Archive for the ‘Sociedade’ Category

O Jair que há em nós

O Jair que há em nós

Por controversia.com.br Ver Original

Ivan Lago – O Brasil levará décadas para compreender o que aconteceu naquele nebuloso ano de 2018, quando seus eleitores escolheram, para presidir o país, Jair Bolsonaro. Capitão do Exército expulso da corporação por organização de ato terrorista; deputado de sete mandatos conhecido não pelos dois projetos de lei que conseguiu aprovar em 28 anos, mas pelas maquinações do submundo que incluem denúncias de “rachadinha”, contratação de parentes e envolvimento com milícias; ganhador do troféu de campeão nacional da escatologia, da falta de educação e das ofensas de todos os matizes de preconceito que se pode listar.

Embora seu discurso seja de negação da “velha política”, Bolsonaro, na verdade, representa não sua negação, mas o que há de pior nela. Ele é a materialização do lado mais nefasto, mais autoritário e mais inescrupuloso do sistema político brasileiro. Mas – e esse é o ponto que quero discutir hoje – ele está longe de ser algo surgido do nada ou brotado do chão pisoteado pela negação da política, alimentada nos anos que antecederam as eleições.

Pelo contrário, como pesquisador das relações entre cultura e comportamento político, estou cada vez mais convencido de que Bolsonaro é uma expressão bastante fiel do brasileiro médio, um retrato do modo de pensar o mundo, a sociedade e a política que caracteriza o típico cidadão do nosso país.

Quando me refiro ao “brasileiro médio”, obviamente não estou tratando da imagem romantizada pela mídia e pelo imaginário popular, do brasileiro receptivo, criativo, solidário, divertido e “malandro”. Refiro-me à sua versão mais obscura e, infelizmente, mais realista segundo o que minhas pesquisas e minha experiência têm demonstrado.

No “mundo real” o brasileiro é preconceituoso, violento, analfabeto (nas letras, na política, na ciência… em quase tudo). É racista, machista, autoritário, interesseiro, moralista, cínico, fofoqueiro, desonesto.

Os avanços civilizatórios que o mundo viveu, especialmente a partir da segunda metade do século XX, inevitavelmente chegaram ao país. Se materializaram em legislações, em políticas públicas (de inclusão, de combate ao racismo e ao machismo, de criminalização do preconceito), em diretrizes educacionais para escolas e universidades. Mas, quando se trata de valores arraigados, é preciso muito mais para mudar padrões culturais de comportamento.

O machismo foi tornado crime, o que lhe reduz as manifestações públicas e abertas. Mas ele sobrevive no imaginário da população, no cotidiano da vida privada, nas relações afetivas e nos ambientes de trabalho, nas redes sociais, nos grupos de whatsapp, nas piadas diárias, nos comentários entre os amigos “de confiança”, nos pequenos grupos onde há certa garantia de que ninguém irá denunciá-lo.

O mesmo ocorre com o racismo, com o preconceito em relação aos pobres, aos nordestinos, aos homossexuais. Proibido de se manifestar, ele sobrevive internalizado, reprimido não por convicção decorrente de mudança cultural, mas por medo do flagrante que pode levar a punição. É por isso que o politicamente correto, por aqui, nunca foi expressão de conscientização, mas algo mal visto por “tolher a naturalidade do cotidiano”.

Se houve avanços – e eles são, sim, reais – nas relações de gênero, na inclusão de negros e homossexuais, foi menos por superação cultural do preconceito do que pela pressão exercida pelos instrumentos jurídicos e policiais.

Mas, como sempre ocorre quando um sentimento humano é reprimido, ele é armazenado de algum modo. Ele se acumula, infla e, um dia, encontrará um modo de extravasar. Como aquele desejo do menino piromaníaco que era obcecado pelo fogo e pela ideia de queimar tudo a sua volta, reprimido pelo controle dos pais e da sociedade. Reprimido por anos, um dia ele se manifesta num projeto profissional que faz do homem adulto um bombeiro, permitindo-lhe estar perto do fogo de uma forma socialmente aceitável.

Foi algo parecido que aconteceu com o “brasileiro médio”, com todos os seus preconceitos reprimidos e, a duras penas, escondidos, que viu em um candidato a Presidência da República essa possibilidade de extravasamento. Eis que ele tinha a possibilidade de escolher, como seu representante e líder máximo do país, alguém que podia ser e dizer tudo o que ele também pensa, mas que não pode expressar por ser um “cidadão comum”.

Agora esse “cidadão comum” tem voz. Ele de fato se sente representado pelo Presidente que ofende as mulheres, os homossexuais, os índios, os nordestinos. Ele tem a sensação de estar pessoalmente no poder quando vê o líder máximo da nação usar palavreado vulgar, frases mal formuladas, palavrões e ofensas para atacar quem pensa diferente. Ele se sente importante quando seu “mito” enaltece a ignorância, a falta de conhecimento, o senso comum e a violência verbal para difamar os cientistas, os professores, os artistas, os intelectuais, pois eles representam uma forma de ver o mundo que sua própria ignorância não permite compreender.

Esse cidadão se vê empoderado quando as lideranças políticas que ele elegeu negam os problemas ambientais, pois eles são anunciados por cientistas que ele próprio vê como inúteis e contrários às suas crenças religiosas. Sente um prazer profundo quando seu governante maior faz acusações moralistas contra desafetos, e quando prega a morte de “bandidos” e a destruição de todos os opositores.

Ao assistir o show de horrores diário produzido pelo “mito”, esse cidadão não é tocado pela aversão, pela vergonha alheia ou pela rejeição do que vê. Ao contrário, ele sente aflorar em si mesmo o Jair que vive dentro de cada um, que fala exatamente aquilo que ele próprio gostaria de dizer, que extravasa sua versão reprimida e escondida no submundo do seu eu mais profundo e mais verdadeiro.

O “brasileiro médio” não entende patavinas do sistema democrático e de como ele funciona, da independência e autonomia entre os poderes, da necessidade de isonomia do judiciário, da importância dos partidos políticos e do debate de ideias e projetos que é responsabilidade do Congresso Nacional. É essa ignorância política que lhe faz ter orgasmos quando o Presidente incentiva ataques ao Parlamento e ao STF, instâncias vistas pelo “cidadão comum” como lentas, burocráticas, corrompidas e desnecessárias. Destruí-las, portanto, em sua visão, não é ameaçar todo o sistema democrático, mas condição necessária para fazê-lo funcionar.

Esse brasileiro não vai pra rua para defender um governante lunático e medíocre; ele vai gritar para que sua própria mediocridade seja reconhecida e valorizada, e para sentir-se acolhido por outros lunáticos e medíocres que formam um exército de fantoches cuja força dá sustentação ao governo que o representa.

O “brasileiro médio” gosta de hierarquia, ama a autoridade e a família patriarcal, condena a homossexualidade, vê mulheres, negros e índios como inferiores e menos capazes, tem nojo de pobre, embora seja incapaz de perceber que é tão pobre quanto os que condena. Vê a pobreza e o desemprego dos outros como falta de fibra moral, mas percebe a própria miséria e falta de dinheiro como culpa dos outros e falta de oportunidade. Exige do governo benefícios de toda ordem que a lei lhe assegura, mas acha absurdo quando outros, principalmente mais pobres, têm o mesmo benefício.

Poucas vezes na nossa história o povo brasileiro esteve tão bem representado por seus governantes. Por isso não basta perguntar como é possível que um Presidente da República consiga ser tão indigno do cargo e ainda assim manter o apoio incondicional de um terço da população. A questão a ser respondida é como milhões de brasileiros mantêm vivos padrões tão altos de mediocridade, intolerância, preconceito e falta de senso crítico ao ponto de sentirem-se representados por tal governo.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/O-Jair-que-ha-em-nos/52/47388

Ataque à imprensa mostra disposição autoritária e antidemocrática de Bolsonaro, dizem estudiosos

Na manhã desta terça (5), presidente mandou repórteres calarem a boca e atacou a Folha

José MarquesFlávio Ferreira SÃO PAULO

A atitude do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de mandar repórteres calarem a boca e de voltar a atacar a Folha com xingamentos, na manhã desta terça-feira (5), configurou uma conduta antidemocrática e passível até de enquadramento na esfera criminal, dizem especialistas em direito.

Entidades que representam o jornalismo e estudiosos sobre o autoritarismo também veem uma aproximação do presidente, ao menos no discurso, com uma ruptura da democracia.

Pela manhã, o presidente apareceu na porta do Palácio da Alvorada com uma cópia da edição impressa da Folha, e, referindo-se à manchete “Novo diretor da PF assume e acata pedido de Bolsonaro”, disse que não interferiu na corporação e chamou o jornal de “canalha”.

Com a manchete da Folha na mão, Bolsonaro manda jornalistas calarem a boca – Pedro Ladeira/Folhapress

Questionado sobre o tema por um repórter do jornal O Estado de São Paulo, disse: “Cala a boca, não perguntei nada”. “Folha de S.Paulo, um jornal patife e mentiroso”, disse. Indagado em seguida pela Folha, o presidente gritou novamente: “Cala a boca, cala a boca”.

Na internet, a manifestação do presidente foi comparada a uma entrevista de 1983, durante a ditadura militar, com o general Newton Cruz. O general mandou o repórter Honório Dantas, que questionava sobre retrocessos democráticos, calar a boca.

Quanto ao aspecto criminal do comportamento do mandatário, há divergência entre especialistas ouvidos pela Folha.

Para o professor da FGV-SP Oscar Vilhena, os atos de Bolsonaro configuraram crime de responsabilidade previsto na Constituição.

“O presidente mais uma vez hostiliza os meios de comunicação e em particular a Folha de S.Paulo. Esse tipo de conduta volta-se a intimidar e constranger o livre exercício da liberdade de imprensa. Ao afrontar o exercício de direito fundamental previsto na Constituição o presidente evidentemente incorre na hipótese do artigo 85, inciso 3”, afirma.

A avaliação de Vilhena é compartilhada pela criminalista e conselheira do Iasp (Instituto dos Advogados de São Paulo) Maria Elizabeth Queijo. “É um comportamento atentatório à liberdade de imprensa. Não é um direito só do jornalista, há o direito da sociedade de ser informada. E é um chefe de Estado, tem um peso, tem um significado. Isso me faz pensar que, no conjunto da obra, essa conduta possa, no limite, levar a uma responsabilidade maior dele.”

A criminalista ressalva que embora os crimes de responsabilidade possam levar à abertura de processos de impeachment, há um forte aspecto político nesse tipo de procedimento. Em razão disso, as manifestações desta terça, se consideradas de forma isolada, dificilmente levariam ao início de um caso desse tipo.

Marcelo Nobre, advogado que atua nos tribunais superiores e foi conselheiro do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), diz que há decisões judiciais que já reconheceram a possibilidade de empresas como a Folha serem vítimas de crime contra a honra.

“Foram ofensas ditas por ele, injuriosas e difamatórias contra a Folha de S.Paulo. Há precedentes admitindo ofensas a pessoas jurídicas.”

Parte dos especialistas, porém, não considera que a conduta de Bolsonaro tenha configurado crime, apesar de ser reprovável.

“Não vejo no campo jurídico penal a possibilidade de se acionar o presidente por esse ataque, mas é um ataque à imprensa que merece resposta política. Do ponto de vista político, é lamentável, como cidadão, verificar esse destempero, essa falta de compostura do presidente”, diz o criminalista Alberto Zacharias Toron.

Já o advogado Rodrigo Dall’Acqua aponta que, ainda que “a manifestação do presidente seja chocante, o Código Penal não pune a grosseria”.

O conselheiro da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de São Paulo e criminalista Leandro Sarcedo diz que o presidente mostrou um comportamento autoritário que merece reprovação, mas do ponto de vista técnico do direito penal não praticou um ato ilícito.

Acadêmicos de outras áreas veem um comportamento com traços de autoritarismo do presidente.

Professor de ciência política da UFMG, Leonardo Avritzer diz que Bolsonaro tem como projeto político se relacionar com os cidadãos sem moderadores, para evitar pluralismo de opinião. “Bolsonaro não chega a ser um líder autoritário, mas ele se enquadra naquilo que hoje a ciência política cada vez mais fala, que são aqueles líderes políticos que minam a democracia de dentro.”

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz afirma que o presidente se aproxima cada vez mais de uma “onda autoritário-populista” internacional.

“São governos que acreditam, e ele [Bolsonaro] repete isso o tempo todo, que democracia é ganhar a eleição, quando a gente sabe que democracia começa quando se ganha a eleição. São governos que, quando ganham a eleição, passam a usar o estado como se fosse uma propriedade privada”, diz.

Para ela, esse tipo de governo acha que tem uma comunicação direta com o povo, por meio das redes sociais, e não precisa dos especialistas e da imprensa. “Por isso o ataque constante de Bolsonaro e da sua equipe aos cientistas, à academia, às instituições e, em particular, aos jornalistas.”

Entidades que representam a imprensa e seus profissionais também condenaram a atitude do presidente.

A ANJ (Associação Nacional de Jornais) disse, em nota, que “mais uma vez, o presidente mostra sua incapacidade de compreender a atividade jornalística e externa seu caráter autoritário”.

“Cala a bora já morreu, senhor presidente”, declarou a ABI (Associação Brasileira de Imprensa), em nota. “Ao cassar a palavra dos jornalistas, Bolsonaro tentou impedir que uma questão de interesse público fosse tratada.”

A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) afirma que o presidente “demonstrou mais uma vez seu desprezo pela liberdade de imprensa e de expressão, dois princípios fundamentais em qualquer democracia”.

Ataques do presidente à imprensa passam de ‘arroubos’ a tática consciente

Há um público para se comprazer ou se indignar diariamente com declarações de Bolsonaro e seus asseclas

LEIA DIRETO NO ORIGINAL fOLHA DE SÃO PAULO:

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/05/ataques-do-presidente-a-imprensa-passam-de-arroubos-a-tatica-consciente.shtml?origin=folha

Rodrigo Guimarães Nunes

Já se observou que a política brasileira hoje é algo entre “Sexta-Feira 13” e “Feitiço do Tempo”. Os domingos são nosso Dia da Marmota, o momento pré-agendado para que o presidente apareça com apoiadores para defender uma ruptura da ordem institucional que renegará no dia seguinte, mas dali a dois dias sugerirá de novo.

Quando as referências ao nazismo provocaram a demissão do secretário da Cultura Roberto Alvimcomentei nesta Folha que ele caíra não por suas preferências políticas, mas por ser pego manifestando-as. A punição não fora pelo conteúdo de sua performance, mas porque ele perdera a mão num jogo que praticamente todo o entorno de Jair Bolsonaro joga diariamente há tempos.

Houve quem entendesse “perder a mão” como uma minimização do ocorrido, mas o sentido era outro.

Tratava-se de indicar que, nesta série de repetições, não estamos lidando com “arroubos” que serão depois “corrigidos” “quando a cabeça esfriar”, mas com uma tática consciente que se aproveita da disposição dos outros de seguir tratando tais momentos como exceções para continuar disseminando sua mensagem.

O presidente Jair Bolsonaro exibe reprodução da capa da edição desta terça (5) da Folha a jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada
O presidente Jair Bolsonaro exibe reprodução da capa da edição desta terça (5) da Folha a jornalistas em frente ao Palácio da Alvorada – Ueslei Marcelino/Reuters

Os compartilhamentos indignados na internet, os editoriais e as notas oficiais de repúdio não impõem limites a este mecanismo, eles são parte já contabilizada do mesmo. Se a grita for alta, basta emitir um desmentido ou queixar-se das más interpretações —e voltar à carga dias depois.

O erro de Alvim foi ter ido tão longe que deixou de ser possível fingir que ele se excedera ou enganara. Ele quebrou o pacto de plausibilidade que permite que um lado finja não querer dizer aquilo que efetivamente diz enquanto o outro finge acreditar quando eles pedem desculpas; ele não ajudou as instituições a ajudá-lo.

A questão é: se cada vez mais gente sabe que esta é a natureza da brincadeira, por que continua brincando?

A pergunta tem voltado com força porque o tom e a a frequência dos “arroubos” vindos do Palácio do Planalto têm subido a olhos vistos. Especialmente em relação à imprensa, já que, nos últimos três dias apenas, vimos um jornalista agredido por uma turba bolsonarista e o próprio Bolsonaro atacar a Folha e um de seus funcionários.

Uma primeira resposta poderia apontar para a “falha no sistema” que a extrema direita aprendeu a explorar. Nas vacas magras do jornalismo contemporâneo, conteúdo “polêmico” (preconceituoso, calunioso, falso etc.) vende, e quem oferecer este tipo de conteúdo receberá cobertura midiática grátis.

Há um público para se comprazer ou se indignar diariamente com declarações de Bolsonaro e seus asseclas, e uma indústria para prover este serviço em troca de cliques e publicidade. Isto faz com que, em países onde a extrema direita avança, a imprensa se comporte como um viciado, incapaz de dizer não àquilo que sabe poder matá-lo.

É uma escolha difícil, entre o imperativo do lucro e o instinto de autopreservação. Mas assim como o problema do viciado é confiar que com ele será diferente, talvez falte às empresas de comunicação convencer-se que os riscos são reais e seu status atual não necessariamente as protegerá da degradação do ambiente democrático.

Só isto explica que as Redações ainda não tenham tornado obrigatórias medidas que têm se tornado mais comuns nos últimos tempos. Medidas como jamais dar o título (que todos leem) para uma afirmação falsa que será desmentida no corpo do texto (que pouca gente lê) sem deixar clara sua falsidade.

Ou como nunca divulgar o “outro lado” de um debate sem deixar claro, quando for o caso, que trata-se de uma posição minoritária, desacreditada pela maioria dos membros de uma comunidade de pares, alvo de críticas e suspeitas etc.

O dever jornalístico de oferecer todos os ângulos não pode dar peso igual àquilo que é praticamente consenso e o que é erro ou fabricação.

Mas talvez seja hora de um pouco mais de ousadia. Circulou recentemente no Twitter que diversas redes de TV nos EUA haviam decidido não mais divulgar os pronunciamentos do presidente Donald Trump sobre a Covid-19 por entender que isto deixara de ser de interesse público.

Ironicamente, a notícia era falsa, embora baseada no fato que muitas emissoras não dão espaço ao vivo ao presidente sem checadores à mão.

Mas ela gera um bom experimento de pensamento, especialmente quando um estudo aponta correlação entre declarações de Bolsonaro e a queda de adesão à quarentena. E se os principais meios de comunicação deixassem de cobrir o “cercadinho” do Alvorada? E se decidissem parar de divulgar afirmações que servem para criar confusão e diminuir a eficácia das medidas sanitárias já tomadas?

O crescimento recente da extrema direita repete um padrão observado nos anos 1930: uma grande crise financeira seguida por uma crise de legitimidade em que as elites, incapazes de chegar ao poder com forças políticas próprias, se convencem que podem usar a extrema direita contra a esquerda e a favor de seus privilégios.

Sabemos como a história acabou da primeira vez: as elites só descobriram tarde demais que eram elas que estavam sendo usadas.

Penso nisso sempre que, diante do último abuso de poder do atual governo, os jornais se contorcem para encontrar equivalente nos governos do PT e reforçar a ideia de uma polarização simétrica entre esquerda e extrema direita.

Não percebem que estão reforçando a narrativa bolsonarista na qual tudo, inclusive o ataque à imprensa e às liberdades democráticas, se justifica contra uma ameaça fantasma comunista? Ou acreditam poder seguir explorando-a indefinidamente? Espero que em breve não descubramos da pior maneira que estavam errados.

Rodrigo Guimarães Nunes

Professor de filosofia moderna e contemporânea na PUC-Rio

O presidente comete crimes, e daí?

Um país não pode enfrentar uma grave crise sanitária sob liderança de um celerado

LEIA NO ORIGINAL: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/conrado-hubner-mendes/2020/04/o-presidente-comete-crimes-e-dai.shtml

Será de Jair Bolsonaro a responsabilidade pelas mortes evitáveis da pandemia. A conduta estimulou o contágio, o discurso incentivou o desrespeito a ações sanitárias, a gestão desossou a capacidade estatal e tumultuou o ministério.

Mas quem pode cobrar a conta de alguém cuja delinquência se tolera há 30 anos?

Bolsonaro sempre sambou em cima da lotérica jurisprudência constitucional brasileira. Celebrou a ditadura, a tortura e a milícia, pediu fuzilamento e guerra civil que “mate uns 30 mil”, ameaçou mulher de estupro e festejou a morte.

O STF nunca foi capaz de discernir, na escatologia verbal e no discurso de ódio, o abuso da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar. O Congresso não notou qualquer ofensa à ética parlamentar.

Permitiram que chegasse à Presidência por meio de campanha de desinformação financiada por caixa dois. O TSE segue o “tempo judicial” no modo aleatório. Esperemos. Continuam permitindo que o presidente banalize o crime de responsabilidade e, na pandemia, o crime comum também.

Não bastasse a dieta de apreensão cotidiana que a pandemia nos aplica, a desordem política é administrada em doses diárias de agressão à democracia. Enquanto o governo e o presidente boicotam medidas de contenção da pandemia, o pior cenário de desastre se avizinha.

Fazer justiça a Bolsonaro não pode mais se traduzir na crítica à sua ignorância, na ironia à sua carranca rude e obtusa, ou à masculinidade mal resolvida. Bolsonaro pode ser vulgar e tosco como nunca se viu na Presidência, mas, antes de qualquer coisa, comete crimes. Sobre crimes deve haver consequências jurídicas, não só eleitorais e morais.

Seus crimes de responsabilidade estão definidos na Constituição e na lei 1.079. As dezenas de atos criminosos se distribuem em três categorias: violação de direitos, ataque à autonomia institucional e ofensa à dignidade, honra e decoro do cargo.

Temos a causa de impeachment juridicamente mais sólida da história. Nomear amigo do filho para chefiar a Polícia Federal é exemplar da afronta. “E daí?”, debochou com a certeza de sua impunidade.

Seu crime comum praticado à luz do dia está definido no artigo 268 do Código Penal. É crime contra a saúde pública, com pena de detenção.

Pedidos de impeachment se avolumam na Câmara; ao procurador-geral da República chegam notícias-crime; na gaveta do TSE dorme um pedido de cassação de chapa. São caminhos legítimos e alternativos. Dependem da coragem e tirocínio das autoridades.

Segundo mandamento de prudência, não se tira presidente em uma pandemia. Outro mandamento diz que um país não pode enfrentar grave crise sanitária sob liderança de um celerado. Esse mandamento revoga o anterior. A exceção prevalece sobre a regra.

Stefan Zweig conta em suas memórias como Hitler testava uma pílula de maldade de cada vez. Esperava a reação e soltava outra dose, até que se corroessem as defesas institucionais. “Bastava Hitler pronunciar a palavra ‘paz’ para entusiasmar jornais e fazê-los esquecer de seus atos passados.” Zweig relata a dor de olhar para trás e ver que havia janelas de oportunidade para agir, que se fecharam enquanto procuravam a moderação de Hitler.

Antonio Scurati, autor de bestseller sobre a vida de Mussolini, descreve como pensadores da altura de Benedetto Croce menosprezaram a malignidade do Duce. Pensavam que era apenas um personagem mais histriônico do teatro da política. “Croce não entendeu nada sobre o fascismo quando este foi constituído.”

Ainda não atinamos a magnitude do bolsonarismo. O certo é que subestimamos. Talvez Bolsonaro seja só o começo de um processo de autocratização definitivo. Ou um acidente reversível e pedagógico, apesar do custo. A janela histórica parece ainda nos conceder uma fresta, quem sabe? Na dúvida, testar é imperativo de sobrevivência.

Conrado Hübner Mendes

Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e embaixador científico da Fundação Alexander von Humboldt.

‘O trauma da pandemia não vai nos redimir’, diz filósofo Mario Sergio Cortella

Para o filósofo, educador e escritor best-seller, apesar de coronavírus gerar temor coletivo comparável ao das bombas atômicas, muitos só vão querer voltar à vida normal

LEIA NO ROIGINAL E ASSINE A FOLHA: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/04/o-trauma-da-pandemia-nao-vai-nos-redimir-diz-filosofo-mario-sergio-cortella.shtml

Jairo Marques SÃO PAULO

Completando 45 dias de isolamento social nesta segunda-feira (27), o filósofo, escritor e educador Mario Sergio Cortella, 66, afirma não ter grandes desafios pessoais a serem enfrentados com a quarentena. Isso porque ele, na juventude, passou cerca de três anos enclausurado: pertencia à ordem católica dos carmelitas descalços.

Um dos palestrantes mais disputados do Brasil na atualidade, Cortella, que lançou recentemente, em coautoria com o historiador Leandro Karnal, o profético —estava pronto desde o ano passado— “Viver, a que se Destina?” (Papirus 7 Mares, R$ 39,90, 128 págs.) está se dedicando agora à releitura de “Criação”, de Gore Vidal, e “O Físico”, de Noah Gordon.

O filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella é um homem corpulento e sorridente, com cabelos e barba grisalhos; na foto, usa camisa branca e blazer escuro, e faz um gesto semelhante ao de aplaudir
O filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella – Marcelo Justo/UOL

“Temos vivido tempos de silêncios internos. Quando me vem algum, recorro ao meu inventário de memórias construídas ao longo da vida para pensar sobre os passos que dei, que dou e que darei. Cada um de nós precisa buscar maneiras de não deixar um oco dentro de si neste momento, para evitar que a situação, que é difícil, se torne assustadora”, diz.

Cortella, autor de cerca de 40 obras e conhecido por arrastar uma multidão de fãs com suas falas relativas à valorização da vida, das diferenças humanas e de preceitos éticos, não é um entusiasta da ideia de que as pessoas serão transformadas positivamente após o fim da pandemia.

“Não creio numa redenção. Creio que muita gente, após um susto tomado, vai olhar algumas coisas de uma perspectiva diferenciada. Mas, quando se olha a humanidade, ao longo da história, percebe-se que nunca demos sinais de que aquilo que nos traumatiza, quando termina, vai nos redimir.”

Há amigos, parentes, gente próxima morrendo com a Covid-19. Como lidar com o medo da fatalidade chegar cada vez mais perto de casa?

A natureza colocou em nós dois mecanismos de proteção: medo e dor. Quando perdemos qualquer um dos dois, ficamos num estado de vulnerabilidade muito extenso. O risco maior, neste momento, é não ter medo de nada, porque isso nos deixaria desatentos. À nossa volta estão rondando coisas com um nível de fatalidade e de desconhecimento que não pode ser desprezível. O maior perigo hoje é achar que não há perigo.

Um ser que, do ponto de vista da ciência, é chamado de não vivo, um vírus, ainda assim, consegue nos produzir um dano fortíssimo. Ele se aproxima da ideia, um pouco infantil, do medo de fantasma: aquilo que a gente não vê, mas nos ameaça.

Como lidar com a angústia da incerteza? Não se sabe se o confinamento vai durar mais algumas semanas ou se estenderá por anos, por exemplo.

Fomos desentronizados como humanidade, especialmente as camadas mais intelectualizadas, mais escolarizadas, mais marcadas por algum tipo de poder político ou econômico. Desabamos do pedestal no qual nos houvéramos colocado. Imaginávamos que, com o triunfo, no final do século 19, da ciência nas formas de progresso, que começou a se expandir, chegando ao final do século 20 com o mundo cheio de invenções e tecnologias inéditas, com novas formas de contato e comunicação, estávamos no controle.

Bastaram duas décadas do século 21 para que entrássemos num estado de entorpecimento e surpresa, provavelmente com nossa petulância anterior, de supormos que o triunfo de Prometeu —da mitologia grega— estava colocado em campo, que a racionalidade nos garantiria uma visão nítida dos próximos passos da vida.

De repente, chega uma circunstância inédita, em relação a seu modo de ação, sem indicativo de solução rápida em um mundo de instantaneidade e simultaneidade. Estamos habituados hoje a satisfazer nossos desejos de maneira quase imediata. Estamos surpresos agora com esse retardo das soluções. O tempo todo aguardamos o passo imediato da cura, da vacina, da saída, do pico da doença, como num passe de mágica.

Informações científicas nunca circularam com tanta rapidez e para um público tão amplo. Mas isso também gera insegurança. Ora aparece um medicamento salvador, ora se divulga que não há certeza sobre a imunidade contra o vírus. O que pensar?

A ciência não é infalível, mas é menos falível que a não ciência. Ninguém pode colocar na ciência uma fé inabalável. Ela também se equivoca, tem seus descaminhos históricos, mas eles são menores que seus acertos e sua capacidade de nos orientar. O esforço coletivo hoje, no campo científico, em todo o planeta, para encontrar uma solução que preserve a vida humana é inédito.

Temos dois momentos históricos de um grande temor da morte coletiva —desconsiderando as grandes pestes, que foram mais localizadas. A explosão das bombas nucleares, que trouxeram para nós um pensamento muito concreto de fim da humanidade, é o primeiro. O segundo é este que estamos vivendo, da pandemia do coronavírus, que, 75 anos depois, nos coloca em alerta máximo novamente.

O mundo do ataque nuclear, da Guerra Fria, que poderia acabar com a vida na Terra, era um efeito da ação da ciência. Agora, estamos lidando com o inverso, a ciência unida para enfrentar aquilo que não foi criado por nós, que não está sob o nosso controle, tentando nos salvar.

Como a ética e a filosofia abraçariam os profissionais essenciais que vivem o conflito de servir ao público nesta batalha e, ao mesmo tempo, têm de proteger a si mesmos e a suas famílias?

Pessoas diferentes fazem arranjos diferentes para o que entendem como seu propósito de vida, para que possam ir adiante. Não me estranha que alguém que esteja na linha de frente dessa batalha tema contaminar os seus e recue. E recuar não significa fugir. Às vezes, é uma proteção diante de uma outra condição.

Por outro lado, há os trabalhadores essenciais que reorganizaram a própria vida para cuidar dos outros, para darem conta de seus serviços que entendem como fundamentais. E muitos fazem isso sem se achar heróis, mesmo uma grande parte de nós não tendo o mesmo desprendimento.

Falar sobre isso sem estar diretamente envolvido na questão é sempre mais fácil. Mas não tenho dúvidas de que, se um dos meus ficar doente, se alguém do meu círculo de amizades precisar de mim para cuidar dele, eu o farei, mesmo sabendo que há risco. Tomarei todos os cuidados, mas o farei, porque eu ficaria envergonhado se, de alguma maneira, me acovardasse diante daquilo que, podendo fazer, não fiz. Mas insisto que não é um juízo moral imaginar que quem teme recue porque quer preservar a si ou a outros.

A questão ética é entre o poder e o dever. Aquele que deve, pode e não faz furta-se à tarefa que tem. O que deve, mas não pode, tem uma diminuição do conflito ético. Aquele que pode, mas não deve, está fazendo a escolha em ser contributivo.

A Covid-19 impõe o isolamento do paciente no hospital, que é apartado de todo tipo de contato com familiares. Dá para alentar quem está na solidão?

Tenho visto muita gente tentando romper a ausência de pontes, buscando conexão com quem precisa. Quando Guimarães Rosa criou o título “Grande Sertão: Veredas”, ele acertou em cheio a ideia de que a vida é grande sertão e nele a sua percepção é de abandono, que você está sozinho, mas também há veredas. Muita gente, pelo mundo afora, está se colocando como vereda de outras pessoas, mesmo que de forma limitada.

As ameaças do vírus também estão fazendo com que corpos sejam enterrados quase sem despedidas da família, sem cerimônias. Qual a consequência disso?

É uma situação inédita para uma geração que nasceu depois de 1945 e não viveu em realidades de guerras, em que não há tempo de enlutar. Ainda não tivemos tempo de avaliar o impacto que essa condição atual irá ter, até porque estamos tendo de lidar também com a sobrevivência.

Nossas grandes marcas de humanidade, quase sempre, estão ligadas a rituais que nos conectam com nossos mortos, sinais de túmulos, de fogueiras, de cinzas, paredes gravadas.

As cerimônias, como os velórios e sepultamentos, são para nos confortar, para ganharmos força. Neste momento, muita gente está tendo de encontrar força sozinho. É muito mais doloroso, não há nem o tempo de se dar conta da perda. Infelizmente, acho que o impacto dessas perdas não compartilhadas será conhecido dentro de alguns meses.2 8

Cemitério Vila Formosa enterra pessoas mortas por suspeita de coronavírus

Sepultadores do cemitério Vila Formosa abrem novas covas para os enterros que ocorrerão nos próximos dias. A prática de deixar covas abertas é comum no Vila Formosa, mesmo em tempos de tranquilidade sanitária

Muita gente tem dito que todos sairemos dessa pandemia transformados em algum sentido. Você crê nisso? O efeito pode ser coletivo?

Não creio nisso. Não acho que a humanidade irá se converter à solidariedade. Este tipo de perspectiva é muito mais marcada por um desejo de que isso tenha seu lugar no mundo. Também não acho que ficaremos do mesmo modo, que olharemos as coisas da mesma forma.

Foi impactante ver as pessoas transformarem algo que deveria ser comum, como o pôr do sol espetacular que tivemos em São Paulo na terça-feira (14), que foi até manchete de jornal, em um momento de alegria, de satisfação.

Mas acontece que, quando vemos o arco-íris muitas vezes seguidas, ele vai deixando de ser deslumbrante para ser comum. O olhar habitual sobre as coisas nos amortece um pouco. Não há dúvida de que, quando essa penumbra se dissipar, não vamos olhar do mesmo modo algumas coisas, mas não será um modo inédito de olhar.

Não creio numa redenção, creio que muita gente, após um susto tomado, vai olhar algumas coisas de uma perspectiva diferenciada. Mas, quando se olha a humanidade ao longo da história, percebe-se que nunca demos sinais de que aquilo que nos traumatiza, quando termina, nos redime. As lições são aprendidas por uma parte, mas há uma outra parte que só quer voltar ao normal.

Antes da pandemia, o Brasil estava em uma polarização profunda na política, nas relações sociais. A crise pode restabelecer laços?

A crise, que deixou a vida em geral entre parênteses e nos deixou perplexos com a nossa tibieza de reação e nossa indigência de proposição, pode reduzir um pouco a extensão e frequência das polarizações, mas não as inserirá em trilhas de convergência, dada a agudização que tiveram na retórica furiosa sobre responsabilidades e alternativas durante a própria crise. Contudo as urgências para a regeneração das estruturas e fundamentos da sobrevivência econômica nos deixarão tão atarefados que pode ser que várias das contendas inúteis sejam colocadas como aquilo que são: inúteis.

Na liga dos insanos

Com Nicarágua, Turcomenistão e Belarus, Brasil forma grupo dos quatro

LEIA DIRETO NO ORIGINAL: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2020/04/na-liga-dos-insanos.shtml

Na capa da edição de 12 de novembro de 2009, a revista inglesa The Economist trazia a imagem do Cristo Redentor disparando do Corcovado como um foguete, para ilustrar as projeções da crescente importância do Brasil na cena internacional. Pouco depois, o Council of Foreign Relations, renomado centro de estudos americano, afirmava que o Brasil “faz parte da reduzida lista de países destinados a definir o século 21”.
Não sendo uma potência econômica nem militar, o Brasil construiu sua reputação internacional assentado no que os estudiosos chamam “poder suave” —a capacidade de influenciar o comportamento de outras nações pela persuasão e não pelas armas ou pelo dinheiro.

Nas últimas décadas, de fato, o país atuou com firmeza nas organizações multilaterais, formando coalizões para engrossar a voz dos países em desenvolvimento. Criou o fórum IBSA, participou da articulação do grupo dos Brics. Entrou para o G20, o grupo de ministros das finanças e dirigentes de bancos centrais das maiores economias do mundo. Fez-se ainda protagonista de primeira grandeza no debate das medidas destinadas a limitar os efeitos das mudanças climáticas.

Embora pouco lembrada, a diplomacia da saúde foi outra iniciativa relevante no exercício do poder suave. Ancorado na experiência de implantação de um dos maiores sistema de saúde pública do mundo, o SUS, e na política bem-sucedida de tratamento do HIV/Aids, premiada pela Unesco, o país levou adiante uma ação internacional digna de nota no terreno da saúde global.

Em 2001, com José Serra no Ministério da Saúde e em aliança com a Índia e a África do Sul, obteve histórica vitória na disputa com os Estados Unidos sobre quebra da patente de medicamentos de combate à Aids. Em 2003, o país teve papel importante na aprovação do Convenção Quadro sobre Controle do Tabaco da Organização Mundial da Saúde (OMS). Nossa cooperação técnica internacional se expandiu muito. Acordos com países da América Latina e da África permitiram compartilhar conhecimentos em saúde pública e controle epidemiológico de doenças tropicais.

Tudo isso ficou no passado. O Brasil tem hoje a desonrosa distinção de ser incluído no grupo de quatro países governados por dementes que negam a gravidade da pandemia do coronavírus. Três deles —Nicarágua, Turcomenistão e Belarus— são ditaduras.

Na madrugada de ontem, por sinal, nosso minúsculo chanceler usou o Twitter para falar do “comunavírus” e atacar a OMS, suposta ponta de lança do globalismo, segundo ele, a nova cara do comunismo. Pelo menos sabemos como fomos parar na liga dos insanos.

Maria Hermínia Tavares

Professora titular aposentada de ciência política da USP e pesquisadora do Cebrap. Escreve às quintas-feiras.

A pandemia discrimina pela classe, cor, gênero e etnia

A pandemia discrimina pela classe, cor, gênero e etnia

LEIA DIRETO NO ORIGINAL: <https://www.justificando.com/2020/04/14/a-pandemia-discrimina-pela-classe-cor-genero-e-etnia/>

Por Gustavo Livio

Muitos insistem na narrativa de que o vírus é “democrático” por submeter todos ao perigo de contágio. Até mesmo Slavoj Žižek, ao citar fala do vice-ministro iraniano da saúde, disparou: “Harirchi acrescentou: “Este vírus é democrático, e não discerne entre pobres e ricos ou entre políticos e cidadãos comuns.” Nesse sentido, ele está profundamente correto – estamos todos no mesmo barco”(1). 

Não, não estamos todos no mesmo barco! Em verdade, estamos em vários barcos diferentes, uns muito mais resistentes que outros. Os efeitos do vírus (e da crise econômica que lhe acompanha) são absolutamente variáveis de acordo com a classe social, a cor, o gênero, e a etnia de cada um. 

O discurso de democratização do vírus confere um verniz igualitário à pandemia que não condiz com a verdade sequer em termos de “probabilidade de contaminação”. Não estamos todos sujeitos a igual risco de contágio e, caso contaminados, o perigo é muito maior em uns do que em outros.

E não poderia ser diferente. A pandemia eclodiu na vigência da hegemonia do sistema capitalista a nível global. Suas mazelas, portanto, contaminam a pandemia. O capitalismo é uma forma de sociabilidade que se alimenta da desigualdade, já que, ao concentrar riqueza em poucas mãos, produz a pobreza da esmagadora maioria. Como disse o maior dos seus teóricos, “nas mesmas relações em que se produz a riqueza, também se produz a miséria” (2), e tem sido assim desde sua ascendência a sistema hegemônico mundial. Como esperar então que o vírus seja “democrático” e traga a todos o mesmo perigo?

A pandemia discrimina primeiramente pela classe social. Da minha confortável janela posso assistir pessoas dormindo na fila da Caixa Econômica Federal para, no dia seguinte, sacar o dinheiro da renda emergencial de R$ 600,00 recém aprovada. Ao amanhecer, enquanto usufruo do meu privilégio à quarentena, vejo uma multidão se aglomerar nas portas da agência. Essa multidão de pobres está muito mais sujeita ao risco de contágio do que eu. Não há nada de democrático nisso.

 O Brasil contava, antes da pandemia, com um índice assustadoramente alto de informalidade no trabalho. Segundo pesquisa do IBGE, 41.3% da população ocupada trabalhava sem carteira assinada (patamar recorde que representa 38 milhões de pessoas). O índice de desemprego também não andava nada bem: 11.8% (3) da população ativa. São essas pessoas que encararão as enormes filas das agências bancárias. 

A renda emergencial aprovada infelizmente é insuficiente para garantir o direito à quarentena para a maioria da população. Além disso, já se apresentam diversos problemas logísticos para seu recebimento, que vão desde falhas nos aplicativos até problemas registrais com CPF. Sem um programa econômico de renda emergencial, eficaz quanto ao seu recebimento e suficiente no seu valor (e talvez os R$ 600,00 não o seja), a quarentena se converte num privilégio de alguns e se torna impopular. 

Não surpreende ninguém o aumento de pessoas na rua nos últimos dias. Potencializar a impopularidade da quarentena parece ser a estratégia daqueles que defendem que a “economia não pode parar”. Aliás, o que dizer destes? Tomasz Konicz, em artigo recentemente traduzido e publicado pela Boitempo, disparou: “Que tal o sacrifício da vida? É por uma boa causa, para a economia! É isso que eles estão realmente discutindo agora. Todos têm de fazer sacrifícios, alegou recentemente Dan Patrick, vice-governador do estado do Texas, aos seus cidadãos. Afinal de contas, a economia tem de continuar a funcionar. (…) O Handelsblatt, por exemplo, lançou recentemente os excrementos do investidor Alexander Dibelius (McKinsey, Goldman Sachs) em forma de artigo, também defendendo que as rodas têm de voltar a rolar: “mais vale uma gripe do que uma economia quebrada”. Precisamente em frases cínicas como essas emerge o irracionalismo do modo de produção capitalista, que ameaça a civilização. O capital é o fim em si mesmo de um movimento de valorização sem limites, um fim em si mesmo ao qual tudo pode ser realmente sacrificado” (4).

E o que dizer para os milhões de pessoas que vivem nas favelas sem saneamento básico, onde o sabonete é um artigo de luxo e a vida é compartilhada num único cômodo? O que dizer para os moradores de rua que não podem “ficar em casa”? Dizer que o vírus é “democrático” para essas pessoas é um acinte. 

A pandemia também discrimina em razão da cor. Segundo Silvio Luiz de Almeida, “o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural”. Reconhecer a estruturalidade do racismo significa reconhecê-lo como parte central do desenvolvimento histórico da sociedade e que, portanto, também influenciará os efeitos da pandemia. 

Não pode ser surpresa então que os efeitos da pandemia sejam mais sentidos na população negra, historicamente excluída dos circuitos de riqueza e poder. Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS são negros. Estes também são a maioria dos pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas no país (6). Agora podemos entender como o processo histórico de sucateamento do SUS é uma política racista em seu prisma estrutural. E a reboque, podemos entender também porque, segundo dados do próprio Ministério da Saúde, o COVID-19 é mais letal na população negra. E quando a pandemia se espalhar pelas áreas mais pobres, a letalidade subirá ainda mais. 

Como o racismo não é um problema exclusivo do Brasil, também nos EUA se percebe uma taxa de letalidade muito maior entre negros e hispânicos do que entre brancos. Em Michigan, por exemplo, negros e hispânicos são apenas 14% da população, mas 40% das mortes. 

E o que dizer da população indígena, historicamente vulnerável aos microorganismos patogênicos trazidos pelos brancos, responsáveis por enormes genocídios em toda a América? Recentemente morreu um menino de 15 anos da etnia Yanomami em Roraima. Tudo indica que o vírus tenha sido levado por garimpeiros que exercem mineração ilegal em terras indígenas. 

Historicamente desenvolvido, esse modelo predatório de mineração ameaça lançar mais uma vez suas garras sobre a população indígena, dessa vez com potencial de verdadeiramente exterminá-la. Do ponto de vida econômico, o extermínio dessas pessoas pode até ser interessante para o garimpo, que poderá deitar suas garras tranquilamente sobre terras que não serão mais “indígenas” ou que contarão com muito menos membros para resistir às investidas da mineração. Quem pode chamar isso de “democrático”?

E claro, a discriminação de gênero não poderia ficar de fora. Ainda em Março, os casos registrados de violência doméstica cresceram 50% no Rio de Janeiro (imagine os não registrados!). Segundo reportagem, o movimento no Plantão Judiciário, “surpreendeu as autoridades” (8). Para aqueles que enxergam a estruturalidade das violências de gênero, entretanto, não pode haver surpresa alguma. 

Que tal expandirmos os olhares para visualizarmos a desigualdade mundial? O capitalismo e sua divisão internacional do trabalho promovem um movimento osmótico de transferência de riquezas. De forma simplista, tal como o processo químico da osmose, há uma tendência de transferência geográfica de riquezas das zonas menos concentradas para as mais concentradas. 

Segundo David Harvey, “o comércio entre um regime capital-intensivo (tal como o da Alemanha) e regimes trabalho-intensivo (tais como o de Bangladesh) resultará na transferência de valor e mais-valor do segundo para o primeiro. Isso será realizado de maneira “silenciosa” e “natural” através do próprio processo do mercado. Para tanto, não são necessárias táticas imperialistas de dominação e extrativismo, mas a simples promoção de práticas de livre-comércio. Essa é a maneira “silenciosa” pela qual regiões ricas enriquecem à custa das regiões pobres, que vão ficando cada vez mais para trás”.

Os países pobres, portanto, tendem a ser muito mais afetados pela pandemia com o decurso do tempo. Com uma economia informal e poucos recursos para promover um programa de renda emergencial suficiente, a quarentena tende a ser bem menos eficaz do que na Europa. Para contornar essa situação, medidas mais drásticas podem ser tomadas (como o toque de recolher) e a militarização do controle social pode descambar facilmente para o autoritarismo. Não bastasse, o sistema de saúde ainda é bastante precário e tende a colapsar rapidamente. A insuficiência de testes esconderá a realidade e deixará a população às cegas e os dados oficiais serão bem menos confiáveis do que em outros países. 

 Guayaquil, no Equador, registrou um aumento de 300% no número de enterros. A realidade subnotificada se mostra muito diferente dos números oficiais, que registram apenas 272 mortes. Uma pilha de corpos mortos se acumulam nas residências e a população passa a improvisar caixões de papelão (10).

No Haiti, dois terços (2\3) dos seus 10 milhões de habitantes não tem acesso a água potável. O país ainda apresenta uma enorme taxa de HIV e tuberculose. 22% das crianças com menos de 6 anos sofrem com desnutrição infantil grave. Se em outras ocasiões (como o terremoto e o surto de cólera) o país recebeu apoio médico internacional, desta vez corre o risco de ser deixado à própria sorte (11). 

Na África, a pandemia demorou um pouco mais a se alastrar, mas pode desencadear consequências devastadoras. Burkina Faso tem apenas 11 respiradores para 19 milhões de habitantes. A Gâmbia não tem unidades de terapia intensiva. Uganda tem apenas 55 leitos de UTI para uma população de 43 milhões de pessoas. O próprio diretor da OMS, o etíope Tedros Adhanom, disse que África deve se preparar para o pior. 

A Nigéria confinou os moradores das suas duas maiores cidades. A Gâmbia fechou suas fronteiras. E o Quênia decretou toque de recolher. Mas nada disso parece ser suficiente, e a representante da OMS na África, Mary Stephen, afirmou recentemente que “os casos estão aumentando muito, muito rapidamente”.

As políticas de isolamento social podem ser eficazes em países mais ricos, onde boa parte da população pode se dar ao luxo de ficar em casa. Mas nos países pobres, onde a maioria da população não tem estabilidade ou reservas financeiras para suportar meses sem salário, a quarentena é um privilégio de um grupo muito menor de pessoas. Quanto mais pobre e informal for a estrutura social, mais impopular e ineficaz se torna a quarentena. Nas instáveis economias africanas, a probabilidade de se criar um programa de auxílio econômico emergencial é muito remota. 

Some-se a isso um precário sistema de saúde e de saneamento básico. Segundo a UNICEF, na região subsaariana, 63% das pessoas que vivem em áreas urbanas (258 milhões de pessoas) não têm sequer acesso à possibilidade de lavar as mãos (repito: Lavar as mãos!) (12). Para lavar as mãos, essas pessoas precisam sair de suas casas para acessar as torneiras públicas (realidade também bastante visível no Brasil). Para além das desigualdades dentro da própria África, o continente pode sofrer muito mais que os outros, inclusive do ponto de vista econômico.

Não há democracia nenhuma nessa pandemia. Não há igualdade, não há uniformidade. E não há porque ela eclodiu nas entranhas do sistema capitalista, um modo de sociabilidade que produz, reproduz e se alimenta de desigualdades. Essa máquina de desigualdades (o capitalismo) só abre espaço para uma concepção superficial, formal, rasteira de democracia, identificada com o voto em eleições periódicas e com um conjunto básico de direitos que, na prática, também são exercidos desigualmente. Quem ousará dizer que o favelado possui liberdade de expressão para denunciar e criticar publicamente as incursões policiais ou a atividade do tráfico de drogas? Na realidade material, essa democracia meramente formal aliena a imensa maioria do povo da soberania que lhe pertence.

O discurso de um “vírus democrático” só pode ser compatível com essa forma de “democracia” rasteira, formal, desatenta às desigualdades reais. É pura ideologia mistificadora da realidade. A pandemia produz efeitos desigualmente. Ela discrimina em razão da classe social, da cor, do gênero, da etnia e da pobreza de cada país. E a culpa não é do vírus: é da forma de sociabilidade doentia que vivemos, que, por necessitar de uma espiral infinita de consumismo para sobreviver, colapsa quando compramos apenas o necessário.

Gustavo Livio é Promotor de Justiça no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Ex-Defensor Público no Estado da Bahia.