Quais interesses cada país tem na guerra da Síria?


Por Matthias von Hein, Martin Muno, Jens Thurau, Rahel Klei e Mikhail Bushuev

De uma guerra civil que opunha rebeldes e jihadistas ao regime do presidente Bashar al-Assad, o já longo conflito na Síria evoluiu para um enfrentamento internacional no qual potências como Estados Unidos, Rússia, Turquia, Irã, Arábia Saudita e também Israel estão cada vez mais envolvidos. Confira quais são e que interesses perseguem os principais atores internacionais do conflito.

Irã: principal apoiador de Assad

À primeira vista, o regime secular da Síria e a teocracia iraniana têm pouco em comum. Mas foi justamente a ajuda de Teerã que evitou a queda de Assad, ao menos até a intervenção direta da Rússia, no final de 2015. Até lá, o Irã era o principal aliado militar de Assad.

Os iranianos forneciam dinheiro, armas, informações de inteligência e enviavam conselheiros militares, como também tropas para a Síria – formadas por membros da Guarda Revolucionária, por milícias xiitas ou também pelo grupo libanês Hisbolá, que é fortemente apoiado pelo Irã.

O viés religioso da guerra civil, por meio dos jihadistas sunitas, oferece ao Irã a possibilidade de se apresentar como a potência protetora dos xiitas, em oposição à potência regional sunita, a Arábia Saudita.

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Além disso, a aliança bélica do Irã com Assad se baseia em três objetivos comuns: o desejo de conter a influência americana no Oriente Médio, o enfraquecimento de Israel e, no passado, impedir a ânsia por poder do Iraque comandado por Saddam Hussein.

Atualmente, Teerã e Damasco compartilham também a oposição à Arábia Saudita e aos países sunitas do Golfo Pérsico. Em termos de estratégia regional, a Síria é importante para o Irã como uma ponte para o Líbano, onde o Hisbolá tem sua área central de atuação.

Rússia: a salvação de Assad

Quando Assad se encontrava num beco sem saída, a Rússia o ajudou: em 2015, Moscou deu início ao seu apoio militar ao regime sírio. O objetivo oficial da Rússia: a luta contra o terrorismo. Na verdade, os ataques se dirigiram não somente contra o “Estado Islâmico” (EI) e outros grupos jihadistas, mas também contra muitos outros adversários de Assad.

Manter Assad no poder nunca foi o único objetivo de Moscou: depois do isolamento da Rússia devido à crise da Ucrânia, o presidente Vladimir Putin quis reposicionar seu país no cenário internacional, principalmente como potência atuante no Oriente Médio – e foi bem-sucedido. O presidente sírio também lucrou com a intervenção russa: ele reconquistou grande parte da Síria.

Os maiores sucessos militares dos russos aconteceram em Aleppo e Palmira. Nesse contexto, no entanto, o Kremlin ignorou as diversas acusações de crimes de guerra contra civis.

Além disso, a Rússia e o Irã compartilham o objetivo de diminuir a influência dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Arábia Saudita: guerra de procuração contra o Irã

Desde a guerra do Iraque, em 2003, a Arábia Saudita, sunita, vem se preocupando com a crescente influência do Irã, xiita, na região, com quem compete pelo papel de principal potência regional. A proximidade entre Damasco e Teerã também é vista com desconfiança por Riad.

A Arábia Saudita vem apoiando fortemente a oposição síria desde o início da Primavera Árabe, em 2011. O objetivo: derrubar Assad e instalar um regime mais amigável aos sauditas. Para tal, grupos jihadistas também foram generosamente abastecidos com dinheiro e armas. Tanto para a Arábia Saudita quanto para o Irã, a Síria se tornou um palco sangrento para a expressão dessa rivalidade.

Turquia: antes amiga, hoje inimiga

A Turquia em geral e o seu presidente, Recep Tayyip Erdogan, em particular mantiveram excelentes relações com o regime Assad até meados da década de 2000 – incluindo fotos de férias conjuntas na costa mediterrânea turca.

Com a eclosão da guerra civil síria, o oposto se tornou verdade: a Turquia passou a apostar na queda de Assad, apoiando a oposição síria. Por território turco passam combatentes e armas – destinados muitas vezes a grupos jihadistas, incluindo o “Estado Islâmico”.

Atualmente, Ancara aparenta ter sobretudo um objetivo: impedir o estabelecimento de áreas curdas autônomas ou até mesmo independentes ao longo da fronteira turca – mesmo que, para tal, entre em conflito com os Estados Unidos, aliados dos turcos na Otan e principais apoiadores da milícia curda YPG.

Além disso, Erdogan quer desempenhar um papel importante na modelação da Síria pós-guerra. As expedições militares através da fronteira também servem para reivindicar esse papel. Em alusão ao Império Otomano, essa exibição de poder também deve ajudar Ancara no seu objetivo de se tornar uma potência influente no Oriente Médio.

Israel: o inimigo está em Teerã

A maior preocupação de Israel na guerra civil síria é a presença contínua da Guarda Revolucionária iraniana e de combatentes leais a Teerã na Síria. Acima de tudo, Israel teme que a milícia libanesa Hisbolá se estabeleça nas Colinas de Golã, na fronteira sírio-israelense, e bombardeie o país a partir daí.

Por esta razão, desde o início do conflito sírio em 2011, a Força Aérea israelense lançou cerca de uma centena de ataques a comboios de armas para o Hisbolá, fábricas de armamentos e posições iranianas.

EUA: envolvimento sem planejamento

Foram as lições do fracasso da intervenção dos EUA no Iraque e na Líbia que levaram o ex-presidente Barack Obama à sua hesitante política para a Síria. Quando, em 2012, Assad chegou perto de uma derrota militar, Obama se recusou a um maior envolvimento, ainda que condenasse fortemente os ataques do governante sírio contra o próprio povo. Em vez disso, foi a Rússia que interveio na guerra civil – ao lado de Assad.

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A política do presidente Donald Trump é igualmente hesitante: seus objetivos são a destruição do grupo terrorista “Estado Islâmico” e a contenção da influência regional do Irã. É por isso que o envolvimento dos EUA se limita à presença de forças especiais e ataques aéreos individuais. Assim, a participação americana na Síria não desempenha um papel realmente decisivo.

A recente ofensiva turca contra os curdos em Afrin criou um dilema para os Estados Unidos, já que a Turquia é um importante parceiro no âmbito da Otan, mas Washington, ao mesmo tempo, precisa dos combatentes curdos como aliados poderosos contra o “Estado Islâmico”.

Alemanha: ajuda à autoajuda

No passado, a Alemanha sublinhou repetidamente que uma solução pacífica para a guerra da Síria só seria possível sem Assad. Recentemente, o porta-voz do governo em Berlim, Steffen Seibert, instou o Irã e a Rússia, aliados da Síria, a exercer influência sobre o governante sírio. “Sem o apoio desses dois aliados, o regime Assad não estaria militarmente onde está”, disse.

Militarmente, a Alemanha não está diretamente envolvida na guerra na Síria e é antes um ator de pouco peso. No entanto, aeronaves alemãs apoiam o reconhecimento aéreo de posições do “Estado Islâmico”. Inicialmente, esses aviões partiam da Turquia, mas agora, depois da retirada das Forças Armadas alemãs (Bundeswehr) de Incirlik, eles passaram a voar da Jordânia.

Além disso, a Bundeswehr ajuda os combatentes curdos que lutam contra o “Estado Islâmico” no norte do Iraque, principalmente através de treinamento e fornecimento de armas. A Alemanha também desempenhou um papel central na destruição temporária de armas químicas sírias.

Mais recentemente, no entanto, os tanques de guerra Leopard fornecidos há muitos anos à Turquia estiveram no centro de debates acalorados na Alemanha, depois que Erdogan os usou em seus ataques aos curdos na Síria.

França: Macron procura a solução política

Dos países ocidentais, foi a França que assumiu um papel particularmente ativo na guerra da Síria. Inicialmente, a França forneceu equipamentos médicos aos rebeldes sírios, mais tarde também armas. No final de setembro de 2015, deu início a ataques aéreos contra o “Estado Islâmico”, expandindo-os após os atentados terroristas de Paris, em novembro de 2015.

Segundo declarações próprias, as prioridades da França na Síria se concentram na melhora da ajuda humanitária, na luta contra o terrorismo e na retomada das negociações de paz. Principalmente em relação ao último ponto, o presidente Emmanuel Macron se esforçou de forma especial.

A França apoia a oposição moderada e acredita numa solução política para a Síria. Além disso, Macron disse, no ano passado, que Paris não considera mais a saída de Assad uma condição para as negociações de paz.

Há pouco mais de uma semana, o presidente francês ameaçou executar ataques aéreos na Síria se houvesse evidências do uso de armas químicas contra civis. Ele já havia advertido, no ano passado, contra uma ultrapassagem dessa “linha vermelha”.

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Imperialismos Futebolísticos

leia no original:   ludopedio.com.br

 Édison Gastaldo

Quando morava em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, eu tinha muita simpatia pelo time local, o Aimoré. Antes de sair de lá, procurei uma camiseta do Aimoré para comprar numa loja de esportes local, mas em vão. A loja apresentava várias versões das camisas oficiais do Barcelona e do Manchester United, do Flamengo, do Corinthians, do Grêmio e do Inter, é claro, mas em pleno centro de São Leopoldo não havia nada do Aimoré!

Escudo do Clube Esportivo Aimoré

Fiquei pensando na dificuldade de ser torcedor de um time do interior. Além de seu time não jogar por metade do ano, por falta de competições, as finanças são invariavelmente deficitárias, e os custos com a manutenção do estádio e instalações crescem sem cessar. Caso um dia o destino permita que se monte uma equipe bem entrosada e razoavelmente competitiva, os grandes clubes da capital comprarão facilmente os melhores jogadores – ou o técnico, se for ele o responsável pelo sucesso. E o pobre clube do interior voltará à estaca zero, sem dinheiro – previamente consumido pelas dívidas – e sem os jogadores. Trata-se de um círculo vicioso de imperialismo futebolístico, que ocorre em vários níveis: os clubes do interior são “colonizados” pelos clubes da capital. Os clubes das capitais de estados periféricos, por sua vez, são colonizados pelos clubes das capitais dos estados centrais. Os principais times do Brasil, por sua vez, são colonizados por equipes das grandes ligas europeias. Não estamos sós: também os clubes da Argentina, da Colômbia, do Uruguai, do México e de muitos países africanos são colonizados pelas ligas europeias. De modo análogo à colonização propriamente dita, dos séculos XVI a XX, os colonizadores vêm e contra qualquer resistência levam para seus países nossos melhores recursos – açúcar, ouro, petróleo ou craques.

É fácil argumentar que os próprios jogadores e clubes desejam isso, que a liga europeia é uma vitrine, a Hollywood do futebol, e que a venda de um atleta a um clube europeu serve para cobrir os custos e as dívidas dos clubes brasileiros. O que esta suposta obviedade oculta é a naturalização de um sistema internacional de produção, circulação e dispensa de jogadores, uma verdadeira máquina de moer gente.

Como em muitos campos de atividade, as trajetórias exemplares de sucesso são raras, praticamente uma exceção. Mas são apresentadas como se fossem a regra, exemplo vivo a animar os sonhos de uma multidão de meninos que jamais serão profissionais do futebol.

Outro ponto a destacar é que, como torcedores, nos sentimos vítimas da colonização pelas ligas europeias, mas nunca algozes ao fazer o mesmo com as pequenas equipes do interior do Brasil. A soberba e o desprezo com que estas equipes – e seus jogadores e torcedores – são tratados pelos adversários “grandes” só não é maior do que o risco que implica perder para um time pequeno. A torcida do Palmeiras deve lembrar da zoeira que sofreu quando o grande time paulista foi eliminado pelo Asa de Arapiraca, do Alagoas, na primeira fase da Copa do Brasil, em 2002. A do Corinthians deve lembrar quando foi eliminada pelo Tolima da Colômbia na pré-Libertadores de 2011. Ou meus companheiros de sofrimento pelo Inter, quando perdeu para o Mazembe, do Congo, no Mundial Interclubes de 2010. Em todos estes casos, o vexame é proveniente de perder para um adversário considerado “inferior”. Nesta atribuição tácita de uma inferioridade a priori ao oponente (financeira, técnica, tática, midiática, nacional, regional, etc.) reside a soberba e a atitude imperial futebolísticas.

Este padrão é repetido dentro e fora de nosso país. As equipes europeias são valorizadas, admiradas e respeitadas, enquanto as equipes sul-americanas e africanas são desprezadas e ironizadas, numa versão viralatas de geopolítica futebolística, que reproduz lógicas, éticas e preconceitos que vão muito além de um campo de futebol.

Vamos pensar um pouco no futebol brasileiro: apesar de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro serem muito importantes e populosas, seria um equívoco dizer que somente elas e seus habitantes fazem parte do Brasil. Lugares como Itaquaquecetuba (SP) ou Tenente Portela (RS) jamais poderiam competir com essas grandes metrópoles em termos de poder, dinheiro ou influência. Entretanto, seria um grande equívoco desconsiderar o fato de que a maioria absoluta de municípios do Brasil são muito mais parecidos com Tenente Portela do que com São Paulo. De modo análogo, dos 662 clubes profissionais em atividade no país, somente 128 participam de alguma das 4 divisões nacionais. Na prestigiada série A, somente competem 20 equipes a cada ano. Ou seja, existe uma absoluta maioria dos clubes de futebol profissional do Brasil que é ignorada pelos próprios torcedores brasileiros.

Isso não significa que, por não disputar grandes títulos, um clube de cidade do interior não possa ter um conjunto de torcedores fiéis, para quem o clube representa sua cidade, seu “pedaço”, seu lugar no mundo. Como exemplo, cito um trecho da entrevista de um torcedor do Aimoré/RS para o Projeto Torcedores:

Torcer para um clube do interior é uma demência. Se o clube ganhar que bom, eu adoraria que o Aimoré fosse campeão mundial e tudo mais, mas do clube existir e o que ele representa, eu acho, vem um sentimento de identidade (…). O Aimoré representa isso, tu te sente representado, tu sente uma coisa que é tua, pertence a ti e sobretudo, pegando o caso de São Leopoldo, a gente tem poucas coisas que são nossas assim, e o Aimoré é uma delas. É amor mesmo, enfim. (Natan, estudante, São Leopoldo/RS)

Outro ponto importante da geografia futebolística no Brasil é a colonização de Estados periféricos pela torcida a clubes dos grandes centros. São notáveis neste sentido os casos de Manaus e Cuiabá. Apesar de serem Estados economicamente importantes e de existirem várias equipes locais, uma série de circunstâncias impede o desenvolvimento dessas equipes, de modo que, em grande número, os habitantes acabam torcendo para equipes do Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns fatores são estruturais: o campeão estadual do Amazonas, por exemplo, ganha como parte do “prêmio” uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série D. Assim, uma equipe amazonense hipotética teria que, após ser campeã estadual, vencer três campeonatos Brasileiros seguidos (da Série D, da Série C e da Série B) para finalmente conquistar uma vaga na primeira divisão. Nenhuma surpresa que isto jamais tenha acontecido. E não se pode culpar a pouca importância econômica ou a dimensão da população. Manaus tem população 30% maior do que Porto Alegre (2 milhões contra 1,4 milhões), e um PIB equivalente (Porto Alegre é o sexto município com maior PIB do Brasil, com 68 bilhões de reais em 2017 enquanto Manaus é o sétimo, com 67 bilhões).

Foto: Bruna Borecki, Projeto Torcedores

Outro fator a explicar a presença das grandes equipes do centro do país é o sistema da mídia. Como as grandes emissoras sempre estiveram localizadas no Rio e em São Paulo, seu ponto de vista “local” facilmente se torna “nacional”. A formação dessas massas torcedoras nos sertões está associada aos primórdios do rádio esportivo no Brasil. Os transmissores em ondas curtas já nos anos 1930 tinham potência de antena para cobrir todo o território nacional. A programação esportiva das emissoras apresentava a transmissão de matches entre os times das localidades das emissoras, Rio de Janeiro e São Paulo, para todo o território nacional, fazendo delas equipes de abrangência nacional.

Um terceiro fator a influenciar a formação dessas torcidas poderia ser chamado de “patrilinearidade futebolística”. Existe entre os/as torcedores/as que pesquisamos uma tendência majoritária em adotar o mesmo time do pai. Geração após geração sob esta tendência, e torcer para o mesmo clube se torna uma tradição familiar. Assim, a permanência de massas torcedoras em locais distantes da sede dos clubes se deve a uma circunstância de fatores estruturais, políticos, econômicos e culturais que operam concomitantemente, de modo a conservar a influência cultural imperial de algumas regiões, consideradas “centrais” sobre outras, ditas “periféricas”.

Essas e outras contradições me fazem duvidar da dimensão pretensamente democrática do futebol. Esses obstáculos simbólicos, financeiros, tecnológicos e políticos operam estruturalmente em conjunto para sustentar um sistema de exclusão e diferença, que explora algumas regiões para benefício de outras, e que opera pari passu com estruturas mais amplas de dominação e controle. Por isso eu simpatizo com times como o Aimoré, o Central de Caruaru ou o Independente de Limeira: como todos nós, eles lutam para sobreviver em circunstâncias desfavoráveis, nas periferias do sistema global, à margem do Grand Monde. Não nos iludamos: a extraordinária vitória do Inter sobre o Barcelona na final do Mundial Interclubes em 2006 foi também um vexame. Para o Barcelona.

A nova cara de Cuba depois de Fidel e Raul Castro

 By Pablo De Llano, brasil.elpais.com

Se não houver uma súbita mudança de planos, na quinta-feira, 19 de abril, Raúl Castro entregará o comando de Cuba pela primeira vez em seis décadas a um cubano que não carrega o seu sobrenome e que nasceu depois da revolução de 1959. O favorito é o “número dois” do regime, Miguel Díaz-Canel, de 57 anos, um engenheiro eletrônico alto e de gestos sérios, que fez uma paciente e discreta escalada burocrática com Castro como mentor.

Nascido em 20 de abril de 1960, em Placetas, na província de Villa Clara, bisneto de um espanhol de Castropol (Astúrias), casado duas vezes e pai de dois filhos do primeiro casamento, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez forjou-se no fim dos anos oitenta na União de Jovens Comunistas. De 1994 a 2003 foi secretário do Partido Comunista na província de Villa Clara, onde ganhou fama de dirigente aberto por seu apoio a um centro cultural onde se fazia transformismo e por seu estilo roqueiro – cabelos compridos e amor pelos Beatles. Ali ele já era um dos quadros regionais observados por Raúl Castro com vista a uma mudança geracional ainda distante.

Em 2003, o general o incorporou ao birô político e foi enviado como secretário do partido à província de Holguín. Castro só o chamou a Havana em 2009, quando lhe confiou o Ministério da Educação. Em 2012 o fez vice-presidente do Conselho de Ministros. Em 2013, quando formou seu último Governo, acrescentou o cargo de vice-presidente do Conselho de Estado e fez um discurso em que o apontou como sucessor, comprovando seu pedigree: “Não é um novato nem alguém improvisado”.

Ao contrário de outras promessas do castrismo surgidas sob a asa abrasiva de Fidel Castro, que acabaram sendo fulminadas por excesso de iniciativa ou de protagonismo, Díaz-Canel soube avançar silenciosamente pela via lateral de Raúl Castro, um militar que sempre valorizou em sua gente o perfil baixo e a lealdade.

Raúl Castro na quinta-feira em Havana EFE

“Para chegar aonde ele chegou sem ser defenestrado, a condição número um é não sair do roteiro, e ele foi muito eficaz nisso”, diz Nora Gámez Torres, especialista em Cuba do jornalMiami Herald. “Sabemos muito pouco sobre como pensa”, acrescenta. “Nunca se desvia da linha do partido”. Jorge Duany, diretor do Instituto de Estudos Cubanos da Florida International University, qualifica sua figura de “intrigante” e considera “uma questão aberta se favorecerá ou não reformas no sistema político cubano”.

Díaz-Canel sempre usou uma retórica continuísta que reforça à medida que sua coroação se aproxima. Em 11 de março ele glosou a “geração histórica que nos conduziu e que forjou a revolução”. Naquele dia foram realizadas eleições para deputados da Assembleia Nacional, que ratificarão em 19 de abril o candidato a chefe de Estado escolhido pela cúpula na última jornada de um processo eleitoral ritual controlado pelo Partido Comunista, o único permitido.

Díaz-Canel só é lembrado por um episódio de relativa estridência. Um vídeo de uma reunião do partido que foi divulgado na Internet em 2017 e no qual discursou dogmático sobre os “projetos subversivos” que segundo ele se aninhavam depois do surgimento dos portais de imprensa independente, de correntes sociais-democratas ou dos elogios que se faziam aos pequenos empresários cubanos. Mas a faceta que cultiva é a do dirigente concentrado nas reformas do sistema rumo ao chamado raulismo: mais mercado, mas não pluralidade de partidos. Na quinta-feira, ele compareceu em Havana a uma cerimônia com o secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã na qual aplaudiu “o impressionante desenvolvimento econômico” do regime asiático – muito do gosto do general.

Por conta de um limite legal estabelecido por Raúl Castro, Díaz-Canel poderia governar no máximo dois mandatos, dez anos. Até 2021 está previsto que Castro permaneça como secretário-geral do partido, supervisionando seu sucessor. O potencial reformista de Díaz-Canel é uma incógnita que talvez seja revelado ao longo de dez anos. Seus primeiros desafios em seu primeiro ano de governo poderiam ser enfrentar a unificação monetária (fundir em uma só a moeda convertível, equivalente ao dólar, e a nacional de uso doméstico) e relançar a concessão de licenças às pequenas e médias empresas dando-lhes mais garantias e solidez jurídica com uma lei de PME.

“É um apparatchik famoso pela discrição e por repetir calculadamente o discurso oficial, mas Adolfo Suárez [primeiro presidente do Governo espanhol depois do regime de Franco] também era o homem que seria o guardião das ideias franquistas e, no entanto, aconteceu o contrário”, diz o analista político Carlos Alberto Montaner. “Minha impressão é que Castro facilitará a implantação do protagonismo de Díaz-Canel mantendo à distância o setor mais contrarreformista”, prevê o historiador Rafael Rojas, “e também é provável que Díaz-Canel se mostre inicialmente conservador, pois, em boa medida, deve sua designação à imagem continuísta e intransigente que transmitiu nos últimos anos. Daqui até 2021, se Díaz-Canel se consolidar, teremos que ver o que acontecerá com as reformas, que são inevitáveis para a própria continuidade do sistema cubano”.

O ex-diplomata cubano Carlos Alzugaray indica que o vice-presidente foi “fundamental, embora na sombra” no redesenho do modelo para a abertura econômica e acredita que ele pode ser considerado “reformista”. “Nas últimas semanas deu muita ênfase aos desafios político-ideológicos que enfrenta a sociedade cubana, razão pela qual soou mais conservador, mas pode ser que, como em muitos casos históricos semelhantes dentro e fora de Cuba, seu verdadeiro caráter surja quando assumir a presidência.”

Entre os oposicionistas se espera, inicialmente, a mesma mão dura. A advogada de direitos humanos Laritza Diversent, refugiada política nos EUA, acredita que Díaz-Canel manterá o padrão de “tolerância zero e repressão” com a dissidência. José Daniel Ferrer, líder da Unpacu, o grupo de oposição mais ativo da ilha, acredita que “fará todo o possível para manter o regime como está agora; embora enfrente mais pressão da sociedade cubana do que Raúl Castro teve que enfrentar, e para o futuro se verá obrigado a realizar transformações que levarão à transição política”.

Para as novas gerações críticas, com preocupações para além das predominantes –sobrevivência diária, desejo de bem-estar e de consumo–, a figura de Díaz-Canel não gera muitas expectativas. “Me preocupam suas opiniões sobre os meios de comunicação não estatais”, diz Elaine Díaz, do portal digital Periodismo de Barrio. “Ele relaciona esses meios com interesses estrangeiros sem fornecer provas. Esse discurso de confronto não contribui para o necessário diálogo que Cuba precisa ter.” “Seus únicos méritos”, diz Abraham Jiménez, da revista digital El Estornudo, “são ser o primeiro dirigente nascido depois da revolução que chegou à vice-presidência e ser o único cubano que ousou se sentar no birô político com umtablet nas mãos. Com a passagem do tempo seu rosto jovem foi ficando acinzentado, até chegar à circunspeção. Deixou claro que não será o homem da mudança”.

 

A dupla jornada das mulheres

O século XX e o começo do XXI testemunharam o avanço de mudanças profundas na vida das brasileiras. O aumento de sua escolaridade, a entrada e permanência no mercado de trabalho, a diminuição do tamanho das famílias e o aumento dos domicílios chefiados por mulheres são algumas das alterações mais significativas na condição feminina nas últimas décadas.
Diante desse quadro, um dos maiores pontos de tensão na vida dessas mulheres é a articulação entre o trabalho remunerado (produtivo) e o trabalho doméstico (reprodutivo).

Leia atividade de Sociologia inspirada neste texto
Competências:
compreender o papel histórico da participação feminina no mercado de trabalho. Entender como a sociedade brasileira, formada a partir do patriarcalismo e da escravidão, orientou a inserção das mulheres na sociedade.
Habilidades: estabelecer relações entre as desigualdades de gênero e as dificuldades das mulheres na articulação entre o trabalho doméstico e o remunerado. Comparar o trabalho doméstico remunerado com outros tipos, analisando por que o primeiro é desvalorizado.

De maneira geral, o pensamento social brasileiro no que diz respeito à formação das famílias e à posição das mulheres na sociedade foi fundamentado em torno, primeiro, da ideia da casa-grande e da senzala.

Havia um grande patriarca e vários dependentes em torno dele, inclusive escravos, com as mulheres livres totalmente reclusas à vida doméstica e dependentes de pais, irmãos e maridos, e as escravas fazendo todo o trabalho reprodutivo.

Em um segundo momento, surge a ênfase em um modelo nuclear de família, no qual o homem seria o chefe do domicílio, encarregado de sustentar a família, enquanto a mulher (dona de casa) cuidaria do lar e seus membros.

Entretanto, esse último padrão pode ser entendido mais como um modelo ideal de comportamento do que propriamente uma regra, já que o número de exceções, principalmente nas camadas populares, é bastante significativo, com forte recorrência ao trabalho feminino.

Somente a partir de 1970, com o desenvolvimento dos estudos a partir da perspectiva feminista, o trabalho doméstico e o remunerado foram conectados.

Esses estudos foram fundamentais para desnaturalizar a ideia de que o trabalho remunerado deve ser estritamente associado aos homens, enquanto o doméstico é função feminina.

Foi também nesse período que a renda do trabalho feminino passou a ser parte fundamental do orçamento doméstico, não só das classes populares.

De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) para o Brasil, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho saltou de 32,9% para 52,7%, entre 1981 e 2009.

Essa mudança considerável aconteceu na esteira do processo de industrialização, com suas transformações na estrutura produtiva do País, resultando, entre outras, na urbanização e nas quedas das taxas de fecundidade e consequente diminuição no tamanho das famílias, por outro.

É, portanto, no interior de um grande processo de mudança na sociedade brasileira que se deu a inserção das mulheres no mercado de trabalho.

Tal inserção, porém, acontece de maneira bem diferente entre os sexos. Diferentemente do trabalho masculino – atrelado às forças do mercado e ao nível de desenvolvimento da sociedade –, o feminino possui uma dinâmica mais complexa, pois costuma entrelaçar-se à posição que a mulher ocupa em sua família e à classe social a qual pertence seu grupo doméstico.

O trabalho feminino extrapola o nível individual, principalmente das mulheres casadas ou vivendo em união consensual, estando associado ao curso de vida familiar.

O patriarcalismo da sociedade brasileira ainda se faz presente na medida em que grande parte das mulheres exerce sua vida profissional com uma carga simbólica de culpa considerável, por conta da distância cotidiana dos seus filhos e das responsabilidades domésticas, enquanto que, para os homens, esse tipo de dilema nunca foi posto.

Durante muito tempo, o trabalho doméstico foi considerado um “não trabalho”, já que se referia à esfera reprodutiva da vida social.

E é neste contexto que os conflitos na tentativa de articulação entre o trabalho doméstico e o remunerado se desenvolvem, enquanto as mulheres avançaram no mercado de trabalho, a contrapartida masculina na esfera doméstica caminha a passos bem mais lentos.

Segundo dados da Pnad de 2009, enquanto as mulheres casadas ou vivendo em união consensual, provedoras do domicílio ou não, gastavam em média 30 horas semanais nos afazeres domésticos, esse número caía para perto de 12 horas, no caso dos homens.

Esses dados mostram que ainda há muito que se fazer para que esta diferença entre homens e mulheres diminua. Esta é, atualmente, uma das grandes reivindicações femininas.

Ainda está muito presente no imaginário popular a ideia de que o homem pode ser um auxiliar das mulheres nos afazeres domésticos, quando já se sabe que o mais eficiente seria a parceria entre o casal e o compartilhamento das tarefas.

É nesse contexto que surgem diversas queixas das mulheres empregadas que têm de lidar com duplas jornadas de trabalho, como mostra a pesquisa “Trabalho remunerado e trabalho doméstico: uma tensão permanente”, da Agência Patrícia Galvão.

A pesquisa mostra como as mulheres se ressentem de falta de tempo para cuidar de si ou para se dedicar a atividades mais prazerosas.

O trabalho remunerado é bastante importante na vida das mulheres entrevistadas, o grande problema é a sobrecarga quando se tem de fazer a maior parte da articulação com o trabalho doméstico.

Há outro lado bastante complexo que envolve o trabalho doméstico no Brasil: o emprego doméstico remunerado.

Para entendê-lo, é preciso levar em consideração três variáveis: gênero, classe social e etnia. São, em sua maioria, mulheres negras, com baixa escolaridade e pobres.

Nesse sentido, é possível afirmar que o trabalho doméstico remunerado pode ser uma boa medida para se verificar as desigualdades que estruturam a sociedade brasileira.

Vários estudos já mostraram que essa atividade possui uma relação estreita com a escravidão.

Por isso, durante muito tempo, o emprego doméstico foi desqualificado, já que não exigiria estudo ou preparação para o seu desempenho e ficando completamente a cargo das mulheres.

Outro ponto importante nessa equação consiste no fato de envolver, dentro de um domicílio, dois tipos de relação: a profissional e a familiar.

Geralmente quando se quer mostrar a proximidade entre patrões e empregadas domésticas, estas últimas são referidas como se fossem “da família”.

O grande problema reside no fato de mascarar a posição hierárquica que as empregadas ocupam, geralmente inferior, mascarando também as desigualdades neste tipo de relação e sua recorrência na sociedade brasileira.

Por outro lado, sabe-se que o trabalho doméstico remunerado possui as maiores taxas de informalidade e rotatividade. A legislação que regulamenta a atividade ainda é relativamente recente, reunidas principalmente na chamada PEC das Domésticas.

Diante do quadro esboçado até aqui, é possível perceber que ainda há grandes desafios para as mulheres quanto à articulação entre o trabalho doméstico e o remunerado. As mulheres avançaram no mercado de trabalho, universo inicialmente masculino.

A partir daí, adquiriram um maior empoderamento nas suas relações familiares e conjugais. Entretanto, ainda esbarram na impossibilidade de compartilhar as responsabilidades do trabalho reprodutivo e do cuidado da família.

*Carla Sabrina Favaro é doutora em Demografia pelo IFCH/Unicamp

Mulheres dedicam o dobro de horas que os homens, em cuidar de pessoas e afazeres domésticos

Em 2017, as mulheres continuaram a trabalhar 20,9 horas por semana em afazeres domésticos e no cuidado de pessoas, quase o dobro das 10,8 horas dedicadas pelos homens. Entre os 88,2 milhões de mulheres de 14 anos ou mais, 92,6% delas fizeram essas duas atividades no ano passado, uma leve alta frente aos 90,6% de 2016. Já a proporção de homens aumentou de 74,1%, em 2016, para 78,7% dos 80,5 milhões de pessoas do sexo masculino nessa faixa de idade.

As informações são do módulo Outras formas de trabalho, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2017 (PNAD Contínua), divulgado hoje pelo IBGE, que também levantou dados sobre produção para próprio consumo e trabalho voluntário. A analista de Trabalho e Rendimento, Alessandra Brito, avalia que esses resultados demostram que “é uma questão que ainda vai demorar um pouco para ser equilibrada. É uma mudança estrutural, que leva mais tempo, é preciso uma mudança de mentalidade. Todo mundo avançou, mas a proporção de mulheres aumentou menos, porque elas já tinham uma taxa muito alta”.

#praCegoVer Infográfico da taxa de realização de afazeres domésticos e cuidados de pessoas e a média de horas gastas nestes trabalhosAs diferenças também são relevantes entre as pessoas ocupadas e as não ocupadas (desocupadas ou fora da força de trabalho). Nesse universo, as mulheres ocupadas dedicaram 7,8 horas a mais do que os homens nas atividades domésticas. Entre as não ocupadas, a diferença salta para 11,2 horas. De acordo com Alessandra, “para os homens não muda muito se ele é ou não ocupado, isso afeta mais a mulher. Quando no mercado de trabalho, ela fica com menos horas disponíveis para fazer tripla jornada: cuidados, afazeres e trabalhar fora”.Alessandra ressaltou que a PNAD Contínua permite identificar algumas atividades que antes eram invisíveis: “eram trabalhos que não eram medidos. Por exemplo, se uma pessoa deixa de trabalhar para cuidar de uma criança, esse trabalho não é precificado, mas a contratação de uma babá entra na conta do PIB, pois existe um valor de mercado para isso. O objetivo é que, em algum momento, essas informações entrem no Sistema de Contas Nacionais”.

#praCegoVer Taxa de realização de afazeres domésticos e cuidados de pessoas por grau de instrução, considerando gêneros A pesquisa mostrou também que, se por um lado as mulheres têm uma alta taxa de realização de afazeres domésticos em todos os níveis de instrução, por outro, os homens possuem uma taxa que varia de 73%, entre os sem instrução ou com fundamental incompleto, a 83,8% entre aqueles com superior completo. Para a analista do IBGE, o resultado “pode ser uma questão de consciência, ou mesmo de criação. Homens menos escolarizados podem achar que afazeres domésticos são uma responsabilidade da mulher”.Filhos e cônjuges homens tiveram a maior alta na taxa de realização de cuidados

Uma variação relevante de 2016 para 2017 foi o aumento de 12,7% para 16,2% na taxa de realização de cuidados de pessoas por filhos/enteados, e cônjuges/companheiros, de 27,5% para 34,7%. Entre as filhas/enteadas, o crescimento foi de 25,9% para 30,2%, e entre cônjuges/companheiras, de 39% para 43,7%.

#praCegoVer Infográfico diferenciando, por gênero, trabalhos realizados nos afazeres domésticos e cuidados de pessoasQuanto à taxa de realização de afazeres domésticos, a maior entre as mulheres ocorreu para as cônjuges/companheiras, 97%, enquanto entre os homens, os responsáveis pelo domicílio eram os que mais realizavam essas tarefas, 85%.A pesquisa revelou, ainda, uma grande diferença na realização de atividades domésticas entre homens que viviam sozinhos e que dividiam o domicílio com outra pessoa. Enquanto preparar/servir alimentos e arrumar a mesa/lavar louça foram tarefas realizadas por 91,8% dos responsáveis sozinhos, a execução dessas cai para 57,3% dos homens em coabitação. Na comparação entre os sexos, a proporção de homens só é maior que a das mulheres na realização de pequenos reparos/manutenção do domicílio: 63,1% deles frente a 34% delas.

 

Repórter: Pedro Renaux
Imagem: Pxhere
Arte: Helena Pontes, Helga Szpiz e Marcelo Barroso

 

Do IBGE, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 19/04/2018

 

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A política urbana que matou Marielle Franco

leia direto no original:  raquelrolnik.wordpress.com

marielle_Fernando Frazao Agencia Brasil

Por Raquel Rolnik e Gisele Brito*

O assassinato da vereadora carioca Marielle Franco completa um mês amanhã (13). Não podemos deixar de repetir a pergunta – quem matou Marielle? – e de exigir uma resposta.

Para além de uma investigação séria, que aponte e julgue os culpados por este e tantos outros assassinatos de defensores de direitos humanos, a resposta a essa pergunta passa também por uma reflexão sobre quem foi Marielle e o que representa não apenas sua execução, mas também sua presença no cenário político-institucional da cidade do Rio de Janeiro.

Há pelo menos quatro décadas, a imagem de cidades partidas entre “centros” e “periferias” oferece um paradigma para descrever a segregação socioterritorial de nossos municípios. Entretanto, essa imagem não dá conta de apontar todas as dimensões dessa separação e, especialmente, da natureza da violência que perpassa essa configuração.

Nesse período, pouco avançamos para revelar que essas cidades têm cor e gênero, e que esses elementos não são secundários, “subordinados” ou consequências do que seria a clivagem principal entre bairros “ricos” e bairros “pobres”. E mais: embora também saibamos que há uma diferença permanente entre a presença – e a qualidade – dos serviços públicos nos distintos bairros da cidade, esta falta de equidade por parte do Estado vai muito além da ideia de “ausência”. Na verdade, trata-se de uma presença estigmatizadora, racista e violenta.

No Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, por exemplo, 30% da população é formada por mulheres negras, enquanto no Jardim Paulista, elas são 4,92%. Os moradores do distrito da zona sul também têm a menor expectativa de vida da cidade, 55,7 anos, contra 79,4 anos dos que vivem na área nobre da zona oeste. A taxa de homicídios no Jardim Ângela foi de 19,83 pessoas a cada 100 mil em 2015, a quarta maior da capital do estado.

Em agosto do ano passado, o então recém-empossado comandante da Rota –  a tropa de elite da Polícia Militar de São Paulo –, afirmou, em entrevista ao UOL, que os policias que atuam no bairro dos Jardins se comportavam de maneira diferente daqueles que trabalhavam nas periferias da cidade. Essa fala sintetiza o dispositivo estigmatizador, racista e violento a que nos referimos acima. A existência – e permanência – de periferias e favelas é marcada, no imaginário das cidades e na realidade das políticas urbanas, como uma espécie de zona cinzenta, um território em suspensão sobre o qual não podemos – jamais! – afirmar se são provisórios ou permanentes, legais ou ilegais, detentores de direitos ou excluídos da ordem.

Não é inocente ou indiferente a imensa presença de negros neste lugar. Embora a escravidão tenha sido formalmente abolida há mais de um século, o racismo que a sustentou, e que foi a base de toda a ocupação colonial do país, está muito longe de ter sido superado. Desta forma se constitui a “bomba” do genocídio – cotidiano – que opera nos territórios populares: a combinação da  transitoriedade permanente desses locais e do estado de indefinição de sua inserção na cidade com a presença de uma população, não branca, cujas vidas valem menos.

O atual gatilho detonador desta bomba se chama “guerra às drogas”. Trata-se de uma estratégia seletiva contra o tráfico e uso de entorpecentes, que criminaliza territórios inteiros, fornecendo a justificativa para o tratamento diferente e reforçando a configuração desses lugares, bem como de seus moradores, como inimigos, sujeitos, portanto, aos mais diversos níveis de arbitrariedade, remoções e despejos violentos, destruição de casas e redes sociais de existência, e, no limite, ao encarceramento e à morte.

É exatamente isso que acontece todos os dias na Maré, de onde veio Marielle, mas também na Cracolândia, em São Paulo, e nas milhares de favelas, periferias e ocupações Brasil afora, onde, aliás, vivem a maioria dos moradores das cidades do país.

Evidentemente, esta política urbana racista e estigmatizadora contribui de forma decisiva para impedir uma parte da população – humilhando-a e subtraindo-lhe a humanidade (é disso que se trata o racismo) – de se constituir como sujeito político na esfera pública, de levantar sua voz e se fazer respeitar no mundo da política. Foi exatamente este o “crime” de Marielle, o que a tornou vítima de um assassinato covarde: ousar furar estes bloqueios e afirmar que ela e todas as meninas e mulheres negras moradoras dos territórios populares do Brasil podem, sim, elevar a voz e ousar governar o país.

O assassinato de Marielle expõe as contradições de um sistema que exalta a meritocracia e diz que a cor e a origem pouco importam diante do esforço individual. Alçar um espaço na vida pública não foi suficiente para impedir que ela fosse morta.

Antes de ocupar o cargo de vereadora na Câmara Municipal do Rio, onde fazia parte da comissão que monitorava a intervenção federal militar na cidade, Marielle atuou na CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa, quando era assessora parlamentar do deputado estadual Marcelo Freixo. Passado um mês de sua morte, pouco se avançou na solução do caso. Mas a própria Polícia Civil do Rio de Janeiro vê indícios de que o crime teria sido realizado por pessoas treinadas, como policiais. Se isso se confirmar, podemos ver indícios de que é justamente através da ação de paramilitares que este recado é dado para todos que ousam lutar contra as estruturas de poder.

Sua morte, porém, não será mera estatística. As milhares de Marielles que puderam furar parte dos bloqueios e emergir como sujeito – graças, inclusive, a políticas de ação afirmativa e de redistribuição de renda que hoje estão sendo objeto de ataque feroz – não se calarão. Sua presença no espaço político nos fará, certamente, mexer naquilo que os projetos políticos até o momento não quiseram – ou não puderam – enfrentar.

Esse foi o tema desta semana na minha coluna “Cidade para Todos”, na Rádio USP, e você pode ouvir aqui.

*Gisele Brito é jornalista. Em 2013, foi condecorada com o 17° Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, promovido pela Comissão da Defesa dos Direitos da Pessoa Humana da Assembleia Legislativa de São Paulo, e com o Prêmio Compromisso com a Superação do Racismo e em Defesa da Igualdade, oferecido pela Afropress.

Uns mais iguais que outros

A  desigualdade está na raiz da formação brasileira. Espraia-se na estrutura socioeconômica de uma sociedade que se ergueu tendo como pilar a escravidão. A desigualdade está presente no mercado de trabalho, na educação, no acesso aos serviços de saúde. Na enviesada interpretação do mundo político, está cimentada na ideia nefasta de que todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros. O Brasil fez-se assim uma nação desigual.

No Poder Judiciário, não poderia ser diferente.  Vivemos numa sociedade em que a justiça e o direito têm valores distintos em razão da posição que cada um ocupa na pirâmide social. Na expressão que um talentoso jornalista consagrou, regras que valem para o andar de baixo da pirâmide nem sempre valem para o andar de cima.

O arbítrio e a injustiça são obstáculos para uma sociedade mais pacífica. A cultura do “jeitinho” ou o bordão do “sabe com quem está falando?” sintetizam a ideia básica de que a lei não vale para todos. A distorção tem origens estruturais. Reflete a fraqueza das instituições na aplicação da lei. A generalidade do direito não alcança mundo tão fraturado.

Pesquisas já atestaram que o brasileiro desconfia de que a lei seja aplicada de forma igual para todos. Apenas um em cada dez acredita que haja igual acesso à Justiça. Sete em cada dez afirmam que o Judiciário brasileiro é pouco ou nada honesto. Nove em cada dez reclamam da lentidão do sistema.

Os exemplos cotidianos de falta de transparência, de corporativismo, ineficácia na solução de controvérsias complexas, arbítrio e falta de honestidade têm se mostrado mais fortes para a construção da imagem da Justiça no Brasil do que o trabalho árduo da grande maioria dos magistrados. Há uma profunda crise de legitimidade no sistema judiciário, que tem por responsabilidade aplicar o Direito de forma efetiva e justa.

A desconfiança no Direito e em suas instituições aumenta os comportamentos oportunistas dos atores sociais. Cria enormes custos para o desenvolvimento. Aumenta o fosso da desigualdade.

Controles sociais e republicanos têm de ser estimulados para que o Poder Judiciário avance. A ausência de mecanismos de responsabilidade, transparência e prestação de contas solapa a confiança no sistema.

ÉPOCA optou por destacar nesta edição um caso que permaneceu impune por quase uma década. Impunidade significa falta de castigo. Do ponto de vista estritamente jurídico, impunidade é a não aplicação de determinada pena criminal a determinado caso concreto. A lei prevê para cada delito uma punição. Quando o infrator não é alcançado por ela – pela fuga, pela deficiência da investigação ou pela inoperância do sistema –, o crime permanece impune.

Conforme célebre ditado latino, a impunidade estimula a delinquência. Está no centro do debate político brasileiro. Este tende a ser cada vez mais intenso e ruidoso. Sem resolver tal impasse, mais distante estará o país da harmonia social necessária ao desenvolvimento.