‘Fake news’ sustentam escolhas políticas, afirma o professor da UFMG


fake news

Por Ewerton Martins Ribeiro, UFMG

O grande volume de notícias falsas que trafegam atualmente não deve ser creditado apenas à falta de informação ou à ignorância das pessoas. Em alguns casos, deter algum nível de informação pode ser fator determinante para cristalizar os próprios preconceitos. Essa análise foi feita pelo sociólogo Yurij Castelfranchi na palestra Ciências, crenças e boatos: como lidar com a controvérsia e sobreviver às fake news, proferida na quinta-feira, dia 8 de fevereiro, no último dia do Festival de Verão da UFMG.

O professor do Departamento de Sociologia da Fafich UFMG lembrou que esse fenômeno está associado ao chamado “efeito dunning-kruger”, no qual pessoas com menos conhecimento acreditam saber mais do que outras mais bem preparadas. “Essas são as pessoas mais perigosas. Elas se limitam a ler cinco livros sobre certo assunto e, por não terem alcançado nessa leitura a noção de tudo que ainda não sabem, acabam achando que já sabem tudo”, argumentou.

No extremo oposto, disse Castelfranchi, está a pessoa que sofre da “síndrome do impostor”, pois investe de verdade no conhecimento .“Quanto mais a competência da pessoa aumenta em determinado assunto, mais ela toma conhecimento de tudo aquilo que não sabe, de tudo aquilo que ainda não leu”, disse ele, aludindo à famosa máxima socrática.

Yurij Castelfranchi falou logo após o ativista Gael Benitez e a médica Maria da Consolação Vieira Moreira, que trataram, respectivamente em suas palestras, da experiência transmasculina na sociedade contemporânea e da realidade brasileira de transplante de órgãos. O sociólogo recorreu, inclusive, aos dois temas tratados anteriormente para enfatizar como é grave o processo de formação da opinião das pessoas.

“A falta de informação não é exclusiva daqueles que poderíamos chamar de público geral. Acabamos de ouvir um relato sobre médicos com falta de informação médica”, disse ele, repercutindo um caso de preconceito narrado por Benitez, além da observação feita pelo próprio ativista de que quase não há profissionais de medicina preparados para compreender e atender às demandas de saúde específicas das pessoas trans.

Castelfranchi acrescentou que os cientistas também contribuem para veicular desinformação e preconceito. “Na verdade, a modulação da opinião pública ocorre justamente a partir da manipulação de dados científicos”, disse. “No caso das controvérsias mais radicais, o problema nunca é apenas falta de informação, mas antes de tudo um problema de poder”, acrescentou.

Para o pesquisador, o substrato das chamadas “controvérsias sociotécnicas” são os valores, as escolhas e os preconceitos das pessoas. “Elas fingem se embasar em fundamentos científicos, em dados técnicos, para a sua tomada de posição. Quem nega a necessidade de assinar acordos internacionais para frear a mudança climática, como os EUA, tenta embasar essa alegação – que é política – com dados técnicos”, exemplifica. O mesmo ocorre quando se associa a vacinação infantil ao autismo, boato que vem sendo amplificado Brasil e em diversas partes do mundo, como a Itália, país de origem do pesquisador.

“Quase todas as guerras modernas começaram a partir de notícias falsas. No caso dos EUA, praticamente nenhuma guerra que eles realizaram deixou de se valer de uma notícia falsa como ponto de partida”, afirmou Castelfranchi, lembrando as supostas armas de destruição em massa do Iraque, nunca encontradas. “A essa notícia falsa devemos a morte de 400 mil crianças mortas”, asseverou.

Das falsas objetividades

Usando como gancho o próprio número de 400 mil crianças mortas no Iraque, o professor explicou como o uso de dados pretensamente objetivos carrega uma intenção política. “Nem todas morreram em razão dos bombardeios. O cálculo que embasa minha afirmação considera o fato de que, logo depois dos bombardeios, o Iraque foi submetido a um embargo que impediu a chegada até de remédios ao país. Missões humanitárias, como a Cruz Vermelha, não puderam levar antibióticos. Então calculamos 400 mil crianças mortas considerando as epidemias que, em razão da guerra não puderam ser curadas”, detalha. “Agora, por que fazemos a conta dessa forma? Porque é meu interesse, é minha escolha denunciar o absurdo daquela guerra. Para mim, é interessante dizer que as pessoas que morreram foram muitas e que morreram injustamente”, explicou o professor, usando o seu próprio discurso para demonstrar como ocorre o processo de manipulação da informação.

“Muitas vezes, quando as pessoas citam números em seus argumentos, elas estão fingindo ser objetivas, quando na verdade estão escondendo debaixo do tapete suas escolhas subjetivas. Nesse sentido, vocês não podem pegar os números que ofereço como simples fatos. São fatos calculados, definidos, recortados a partir de uma escolha. Citar números, dados pretensamente objetivos, é fazer uma escolha política”, alertou.

Para o sociólogo, que também é mestre em comunicação – área em que atuou por mais de dez anos –, o problema em torno da informação na contemporaneidade se torna mais grave em razão dos ambientes em que as discussões ocorrem. “Elas se dão em ambientes de mediatização extremamente forte e precisam obedecer e se submeter, antes de tudo, às regras dessas mídias”, afirmou.

Das falsas controvérsias

Para Yurij Castelfranchi, não é exatamente a falta de informação que faz que ainda hoje algumas pessoas neguem, por exemplo, que tenha havido o genocídio de Auschwitz (rede de campos de concentração do nazismo montada na Polônia durante a Segunda Guerra Mundial), ou que insistam em ser racistas, homofóbicas, transfóbicas: “A [falta de] informação [correta] é parte da questão, mas outra parte fundamental é mesmo a forma como as pessoas decidem construir sua opinião”, disse. “Mudança climática, ideologia de gênero, escola sem partido; se Lula deveria ou não ser preso; se Bolsonaro deveria ou não ser cassado: todas essas controvérsias são caracterizadas por um embate político de valores: as pessoas brigam porque acreditam em ideias de justiça e embasam – e, em razão disso, acabam sendo despolitizadas – suas opiniões em aspectos técnicos e científicos”.

Apesar da energia gasta com as controvérsias contemporâneas, Castelfranchi sustenta que a maioria delas são falsas. “O truque do trabalho de desinformação é gerar falsas polêmicas”, afirmou. Nesse sentido, o professor explicou que o trabalho feito com as fake news atua menos no sentido de contra-argumentar uma ideia inequívoca, como o Holocausto, e mais para desviar o foco e criar múltiplas e contraditórias hipóteses, que poluem a esfera do debate e acabam por neutralizar a capacidade dos fatos verdadeiros de alcançar as pessoas.

O sociólogo listou ainda uma série de outros fatores que colaboram para que as pessoas sigam consumindo e reproduzindo fake news – entre eles, um relacionado à ideia de “dissonância cognitiva”, segundo a qual somos propensos a acreditar no que agrada às nossas ideias pré-estabelecidas e a não acreditar naquilo que as confronta, independentemente do que os fatos digam a respeito.

Em razão disso, o professor acredita que o trabalho das agências de checagem de informação, que têm se multiplicado mundo afora, é insuficiente para impedir o agravamento do fenômeno das fake news e da manipulação da informação e do saber técnico e científico. “Desmontar mitos não funciona. O que está na base desse processo de crença nas mentiras não é apenas a ignorância. Acreditamos no que escolhemos acreditar. Quando se constrói mentiras que agradam a um grupo, mesmo que sejam desmascaradas, elas seguem funcionando naquele grupo e usadas e reproduzidas por ele. Não raro, aquele que as desmascarou recebe de volta simplesmente o ódio”, lamentou.

Da UFMG, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 15/02/2018

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Uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte (veja foto abaixo), apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

São duas maneiras de enxergar o Brasil, a relação com as pessoas e o Estado. Selma entendeu que os recursos do Estado são finitos e que o benefício que ela abriu mão de receber pode ajudar outra pessoas em condição pior que a dela –não por ter ficado rica, apenas por ter ficado menos pobre. Bretas e sua mulher são insaciáveis. Esfolam o Estado como os demais ricos do país. Para eles, os recursos públicos são um espólio de guerra –da guerra contra pobres- sobre o qual avançam com um apetite sem fim. O casal Bretas arranca mensalmente pelo menos R$ 80 mil do Estado direta ou indiretamente. Mas não basta –nunca basta.

O caso de Selma e do casal Bretas é um exemplo do abismo que separa ricos e os pobres no Brasil –e o dinheiro sequer é a maior distância entre eles. A elite brasileira não faz a menor ideia do que significam solidariedade ou compaixão, substantivos muito concretos no cotidiano duro dos mais pobres, que tecem frágeis redes de apoio entre si.

Bretas, Moro, os três desembargadores do TRF4 que condenaram Lula em 24 de janeiro com frases tonitruantes em seus votos, todos eles têm imóveis de alto valor nas cidades em que moram e trabalham –e todos recebem o Bolsa Juiz. Os exemplos não param: um desembargador de São Paulo, José Antonio de Paula Santos Neto, do Tribunal de Justiça, tem 60 imóveis registrados em seu nome na Prefeitura da cidade –mesmo assim açambarca mensalmente o Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação).

O abismo entre a elite do país e os milhões e milhões de pobres tem o tamanho da distância que separa o Bolsa Juiz do Bolsa Família. Tudo o que neste artigo está exemplificado nos casos de Selma, do casal Bretas, de Moro, dos desembargadores do TRF4 e do desembargador dos 60 imóveis é a personificação dos programas Bolsa Juiz e Bolsa Família.

Veja o quadro abaixo e constate as diferenças brutais entre um e outro. Por trás do Bolsa Juiz está a defesa dos empréstimos subsidiados que os empresários colhem nos bancos públicos, o dinheiro sem conta que deixam de recolher porque impõem uma estrutura tributária que massacra os pobres enquanto isenta-os de todos os lados, os trilhões de dinheiro do povo dos quais apoderam-se há anos, recebendo os juros da dívida pública. Olhando o Bolsa Família é possível sentir o sofrimento, a vida dura, a pobreza do povo brasileiro –mas, igualmente, sua dignidade.

Veja o quadro/tabela –nele, um resumo dos dois Brasis que convivem e guerreiam no cotidiano do Brasil:

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Neonazismos – ódio e sentido


Por Adriana Dias

O ódio construído sobre três elementos – crença numa supremacia “natural” – se o branco não vence é porque foi sabotado; a criação de um “Outro conveniente” para assumir a culpa pelo próprio fracasso; e culto da masculinidade – desaloja qualquer possibilidade de diálogo. Há apenas paranoia: o povo branco vive em diáspora, visto que seus inimigos tomaram seu lugar para produzir seu genocídio. É uma resolução da incerteza pela violência.

Infelizmente, os movimentos neonazistas se tornaram pautas comuns em muitos jornais. Manifestações, passeatas, ataques orientados por grupos neonazistas são cada vez mais comuns e se espalham por todo continente europeu, pelos Estados Unidos, pela América Latina, pela Rússia e em muitos outros lugares. Com ajuda de grupos neonazis, a crise da Criméia na Ucrânia foi conduzida como regime separatista, e grupos que dialogam em maior ou menor proximidade com processos nazificantes estão presentes em toda a extrema-direita mundial.

Recentemente, centenas de ativistas do movimento neonazista dos Estados Unidos se aglomeraram na Universidade de Virginia em Charlottesville, em 12 de agosto, em protesto contra a retirada da estátua do general confederado Robert E. Lee[1].  Para a manifestação, a extrema direita reuniu, pela primeira vez em muito tempo, neo-confederados, grupos de ódio em geral,  grupos de supremacia branca de várias espécies e membros da Ku Klux Klan, a 190 km de Washington, no ato que intencionou  claramente “unir a direita” e gritou por todo o desfile mensagens  de ódio contra negros, judeus, imigrantes,  gays e pessoas com deficiência.

Em minha etnografia dos grupos neonazistas, na qual analiso esses movimentos há 14 anos, em especial o movimento neonazista estadunidense e sua repercussão no mundo, inclusive no Brasil, observei seu discurso, que é sempre alicerçado na defesa de uma “lei natural” que fundamentaria “sua supremacia” sobre os outros. Essa supremacia, por sua vez, emolduraria uma certa ideia de raça, permitindo uma polissemia extremamente complexa: raça é nação, pele, uniforme, religião, pátria, biologia e religião, material e transcendental, justificativa para todos os tipos de discursos de ódio. E algo que todos os neonazismos têm em comum é o ódio como premissa de sentido. O que odeiam varia: podem odiar o tipo de imigrante, no Brasil odeiam o nordestino, por exemplo, o migrante mais comum visto pelo “branco” brasileiro…  No leste europeu odeia-se mais o migrante vindo da África. Nos EUA, latinos e afrodescendentes são odiados tanto como judeus.

Cultura do ódio: os alicerces
A nazificação baseada em discurso de ódio é articulada sobre três alicerces fundamentais, nos quais o cultivo do ódio se fundamenta, segundo o historiador Peter Gay: a crença numa concorrência “natural” na qual sobrevive o mais capacitado por meritocracia, que desconsidera fatores sociais e políticos; a criação de um Outro conveniente, para assumir por projeção todas as culpas e responsabilidades pelos males sociais do mundo; e, por fim, a construção de um “culto de masculinidade” absurdamente avassalador. Esses elementos são articulados à noção de raça: para eles uma categoria indubitável, fixadora de identidades, para atribuir a grupos de pessoas características que servirão para defini-las. Definidas, essas pessoas, os Outros, serão OS INIMIGOS. Para vencê-las, os homens brancos (não as mulheres, facilmente enganadas pelo desejo, e muito mais suscetíveis à contaminação racial) terão que construir um mundo eugênico, branco, separado, e se necessário, eliminar todos seus inimigos.

No roteiro radicalizado pelo ódio, a raça branca, segundo o delírio neonazi, vive à beira de um genocídio, arquitetado pelos governos manipulados pelo império judeu. Essa paranoia alcança milhares de pessoas em todo mundo: usando o ciberativismo, grupos neonazistas crescem a taxas mais altas que a população nos EUA, na Europa, na Argentina, no Chile, no Brasil, na Rússia. Em outros lugares, o crescimento, ainda que menor, também assusta. A mensagem: é preciso destruir quem comanda o “genocídio branco”, o judeu, e quem o judeu usa para destruir o homem branco, as “raças inferiores” ou os “lixos genéticos”, ou seja, negros, imigrantes e pessoas com deficiência ou doenças raras.

O movimento é bem diversificado, nada hegemônico. Há desde grupos pagãos a grupos de identidade cristã, de neo-confederados a extremistas ultra-nacionalistas, de grupos voltados a uma ideia “ecológica nazista”, bandas de rock neonazistas, a seguidores da Ku Klux Klan. O espectro do neonazismo é extenso, inicia com movimentos anti-gays e anti-imigrantes e vai se nazificando, em grupos negacionistas do Holocausto, memorialistas de líderes nazistas, defensores de um “mundo branco” que elimine judeus, negros, gays, pessoas com deficiência e todos que possam ameaçar o propósito de sua absurda luta. Há mais de 700 grupos neonazistas diferentes na internet, cuja sede física se dá apenas nos Estados Unidos. Na Rússia, existem mais de 200 grupos diversos, inclusive um extremamente complicado de se entender: os gays arianos. Sim, isso existe.

De todos esses, mais de uma centena tem braço no Brasil. Além de grupos dos EUA, o Brasil tem grupos neonazistas de origem europeia, ucraniana e russa. Mais de 250 mil pessoas baixam conteúdo neonazista em português no território brasileiro, e cerca de 10% a 20% dessas pessoas frequentam células ou shows neonazis.  A situação é bem grave.

No geral, as células ou grupos se comunicavam com poucas outras, mas com o advento das redes sociais houve um aumento dessa comunicação entre os grupos, num crescimento de cerca de 300% ao semestre em fóruns neonazis. O crescimento não é em número de páginas, mas em participantes em fóruns e redes, como o VK. O grande temor nos últimos anos era que algum evento pudesse articular alguma espécie de foco de união nesses grupos. Foi exatamente o que aconteceu em Charlottesville, na Virgínia.  Provavelmente, é apenas o início de um processo de unificação dos grupos por interesses em comum, exatamente o que mais se temia.

A união da extrema-direita, como aconteceu na Virgínia, é o que mais devemos temer. A sua existência em si já é extremamente violenta, e os gritos de “vocês não vão tomar o nosso lugar” que a turba neonazi ecoou (ora mudando para judeus não vão tomar nosso lugar, gays não vão tomar nosso lugar, deficientes não vão tomar nosso lugar, negros não vão tomar nosso lugar), demonstram muito bem como há dentro dessa massa o sentimento de povo da nação, como definiu Hannah Arendt, réplica de uma racionalização antiga que afirma que são donos de um espaço ameaçado pelas minorias.  Essa ansiedade de incompletude, esse medo paranoico de perda de um lugar que, aliás, nunca foi verdadeiramente seu, pois foi construído socialmente pelo colonialismo, é muito bem explicado por Arjun Appadurai como a sensação de angústia diante do mundo coletivo e que revela a incapacidade de adaptação dessas pessoas. A incerteza social como um locus engendrador de concepções de violência, nos termos do autor, uma “ansiedade da incompletude”. A violência pode criar uma forma macabra de certeza (2009, p. 16), balizada pelo que Appadurai denomina de identidades predatórias, cujo alvo é a eliminação de seu foco de ansiedade: as minorias que, a seu ver, parecem ameaçar sua existência

A meritocracia na supremacia branca
O ódio que fundamenta a supremacia branca se baseia na ideia de que apenas o branco é portador da civilização, e que o homem branco é capaz, merecedor de todo sucesso. Na concorrência ele deve ser naturalmente o vencedor. Se não é, está prejudicado por algum outro fator, condicionado pelo Outro (veja o ponto seguinte). Num mundo realmente meritocrático, o branco sempre levaria o melhor emprego, o melhor lugar na universidade etc. Os jovens que são alvos do proselitismo neonazista são muitas vezes aqueles sem vida definida, sem perspectiva, sem grandes chances intelectuais ou profissionais, pois a eles é dito que são especiais, por serem brancos, e que seu espaço está sendo tomados por seus inimigos, os judeus, os negros e outros (por ações afirmativas ou outras situações). Dessa forma o jovem é levado a crer num lugar especial para si, e passa a acreditar que a angústia da existência surge do Outro, e não de sua própria incapacidade de realização.

O outro conveniente
Judeus, negros, gays e pessoas com deficiência são descritas como interessam aos supremacistas brancos para colocá-los como inimigos de seus propósitos. Inventam dados, controlam mentiras, fazem falácias de todos os tipos para construir um discurso de ódio contra essas pessoas que “as ameaçam”. No Brasil, também fazem isso com o nordestino.

O culto à masculinidade
Na supremacia branca o homem é o herói. A masculinidade é adorada, a mulher é apenas um útero que terá os filhos e o futuro da raça. Há uma valorização inclusive do estupro de mulheres brancas. O casamento inter-racial e a adoção de crianças negras são vistos como parte do projeto de genocídio da raça branca. A masculinidade assume um lugar árido, sem respeito ao feminino. A obra de David Lane[2], líder neonazista que cunhou as 14 palavras, maior slogan do movimento neonazista “’Devemos assegurar a existência de nosso povo e o futuro para as crianças brancas”, incentiva inclusive o estupro de mulheres brancas por líderes neonazistas como forma de correção ao casamento inter-racial. Milhares de jovens neonazistas leem os livros de Lane acerca disso.

É preciso entender que, para os grupos mais violentos, o racismo é uma experiência visceral e o ódio construído alicerçado sobre esses três elementos comentados anteriormente desaloja toda e qualquer possibilidade de diálogo. Há apenas paranoia: o povo branco vive em diáspora, visto que seus inimigos tomaram seu lugar para produzir seu genocídio. É estarrecedor o uso da história das vítimas (diáspora) e do termo cunhado para falar de sua tentativa de extermínio para inverter a história (genocídio). O neonazismo vive de reminiscências, de enfatizar uma Alemanha que nunca existiu, de denominar de glorioso um tempo de vergonha, destruição e desumanidade. Não há diálogo, apenas raiva, e uma doutrinação sem fim, sem sentido e repetida à exaustão. Repetida até fazer sentido pelo ódio. Que cria sentido no objeto odiado. E construído apenas para ser odiado. Resolução da angústia da falta de sentido. Resolvendo, como escreve Appadurai, a incerteza pelo ódio e pela violência.

Adriana Dias é doutoranda e mestre em antropologia social e graduada em ciências sociais pela Unicamp. É coordenadora do Comitê Deficiência e Acessibilidade da Associação Brasileira de Antropologia e coordenadora de pesquisa no Instituto Baresi (que cria políticas públicas para pessoas com doenças raras) e na ONG Essas Mulheres (voltada à luta pelos direitos sexuais e reprodutivos e ao combate da violência que afeta mulheres com deficiência).

[1]Lee havia recebido a homenagem, por sua luta na Guerra Civil pela independência do sul e contra o fim da abolição da escravatura nos EUA. Novos tempos, a Virginia, e todo o sul dos EUA desejam se livrar das marcas da escravidão e dos confederados.

[2] Morto enquanto cumpria pena em 2007.

Por que Universidade pública e gratuita no Brasil? |

 leia no original:  plataformapoliticasocial.com.br

 Por que Universidade pública e gratuita no Brasil?

Pedro Celestino Pereira, engenheiro, presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro
Roberto Amaral, cientista político, ex-ministro de Ciência e Tecnologia (governo Lula)

As circunstâncias históricas (nelas incluídas as contingências internacionais) condicionam qualquer projeto brasileiro de desenvolvimento, e qualquer que seja ele depende da produção de ciência, tecnologia e inovação. Assim é o trânsito da civilização mecânica para a era do conhecimento. A experiência ditada pelos países que se anteciparam a nós na industrialização ensina que a construção do conhecimento, de um modo geral, é o fruto lentamente acumulado do ensino e da pesquisa que decorre, fundamentalmente, da qualidade de nossas universidades.

 

Por que Universidade pública e gratuita no Brasil?

 

Vargas lançou as bases do Estado moderno brasileiro o que implicou uma colisão (que se vem arrastando ao longo da História) com os interesses dominantes desde a Colônia até a Revolução de 30, a quem devemos, ressaltando seus acertos sem ignorar seus erros, a montagem do moderno Estado brasileiro. Essa construção, sempre inconclusa, chocava-se com os interesses das oligarquias hegemônicas, vinculados a atividades extrativistas – o pau Brasil, a mineração, a cana de açúcar e por um curto período o cacau, e o café (nossa principal fonte de receita até os anos 1970 do século passado). Essas atividades, hegemônicas no poder, eram coordenadas por casas exportadoras sob o manto do capital financeiro português, a seguir inglês e a partir do final da primeira guerra mundial, e de um forma crescente, sob a preeminência dos EUA, perdurante, e sob a qual, a partir do fim da segunda guerra mundial, foi moldado o projeto de industrialização e desenvolvimento dependentes.

 

Quando Vargas, já na ditadura do Estado Novo, prepara o Estado para se assenhorear de nossas riquezas e promover o desenvolvimento autônomo, rompendo com a dependência multissecular, teve de enfrentar a díade olhar para fora versus olhar para dentro, que se revelava nas posições de Eugênio Gudin, anti desenvolvimentista e anti industrialista (teses ainda sobreviventes entre os neoliberais de oitiva) e Roberto Simonsen, que enxergava na opção industrial o caminho para o desenvolvimento. Ao contrário do país, por decisão de sua classe dominante, mero exportador de comodites, quase sempre sem valor agregado, Simonsen propunha, já então (1945) “uma economia fundada no macro planejamento, de sorte a poder proporcionar os meios adequados para satisfazer às necessidades essenciais de nossa população e prover o país de uma estrutura econômica e social forte e estável fornecendo os recursos indispensáveis à sua segurança e à sua presença em patamar condigno na esfera internacional’.

 

Getúlio Vargas via no Estado, nas circunstâncias brasileiras, um indutor do desenvolvimento, e o líder empresarial paulista apostava na presença do Estado em setores estratégicos, como petróleo, energia elétrica e infraestrutura de um modo geral, para possibilitar rápida substituição de importações e geração de empregos urbanos. O projeto concentracionista – em todos os aspectos, desde renda, salários, propriedade e cultura, esta reservada aos bem nascidos— seria substituído por uma nova sociedade, inclusiva. Este salto de qualidade, porém, requeria a formulação de novas teses com vistas à superação do pensamento arcaico, ou seja, carecia de uma nova visão de mundo, e a universidade, ainda incipiente, era seu núcleo. Além desse seu papel ideológico (o ‘olhar para dentro’ agora era estudar o Brasil) competia à Universidade, instituição relativamente nova entre nós, a produção do conhecimento científico e tecnológico. Na década dos anos 1950 surgiram o CNPq e a CAPES, vale dizer, são criadas as bases do desenvolvimento da universidade brasileira voltada para o ensino e a pesquisa. Essa Universidade haveria de ser pública – porque só ela poderia arcar com os investimentos em ciência, pesquisa e inovação, e haveria de ser gratuita, para poder atender à clientela dos brasileiros sem recursos financeiros para o ingresso na universidade privada, ontem como hoje, de ensino caro e deficiente, e ainda hoje apartada da pesquisa, da produção tecnológica e da inovação.

 

Por razões que remontam ao modelo de industrialização dependente a que o Brasil aderiu — as empresas multinacionais investem em pesquisas em suas matrizes, as empresas nacionais preferem pagar royalties a custear pesquisa e inovação, a universidade privada, com raríssima exceções, optou por um ensino sem pesquisa –, coube ao Estado brasileiro o encargo da produção cientifica e tecnológica, caríssima, e seu principal instrumento é a Universidade pública, de par com as agências estatais de fomento, como o CNPq e a FINEP no plano nacional, e as agências estaduais, entre as quais se destaca a FAPESP (SP).

 

Este modelo, imposto pela realidade objetiva, pelas circunstâncias de nosso país e de nosso subdesenvolvimento, e ditado pela necessidade de superar a defasagem que ainda nos separa das grandes nações industriais, ou seja, este modelo que é responsável pelos avanços até aqui logrados, é combatido, desde sempre, por organizações internacionais e desde muito tempo pelo Banco Mundial, para quem, reproduzindo a ideologia da OMC, educação, ensino, pesquisa são, pura e simplesmente, mercadorias, e como tais devem ser consideradas. A ideologia é a cortina de fumaça que tenta escamotear o essencial, que é o conflito histórico entre subdesenvolvidos (em busca de desenvolvimento, se possível acelerado) e desenvolvidos (em busca da conservação de seu monopólio).

 

O papel da ciência e da tecnologia não se esgotou como motor da construção das grandes nações que emergiram com a revolução industrial. Seu papel, quando ingressamos na era da sociedade digital, tecnotrônica, é ainda mais crucial. Mais do que nunca as nações que pretendam preservar seu futuro, e é o nosso caso, são dependentes de seu desenvolvimento científico, diretamente dependente de seus centros de ensino e pesquisa e da democratização do saber, papel que entre nós só pode desempenhar a universidade democrática, inclusiva, porque gratuita.

 

Só a universidade pública brasileira, exatamente por ser pública, investe na formação de seu professorado, 39% dos docentes têm doutorado, quase todos trabalhando em tempo integral. É a universidade pública que investe em laboratórios e hospitais, é ela que, em todos os rankings das melhores, sejam pesquisas brasileiras ou internacionais, despontam como as melhores e nesses pódios jamais aparecem as ricas universidades privadas, disputando nas bolsas de valores bons negócios para suas ações.

 

Ou seja, é o sucesso do nosso modelo a única razão que justifica a proposta do Banco Mundial – o Estado deixar de investir em ensino universitário e tornar pago o ensino. Quando caminhamos para a universalização do ensino e para a democratização do acesso à Universidade, inclusive com a sua interiorização, os estafetas do Banco – em ‘estudo’ contratado e pago pelo governo brasileiro! – propõem a elitização do conhecimento.

Voto branco e voto nulo

Voto branco e voto nulo, artigo de Gilson Alberto Novaes

[EcoDebate] Os brasileiros têm vivido de sobressalto nos últimos anos. Quando se pensa que as notícias ruins chegaram ao fim e que a corrupção chegou ao fundo do poço, descobrimos que elas continuam.

Daqui a pouco estaremos em 2018, um ano de eleições para presidente da república, governadores, senadores e deputados federais e estaduais. Uma festa da democracia!

Seria uma festa da democracia se pudéssemos ter eleições em que o povo participasse como um ato de civismo, de cidadania, de respeito…

Não é assim. Tenho ouvido muita gente dizer que vai anular o voto ou votar em branco. É gente desiludida com a classe política, com os desmandos dos três poderes, com a impunidade que reina no país, com a falta de respeito com o cidadão, com o trabalhador, com seus direitos, com o dinheiro público. Um caos!

Têm razão esses eleitores em estarem desiludidos, mas eles não têm razão quando dizem que vão votar em branco ou anular o voto, com a afirmação de que “ninguém presta”.

O voto nulo já foi bandeira ideológica dos anarquistas no século passado. Votar nulo era considerado um voto de protesto. Já o voto em branco era o voto do conformismo, isto é, aqueles eleitores que se conformavam com qualquer que fosse o eleito. Hoje é diferente! O voto nulo não serve de protesto e o voto em branco não manifesta conformismo. Quando o voto era em cédula, o voto nulo, ou de protesto, era aquele em que o eleitor rasurava e até escrevia o que queria na cédula. O eleitor se sentia “vingado” com seu “protesto”.

Uma outra falácia que se ouve hoje em dia é a afirmação de que, se metade dos eleitores votarem em branco ou nulo, teremos outra eleição, sem a participação dos candidatos daquela eleição. Não é verdade.

Não sei se de propósito ou não, a confusão foi gerada por “intérpretes” do artigo 224 do Código Eleitoral, onde diz que, havendo a anulação de mais da metade dos votos a eleição seria anulada, convocando-se outra. O artigo não fala do voto nulo, aquele em que o eleitor decidiu anulá-lo e sim do voto anulado, isto é, aquele que foi anulado pela Justiça Eleitoral por fraude, problema no registro da candidatura, cassação do diploma do eleito, uso do poder econômico, falsidade, fraude, coação de eleitores, etc.

O voto no Brasil é obrigatório, onde o eleitor é obrigado a comparecer perante a sua seção eleitoral e exercer seu direito do voto. Se não o fizer, precisa justificar-se perante a Justiça Eleitoral. Entretanto, ele é livre para escolher o seu candidato ou não escolher nenhum. Há uma tecla especial para o voto em branco. Para anular o voto o eleitor precisa digitar um número inexistente e “confirmar”.

O que precisa ficar claro é que tanto um como outro voto – branco ou nulo, são totalmente descartados, pois nossa Constituição diz que “é eleito o candidato que obtiver a maioria dos votos válidos, excluídos os brancos e os nulos”. Antes, os votos em branco eram considerados válidos, contados para o candidato vencedor. Era tido como disse, como um voto de conformismo. Depois da Constituição – 1988, votos brancos e nulos não são contados.

Essa situação leva a um cálculo que os eleitores precisam fazer, principalmente aqueles que estejam pensando em anular o voto ou votar em branco. A matemática no caso é simples: para ser eleito o candidato a cargo majoritário precisa ter cinquenta por cento dos votos válidos – excluídos brancos e nulos, mais um voto. Assim, quanto menor for o número de votos válidos – aqueles dados a um candidato ou a um partido, menor será o percentual necessário para se considerar vencedor.

Dessa forma, candidatos que eventualmente tenham um eleitorado “cativo”, mas que sua votação não atinja cinquenta por cento, torcem para que tenhamos muitos votos brancos e nulos. O percentual (50% + 1), seria atingido com maior facilidade.

Há quem entenda que o voto nulo ou em branco seja uma opção como outra qualquer. Não é! Os candidatos serão oficializados aos eleitores pelos seus partidos. É a lei. Ninguém pode ser candidato se não for filiado a um partido. Não podemos mudar isso, exceto com uma Constituinte exclusiva, o que não ocorrerá agora. Em 2018 teremos que escolher entre os candidatos que surgirem e a omissão pode beneficiar um candidato indesejável.

Num país onde mais de 30% do povo não sabe quem é o governador do seu Estado e 20% não sabe quem é o presidente da República, segundo o IBGE, estimular o voto branco ou nulo tem sido uma arma daqueles que torcem pelo quanto pior, melhor. Confiam na alienação dos eleitores. Isso é horrível para a democracia!!!

*Gilson Alberto Novaes é professor de Direito Eleitoral na Faculdade de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie campus Campinas, onde é Diretor do Centro de Ciências e Tecnologia.

in EcoDebate

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Os anjos caídos do capitalismo

“A justiça eternal tinha disposto

Para aqueles rebeldes este sítio:

Ali foram nas trevas exteriores

Seu cárcere e recinto colocados,

longe do excelso Deus, da luz empíria,

Distância tripla da que os homens julgam

Do centro do orbe à abóbada estrelada.

Oh! como esse lugar, onde ora penam,

É diverso do Céu donde caíram!”

(John Milton, O Paraíso Perdido)

Diante do gozo coletivo das prisões espetaculares de políticos e empresários, típico de uma classe média alienada, culturalmente pobre e autoritária, gostaria de escrever sobre as duras sentenças aplicadas a um grupo da sociedade que nunca fez parte da população preferencial das cadeias brasileiras: os super-ricos, assim entendidos o 1% da população brasileira que recebe a renda mensal de R$ 23.128,71 para mais.

De um modo geral, a imensa maioria dos condenados às masmorras nesse país é composta por miseráveis, negros, pobres, semi-alfabetizados, moradores das periferias e favelas. O sistema de justiça criminal brasileiro é como um moedor de carne desses 99%.

Tendo atingido o inglório 4º lugar da maior população carcerária do mundo, com mais de 600 mil pessoas encarceradas, sendo 40% delas sem julgamento definitivo, esse contingente humano é composto por negros (67%), pobres e excluídos (1% possui curso superior completo), e seguimos insistindo na ideia da cadeia como solução para os males do país.

Quando, nas estranhas operações com nomes bizarros e larga cobertura midiática, esses milionários são apenados, em algumas ocasiões juízes, oriundos das classes médias em sua imensa maioria, e, portanto, ressentidos no sentido nietzschiano da palavra, valem-se de expressões de caráter moral para julgá-los.

Não é incomum o uso de termos como “valores espúrios”, “relação espúria”, “ganância” e “corrupção sistêmica”, expressões carregadas de conteúdo moral, e analisam as práticas comerciais como “transações que contrariam a lógica empresarial” para “limpar o capital sujo e reintroduzi-lo no sistema financeiro com aparência lícita”, já que o apenado “sabia ou deveria saber” da “origem ilícita dos valores”, posto que suas maquinações tornariam “mais difícil a identificação da procedência dos valores”.

Para esses julgadores, esses milionários faltam com a verdade, porque possuem todos contas em bancos sediados em paraísos fiscais, sob a forma de offshore, não raro possuem grifes, abrem lojas de luxo e restaurantes caríssimos que não possuem vendas suficientes para bancar as despesas do próprio negócio, e realizam transferências financeiras em transações eletrônicas de difícil compreensão [1], normalmente entendidos como provas da atividade criminosa.

Talvez esses privilegiados não deixem de ser vistos como anjos caídos, exemplares segregados de seu contexto, como aves rarae ou ovelhas negras do seu habitat: o sistema econômico do capitalismo.

Ocorre que esse milionário, inusitado frequentador do banco dos réus do tribunal midiático, não é uma avis rara, uma ovelha negra nem muito menos um anjo caído miltoniano.

O que não veem é que não há como considerá-los exceção. Como exemplares poluídos que se rebelaram contra a divina ordenação econômica e conspurcaram um sistema econômico sacrossanto. O que esses poucos e incomuns usuários do sistema de justiça criminal representam é um vislumbre da própria ordem econômica a qual pertencem.

Uma fagulha cintilando na noite escura do ressentido da classe média que volta contra o abastado sua representação da deus iræ. O que ele, admirador do capitalismo (que considera a expressão máxima da liberdade e da democracia) não compreende é o que está julgando.

O verdadeiro capitalista que senta no banco dos réus representa o próprio capitalismo. Ele o encarna no palco dos tribunais televisionados.

O sistema econômico do capitalismo é em si um roubo. Um roubo do tempo dos trabalhadores, um roubo das riquezas das nações, dos valores caros da vida como a liberdade, democracia, o meio ambiente, a felicidade, a educação e a cultura.

A mão invisível que tudo regularia é a mão fantasmagórica que tudo enlaça, que torna o capitalismo avesso a qualquer regulamentação e antagonista da verdadeira liberdade e da democracia efetiva.

Por si só exploratório e escorregadio, vive na promiscuidade com os supostos representantes do povo e de escapar a qualquer ônus social, desde a repartição da riqueza e até a mera tributação.

Daí suas intrincadas formulações nessa fase em que sequer produtivo é. Hoje a produção industrial é um acidente. A primeira grande crise especulativa, a bolha das tulipas do século XVII, é hoje a meta do capitalismo financeiro, que subordina os meios de produção à obtenção de lucro pelo mercado financeiro. Seu foco é gerar lucro a qualquer preço, a qualquer custo, sem limites.

Trabalho escravo, narcotráfico, tráfico de armas, de órgãos humanos, de seres humanos, prostituição, jogo ilegal, guerras, fome, miséria, destruição do meio ambiente, aquecimento global, assim como transferência de empresas para o terceiro mundo, que corre para desregulamentar os direitos dos trabalhadores, transferências incessantes de capital especulativo em formulações ultracomplexas, tudo é um negócio em suas mãos etéreas e ele não se desenvolve sem o ilícito, como ilícito ele é em sua gênese e existência predatória.

Daí que a maior coerência que teriam os juízes ressentidos seria considerar, tal como um tribunal maoísta, esses supostos “anjos caídos” do capitalismo como inimigos da classe trabalhadora.

Os julgamentos espetaculosos, as condenações morais, baseadas na barganha reiterada com o indigitado criminoso, nas legislações aprendidas nos bancos de faculdades americanas e nos programas de televisão detetivescos igualmente importados, enfim, os paradigmas classemedianos como fundamento da condenação seriam, nesse outro aberrante teatro do absurdo, minimamente coerentes.

Como nos encontramos nessa armadilha? Como construímos uma sociedade que aposta que os excessos, as prisões ilegais, a fragilidade de provas e as condenações em massa que levam centenas de milhares aos cárceres seria um critério para corrigir os males do país também no andar de cima?

Não existe possibilidade da superação da história sem um radical enfrentamento da nossa realidade. Um dos países com a maior concentração de renda do mundo, aporofóbico, profundamente racista, lgbtfóbico, misógino, não alterará esse cenário com boas discussões sobre o que é o Brasil.

O capitalismo não pode ser concertado ou humanizado. Ele é o defeito e ele é desumano.

Há nessas operações e seus rótulos de marketing uma grande perda de oportunidade histórica.

A pretensão de mudar um sistema exploratório político e econômico com a punição vingativa, produto do julgamento espetacular, moralista, típico da abraâmica lógica binária “bem versus mal” nada pode produzir de bom.

O que os milionários poderiam dizer, não em troca de uma tornozeleira e de ficar preso em casa, ou de décadas de condenação ao cárcere – a princípio, evidentemente – em uma Comissão da Verdade e Reconciliação como fez a África do Sul, dentro da filosofia ubuntu, para enfrentar os crimes do regime do apartheid?

Nessa filosofia, que em essência significa o que é ser uma pessoa humana, se entende que há interconectividade entre a vida e a humanidade, e se reconhece que a humanidade e bem estar de um depende da humanidade e bem estar dos outros.

Portanto, o mundo ubuntu valoriza a totalidade da comunidade e os seus indivíduos, transcendendo categorizações como raça, religião ou classe, criações humanas que não possuem relação com o ser-aí,  e, portanto, não existe a ideia do “outro” como parte da mesma comunidade. Ele é a comunidade, como a comunidade é ele.

Daí a necessidade de observar que o perpetrador atinge a comunidade com sua conduta e também a si mesmo, se desumanizando tanto quanto desumanizou a todos. O objetivo da reconciliação assim é auxiliar as partes conflituosas a se reconciliar, fazer tanto a humanidade da vítima como a do perpetrador poder ser restaurada. Nesse passo, a confiança pode ser restaurada e a harmonia social mantida.

Nesse tribunal, destinado a dar publicidade aos crimes do apartheid, os perpetradores que confessassem seus delitos ficariam imunes a qualquer punição, desde que apresentassem ampla colaboração com a sociedade, divulgando todas as práticas do regime, para que esse nunca mais voltasse a acontecer.

Essa foi a solução negra e africana para os crimes de um regime racista e, portanto, desprezível, mantido pelas potências ocidentais (EUA e Inglaterra) no poder por décadas.

Cabral, Cunha e demais alcaides do atual governo cumprem – até o presente momento – longas sentenças por levarem uma vida extravagante em que tentaram, como nouveau riches, mimetizar o mundo dos milionários.

O que teriam a dizer em um Tribunal para a Aplicação da Justiça Restaurativa em El Salvador para enfrentar os crimes de lesa-humanidade praticados por regimes autoritários apoiados pelos EUA?

Esse tribunal não tem a intenção de constituir uma justiça dos vencedores de guerra e punitiva, sujeitando abomináveis perpetradores à justiça dos ocupantes do território, leva-los até a forca como fizeram os aliados em Nuremberg.

Ele procura fazer o Estado criminoso contra a humanidade defrontar-se com seus crimes e que as vítimas tenham vozes ativas. Não busca pendurar genocidas numa forca ou jogá-los numa cadeia onde seus crimes serão esquecidos, onde serão considerados exceção de um regime perverso porque não poderia ser diferente do sistema econômico perverso que ele representa.

A esquerda brasileira – presa na ausência de diálogo com a massa de despossuídos – peca grosseiramente por apostar nas mudanças à Torquemada e à Savanarola. Fogueiras geram mais fogueiras, geram julgamentos de Salém e caça às bruxas.

A fratura do sistema conspurcado pelo capitalismo e, portanto, insuperável, pode nos levar, pela enésima vez em nossa história, para outra ditadura cruenta e igualmente corrupta, que promoverá mais exclusão social e miséria.

A esquerda brasileira tem o dever de superar suas inacreditáveis divisões e não reagir, de modo ressentido e despreparado, às investidas contra os direitos humanos. Tem o dever de propor soluções que nos tirem das armadilhas históricas de tentar fazer mais com o mesmo, ou de apostar na solução autoritária para se vingar do inimigo de classe.

Estará aberta para o multiculturalismo, para uma justiça humanizada e transformadora, para a emergência de uma democracia radical, para o enfrentamento real e não pontual das desigualdades desse país?

André Tredinnick é Juiz de Direito no Rio de Janeiro, membro da AJD – Associação Juízes para a Democracia.

Bullying, retrato de um sistema

 Bullying, retrato de um sistema

Em novo livro, dois sociólogos propõem: é hora de perceber que as intimidações violentas não são desajustes individuais. Elas reproduzem a disputa incessante que o capitalismo estimula

Charles Deber e Yale Magrass, entrevistados por Mark Karlin, em Truthout | Tradução: Camila Teicher

O que causa o bullying? Ao analisarem o fenômeno nos Estados Unidos, em Bully Nation, os sociólogos Charles Derber e Yale R. Magrass mostram como as desigualdades de poder, o militarismo e o capitalismo agressivo tornam tanto o bullying pessoal como o institucional um lugar-comum. A seguir, em entrevista à revista Truthout, Charles e Yale abordam otema a partir de um ponto de vista original. Para eles, as crianças que intimidam as outras, de forma violenta, não estão se mostrando desadaptadas. Ao contrário, são as que assimilaram, de maneira crua e não mediada, algumas das características centrais de um sistema cada vez mais reduzido à luta de todos contra todos.

Mark Karlin: Costumamos abordar o bullying a partir de uma perspectiva individual. Por exemplo, alguém pode começar uma campanha para combatê-lo nas escolas. O subtítulo do seu livro, no entanto (How the American Establishment Creates a Bullying Society, ou “Como o Establishment norte-americano cria uma socieade de Bullying”) indica que o bullying não pode ser detido considerando casos isolados:. Como vocês chegaram a essa visão?

O bullying é uma forma de controlar as pessoas, colocando-as em “seu lugar”, talvez desde que os seres humanos existem. Até cerca de 20 anos atrás, era visto como algo sem importância, um rito de passagem que crianças e adolescentes deveriam enfrentar e superar. Alguns sofrem relativamente pouco com isso – talvez eles mesmos sejam intimidadores – e o impacto a longo prazo é muito pequeno. Para outros, é um trauma que deixa cicatrizes para toda a vida.

Em grande medida, o discurso acerca do bullying sempre foi controlado pelos psicólogos, que o veem como um problema para indivíduos que precisam de terapia. M as precisamos examinar por que é algo tão arraigado. Será que as pessoas e instituições poderosas têm algum tipo de interesse em incentivá-lo e perpetuá-lo?

Vivemos no capitalismo militarizado. O capitalismo pressupõe competição – vencedores e perdedores. O militarismo requer violência, agressão e submissão à autoridade. O bullying constrói exatamente essas características. A psicologia é inadequada para entender sua causa e o seu poder. De fato, seu cerne é o poder e a psicologia praticamente não tem esse conceito; ela lida com indivíduos mudando suas atitudes. A sociologia e a política são muito melhores para compreender o poder. C. Wright Mills, sociólogo dos anos 1950, falava da “imaginação sociológica”. Argumentava que não podemos separar “problemas pessoais” de “questões públicas”. Precisamos da imaginação sociológica para entender o bullying – como as crianças foram criadas para se incorporarem ao capitalismo militarizado? De que tipo de sistema escolar o capitalismo militarizado precisa? Como as autoridades escolares incentivam uma cultura estudantil que prepara para o capitalismo militarizado e vê o bullying como uma parte “normal” da vida?

Duas expressões do livro me intrigam: “capitalismo militarizado” e “bullying do capital”. Vocês podem explicar a diferença?

Nem todas as sociedades capitalistas são militarizadas (pense na Costa Rica ou Suécia) e nem todas as sociedades militarizadas são capitalistas (pense na Rússia ou na Arábia Saudita). Às vezes esquecemos disso porque os EUA combinaram perfeitamente o militarismo e o capitalismo, criando assim o “capitalismo militarizado”. O militarismo é inerentemente uma força de bullying e, de forma independente, o capitalismo é, em muitos sentidos, um sistema de intimidação. Portanto, todos os Estados militarizados, mesmo os não capitalistas, são intimidadores. E o mesmo se aplica aos Estados capitalistas que não são militaristas.

Porém, quando se tem um sistema capitalista militarizado, os efeitos se multiplicam. Tanto os elementos militaristas quanto os capitalistas do sistema geram o bullying – e a sinergia cria o superbullying. Essa é uma das razões pelas quais os EUA são a nação intimidadora mais poderosa e mais perigosa.

O termo “bullying do capital” – que é o título do capítulo 2 – refere-se ao bullying inerente ao capitalismo. O bullying do capital remete ao bullying realizado pelas elites capitalistas mesmo nas sociedades não militarizadas. A classe capitalista (que inclui as corporações) intimida os trabalhadores, consumidores, fornecedores, os rivais e abastecedores corporativos. Obviamente, Marx construiu toda sua teoria da exploração capitalista como uma relação de bullying entre a classe capitalista e a classe trabalhadora. Como ele desenvolveu essa ideia em sua obra O Capital, consideramos que seria apropriado chamar esse tipo de “bullying do capital”.

Como Donald Trump ilustra a ideia de “nação intimidadora”?

Trump personifica a imagem que a maioria das pessoas tem do intimidador. Com suas ofensas, humilhações e até mesmo ameaças violentas, ele parece um valentão grande e velho no pátio da escola. Mas, como já dissemos, é preciso ter cuidado para não sermos excessivamente psicológicos.

Há uma questão sociopolítica mais importante: por que ele é tão popular, pelo menos em determinados círculos? As pessoas costumam dizer que Hitler era louco, mas isso nos leva à pergunta: como um lunático conquistou milhões de seguidores e dominou um dos países mais avançados do mundo? Ainda que sejam brutais e cruéis, os intimidadores normalmente são admirados. Quando Trump tinha seu reality show – “O Aprendiz” –, as pessoas vibravam quando ele anunciava “Você está demitido!”. Em uma era de ansiedade, em que os salários estão estagnados há décadas, em que os homens brancos temem que seu status esteja sendo ameaçado pelas mulheres e pessoas negras, em que os povos do terceiro mundo podem desafiar os Estados Unidos no Vietnã, Iraque e Afeganistão, alguns talvez sintam a necessidade de um protetor que “tornará a América grandiosa novamente”.

Com “grandiosos”, Trump quer dizer que os Estados Unidos devem se sentir livres para ir aonde quiserem, fazer o que quiserem, em qualquer lugar do mundo, impunemente. Ninguém pode ter a permissão de mexer com a América. Um homem forte – um valentão – é necessário. Para te proteger, ele precisa se assegurar de que ninguém pode desafiá-lo – ele deve ser capaz de te destruir. Quanto maior a eficiência das ameaças do valentão, mais segurança sentiremos. Podemos nos sentir até empoderados por seu brilho; podemos fazer parte da casta dominante, do time vencedor. Pessoalmente, sua vida pode não ser grandiosa, mas pelo menos você pode ser parte de algo grandioso: o intimidador do mundo.

Vocês podem falar um pouco sobre o bullying racial e de classe?

O capitalismo é bullying; é competição – vencedores e perdedores. A desigualdade social está no cerne do capitalismo. Os fracos merecem seu destino. Qualquer um que seja intimidado fez por merecer. Os pobres não têm resistência nem correm atrás. Eles devem se submeter ao poder daqueles que tem a força para construir indústrias, fortunas e impérios. Os fortes foram feitos para dominar os fracos. Para que a economia cresça, 1% deve ser livre para intimidar os outros 99%.

O bullying racial não é essencial ao capitalismo militarizado, mas é útil. Os Estados Unidos começaram quando os europeus cruzaram o Atlântico para tomar as terras dos índios e aniquilá-los. Eles tinham a liberdade para fazer isso porque os índios foram definidos pelos europeus como inferiores e não civilizados, inaptos para ser livres, ter sua própria cultura e sua própria terra, talvez até mesmo inaptos para estar vivos. Os europeus foram escolhidos por uma força superior. Eles tinham “destino manifesto” para intimidar, dominar e prevalecer.

A princípio, tentaram escravizar os índios e os intimidaram para que fizessem seu trabalho por eles, mas isso mostrou-se pouco prático porque os índios morriam ou escapavam terra adentro, já que a conheciam melhor. Então os europeus recorreram aos africanos, que, novamente, foram definidos como criaturas inferiores aos humanos, incapazes de cuidar de si mesmos, que necessitavam do processo civilizatório e da proteção da Europa. Precisavam ser intimidados para seu próprio bem, porém 20 milhões foram forçados a cruzar o Atlântico e a metade morreu no trajeto.

Talvez a escravidão dos negros tenha tornado os homens brancos pobres ainda mais pobres, aumentado as divisões sociais e intensificado o bullying de classe – mas pelo menos os brancos pobres podiam sentir que eram parte da raça que fazia o bullying. Entretanto, também enriqueceu muito alguns poucos, com mais riqueza vinda da escravidão do que da terra, das colheitas, ferrovias ou fábricas. O bullying racial reforçou o bullying de classe; dividiu os 99% e fez com que muitos deles se identificassem com o 1%, em vez de desafiá-lo.

Quando a escravidão acabou, o bullying racial contra os negros continuou na forma de segregação e, mesmo depois dessa época, subsiste em evidências como a brutalidade da polícia contra os negros. O bullying racial ajuda a explicar a popularidade de pessoas como Donald Trump.

Muitas pessoas provavelmente não pensem em bullying ambiental. Vocês podem explicar esse conceito?

Em nossa era de aquecimento global catastrófico, é difícil não pensar em “bullying ambiental”. No entanto, embora todo o capitalismo militarizado gere efeitos ambientais devastadores, não encontramos nenhum trabalho que use esse termo.

Na vida cotidiana, obviamente, a maioria sabe que algumas pessoas fazem bullying com seus cachorros ou outros animais domésticos. As pessoas também percebem que há uma cultura de bullying animal – como o negócio mortal de rinha de cachorros [ou de galos]. E a maioria das pessoas também tem consciência de que o agronegócio transforma o bullying de animais em uma engrenagem impiedosa de lucro.

Porém, ainda que seja muito óbvio que os animais sofrem bullying, pode ser menos claro que as plantas e o solo ou as rochas também possam ser alvos. O bullying pressupõe que a vítima tem a capacidade de experimentar algum tipo de consciência. Embora muitas culturas indígenas acreditem que todas as formas de vida e da natureza têm espírito e consciência, as sociedades ocidentais construíram uma visão não senciente das plantas e de toda a natureza, permitindo assim que os humanos ataquem e destruam todas as formas de vida.

A ciência agora mostra que, na verdade, muitas plantas têm formas extraordinárias de consciência e comunicação. Estudos recentes sobre as árvores mostram que elas se comunicam por meio do entrelaçamento de suas raízes, sobrevivendo e prosperando através da construção de “comunidades”. Os cientistas que estudam as florestas agora falam de árvores “solitárias”, que ficam isoladas e acabam morrendo rapidamente.

Mas e as pedras? É possível fazer bullying com uma pedra? Se você cortá-la ou explodi-la, ela sofrerá ou sentirá dor? Isso está menos claro, então nós introduzimos o conceito de “vandalismo ambiental”. É o nosso termo para descrever a violência humana contra os objetos naturais que podem não ter consciência. O livro explora a relação entre bullying ambiental e vandalismo ambiental – e mostra como o capitalismo militarizado alimenta ambos, ameaçando agora destruir não só os humanos mas também todas as espécies e, talvez, a própria natureza.

Em seu epílogo, vocês discutem novas formas de pensar a redução do bullying. Vocês podem descrever algumas de suas ideias?

A visão psicológica convencional – de que o bullying é simplesmente um tipo de distúrbio pessoal ou doença mental – leva à ideia de que a terapia é a única solução. Isso gera uma indústria virtual de orientação educacional – dando empregos a psicanalistas, psicólogos, assistentes sociais e professores – em um esforço que não foi capaz de deter a persistência do bullying entre as crianças (nos pátios escolares ou online).

Isso não nos surpreende em absoluto, já que a abordagem terapêutica desconsidera a principal raiz do problema. Quando as crianças ou os adultos fazem bullying, eles estão reagindo às normas ou incentivos de suas empresas e de sua sociedade militarizada. Eles não estão “doentes” ou perturbados nem são “antissociais”; na verdade, estão bem adaptados ao sistema e não precisam de terapia para se ajustar ainda mais.

Nós discutimos o surgimento de um significativo movimento “antibullying” nas escolas e na sociedade, com boas intenções, mas que continua contaminado pelo enfoque psicológico. O bullying permanecerá desenfreado até que descartemos a sabedoria convencional e nos concentremos nas raízes do problema.

Isso significa usar a “imaginação sociológica” e ver que muitos problemas pessoais – e o bullying é um excelente exemplo – são, na verdade, problemas sociais. A melhor maneira de reduzir o bullying é mudar nossa sociedade reduzindo o militarismo e nos encaminhando a um sistema menos capitalista.

Os países social-democráticos, como a Suécia, têm taxas baixas de bullying. Isso acontece porque não são militarizados e podem ser vistos como o que Bernie Sanders chamou de “socialismo democrático”. Seu bem-estar social universal e seu forte movimento trabalhista reduzem as desigualdades de riqueza e poder, que são as causas sistêmicas do bullying.

Essa “mudança de regime” nos EUA acontecerá somente quando se fortalecerem os movimentos sociais contra o capitalismo militarizado e as hierarquias sociais baseadas em raça, classe e gênero. Tais movimentos estão difundidos, porém fragmentados e precisam trabalhar juntos (o que [Derber] chama de “resistência universalizada” em um próximo livro). Como o bullying é um problema sistêmico, são necessários movimentos que busquem uma ampla mudança sistêmica para reduzi-lo.

Alguns grupos antibullying nos Estados Unidos – que crescem entre grupos como mulheres, afrodescendentes, latinos, muçulmanos, membros da comunidade LGBTQ e deficientes – estão começando a reconhecer que o bullying é um problema social. No entanto, para serem efetivos, eles precisam universalizar seus movimentos. Isso significa trabalhar juntos para reduzir todas as hierarquias sociais e criar uma alternativa ao capitalismo militarizado que garanta igualdade de direitos, poder e respeito a todos.