentina, Uruguai e Venezuela, nessa ordem.

A estagnação coloca o Brasil num pequeno grupo de 16 países que também não conseguiram elevar o IDH, entre eles estão Iraque, Irã, Afeganistão, Líbano e até a pequena ilha de Santa Lúcia, no Caribe. A maior parte das nações, 159 países no total, tiveram aumento do índice de desenvolvimento humano em 2015. Outros 13 países registraram queda do IDH, mas muitas são nações que estão em guerra, como Ucrânia e Líbia, o que ajuda a explicar o resultado.

Em entrevista coletiva em Brasília, o coordenador residente do Sistema ONU, Niky Fabiancic, elogiou políticas de proteção social aplicadas nos últimos anos no País, como o Benefício Assistencial ao Idoso, o Cadastro Único e o sistema de cotas na universidade, mas alertou para algumas questões em debate atualmente. “No cenário brasileiro atual, muitos assuntos são urgentes, como a questão da pobreza, do desemprego e do crescimento econômico. Além disso, estamos atentos as propostas de reforma do ensino médio, da previdência, trabalhista e tributária”.

O resultado brasileiro é ainda pior quando o IDH é ajustado à desigualdade do País. Isso porque o PNUD também calcula um índice, para cada nação, que leva em conta a diferença entre ricos e pobres nas áreas de saúde, educação e renda. Nesse recorte, o Brasil cai 19 posições, o 3º que mais sofre com a queda, empatando com Coreia do Sul e Panamá. A desigualdade brasileira só não é maior do que a do Irã, que caiu 40 posições, e de Botsuana, que perdeu 23 postos nesse ranking.

Em relação ao Coeficiente de Gini (2010-2015) – instrumento que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo e aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos – o Brasil é o quarto pior da América Latina e Caribe, atrás somente da Haiti, Colômbia e Paraguai. Para se ter uma ideia, o relatório aponta que o Brasil acumula 37% de desigualdade na renda, número superior à média da própria América Latina e de países do Caribe (34,9%). A média mundial também é inferior à brasileira: 23,8% de igualdade na renda.

Segundo Andréa Bolzon, não fossem as políticas de proteção social, o impacto da crise econômica sobre o IDH brasileiro seria ainda maior. “Não podemos nos gabar de ter um excelente piso de proteção social, mas temos um piso de proteção social. Isso explica o fato da gente não estar numa situação pior do que a gente poderia estar. A questão agora é não retroceder mais”, afirma.

Há ainda um outro indicador, elaborado a partir do IDH, que leva em conta a desigualdade de gênero nos países avaliados. O Índice de Desigualdade de Gênero (IDgG) contabiliza, principalmente, três aspectos para determinar o valor de cada nação: saúde reprodutiva, empoderamento e atividade econômico entre homens e mulheres. Nesse critério, o Brasil tem valor de 0,414, o que garante a 92º lugar entre 159 países analisados.

Um aspecto que chama atenção é a questão da representatividade feminina no Parlamento. Quando comparado com outros países, o Brasil tem menos mulheres no Legislativo do que o país com menor IDH do mundo, a República Centro-Africana. Segundo o relatório, apenas 10,8% dos assentos no Parlamento brasileiro não estão com homens, enquanto que as mulheres ocupam cerca de 12% das cadeiras no país africano.

Apesar disso, o relatório aponta a Lei Maria da Penha como exemplo de boas práticas. “Países onde o Estado de Direito é aplicado também têm mais leis de igualdade de gênero. Tribunais especializados que lidam com atos de violência contra mulheres podem ajudar a proporcionar uma ação legal eficaz. Tribunais de violência doméstica e família foram criados no Brasil por meio da Lei Maria da Penha”, explica o relatório.