O capitalismo no limite?


Por Toby Helm

Na época em que Ed Miliband era criticado por arrastar o Partido Trabalhista demasiadamente à esquerda, marginais políticos à procura de um guia para os novos tempos eram muitas vezes encaminhados para um volume intitulado Variedades do Capitalismo.

Muito manuseado pelo ex-líder trabalhista, essa inovadora coletânea de textos defende a tese de que o capitalismo anglo-americano, com sua ênfase para um Estado reduzido, impostos baixos e um mercado desregulamentado, não era a única maneira de conduzir uma sociedade capitalista. Na Alemanha, por exemplo, eles fizeram as coisas de modo diferente.

Foi apenas alguns anos atrás, mas parece muito mais. Enquanto os rugidos de uma tumultuosa e repleta conferência do Partido Trabalhista continuam soando nos ouvidos, os conservadores hoje se reúnem em Manchester em estado de alto nervosismo. Pois a pergunta “Que tipo de capitalismo?” parece ter sido substituída por uma opção muito mais rígida a ser dirigida aos eleitores: “Capitalismo ou socialismo?”.

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Na conferência trabalhista, Jeremy Corbyn declarou que o capitalismo hoje enfrenta uma “crise de legitimidade”. Foi algo que os políticos vergonhosamente deixaram de enfrentar, mesmo depois que as falhas do sistema foram expostas tão claramente pela crise financeira global de 2008.

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Theresa May, quem diria, sensibilizada com a necessidade de algumas mudanças. (Foto: Oli Scarff/AFP)

Em vez de criar mais prosperidade para todos, o compromisso com mercados absolutamente livres, a desregulamentação e o recuo do Estado haviam deixado uma enorme massa da população em empregos inseguros, com salários reais em declínio e sem moradias decentes, enquanto forrava os bolsos de uma elite pequena e cada vez mais rica.

“Está na hora de o governo assumir um papel mais ativo na reestruturação de nossa economia”, declarou Corbyn. “Está na hora de os conselhos administrativos se responsabilizarem por seus atos. E é hora de desenvolvermos um novo modelo de gestão econômica para substituir os dogmas fracassados do neoliberalismo. É por isso que os trabalhistas hoje procuram não apenas reparar os danos causados pela austeridade, mas transformar nossa economia com um papel novo e dinâmico do setor público, especialmente onde o setor privado evidentemente falhou.”

A indústria da água privatizada foi um exemplo em que os mercados livres falharam com os consumidores, segundo Corbyn.

“Das nove companhias de água da Inglaterra, seis hoje são propriedade de fundos de investimentos privados ou estrangeiros. Seus lucros são distribuídos em dividendos aos acionistas, enquanto a infraestrutura desmorona, as companhias pagam pouco ou nada em impostos e o pagamento aos executivos disparou enquanto o serviço se deteriora. É por isso que estamos comprometidos a restituir nossas empresas de serviços públicos ao setor público, para colocá-las a serviço de nossa população e nossa economia e impedir que o público seja lesado.”

Jeremy Corbyn
Corbyn acha que chegou a hora de o governo assumir um papel mais ativo na reestruturação da economia (Foto: Leon Neal/AFP)

O debate sobre se o capitalismo de livre-mercado é de modo geral para o bem de todos é algo que a maioria do establishment político acreditava ter resolvido além de qualquer dúvida, até muito recentemente.

Desde Margaret Thatcher e durante os mandatos de John Major, Tony Blair, Gordon Brown e David Cameron, a tese a favor do livre-mercado, a ideia de ampliar a concorrência nos serviços públicos, a desregulamentação e a redução dos impostos das empresas eram amplamente incontestes até alguns anos atrás.

Desde então, porém, Corbyn não foi o único a levantar dúvidas. Seu antecessor, Miliband, quis intervir no mercado para conter os preços da energia porque acreditava que os consumidores estavam sendo enganados. Ele estava preparado para contra-atacar e contestar o pensamento aceito.

No referendo sobre a União Europeia em junho passado, um eleitorado que muitos políticos sentiam estar nervoso, parecendo desiludido, usou o voto sobre a participação na UE para pedir mudanças.
Quando entrou em Downing Street em julho, Theresa May parecia sensível à mudança de clima e prometeu governar para os que se sentiam ignorados e esquecidos – uma aceitação tácita de que elementos do sistema estavam abandonando os mais pobres da sociedade.

O manifesto conservador na eleição geral em junho deste ano dizia que “nós (os Tories) não acreditamos nos mercados livres desenfreados” e declarava que a regulamentação era “necessária para a organização adequada de qualquer economia”.

Depois do discurso de Corbyn na quarta-feira 27, Theresa May, claramente em pânico com o apelo do líder trabalhista entre os jovens eleitores e evidências de que muitas políticas dele – incluindo a renacionalização das ferrovias e outros serviços – têm amplo apoio, fez um discurso próprio. Embora ela tivesse levantado algumas dúvidas anteriormente, achou necessário reafirmar o compromisso de seu partido com o livre-mercado.

Em uma conferência para comemorar o 20º aniversário da independência do Banco da Inglaterra, May disse que o capitalismo “é inquestionavelmente o melhor e de fato o único meio sustentável de aumentar os padrões de vida de todos em um país. E nunca devemos esquecer que aumentar os padrões de vida e proteger os empregos dos trabalhadores comuns é o objetivo central de toda política econômica”.

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A privatização do abastecimento de água é um exemplo do fracasso do livre-mercado para os consumidores

O fato de um primeiro-ministro conservador ter achado necessário fazer tal declaração mostrou uma coisa acima de tudo: que os conservadores agora se sentem em grande perigo diante de um líder trabalhista que afirma que sua rejeição ao capitalismo contemporâneo não é antiquada, mas moderna e a nova corrente dominante.

Segundo Marc Stears, diretor da New Economics Foundation, o sistema capitalista que conhecemos é dominado por enormes e inimputáveis bancos e corporações globais. Há séculos, o apelo do capitalismo repousou em sua promessa de controle.

Diferentemente das sociedades do passado, diz, no capitalismo ninguém está preso a uma categoria ao nascer. Ao contrário, fazemos nossas próprias opções – o quanto trabalhar, em que trabalhar, como equilibrar nossa vida profissional com a vida privada – e moldamos nosso futuro.

O problema do capitalismo é que ele não se parece mais com isso. O sistema capitalista que conhecemos é dominado por enormes, inimputáveis bancos e corporações globais. Acrescente-se uma desigualdade de riqueza cada vez maior, e a sugestão de que o capitalismo nos empodera, em vez de nos escravizar, torna-se uma piada sem graça.

Portanto, o capitalismo está, sim, em uma encruzilhada, destaca Stears. Seus defensores devem encontrar um argumento totalmente novo para defendê-lo ou elucidar o que há no sistema que precisa mudar para que a promessa de controle real seja cumprida.

“Quando alguém refletir adequadamente sobre essa opção, acredito que perceberá que uma economia que dê às pessoas a sensação de que elas realmente importam no mundo ainda é a ambição correta. Mas ela também perceberá que construir essa economia exige uma ação radical e abrangente. Tal ação deveria começar pela limitação do poder de inúmeros interesses escusos, de bancos a companhias tecnológicas, reforçando a posição dos que trabalham para criar a riqueza, e a proteção de nosso meio ambiente cada vez mais frágil. Isso pode ser feito – o capitalismo já se adaptou antes –, mas o tempo está se esgotando”, adverte Stears.

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Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo

Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo

leia no “sítio” original: https://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/10242-brasil-nao-tem-alma-nao-tem-carater-nao-tem-dignidade-e-nao-tem-um-povo

Por Aldo Fornazieri

O presidente da República foi flagrado cometendo uma série de crimes e as provas foram transmitidas para todo o País.

Com exceção de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua trágica normalidade.

Em muitos outros países o presidente teria que renunciar imediatamente e, quiçá, estaria preso.

Se resistisse, os palácios estariam cercados por milhares de pessoas e milhões se colocariam nas ruas até a saída de tal criminoso, pois as instituições políticas são sagradas, por expressarem a dignidade e a moralidade nacional.

Aqui não.

No Brasil tudo é possível.

Grupos criminosos podem usar as instituições do poder ao seu bel prazer.

Afinal de contas, no Brasil nunca tivemos república.

Até mesmo a oposição, que ontem foi apeada do governo, dá de ombros e muitos chegam a suspeitar que a denúncia contra Temer é um golpe dentro do golpe.

Que existem vários interesses em jogo na denúncia, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe.

Mas daí adotar posturas passivas em face da existência de uma quadrilha no comando do País significa pouco se importar com os destinos do Brasil e de seu povo, priorizando mais o cálculo político de partidos e grupos particulares.

O Brasil tem uma unidade política e territorial, mas não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo.

Somos uma soma de partes desconexas.

A unidade política e territorial foi alcançada às custas da violência dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Império, dos coronéis da Primeira República, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a miséria e a degradação servil dos lavradores pobres.

A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença

Índios foram massacrados; escravos foram mortos e açoitados; a dissidência foi dizimada; as lutas sociais foram tratadas com baionetas, cassetetes e balas.

A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença.

Não temos valores, não temos vínculos societários, não temos costumes que amalgamam o nosso caráter e somos o povo, dentre todas as Américas, que tem o menor índice de confiabilidade interpessoal, como mostram várias pesquisas.

Na trágica normalidade da nossa história não nos revoltamos contra o nosso dominador colonial.

Ele nos concedeu a Independência como obra de sua graça.

Não fizemos uma guerra civil contra os escravocratas e não fizemos uma revolução republicana.

A dor e os cadáveres foram se amontoando ao longo dos tempos e o verde de nossas florestas foi se tingindo com sangue dos mais fracos, dos deserdados.

Hoje mesmo, não nos indignamos com as 60 mil mortes violentas anuais ou com as 50 mil vítimas fatais no trânsito e os mais de 200 mil feridos graves.

Não nos importamos com as mortes dos jovens pobres e negros das periferias e com a assustadora violência contra as mulheres.

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Tudo é normal, tragicamente normal.

Quando nós, os debaixo, chegamos ao poder, sentamos à mesa dos nossos inimigos, brindamos, comemoramos e libamos com eles e, no nosso deslumbramento, acreditamos que estamos definitivamente aceitos na Casa Grande dos palácios.

Só nos damos conta do nosso vergonhoso engano no dia em que os nossos inimigos nos apunhalam pelas constas e nos jogam dos palácios.

Nunca fomos uma democracia racial e, no fundo, nunca fomos democracia nenhuma, pois sempre nos faltou o critério irredutível da igualdade e da sociedade justa para que pudéssemos ostentar o título de democracia.

Nos contentamos com os surtos de crescimento econômico e com as migalhas das parcas reduções das desigualdades e estufamos o peito para dizer que alcançamos a redenção ou que estamos no caminho dela.

No governo, entregamos bilhões de reais aos campões nacionais sem perceber que são velhacos, que embolsam o dinheiro e que são os primeiros a dar as costas ao Brasil e ao seu povo.

No Brasil, a mobilidade social é exígua, as estratificações sociais são abissais e não somos capazes de transformar essas diferenças em lutas radicais, em insurreições, em revoltas.

Preferimos sentar à mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna.

Preferimos sentar à mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna

Aceitamos os pactos dos privilégios dos de cima e, em nome da tese imoral de que os fins justificam os meios, nos corrompemos como todos e aceitamos o assalto sistemático do capital aos recursos públicos, aos orçamentos, aos fundos públicos, aos recursos subsidiados e, ainda, aliviamos os ricos e penalizamos os pobres em termos tributários.

Quando percebemos os nossos enganos, nos indignamos mais com palavras jogadas ao vento do que com atitudes e lutas.

Boa parte das nossas lutas não passam de piqueniques cívicos nas avenidas das grandes cidades.

E, em nome de tudo isto, das auto-justificativas para os nossos enganos, sentimos um alívio na consciência, rejeitamos os sentimentos de culpa, mas não somos capazes de perceber que não temos alma, não temos caráter, não temos moral e não temos coragem.

Da mesma forma que aceitamos as chacinas, os massacres nos presídios, a violência policial nos morros e nas favelas, aceitamos passivamente a destruição da educação, da saúde, da ciência e da pesquisa. Aceitamos que o povo seja uma massa ignara e sem cultura, sem civilidade e sem civilização.

Continuamos sendo um povo abastardado, somos filhos de negras e índias engravidadas pela violência dos invasores, das elites, do capital, das classes políticas que fracassaram em conduzir este País a um patamar de dignidade para seu povo.

Aceitamos a destruição das nossas florestas e da nosso biodiversidade, o envenenamento das nossas águas e das nossas terras porque temos a mesma alma dominada pela cobiça de nos sentirmos bem quando estamos sentados à mesa dos senhores e porque queremos alcançar o fruto sem plantar a árvore.

Se algum lampejo de consciência, de alma ou de caráter nacional existe, isto é coisa restrita à vida intelectual, não do povo.

O povo não tem nenhuma referência significativa em nossa história, em algum herói brasileiro, em algum pai-fundador, em alguma proclamação de independência ou república, em algum texto constitucional em algum líder exemplar.

Somos governados pela submissão e pela indiferença.

Não somos capazes de olhar à nossa volta e de perceber as nossas tragédias.

Nos condoemos com as tragédias do além-mar, mas não com as nossas.

Não temos a dignidade dos sentimentos humanos da solidariedade, da piedade, da compaixão.

Não somos capazes de nos indignar e não seremos capazes de gerar revoltas, insurreições, mesmo que pacíficas.

Mesmo que pacíficas, mas com força suficiente para mudar os rumos do nosso País.

Se não nos indignarmos e não gerarmos atitudes fortes, não teremos uma comunidade de destino, não teremos uma alma com um povo, não geraremos um futuro digno e a história nos verá como gerações de incapazes, de indiferentes e de pessoas que não se preocuparam em imprimir um conteúdo significativo na sua passagem pela vida na Terra.


♦ Aldo Fornazieri é Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

Seis brasileiros têm a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres — CartaCapital

cartacapital.com.br

Seis brasileiros têm a mesma riqueza que os 100 milhões mais pobres

por Redação — publicado 25/09/2017 10h07, última modificação 25/09/2017 10h21

Um novo relatório da ONG britânica Oxfam a respeito da desigualdade social no Brasil mostra que os seis brasileiros mais ricos concentram a mesma riqueza que os 100 milhões de brasileiros mais pobres. Os dados estão no relatório A Distância Que Nos Une, lançado nesta segunda-feira 25 pela Oxfam Brasil.

A conclusão tem origem em um cálculo feito pela própria ONG, que compara os dados do informe Global Wealth Databook 2016, elaborado pelo banco suíço Credit Suisse, e a lista das pessoas mais ricas do mundo produzida pela revista Forbes.

Segundo a Forbes, Jorge Paulo Lemann (AB Inbev), Joseph Safra (Banco Safra), Marcel Hermmann Telles (AB Inbev), Carlos Alberto Sicupira (AB Inbev), Eduardo Saverin (Facebook) e Ermirio Pereira de Moraes (Grupo Votorantim) têm, juntos, uma fortuna acumulada de 88,8 bilhões de dólares, equivalente a 277 bilhões de reais atualmente.

A Oxfam lembra em seu relatório que, ao longo das últimas décadas, o Brasil conseguiu elevar a base da pirâmide social, retirando milhões da pobreza, mas que os níveis de desigualdade ainda são alarmantes. “Apesar de avanços, nosso país não conseguiu sair da lista dos países mais desiguais do mundo. O ritmo tem sido muito lento e mais de 16 milhões de brasileiros ainda vivem abaixo da linha da pobreza”, explica Katia Maia, diretora-executiva da ONG.

Segundo o estudo da ONG, entre 2000 e 2016, o número de bilionários brasileiros aumentou de aproximadamente 10 para 31. Em conjunto, eles possuem um patrimônio de mais de 135 bilhões de dólares. Mais da metade dos bilionários (52%) herdou patrimônio da família, o que revela a incapacidade do Estado brasileiro de desconcentrar a riqueza – algo que sistemas tributários mais progressivos, como visto em países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), podem ajudar a fazer.

Na outra ponta, estimativas para os próximos anos são ruins para o Brasil a respeito da pobreza. Segundo o Banco Mundial, só em 2017 até 3,6 milhões de pessoas devem cair outra vez na pobreza.

Para a diretora da Oxfam Brasil, essa situação é inadmissível e precisa ser enfrentada por todos para que realmente seja solucionada. “Existe uma distância absurda entre a maior parte da população brasileira e o 1% mais rico, não apenas em relação à renda e riqueza, mas também em relação ao acesso a serviços básicos como saúde e educação. Atacar essa questão é responsabilidade de todos”, afirma.

Ainda segundo a ONG, uma pessoa que recebe um salário mínimo mensal levaria quatro anos trabalhando para ganhar o mesmo que o 1% mais rico ganha em média, em um mês, e 19 anos para equiparar um mês de renda média do 0,1% mais rico.

O relatório estima ainda que as mulheres terão equiparação de renda com homens somente em 2047 e os negros ganharão o mesmo que brancos somente em 2089, mantida a tendência dos últimos 20 anos. Pelo ritmo atual, o Brasil vai demorar 35 anos para alcançar o atual nível de desigualdade de renda do Uruguai e 75 anos para chegarmos ao patamar atual do Reino Unido, se mantivermos o ritmo médio de redução anual de desigualdades de renda observado desde 1988.

Também segundo a Oxfam, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda que os demais 95% da população.

Sistema tributário brasileiro reforça a desigualdade, diz Oxfam — CartaCapita

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Sistema tributário brasileiro reforça a desigualdade, diz Oxfam — CartaCapital


A configuração do sistema tributário brasileiro reforça desigualdades, pois contribui para a concentração da renda nas mãos de poucos. A conclusão é do relatório A distância que nos une: um retrato das desigualdades brasileiras, divulgado nesta semana pela Oxfam.

Apesar da carga tributária bruta girar em 33% do PIB – nível similar ao dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) – ela é mal distribuída. Os 10% mais pobres no Brasil gastam 32% de sua renda em tributos, enquanto os 10% mais ricos gastam apenas 21%.

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“O sistema tributário se tornou totalmente disfuncional”

A distorção é óbvia quando se olha de perto os dados do imposto de renda. Como ressalta o relatório, sistemas justos de tributação da renda se apoiam em uma lógica simples: quem tem mais paga mais, quem tem menos, paga menos, e quem tem muito pouco não paga nada. Mas, no Brasil, essa lógica não vale para o topo da pirâmide.

Os dados do relatório mostram que pessoas que ganham 320 salários mínimos mensais pagam uma alíquota efetiva de imposto similar à de quem ganha cinco salários mínimos mensais, e quatro vezes menor em comparação com declarantes de rendimentos mensais de 15 a 40 salários mínimos. “Enfrentar as desigualdades passa necessariamente por uma reforma tributária. No Brasil dizemos que pagamos muito imposto. A gente paga muito imposto, mas não todos nós pagamos muito imposto”, ressalta a diretora executiva da Oxfam, Kátia Maia.

A progressividade das alíquotas efetivas cresce até a faixa dos 20 a 40 salários mínimos de rendimentos, passando a partir daí a cair vertiginosamente, justamente nos grupos mais ricos do País. Esta inversão é produto de duas distorções no imposto de renda: a isenção de impostos sobre lucros e dividendos e a limitação de alíquotas no Imposto de Renda para a as pessoa físicas.

Para Kátia Maia, dentro do tema da reforma tributária, o primeiro item que merece atenção é o imposto de renda. “Temos poucas faixas. O Brasil já chegou a ter 13 alíquotas, mas são somente quatro”, lembra. “E quanto mais no topo se está,a alíquota final é paga será menor. A tabela está congelada há 8 anos”, reforça.

Além da distorção causada pelo número reduzido de faixas do IR, lucros e dividendos são isentos de tributos desde 1996. “Lucros e dividendos são justamente os “salários” dos super-ricos”, compara o relatório.

Com a isenção, donos ou acionistas de empresas não pagam qualquer imposto sobre os dividendos recebidos na distribuição de lucros das empresas, política de isenção que existe somente em dois países da lista de membros e parceiros da OCDE: Brasil e Estônia.

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A medida beneficia justamente os mais ricos do Brasil, que têm aí suas principais fontes de rendimento. Dados da Receita Federal de 2016 apontam que as pessoas com rendimentos mensais superiores a 80 salários mínimos, pouco mais de 63 mil reais, têm isenção média de 66% de impostos, podendo chegar a 70% para rendimentos superiores a 320 salários mínimos mensais, ou 252 mil reais.

Por outro lado, a isenção para a classe média (considerando as faixas de 3 a 20 salários mínimos, é de 17%, baixando para 9% no caso de quem ganha 1 a 3 salários mínimos mensais. Em resumo, as menores rendas e a classe média pagam proporcionalmente muito mais imposto de renda que os super-ricos.

O que deixa de ser pago

Além dos desequilíbrios do sistema tributário, existe uma grande quantidade de impostos que simplesmente não são pagos. Isto ocorre tanto por elisão quanto por evasão fiscal – ou seja, legal e ilegalmente. A estimativa mais conservadora da entidade aponta para uma sonegação tributária da ordem de 275 bilhões de reais em 2016.

Há também uma enorme quantidade de recursos que deixaram de ser arrecadados pelo Estado como instrumento de incentivo econômico, as renúncias fiscais. Trata-se de exceções que viraram regras ao longo dos últimos anos, alcançando 271 bilhões de reais em 2016.

“Eliminar esses benefícios e ser rígido no controle da sonegação é super importante, é urgente. Nossas contas indicam que teríamos arrecadados em 2016, se tudo isso funcionasse bem, senão houvesse evasão fiscal, se não houvesse benefícios, esses incentivos, e se não houvesse essas formas de não recolher todos os impostos, seriam 600 bilhões de reais“, conclui Kátia.

Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime

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Integração lavoura, pecuária e floresta, artigo de Roberto Naime


ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) . Foto: Embrapa

[EcoDebate] Numa primeira abordagem se conceitua atividades que integram lavoura, pecuária e florestamento como uma integração fundamental para a recuperação de áreas degradadas, pastagens enfraquecidas e solos empobrecidos. Mas é muito mais que isso. A sinergia propiciada pela integração dos diferentes ambientes produtivos, permite reestabelecer o equilíbrio homeostático natural, além de propiciar a produção de grãos, fibras, carne, leite e até a geração de agroenergia.

De imediato ocorre a melhoria dos solos, recuperados fisicamente e novamente enriquecidos com nutrientes fundamentais para a composição vegetal. A criação conta com melhores pastagens e o florestamento permite harmonizar as atividades. Sem falar que a produção diversificada, minimiza os riscos com eventos climáticos ou determinações de preço por fatores de mercado não previsíveis.

A integração entre estes vários elementos, tende a reduzir as necessidades de aplicação de agroquímicos, pois as fezes de animais recompõe os nutrientes que os solos necessitam, evitando a necessidade de abertura de novas áreas para extração pecuária de qualquer natureza, pois espaços para criação de animais de médio e grande porte são garantidos. As técnicas e sistemas de integração são extremamente variados (MACEDO, 2.009), mas sempre tendem a possibilitar melhor manejo da propriedade rural pela integração e complementariedade das atividades e aumento da biodiversidade.

Também os controles erosivos são beneficiados pela adoção de técnicas de plantio direto que protegem os solos da ação erosiva da água da chuva agindo diretamente sobre as partículas do terreno. Em sistemas que associam práticas conservacionistas com plantio direto, os sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta são uma alternativa muito viável tanto em termos econômicos como sociais e ambientais, cumprindo as determinantes vetoriais da sustentabilidade.

Inegavelmente sustentabilidade é um tema atual e que veio para ficar. O Brasil tem passado por um grande ciclo de evolução no agronegócio e na agricultura familiar também, de forma que os produtos gerados no chamado “campo” tem grande importância hoje em todos os tipos de indicadores que se considere.

O agronegócio provê também atividades do mercado interno, mas hoje é grandemente associado a atividades de exportação, enquanto a agricultura familiar é mais relacionada com abastecimento interno. Mas independentemente da fonte geradora, ocorre no país além de elevação das exportações de grãos e proteínas animais, o aumento na oferta de alimentos com melhor qualidade e menor preço. Embora a segurança alimentar ainda esteja muito associada a renda da população.

No entanto, conforme assevera MACEDO (2.009), os gastos com excessivo preparo do solo e a prática de monoculturas e a degradação das áreas de pastagens são caracterizados. Já se falou que a resistência dos ecossistemas equivale ao somatório da resistência de suas espécies componentes, vegetais e animais. Ou seja, a reprodução do meio natural original. É como se fossem os elos constituintes de uma corrente. Não adianta todos serem de material resistente, se um elo é formado de material vulnerável. Neste elo arrebenta a corrente. Assim são os frágeis e muito vulneráveis, ecossistemas naturais.

Fazendo uma aliteração quase poética, os bons sistemas naturais são constituídos por todos os elementos vegetais e animais adaptados. Cachorro, gato, avenca, samambaia, boi, galinha, papagaio e mais tudo que se imaginar. A resistência de um elemento se transfere ao sistema e protege o conjunto. Os primitivos indígenas já sabiam isto. Por isso cultivavam pequenas hortas com todas as espécies misturadas. E por isto também, como destaca MACEDO (2.009), sistemas contínuos com monoculturas, aumentam a ocorrência de pragas e doenças, tais como percevejo castanho, nematoides ou ferrugem da soja. O mesmo autor destaca que a reversão deste cenário pode ser obtida pela implantação de técnicas de plantio direto associadas à rotação de culturas em sistemas de integração de lavoura com pecuária e porque não dizer, também com florestas.

As adequadas abordagens técnicas, como a realizada por MACEDO (2.009) que argumenta corretamente que as condições climáticas e edáficas tem que serem compatibilizadas com os tipos de palhadas remanescentes nos solos para obtenção da plenitude das condições de produção, não invalidam o fato de que está se tornando cada vez mais urgente a preocupação com a necessária reconstituição dos “habitats” naturais e a manutenção plena das condições de biodiversidade para a própria recomposição do equilíbrio dos biomas.

Várias culturas tem sido utilizadas dentro da integração e inúmeros sistemas são detalhadamente descritos (MACEDO, 2.009) sendo referidas a soja, o milho, o milheto, o sorgo, o nabo forrageiro, o girassol e também algodão e diversas espécies de gramíneas forrageiras tropicais, se destacando as braquiárias, consorciadas ou não.

Os sistemas de integração possibilitam em muito a melhoria das condições ecossistêmicas, além de produção integrada. Os sistemas integrados possibilitam também a plena recuperação e manutenção das condições dos solos, tanto em termos físicos, quanto químicos e biológicos. Todo este conjunto melhora as condições de equilíbrio, a ocupação das populações e por consequência, melhora as condições de renda.

Se tem consciência que estas modificações de grande alcance não ocorrem da noite para o dia. Mas é preciso planejar e ir alterando esta realidade, para que se possa no futuro ter melhor qualidade ambiental e possibilitar melhor qualidade de vida para todos os agentes populacionais envolvidos.

MACEDO, M. C. M. Integração lavoura e pecuária: o estado da arte e inovações tecnológicas R. Bras. Zootec., v.38, p.133-146, 2009

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Sugestão de leitura: Celebração da vida [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

in EcoDebate, 13/08/2015

* Saiba mais sobre Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) clicando aqui


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Amazônia Independente: movimento propõe a emancipação da região norte

Um dos líderes do movimento propõe a criação do país Amazônia, agregando todos os Estados da Região Norte.
No último domingo (1), a região da Catalunha, na Espanha, realizou referendo para saber se há viabilidade de emancipação e se tornar um novo país. Após a consulta, em que 42% da população foram às urnas, cerca de 90% dos eleitores se declararam favoráveis à divisão.
Embalados pela votação espanhola, o movimento O Sul é Meu País promoverá no próximo sábado (7), um plebiscito informal para saber se os eleitores do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul aprovam também a possibilidade de se tornarem um novo país.
Aqui na Amazônia, há movimentos que se articulam e propõem uma ruptura do Norte com o restante do país, e um deles é o Movimento Amazônia Independente. Um dos líderes do movimento, Axel Julyan, propõe a criação do país Amazônia, agregando todos os Estados da Região Norte.
“Nosso movimento surgiu com a união de um grupo amazonense e um grupo paraense há cerca de um atrás, tínhamos o mesmo ideal emancipacionista. Mas o movimento ainda está em processo de formação e consolidação, ou seja, tem funcionado de forma improvisada”.
Segundo Julyan, o grupo formado, em sua maioria, por pessoas dos Estados do Amazonas e Pará, pretende articular não apenas a ação de emancipação, mas também atividades e outras discussões.
“Pretendemos fazer sua legalização como associação cultural no próximo ano, para desenvolvermos inúmeras atividades, não somente de cunho separatista. Hoje nós temos um grupo com cerca de 50 integrantes, com pessoas de todos os estados da região norte, embora a maioria seja do Pará e Amazonas. Nós estamos buscando a adesão de mais pessoas nos demais estados. De vez em quando aparece nas redes sociais alguma página que promove o separatismo de algum estado, mas nós apenas ignoramos, pois não se tratam de movimentos sérios,” disse.
Ainda questionado sobre a viabilidade do movimento e a projeção caso a separação aconteça, Julyan afirma que é preciso combater mitos sobre a criação do amazônida e da Amazônia.
“ Mitos como os que dizem que a Amazônia é desabitada, que é dependente e incapaz de se sustentar – o que legitima o domínio brasileiro sobre nós. Somente com o que temos hoje, nós seríamos maiores que 70% dos países do mundo em relação à economia e população. Além disso, sem as amarras do estado brasileiro, com uma verdadeira emancipação, nós poderíamos partir para um verdadeiro desenvolvimento econômico com a construção de uma indústria nacional amazônida, e etc. Nós temos um potencial enorme pra nos desenvolver de forma humana e sustentável, mas na situação em que estamos, nós desperdiçamos todas essas oportunidades e aceitamos resignados situações absurdas promovidas tanto pelo Brasil quanto por outros países. Se nações menores podem, por que nós não podemos?” concluiu.
O que diz a Constituição?
Para o cientista político Helso Ribeiro, é inviável a emancipação da Amazônia e a criação de um novo país. Ele explica que qualquer proposta neste sentido é inconstitucional.
“Existe em nossa constituição uma cláusula pétrea que não pode ser superada, nem mesmo através de consulta popular. Com isso é inconstitucional qualquer divisão do território brasileiro. Ainda que tenham as divergências e as diferenças regionais, o país é uma nação, tem uma língua unificada, é miscigenado, diferente, por exemplo, da Catalunha, que busca consolidar sua divisão, mas é uma região com identidade e idiomas próprios,” disse.
Fonte: William Costa / Portal Amazônia.

Mapa da morte em SP vai da Suécia até o México; locais dos crimes se repetem

Quando o som das balas começam, a manicure Adriana de Mesquita, 31, esconde a filha de quatro anos no quarto e diz a ele que estão soltando bombinhas na rua. É o jeito que encontrou para que a menina fique mais calma nos dias em que acontecem troca de tiros em frente à sua casa.

Desde que a menina nasceu, o barulho dos disparos é frequente –já foram dois casos de homicídio. O último em maio, quando um homem de 36 anos foi baleado no início da madrugada. Dois anos antes, houve uma chacina com três mortos no mesmo lugar.

A estratégia lembra um pouco o filme “A Vida é Bela”, com Roberto Benigni, no qual o protagonista criava brincadeiras para fazer com que o filho não percebesse os horrores do holocausto.

Adriana tenta proteger a filha da realidade de seu bairro, o Jardim São Luís, zona sul de SP, que tem o maior número absoluto de mortes na cidade. Nos 12 meses entre entre julho de 2016 e junho deste ano, foram 43 casos.

Levantamento inédito feito pela Folha revela, bairro a bairro e rua a rua, o raio-X das mortes violentas na cidade. Hoje, a compilação de dados do governo Geraldo Alckmin (PSDB) só permite saber os crimes por distritos policial.

O recorte adotado pela reportagem foi feito a partir da base de dados bruta do governo estadual, com milhares de mortes. O critério para escolher os casos –similar ao usado internacionalmente– contabiliza homicídios, lesões corporais seguidas de mortes e latrocínios (assaltos seguidos de morte), mas exclui mortes praticadas por policiais em confrontos.

O Jardim São Luís teve uma taxa de 16 mortes por 100 mil habitantes no período, o dobro da média da cidade. Para efeitos de comparação, o índice é superior ao de países como República Democrática do Congo, na África, e Porto Rico, na América Central, ainda que sejam inferiores à média brasileira de 27 assassinatos por 100 mil, uma das maiores do mundo.

LADO EUROPEU

Ao mesmo tempo, São Paulo também tem seu lado lado europeu. Outro jardim, o Paulista, bairro nobre da zona oeste, por exemplo, tem índice de 1 morte a cada 100 mil habitantes, similar ao da Suécia.

Quando focados esses crimes com mortes, 33 dos 96 distritos da cidade têm índices menores que os dos EUA (4,8) e 28 com taxas maiores que a Nigéria (9,7). Já bairros centrais como a Sé atingem taxas que ultrapassam 70 casos por 100 mil habitantes, mas elas não refletem a violência real na região, uma vez que ali há poucos moradores, e o índice não contabiliza a grande população flutuante.

À frente dos violentos bairros do extremo sul, ainda aparece o Jaçanã (zona norte), com 23 mortes por 100 mil –índice superior ao do México, país assolado por guerras entre narcotraficantes.

Duas chacinas a 500 metros uma da outra deixaram 10 vítimas, alavancando a violência no bairro, que registrou um total de 22 mortes.

A suspeita da polícia é que a onda de mortes possa estar relacionada a uma disputa por pontos de caça-níqueis e também de jogo do bicho.

LUGAR MARCADO

A repetição de crimes nos mesmos lugares faz parte da dinâmica da violência da cidade, onde predomina a desigualdade, segundo o pesquisador Marcelo Nery, do Núcleo de Estudos da Violência da USP. Ele dividiu a cidade em 20 mil partes para medir o índice de mortes em cada uma delas. A conclusão: até nos bairros violentos a violência é concentrada.

“O Jardim Angela é violento, mas se você quiser ser mais correto percebe que, mesmo lá, há lugares pacíficos e outros muito mais violentos”, diz Nery.

A região que compreende os bairros Jardim São Luís, Capão Redondo, Jardim Angela, Campo Limpo e Grajaú concentra uma a cada cinco mortes violentas na cidade. Não à toa, a estrada de Itapecerica, que corta a área, é a via com mais mortes na capital –um total de 11 em 12 meses.

A reportagem ouviu histórias como a de um açougueiro morto atrás do balcão do trabalho num acerto de contas, no Capão Redondo; ou a do rapaz alcoolizado que irritou homens numa praça e foi linchado, no Jardim Angela. Mas o relato que mais se repete é o dos motoqueiros encapuzados, que matam e desaparecem sem deixar rastros.

Eles cruzaram com o jardineiro Edivaldo dos Santos, 41, quando voltava para casa, em dezembro. “Me contaram que o Edivaldo falou: ‘Não me mate por favor, sou trabalhador, pai de família’. Não tiveram dó. Ele tomou tiros na cabeça, na barriga e no braço”, diz a mulher da vítima, Fabiana de Souza, 37.

A desconfiança dela é que a ação possa ter envolvimento de algum grupo de extermínio. “O pessoal aqui às vezes se revolta com a abordagem da polícia, e tem policial que retruca. Não demora muito, depois de certos tipos de abordagem, acontecem essas coisas [ataques a tiros por motoqueiros]”, diz.

Em 2015, dois jovens foram mortos por pessoas de moto na mesma rua. Uma das vítimas era um adolescente, Ewerton Silva, 16, que havia acabado de conseguir um emprego na rede McDonald’s.

A rua Pedro da Costa Faleiros, cenário das mortes de Edivaldo e Ewerton, tem apenas 650 metros de extensão e acumula ao menos cinco assassinatos desde 2012.

POBREZA

Apesar de não ser o único fator, a pobreza também influencia nos crimes de uma região, dizem especialistas.

As duas prefeituras regionais que abrangem o extremo sul, Campo Limpo e M’Boi Mirim, estão entre os primeiros lugares no índice de famílias em situação de extrema pobreza (que recebem até um quarto de salário mínimo).

“Pessoas com maior vulnerabilidade social –baixa escolarização, desempregados ou com menor renda– acabam sendo muito mais expostas ao risco da violência letal”, afirma o sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Lima diz que, apesar da queda geral nos homicídios, os locais com maiores taxas continuam sendo os mesmos. Muitos deles já eram citados nas letras de rap dos anos 1990, como “Fim de Semana no Parque”, dos Racionais MC’s. “Você começa a pensar: faz mais de 20 anos que é assim no mesmo lugar. Por que não faz uma ação para resolver?”, questiona.

Para ele, apesar de esforços individuais, ainda falta ação articulada do poder público nesses pontos.

Para especialistas, a violência tem uma lógica própria em cada lugar. Muitas vezes, um homicídio pode gerar outros, em uma reação em cadeia. “Às vezes encontramos crimes que são reação a crimes ocorridos na década de 90”, diz o delegado Rodrigo Petrilli, do DHPP (Departamento de Homicídios) da Polícia Civil, que atua na zona sul.

Em outros casos, apenas um assassino pode estar agindo para elevar os índices criminais de toda uma região.

Foi o caso do PM Eduardo Alexandre Miquelino, conhecido como Tartaruga, que no horário de folga percorria o Capão Redondo cometendo assassinatos. Ele foi preso em 2015 e é suspeito de ter matado pelo menos 12 pessoas.

EM BUSCA DE PAZ

“Quando vi, a arma estava apontada na minha direção, a uma distância de três ou quatro metros. O cara mirou e deu. Eu só senti o impacto. Caí desacordado. Me surpreendi quando acordei e percebi que ainda estava vivo.”

O comerciante Marinaldo Santos de Santana, 33, autor do relato, é uma das vítimas da violência no Jardim São Luís, no extremo sul de São Paulo. O caso aconteceu em agosto de 2016, em um bar que tinha em sociedade com o irmão, que morreu naquele dia.

Do episódio, sobraram a cicatriz no peito e os sonhos constantes com o caçula, Rosivaldo Santos de Jesus, 30.

“Pior dor do mundo perder um irmão. O que precisasse dele eu podia contar. Ajudava muita gente, morreu ajudando os outros”, diz ele, que decidiu deixar o Estado de São Paulo após a tragédia.

Rosivaldo tentava proteger uma conhecida de seu ex-namorado, contra quem já havia feito várias queixas à polícia por ameaça, o que gerou uma rixa entre os dois. A moça postou uma foto nas redes sociais no bar dos dois irmãos, que estava lotado durante uma apresentação de um grupo de samba.

O ex-namorado ciumento apareceu armado. Acertou um amigo dos donos do bar logo na chegada –mesmo baleado na cabeça, o homem sobreviveria. “Do nada, ouvimos sete, oito tiros. Estávamos eu e meu irmão no balcão do bar. Falei: ‘É tiro, é tiro’. Ele falou: ‘Abaixa a porta’. Havia pessoas correndo pra dentro do bar, pessoas correndo pra fora, cadeira voando”, relata Marinaldo.

Após os disparos, ele acordou com o corpo do irmão sobre o seu. “Eu abro o olho e vejo meu irmão cheio de sangue, com o olho esbugalhado. Aí as pessoas começaram a voltar, eu pedindo ajuda, porque não conseguia levantar. Ele estava em cima de mim.”

Marinaldo ficou internado por quatro dias e perdeu o enterro do irmão. “Minha mulher veio dar a notícia da morte dele, eu não acreditava. Ela teve que mostrar a foto para mim já dentro do caixão.”

A família de Marinaldo se mudou para o Jardim São Luís quando ele tinha sete anos. A mãe separada e com quatro filhos resolveu deixar a Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Marinaldo diz que perdeu vários amigos ainda adolescentes, durante a década de 1990, quando SP enfrentava o ápice de homicídios.

Alto e forte, Marinaldo diz que sempre fugiu de confusão. Mesmo depois da morte do irmão, não cogitou vingança, modo como muitos no bairro costumam compensar a sensação de impunidade.

O atirador até hoje está foragido. “Deve estar vivendo em outro Estado, pode ter trocado de identidade. E nós ficamos com o sofrimento.”

Marinaldo faz tratamento psicológico. Quando conversou com a reportagem, preparava a mudança. Buscaria paz e uma nova vida com a mulher e o filho em Florianópolis.

O governo Geraldo Alckmin (PSDB) afirma que as mortes violentas tiveram “queda expressiva”, incluindo nas regiões periféricas.

“Os casos de homicídios dolosos caíram 17,74% e chegaram ao menor total para a série histórica iniciada em 2001: 51 registros no mês, 11 a menos que os 62 contabilizados em agosto do ano passado”, afirma nota da Secretaria da Segurança Pública.

Utilizando critério diferente da reportagem, em que exclui roubos seguidos de morte, a pasta afirma que os homicídios caíram 82% desde 2001 na região que abrange o Jardim São Luís, Campo Limpo, Capão Redondo e Jardim Angela. Nas contas do governo, o índice de mortos por 100 mil habitantes naquela área caiu de 88,71 para 13,26.

Em relação ao bairro do Jaçanã (zona norte), a secretaria afirma que as mortes caíram 75% no período no mesmo período. A respeito das duas chacinas recentes no bairro, a Polícia Civil afirmou que a última delas, ocorrida em abril e que deixou seis mortos, foi solucionada.

“Foi uma briga interna de domínio de jogo de bicho e máquinas caça-níqueis”, disse o delegado divisionário do DHPP (Departamento de Homicídios), Arlindo Negrão. Segundo ele, uma mulher suspeita de ser a mandante foi presa e o executor foi indiciado, mas está foragido.

De acordo com o capitão da Polícia Militar, Rodrigo Fernandes Cabral, da comunicação social, a corporação tem feito apreensões de armas com objetivo de diminuir os homicídios na cidade. “Em 2016, 2.700 armas foram apreendidas na cidade de São Paulo. Este ano já foram 1.541.”

Ele afirma que, além de apreender armas, a PM busca demonstrar o máximo de presença possível, com objetivo de inibir atos violentos.

O PM afirma que o índice de homicídios também está relacionado a questões que não são policiais, como educação, saneamento básico e lazer. “A PM, a grosso modo, lida com a ponta final”, diz.

O governo paulista também foi questionado sobre o estágio de investigação da morte de Edivaldo dos Santos, mas não envio resposta sobre o assunto.

Números da violência na cidade de são paulo - Por distrito - Taxa de mortes por 100 mil habitantes, de jul.2016 a jun.2017 - Página Gráfica

Como foi feito o levantamento
Foram utilizados os endereços dos boletins de ocorrência disponíveis no site da Secretaria Estadual da Segurança Pública de SP. A reportagem retirou duplicidades de crimes, mas, devido a imprecisões no preenchimento por parte da pasta, pode haver uma ligeira margem de casos repetidos ou omitidos -o número global, porém, é similar ao divulgado pela SSP nos últimos anos

Taxas por 100 mil habitantes
A população usada para o cálculo da taxa de mortes dos distritos é a do censo do IBGE de 2010. Segundo o órgão, não há estimativas recentes com esse nível de regionalização

 

 

Números da violência na cidade de são paulo - Termômetros da violência- Taxa de mortes violentas por 100 mil habitantes - Considerando homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte - Página Gráfica