Trump revoga medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa dos EUA

poluição

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou ontem (28) o decreto-executivo da Independência Energética, que revê medidas do governo do ex-presidente Barack Obama que tinham como objetivo diminuir as emissões de gases de efeito estufa dos Estados Unidos para atender aos compromissos feitos no Acordo de Paris, de 2015. Segundo Trump, o decreto é necessário uma vez que a gestão Obama implementou regulamentações “caras que prejudicaram os empregos e a produção de energia nos Estados Unidos”. “Nós vamos colocar um fim à guerra contra o carvão”, disse o presidente norte-americano.

Em seu discurso, Trump fez referência ao Plano de Energia Limpa de Obama, que obrigou os estados a limitarem as emissões de carbono em suas usinas energéticas. Segundo a Casa Branca, o plano poderia custar aos americanos até U$ 39 bilhões por ano e aumentar em pelo menos 10% o preço da eletricidade em muitos estados. A medida já havia sido suspensa pela Suprema Corte norte-americana depois que estados entraram com ações na Justiça pedindo sua revogação.

Organizações ligadas a temas ambientais protestaram contra o decreto. Segundo o Greenpeace, a ordem mostra que o máximo que Trump conseguirá fazer é atrasar a “inevitável transição da América para a energia limpa, mas não pode pará-la”.

O decreto prevê a revisão de quaisquer ações das agências federais que possam potencialmente “atrapalhar o desenvolvimento seguro e eficiente de recursos energéticos nos Estados Unidos”. Além disso, revoga ações de governos passados relacionadas a energia e clima. Entre elas, ficam suspensos o bloqueio de exploração de carvão em terras sob jurisdição federal e as regras para diminuir emissões de metano. Também serão revisadas as medidas que exigiam determinados cálculos de custo social das emissões de carbono, óxido nitroso e metano para análise e aprovação de projetos de infraestrutura.

A desregulamentação da indústria do carvão foi uma das promessas de campanha de Trump, bem como a retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Mas, desde o início da sua gestão, Trump ainda não confirmou se pretende levar adiante a segunda promessa.

Por Paola De Orte, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/03/2017

 

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Pela primeira vez desde 2004, IDH brasileiro estaciona no ranking da ONU

leia no original: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/pela-primeira-vez-em-cinco-anos-idh-brasileiro-estaciona-no-ranking-de-desenvolvimento-da-onu

 

por Renan Truffipublicado 21/03/2017 11h00, última modificação 22/03/2017 10h03
Dados mostram Brasil na posição 79ª, com IDH de 0,754, o mesmo patamar de 2014
Edilson Rodrigues / Agência Senado
Mulheres

Quando moderado pela desigualdade de gênero, o IDH do Brasil cai mais ainda

O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) divulgou, nesta terça-feira 21, a atualização do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 188 países e territórios para o ano de 2015. Os dados constam do Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) de 2016 e colocam o Brasil em alerta. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez desde 2004, o IDH brasileiro ficou estacionado na mesma posição, a 79ª do ranking, com IDH de 0,754, o mesmo patamar de 2014.

Anteriormente, a equipe do PNUD no Brasil havia divulgado que a estagnação era algo inédito para os últimos cincos anos. No entanto, os cálculos do IDH para os anos anteriores foram refeitos e o dado foi retificado. Na verdade, há 11 anos o Brasil não registrava uma um índice de desenvolvimento humano igual ou menor que o do ano anterior. A coordenadora do Relatório de Desenvolvimento Humano Nacional, Andréa Bolzon, disse que essa constatação representa uma “luz amarela” para o País.

Calculado desde 1990, o IDH é uma medida composta de indicadores de saúde, educação e renda, que varia entre 0 (valor mínimo) e 1 (valor máximo). Quanto mais próximo de 1, maior é o índice de desenvolvimento do país. De 1990 a 2014, o Brasil vinha apresentando um crescimento contínuo e “consistente”, de acordo com nota técnica feita pelo PNUD no País. Nesse período, saiu de um IDH de 0,611 para o atual 0,745, um aumento de 23,4%. Os crescimentos mais vertiginosos foram registrados, justamente, entre os anos de 2012 e 2014.

A queda da renda bruta per capita parece ter sido o principal fator para que o País interrompesse a escalada de desenvolvimento humano. Dos principais índices que compõe o IDH, apenas o Rendimento Nacional Bruto caiu de 2014 para 2015, voltando a um patamar similar ao registrado pelo PNUD em 2010.

Os outros índices continuam em crescimento: expectativa de vida ao nascer, média de anos de estudo e expectativa de anos de estudo. Com a estagnação, o Brasil continua sendo apenas o 5º país com maior IDH da América do Sul, atrás de Chile, Argentina, Uruguai e Venezuela, nessa ordem.

A estagnação coloca o Brasil num pequeno grupo de 16 países que também não conseguiram elevar o IDH, entre eles estão Iraque, Irã, Afeganistão, Líbano e até a pequena ilha de Santa Lúcia, no Caribe. A maior parte das nações, 159 países no total, tiveram aumento do índice de desenvolvimento humano em 2015. Outros 13 países registraram queda do IDH, mas muitas são nações que estão em guerra, como Ucrânia e Líbia, o que ajuda a explicar o resultado.

Em entrevista coletiva em Brasília, o coordenador residente do Sistema ONU, Niky Fabiancic, elogiou políticas de proteção social aplicadas nos últimos anos no País, como o Benefício Assistencial ao Idoso, o Cadastro Único e o sistema de cotas na universidade, mas alertou para algumas questões em debate atualmente. “No cenário brasileiro atual, muitos assuntos são urgentes, como a questão da pobreza, do desemprego e do crescimento econômico. Além disso, estamos atentos as propostas de reforma do ensino médio, da previdência, trabalhista e tributária”.

O resultado brasileiro é ainda pior quando o IDH é ajustado à desigualdade do País. Isso porque o PNUD também calcula um índice, para cada nação, que leva em conta a diferença entre ricos e pobres nas áreas de saúde, educação e renda. Nesse recorte, o Brasil cai 19 posições, o 3º que mais sofre com a queda, empatando com Coreia do Sul e Panamá. A desigualdade brasileira só não é maior do que a do Irã, que caiu 40 posições, e de Botsuana, que perdeu 23 postos nesse ranking.

Em relação ao Coeficiente de Gini (2010-2015) – instrumento que mede o grau de concentração de renda em determinado grupo e aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos – o Brasil é o quarto pior da América Latina e Caribe, atrás somente da Haiti, Colômbia e Paraguai. Para se ter uma ideia, o relatório aponta que o Brasil acumula 37% de desigualdade na renda, número superior à média da própria América Latina e de países do Caribe (34,9%). A média mundial também é inferior à brasileira: 23,8% de igualdade na renda.

Segundo Andréa Bolzon, não fossem as políticas de proteção social, o impacto da crise econômica sobre o IDH brasileiro seria ainda maior. “Não podemos nos gabar de ter um excelente piso de proteção social, mas temos um piso de proteção social. Isso explica o fato da gente não estar numa situação pior do que a gente poderia estar. A questão agora é não retroceder mais”, afirma.

Há ainda um outro indicador, elaborado a partir do IDH, que leva em conta a desigualdade de gênero nos países avaliados. O Índice de Desigualdade de Gênero (IDgG) contabiliza, principalmente, três aspectos para determinar o valor de cada nação: saúde reprodutiva, empoderamento e atividade econômico entre homens e mulheres. Nesse critério, o Brasil tem valor de 0,414, o que garante a 92º lugar entre 159 países analisados.

Um aspecto que chama atenção é a questão da representatividade feminina no Parlamento. Quando comparado com outros países, o Brasil tem menos mulheres no Legislativo do que o país com menor IDH do mundo, a República Centro-Africana. Segundo o relatório, apenas 10,8% dos assentos no Parlamento brasileiro não estão com homens, enquanto que as mulheres ocupam cerca de 12% das cadeiras no país africano.

Apesar disso, o relatório aponta a Lei Maria da Penha como exemplo de boas práticas. “Países onde o Estado de Direito é aplicado também têm mais leis de igualdade de gênero. Tribunais especializados que lidam com atos de violência contra mulheres podem ajudar a proporcionar uma ação legal eficaz. Tribunais de violência doméstica e família foram criados no Brasil por meio da Lei Maria da Penha”, explica o relatório.

Brasil despenca 19 posições em ranking de desigualdade social da ONU

leia no original: http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/21/politica/1490112229_963711.html

País aparece entre os 10 mais desiguais do mundo. Além da diferença entre ricos e pobres, levantamento ressalta desvalorização e baixa representatividade da mulher na sociedade brasileira

Desigualdade social cresce no Brasil, aponta a ONU.

As desigualdades social e de gênero se acentuaram no Brasil. Esse é o diagnóstico revelado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento(PNUD), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), com dados de 2015, divulgado nesta terça-feira. O país ocupa o 79º lugar entre 188 nações no ranking de IDH, que leva em conta indicadores de educação, renda e saúde, mas despencou 19 posições na classificação correspondente à diferença entre ricos e pobres.

Enquanto a nota de 0,754 do Brasil se mantém estagnada, preservando-o em um patamar considerado alto pela ONU, o número cai para 0,561 no indicador social. Analisando somente esse fator, o país seria rebaixado para a escala de países com índice médio. O IDH varia entre 0 (valor mínimo) e 1 (valor máximo). Quanto mais próximo de 1, maior é o índice de desenvolvimento do país. Pela primeira vez desde 1990, quando o levantamento começou a ser publicado anualmente, o Brasil não elevou sua nota no ranking. A Noruega permanece na primeira colocação e encabeça a lista das nações com IDH muito alto, com 0,949, seguida por Austrália e Suíça, ambas com 0,939.

Ainda no cálculo ajustado pela desigualdade social, o Brasil, empatado com Coreia do Sul e Panamá, só não regrediu mais nesse quesito que Irã e Botsuana, que caíram 40 e 23 posições, respectivamente. Já o Coeficiente de Gini, que mede a concentração renda, aponta o país como o 10º mais desigual do mundo e o quarto da América Latina, à frente apenas de Haiti, Colômbia e Paraguai. Segundo o levantamento da ONU, o percentual de desigualdade de renda no Brasil (37%) é superior à média da América Latina, incluindo os países do Caribe (34,9%).

A desigualdade brasileira também cresce nas comparações de gênero. Embora as mulheres tenham maior expectativa de vida e mais escolaridade, elas ainda recebem bem menos que os homens no Brasil. A renda per capita da mulher é 66,2% inferior à de pessoas do sexo masculino. No índice de desigualdade de gênero, o país aparece na 92ª posição entre 159 países analisados, atrás de nações de maioria religiosa conservadora, a exemplo de Líbia (38ª), Malásia (59ª) e Líbano (83ª).

Também é baixa a representatividade da mulher no Congresso Nacional. O comparativo entre número de cadeiras em parlamentos indica que as mulheres brasileiras ocupam somente 10,8% dos assentos. O número é inferior à média mundial (22,5%) e até mesmo ao de países com IDH baixo, como a República Centro Africana, última colocada do ranking, que tem 12,5% de seu parlamento ocupado por representantes do sexo feminino.

Por meio de um comunicado, a Presidência da República avaliou que os dados divulgados pela ONU “ilustram a severidade da crise da qual apenas agora o país vai saindo”. De acordo com a nota, as reformas propostas pelo presidente Michel Temer devem se refletir em números melhores nas próximas edições do ranking.

O ódio como ameaça ao pacto civilizatório

leia no original:    https://www.cartacapital.com.br/sociedade/o-odio-como-ameaca-ao-pacto-civilizatorio

por Pedro Estevam Serrano

O debate político, não é de hoje, perdeu o freio e chegou a um nível de racionalidade próximo de zero
Militantes pró e contra impeachment

Urros da barbárie

No livro Is democracy possible here?, de Ronald Dworking, que me foi indicado pelo brilhante professor de Direito Constitucional e Processo Civil Georges Abboud, há uma ideia central que, de certa maneira, traduz uma preocupação que pessoalmente me assoma há algum tempo. O livro é de 2006 e não tem tradução em português. Dworking, grande jurista e teórico político, analisa a conjuntura política norte-americana daquele momento, fazendo pontuações que, como ele próprio afirma na apresentação, não cabem só aos Estados Unidos, mas a todo o Ocidente, em alguma medida.

Dworking trata especificamente da relação entre os “vermelhos” e os “azuis”, ou republicanos e democratas, e de como a disputa entre os adeptos desses dois grupos, à época, se refletia em um debate cada vez mais raivoso, emocional, desprovido de qualquer racionalidade. Segundo relata o autor ao longo da obra, a animosidade entre conservadores e liberais era tanta que praticamente inviabilizava a convivência.

De lá pra cá, ao que parece, não mudou muita coisa. O ódio foi o ingrediente principal da recente disputa eleitoral entre Donald Trump e Hillary Clinton pela presidência dos Estados Unidos. Os candidatos, seus partidos e apoiadores elevaram o tom a decibéis impensáveis, trocaram acusações graves e abriram espaço para grupos de ódio racistas e xenófobos mostrarem que estão mais ativos do que nunca.

No Brasil, também não é de hoje que o debate político perdeu o freio, chegando a um nível de racionalidade próximo de zero. A raiva, a deselegância e insensatez estão na boca e nos dedos ávidos daqueles que não perdem a oportunidade de manifestar supostas divergências em relação a quase tudo, seja nas redes sociais e nos portais de notícias, seja na mesa do almoço ou do bar. Assim, creio não ser preciso tomar o precioso tempo do leitor com exemplos e demonstrações. O mais importante, me parece, é procurar entender por que o ódio que hoje permeia quase todo tipo de discussão chegou a níveis estratosféricos. A identificação desse problema é fundamental para entender o que está havendo e reconstruir um caminho democrático.

Como diz Norberto Bobbio, democracia é um procedimento, um processo de disputa, que visa preservar a paz. É por meio da disputa política, da disputa do voto e, depois, de um processo de deliberação entre os legisladores e representantes da sociedade civil, por exemplo, que os conflitos de interesse entre os distintos grupos são resolvidos por decisão majoritária. Luigi Ferrajoli destaca que após as Constituições do pós-guerra, rígidas, a definição de Bobbio, e de Hans Kelsen, também precisa ser acrescida de dimensões materiais relativas à proteção das liberdades públicas e à efetivação dos direitos sociais, limitando, portanto, o conteúdo da decisão política majoritária.

Como tenho reiterado em alguns artigos, a democracia não pode, no entanto, ser entendida apenas como um regime político do Estado. Democracia é muito mais do que isso e para que se efetive depende de como se comporta a sociedade. Não se pode manter um Estado democrático com uma sociedade autoritária. Há uma inter-relação evidente entre Estado e sociedade que leva o grau de democracia que de fato existe nessa sociedade a se refletir nas condutas concretas do Estado.

É comum ouvirmos de debatedores de parte a parte que democracia é divergir e que, portanto, conflitar é a atitude verdadeiramente democrática. Há, obviamente, alguma verdade nesse argumento. Não se deve jamais discutir o direito do indivíduo a divergir. A democracia só se sustenta se for garantida a qualquer cidadão a possibilidade de discordar, inclusive quando se opõe às estruturas de poder ou a qualquer decisão estatal, jurisdicional, legislativa ou administrativa.

Por outro lado, é verdade que esse debate não deve funcionar como ato de guerra. Numa sociedade que tem o mínimo de maturidade democrática, o debate, por mais competitivo, deve ter a funcionalidade argumentativa.

Se um diálogo argumentativo e minimamente racional produz divergência – aliás, é da natureza do debate gerar divergências –, ao mesmo tempo produz consenso entre seus debatedores, mesmo que não explícito, como pressupostos valorativos gerais. Todo debate racional produz consenso e dissenso.  O dissenso acaba por gerar um consenso que, por sua vez, produz novo dissenso e, assim, sucessivamente.

Uma sociedade não consegue ser democrática se, a par das divergências existentes, não atingir um patamar valorativo mínimo em comum. Quando o debate público perde a racionalidade e ganha o território da emoção, passa-se a produzir certas visões de mundo mais pautadas em afeto e menos em lógica e coerência. E só será possível superar esse tipo de posição afetiva, normalmente mais autoritária, desarticulando-se esses afetos e criando-se um mínimo de predisposição à convergência e à formação daquilo que Dworking chama de common ground, ou seja, de padrões mínimos de consenso, o que fortalece a democracia.

Na sociedade contemporânea ocidental, a democracia foi concebida por um processo histórico e surgiu como alternativa concreta a partir das revoluções gloriosa, francesa e americana. Foi a partir do século XVIII e, marcadamente nos séculos XIX e XX, que um pacto humanista entre conservadores céticos, liberais e a esquerda democrática se firmou. Por maiores que tenham sido as divergências entre esses segmentos – e foram muitas e substanciais –, como havia uma pauta humanista mínima comum a todos, ao menos no campo dos direitos negativos, ou seja, dos direitos do indivíduo e/ou das comunidades face ao poder do Estado, e de valores morais mínimos relativos a dignidade humana, formou-se um certo consenso civilizatório.

As consequências desse consenso transcenderam o âmbito do Direito e passaram a gerar uma moralidade própria, ou seja, um conjunto mínimo de valores morais compartilhados por todos. Os mecanismos de sublimação ou de autorrepressão humana, imprescindíveis para se garantir a convivência, se estabeleceram a partir dessa visão humanista comum. É graças à moralidade advinda desse consenso civilizatório mínimo que qualquer indivíduo de bom senso entende, ou deveria entender, que diante da enfermidade ou da morte de um desafeto ou de seu familiar o momento de dor deve ser respeitado. Seria desumano aproveitar-se da fraqueza extrema do adversário para querer fustigá-lo. Essa honorabilidade na disputa e o reconhecimento da condição humana do adversário é algo inerente a esse pacto.

Quando observamos o ódio do discurso, o debate raivoso, o despudor no ataque ao oponente em momentos de vulnerabilidade e a ausência de formação de consensos mínimos, dá-se justamente o “common ground” humanista de civilização. Isso se traduz no comportamento dos indivíduos, que deixam de ter freios de sublimação e passam a expressar o lado mais primitivo das emoções humanas. Isso não só dificulta a vida em comum, num processo que se quer democrático, mas também abre amplo espaço para o surgimento de propostas políticas e modelos de comportamento autoritários.

Vale dizer que, com todas as guerras, processos de repressão e exploração, genocídios e tudo de ruim que a civilização ocidental experimentou do século XIX até hoje, não se pode descartar inteiramente suas conquistas. A civilização ocidental produziu na modernidade imensos avanços, do campo tecnológico e científico ao político, ético, moral e jurídico. Trata-se do único modelo civilizatório capaz de fazer a autocrítica de seus processos de violência, como o nazismo e o fascismo, os genocídios etc.

Aparentemente, também têm contribuído para o aniquilamento do nosso common ground humanista certos aspectos fundamentais desse processo que, como todo engenho humano, têm características negativas, como é o caso da comunicação por internet. Esse ambiente, que permite enorme facilidade na pesquisa, no acesso a documentos, estudos e informações que favorecem o desenvolvimento cultural, também é o espaço – as redes sociais, em especial – da produção de dois fenômenos interessantes e ao mesmo tempo assustadores: o conhecimento superficial e a expressão das emoções sem qualquer tipo de pudor, de freio civilizatório.

Se a internet propicia algum nível de informação, o principal problema daqueles que se digladiam, ao contrário do que se costuma dizer, não é a ignorância, mas o conhecimento raso e fragmentado acerca dos fenômenos. Basta um conhecimento superficial de um determinado tema ou acontecimento para fazer com que se sintam aptos a avalizar um determinado ponto de vista.

Acontece que, como bem pontuou Hannah Arendt, o mal sobrevive na banalidade, na superficialidade, nunca é radical, pois não desce à raiz, não tem profundidade. Mas pode ser extremo. Agentes policiais torturam prisioneiros por acreditarem de forma irrefletida que isso faz parte do seu papel profissional. É a ausência de reflexão – ética, moral, política – a origem do mal que pode se tornar extremo e levar a um genocídio.

Essa mesma falta de reflexão, conjugada à ausência de qualquer freio civilizatório, tem pautado diariamente o debate público e, principalmente, as discussões que se estabelecem nas redes sociais.

Não se pode interpretar democracia apenas como um espaço onde é possível divergir, assim como não se pode imaginar o ambiente da política, numa democracia, como o ambiente das emoções mais primitivas. Democracia pressupõe consensos formados pelo debates dotados de um mínimo de profundidade analítica e reflexiva, onde a racionalidade e a moral humanista sirvam de freio sublimatório dos afetos mais primitivos.

A vida pública – seja no Congresso, nos sites de notícias e nas redes sociais – precisa voltar a ser pautada pelo debate racional que possibilite a formação de alguma convergência. Caso contrário, estará sob risco de extinção não só a possibilidade de uma sociedade e de um Estado verdadeiramente democráticos, mas também aquilo que chamamos de civilização.

Notas sobre o microfascismo nas redes sociais

Notas sobre o microfascismo nas redes sociais
Jeff Daniels e Mia Farrow no cartaz do filme “A Rosa púrpura do Cairo” (Reprodução)

 No mundo marcado pela performance midiática de nossas vidas, as promessas democráticas das plataformas digitais começam a ruir diante de uma nova lógica capitalista

 

Em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), filme de Woody Allen, em meio à Grande Depressão econômica dos anos 1930 uma mulher desempregada e maltratada pelo marido busca refúgio em um cinema de New Jersey. Cecilia troca a realidade pela fantasia assistindo seguidamente à mesma película até que o protagonista sai da tela e entra em sua vida. Premissa fantástica do rompimento da divisão entre o real e o imaginário, o cotidiano e o cinema, a vida dura e as promessas de felicidade.

O filme de Allen encanta pela realização de uma promessa da mídia que se aproximou do cotidiano com o advento da televisão, mas há apenas duas décadas modificou-nos radicalmente por meio da Internet. A passagem da tela grande do cinema para a pequena da televisão até às menores dos smartphones marcou não apenas a passagem do entretenimento público para o doméstico até o individual, mas sobretudo a crescente exposição à mídia, da eventual visita ao cinema, passando pela audiência diária à TV até chegarmos às atualizações constantes nos celulares conectados em rede.

Nossa própria compreensão passou a ser alterada a partir do momento que passamos a viver para uma audiência. Cada época tem algo que a sintetiza, uma prática disseminada de tal forma que deixa de ser motivo de estranheza ou reflexão. Em menos de uma década, a prática de fotografar a si mesmo para postar em redes sociais ou enviar por mensagens instantâneas tornou-se tão comum para quem possui um smartphone que se naturalizou. A selfie pode ser um bom ponto de partida para começar a refletir sobre a mudança que se passou quando as câmeras fotográficas passaram a ser acopladas aos telefones celulares, incitando seus usuários a voltarem as lentes para si mesmos.

A câmera fotográfica não apenas se disseminou como nunca antes e já no equipamento que permite divulgar as fotos, mas ela foi virada para o usuário alçado a paparazzi de si próprio. O giro da câmera para si mesmo sintetiza a passagem para as mídias em rede, consolidando o advento da Internet comercial iniciado em meados da década de 1990. Se na mídia de massa, marcada predominantemente pela comunicação vertical do broadcasting, os espectadores são incitados a se identificarem com ídolos do cinema e da televisão, na rede, moldada pela horizontalidade, vivem como protagonistas de suas próprias vidas.

Redes sociais como Facebook, Instagram ou YouTube incitam seus usuários a, online, aproximarem-se da experiência que anteriormente era disponível apenas a seus antigos ídolos. Por meio da criação e postagem de fotos e vídeos, usuários de mídias digitais passam a performar a si mesmos para sua audiência particular, emulando no cotidiano as estratégias de publicidade do star system de Hollywood Os motivos nas fotos, seus enquadramentos e poses não deixam dúvida sobre a inspiração cinematográfica, televisiva e até publicitária nas fotos que se multiplicaram exponencialmente em perfis e canais de usuários comuns.

A ascensão das mídias em rede faz pensar não em uma ruptura, antes em uma continuidade e aprofundamento do papel da mídia em nossas vidas. A expectativa de exposição midiática de si mesmo incita ao uso de filtros, ferramentas ou aplicativos que “melhoram” a imagem, permitindo apresentar pele mais lisa, sem marcas de cansaço, dentes mais brancos e olhos brilhantes. Também incita à adoção de diferentes técnicas corporais que vão das dietas aos exercícios, consumo de roupas, cosméticos e até cirurgias estéticas.

O glamour da era do cinema residia na distância estratosférica entre seus astros e estrelas e os espectadores, distância rompida apenas em um delírio como o da protagonista de A Rosa Púrpura do Cairo. A televisão trouxe os ídolos para dentro de casa, assim como as publicações sobre as vidas dos famosos humanizaram-nos com suas vidas marcadas por dramas como separações. Foi ainda na tevê, já no início da disseminação da Internet comercial, que os chamados reality shows alçaram espectadores a protagonistas, tornando-os celebridades instantâneas com curto prazo de validade.

Dos astros e estrelas do cinema, passando pelos ídolos da televisão, até chegarmos às celebridades dos reality shows e sua multiplicação nas redes sociais, a tecnologia estendeu sua mão a nós que, feito Cecilia no filme de Allen, rompemos o aparentemente intransponível limite da tela. Hoje, muitos de nós vivemos performando midiaticamente nossas vidas de tal forma que a fronteira entre ambas se esfumou não apenas online, mas também no off-line de nossas consciências.

O dilema de Cecilia – o de escolher entre a fantasia ou voltar à realidade – já não nos serve. A velha oposição virtual e real evocada nos inícios da Internet não dá conta de nosso cotidiano moldado no contínuo on-offline. É na fronteira delicada e desafiadora entre o dentro e fora da rede que vivemos agora. Andy Warhol nunca esteve tão atual quanto hoje, já que parece se realizar a constatação de que todos teriam 15 minutos de fama. A popularidade online, frequentemente medida por botões como o curtir do Facebook, demanda um trabalho constante da própria imagem que envolve não apenas a aparência física, mas também habilidades sociais anteriores à era digital somadas às típicas de nossos dias.

O valor do prestígio online se disseminou, criando contextos de exposição que facilmente se tornam campos de disputa por uma espécie de reconhecimento mais midiático do que político. A fronteira entre o político e o midiático também se borrou, criando equívocos como o de imaginar que o individualismo das mídias digitais poderia ser a realização da asserção feminista de que o pessoal é político. Misérias pessoais podem ser apresentadas nas redes sociais como causas políticas, dando um verniz coletivo a ressentimentos individuais, cruzadas morais ou puras e simples vinganças.

Os serviços de rede social incitam a postagens de impacto desprovidas de cuidados éticos, checagem de fontes ou respeito ao contraditório. São serviços comerciais que adestram usuários a serem empreendedores de si mesmos, tecnologias multiplicadoras de subjetividades em disputa por popularidade. A competição pela atenção é a raiz de boa parte dos conflitos online e que se estende para muito além de fenômenos como as “notícias falsas” ou dos haters, usuários especializados em destilar seu ódio contra pessoas ou vertentes políticas.

Online, quer se seja de direita ou esquerda, o embate tende a se dar em um tribunal cujos termos, longe do direito, tendem ao julgamento moral. Questões como “quem pode falar” e “local de fala” mascaram disputas de sujeitos carentes de reconhecimento por curtidas, compartilhamentos ou retuítes. Ao invés de um espaço de trocas intelectuais e alianças políticas, a rede se revela o lócus de reafirmação de conjecturas e disputa neoliberal pela atenção de uma audiência sempre faminta por escândalo, denúncias e linchamentos.

A elite empresarial do Vale do Silício logrou convencer seus clientes de que a propagandeada horizontalidade das redes seria a verdadeira democracia, ainda que cada conflito ou post de um hater evidencie ser o tabuleiro de uma guerra sem fim pelo “protagonismo”. Cecilia cruzou a fronteira da tela para ser uma das protagonistas de A Rosa Púrpura do Cairo, assim como as redes sociais nos prometem sermos o centro das atenções. Na era das celebridades comuns, “ser a si próprio” passou a ser encarado como a chave do sucesso em uma hermenêutica neoliberal que traz à tona um cerne identitário, até quando se afirma uma suposta diferença. Tanto faz ser um modelo social ou uma alteridade, o que importa é fincar-se na identidade a partir da qual julgará os outros pelas postagens que permitirão te alçar à respeitabilidade às custas da destruição fascista de outros.

Na suposta horizontalidade democrática da Internet 2.0, voltamos ao estado de natureza. A tecnologia nos restitui à barbárie engendrando um contexto que faz o fascismo da década de 1930 parecer mais simples de compreender. Parafraseando amargamente o título de um livro de Manuel Castells, as redes estão cheias de indignação e ressentimento. As redes sociais são tecnologias de si aptas à disseminação microfascista, não porque seja um fascismo menor ou menos poderoso, ao contrário, porque se trata de um fascismo não mais assentado em macro-referentes como a nação. O microfascismo atual se assenta em identidades e disputas entre e dentro delas.

Se o fascismo incorporou as análises sobre conflitos sociais baseadas em classes, distorcendo-as a ponto de autodenominar-se, na Alemanha nazista, de nacional-socialismo, não é de causar surpresa que o microfascimo contemporâneo beba nas discussões sobre diferenças achatando-as ao identitarismo belicoso. O fascismo sempre floresce em meio às disputas por recursos escassos durante longas crises econômicas, como as desencadeadas em 1929 ou 2008, assim como se expressa pelos meios comunicacionais em voga, quer sejam o rádio e o cinema na década de 1930, ou a televisão e a Internet atualmente. Seu combustível não é menos concreto que o desespero que engendra, quer ele se expresse como indignação “contra tudo o que está aí” ou na ingênua troca de reconhecimento político pelo quimérico e fugaz protagonismo midiático.

Análises como as de que vivemos na era da pós-verdade por fenômenos como as notícias falsas, assumem que as pessoas agem online como antes da Internet, pior, que seriam seres ingênuos enganados por sites mal-intencionados. As promessas dos serviços de rede social de identificação das fake news e seu banimento para combater a desinformação, o conflito e/ou desagregação reinantes, impede-nos de reconhecer que o poder (e o dilema!) das plataformas, acessadas individualmente, deriva de sua capacidade de moldar subjetividades em direção ao conflito e ao autoritarismo. Redes sociais podem até terem sido idealizadas para o diálogo aberto e crítico visando a transformação social, mas funcionam apenas como caixas de ressonância do senso comum que tende à afirmação de convicções e a defesa de perspectivas contrárias à democratização das relações sociais.

Alguns afirmam que cerca de 2/3 dos usuários do Facebook têm na rede social sua principal fonte de informação, portanto leem ou assistem um clipping de notícias criado por algoritmos ou “amigos” que podem priorizar o entretenimento à reflexão. Nada de estranho em um serviço de rede social privado com fins lucrativos. Acusar a empresa/plataforma evoca a ingenuidade de esperar que o mercado volte-se contra si próprio a favor dos consumidores, ou que nem os encare assim, antes como cidadãos. É a prova da vitória da ideologia supostamente democrática do Vale do Silício, já que seus interesses comerciais tendem a ser continuamente ignorados por seus próprios clientes em favor da expectativa utópica de que o mundo conectado caminha em direção ao fim da exploração e do engodo publicitários que vendia a velha economia industrial.

A elite de empresários bem-sucedidos da nova economia tecnológica e conectada da Califórnia projetou plataformas de socialização que supostamente refletiriam, tal qual espelho, seus valores liberais. Mas a nova economia se expandiu em meio a crescentes desigualdades econômicas e sociais e, após a crise que estourou em 2008, perdedores da nova ordem também se socializam pelas redes sociais compartilhando indignação, organizando manifestações em algumas paragens ou resultados eleitorais protofascistas em outros. Assim, as promessas democráticas das plataformas assentadas na horizontalidade das relações conectadas têm sido abaladas ano após ano em diferentes contextos nacionais.

Se o capitalismo industrial vendia sonhos pelo cinema, o novo capitalismo o faz de forma mais sofisticada e eficiente, por meio da promessa de que você é especial e único, o centro do mundo acessado por um equipamento que cabe na palma de sua mão. Sob o vantage point de usuário da rede, tudo parece a um clique de distância, especialmente o reconhecimento de si próprio pelos outros que te seguem ou são seus amigos em uma rede social. A Internet nos estendeu a mão como o galã do filme para Cecilia e nos trouxe para dentro da tela em que morariam os sonhos, mas na qual começamos a perceber que temos que agir como empreendedores de nós mesmos para atingi-los.

Cecilia entrou na tela para escapar ao abuso e à infelicidade, assim como muitos de nós foram atraídos online para fugir de misérias de nosso tempo. Em seu delírio, ela encontrou um pouco de amor, mas a maioria de nós foi atirada aos conflitos nas redes sociais. O lado de lá da tela não nos salvou da selvageria do lado de cá, mesmo porque um espelha de forma amplificada o outro e ficamos, desde então, na fronteira do on-offline gerindo nossas vidas e sonhos em uma realidade cotidiana inimaginável há pouco mais de vinte anos, quando a internet começou a se disseminar comercialmente.

O escapismo de Cecilia em A Rosa Púrpura do Cairo pode ser interpretado como um delírio que terminou quando ela escolheu a realidade. Atualmente, desconectar-se não é uma opção, e encaramos o dilema de viver no contínuo on-offline distinguindo seus engodos de suas potencialidades e conquistas. Van Dijck, estudiosa holandesa das mídias sociais, afirma ironicamente que na era da conectividade há algoritmos para quase tudo, menos para a reflexão crítica. Será que ao invés de nos decepcionarmos com as redes sociais ou nos desconectarmos já temos conhecimento suficiente para desmontar algumas de suas armadilhas?

 

Richard Miskolci é Doutor em Sociologia pela USP, Professor Associado de Sociologia da UFSCar e Coordenador Adjunto da Área de Sociologia/Ciências Sociais na CAPES

15 documentários online para debater racismo, machismo, islamofobia e LGBTfobia

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15 documentários online para debater racismo, machismo, islamofobia e LGBTfobia

A igualdade, direito básico dentro dos Direitos Humanos, é um tema intensamente debatido hoje, e não é para menos. Basta olhar os veículos de comunicação e até mesmo as redes sociais para se deparar com notícias, textos, relatos e comentários sobre casos de racismo, islamofobia, machismo e LGBTfobia que acontecem diariamente no Brasil e no mundo.

Como você deve saber, os vestibulares e o Enem estão alinhados com a realidade na qual vivemos, e costumam abordar regularmente a questão da diversidade sexual e da igualdade racial, religiosa e de gênero – lembra-se da proposta de redação do Enem 2015?

Existem muitos documentários e mini-documentários ótimos para ajudar você a entender e construir argumentos sobre questões que envolvem preconceitos. Aqui, você encontra alguns dos documentários mais legais que estão disponíveis principalmente no Youtube e na Netflix. Vamos lá!

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RACISMO
A História do Racismo (Racism: A History, 2007)
Produzido e realizado pela British Broadcasting Corporation (BBC), o documentário possui três partes e aborda o legado deixado pelo racismo e pelo escravismo ao longo dos séculos.
Disponível completo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=0NQz2mbaAnc

Olhos azuis (The Eye of the Storm, 1968)
Com quase 50 anos de existência, Olhos Azuis continua a ser um documentário atual e impactante. Ele acompanha a socióloga americana Jane Elliot, que realiza um experimento no qual pessoas de olhos azuis são taxadas como uma raça inferior e passam a sentir um pouco do que os negros americanos sofrem diariamente.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=AeiXBLAlLpQ

Você faz a diferença (2005)
Dirigido por Miriam Chnaiderman, reúne depoimentos de alunos, professores e pessoas que foram coagidas e humilhadas por conta de sua etnia ou condição social.
Disponível em: http://curtadoc.tv/curta/comportamento/voce-faz-a-diferenca/

Saiba mais:
Escravidão: dez passos para a liberdade
A história do movimento negro no Brasil

 

ISLAMOFOBIA
Somos Franceses (D’ailleurs nous sommes français, 2013)
Qual o conceito de identidade nacional? Somos Franceses discute a questão a partir do ponto de vista de franceses de origens estrangeiras que não são reconhecidos como cidadãos da França. A partir de questões como discriminação e islamofobia, o documentário revela diversas perspectivas da França atual.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=hkVmgX5r8xo

Islã: Impérío da Fé (Islam: Empire of Faith, 2000)
Para criar uma opinião sobre algo, é preciso conhecê-lo antes. O documentário Islã: Império da Fé, produzido pela Public Broadcasting Servise (PBS)  é dividido em três partes e narra detalhadamente a história da religião Islã desde o nascimento do profeta islâmico Maomé até o Império Otomano. O primeiro episódio é sobre a vida de Maomé, o segundo sobre os califados, as cruzadas e a invasão mongol, e o terceiro sobre o Império Otomano e a dinastia Safávida.
Disponível em:
Parte 1 – https://www.youtube.com/watch?v=VP2CHeEeffo
Parte 2 – https://www.youtube.com/watch?v=gCd2aucwML4
Parte 3 – https://www.youtube.com/watch?v=vJoq_d7hGog
Completo em inglês: https://www.youtube.com/watch?v=UHhbSvOcz4g

Tears of Gaza (2010)
O documentário norueguês revela a realidade da guerra na faixa de Gaza, antes de depois do cessar-fogo, por meio do olhar de três crianças palestinas. O longa também mostra o dia-a-dia de mulheres e crianças, maioria sem casas decentes, dinheiro, comida, água e eletricidade.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=6LMAF1z4RiE

Saiba mais:
Desfazendo a confusão entre islamismo e terrorismo

 

DESIGUALDADE DE GÊNERO E VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Lei Mulher (2010)
O curta revela o Brasil como pioneiro na criação de uma lei para a mulher, a Lei Maria da Penha, e reúne relatos de mulheres vítimas de violência sexual, moral ou psicológica.
Disponível em: http://curtadoc.tv/curta/direitos-humanos/lei-da-mulher/

Girl Rising (2013)
Conta as histórias de nove meninas de 7 a 16 anos que vivem em países pobres e enfrentam implacáveis circunstâncias para conseguir acesso à educação. No documentário você conhece garotas surpreendentes como a etíope Azmera, que se recusou a casar aos 13 anos, e a haitiana Wadley, de 7 anos, que mesmo rejeitada pelos professores volta à escola todos os dias para exigir seu direito de estudar.
Disponível na Netflix.

She’s Beautiful When She’s Angry (2014)
Se você quer entender o atual movimento à favor da igualdade de direitos entre homens e mulheres, precisa entender como esse movimento nasceu. She’s Beautiful When She’s Angry revela como as mulheres começaram a lutar pelos seus direitos entre 1966 e 1971 e conta as histórias de mulheres corajosas por trás da mobilização.
Disponível na Netflix.

Saiba mais:
O que é cultura do estupro?
Como as mulheres conseguiram o direito de voto?

 

LGBTfobia
Mundo dos transgêneros – Direitos pelo mundo (2015)
Você sabia que quase a metade dos jovens transgêneros na Inglaterra cometem suicídio? Produzido pela Globo News, Mundo dos Transgêneros discute sobre a vida de quem se identifica com o gênero oposto ao seu gênero biológico e aborda diversas questões relacionadas à forma como pessoas trans são vistas no Brasil e no mundo.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9yCXY5vv9OY

(Trans)fobias (2014)
O curta dá voz aos transgêneros e transexuais brasileiros, que contam como é ser trans no Brasil, quais situações eles já viveram e os maiores desafios que eles enfrentam todos os dias.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VoLSV2_0Gwg

Game Face (2015)
Ser esportista e LGBT não é simples. Game Face ilustra essa situação ao acompanhar duas figuras da comunidade LGBT que batalham pela aceitação em suas modalidades esportivas: a lutadora transexual de MMA Fallon Fox e o jogador homossexual de basquete Terrence Clemens.
Disponível na Netflix.

O Segredo dos Lírios (2012)
No curta, três mulheres brasileiras contam com sensibilidade e sinceridade a relação delas com as filhas lésbicas e o processo de aceitação da sexualidade das mesmas.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=t4vW_I-G9c0

Outrage (2009)
Imagine descobrir que figuras políticas abertamente contrárias às leis que beneficiem a comunidade LGBT sejam secretamente homo ou bissexuais. Essa hipocrisia existe e é abordada em Outrage, que discute sobre políticos norte-americanos e o comportamento da mídia em relação a isso.
Disponível na Netflix.

O Círculo (2014)
Híbrido entre documentário e drama, O Círculo retrata o romance entre o professor Ernst Ostertag e a drag queen Röbi Rapp no início da década de 40. Os dois se conhecem no Der Kreis, única organização gay que sobreviveu ao regime nazista. Mas Ernst se sente dividido entre o medo de perder seu emprego por fugir dos padrões da vida burguesa ou seu compromisso com a homossexualidade.
Disponível na Netflix.

Saiba mais:
Homofobia: o preconceito e a luta por igualdade de direitos
A história da homossexualidade e a luta pela igualdade
O que é homofobia e como ela tem sido tratada no Congresso Brasileiro?

 

Lets-Stop-Hating

Por que 8 de março é o Dia Internacional da Mulher?


Funcionárias do Instituto de Resseguros do Brasil, primeira empresa no Brasil a ter uma creche para filhos das funcionárias. (Crédito: Foto: Divulgação).

As histórias que remetem à criação do Dia Internacional da Mulher alimentam o imaginário de que a data teria surgido a partir de um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York em 1911, quando cerca de 130 operárias morreram carbonizadas. Sem dúvida, o incidente ocorrido em 25 de março daquele ano marcou a trajetória das lutas feministas ao longo do século 20, mas os eventos que levaram à criação da data são bem anteriores a este acontecimento.

Desde o final do século 19, organizações femininas oriundas de movimentos operários protestavam em vários países da Europa e nos Estados Unidos. As jornadas de trabalho de aproximadamente 15 horas diárias e os salários medíocres introduzidos pela Revolução Industrial levaram as mulheres a greves para reivindicar melhores condições de trabalho e o fim do trabalho infantil, comum nas fábricas durante o período.

O primeiro Dia Nacional da Mulher foi celebrado em maio de 1908 nos Estados Unidos, quando cerca de 1500 mulheres aderiram a uma manifestação em prol da igualdade econômica e política no país. No ano seguinte, o Partido Socialista dos EUA oficializou a data como sendo 28 de fevereiro, com um protesto que reuniu mais de 3 mil pessoas no centro de Nova York e culminou, em novembro de 1909, em uma longa greve têxtil que fechou quase 500 fábricas americanas.

Em 1910, durante a II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas na Dinamarca, uma resolução para a criação de uma data anual para a celebração dos direitos da mulher foi aprovada por mais de cem representantes de 17 países. O objetivo era honrar as lutas femininas e, assim, obter suporte para instituir o sufrágio universal em diversas nações.

Com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) eclodiram ainda mais protestos em todo o mundo. Mas foi em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano, adotado pela Rússia até então), quando aproximadamente 90 mil operárias manifestaram-se contra o Czar Nicolau II, as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra – em um protesto conhecido como “Pão e Paz” – que a data consagrou-se, embora tenha sido oficializada como Dia Internacional da Mulher, apenas em 1921.

Somente mais de 20 anos depois, em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres. Nos anos 1960, o movimento feminista ganhou corpo, em 1975 comemorou-se oficialmente o Ano Internacional da Mulher e em 1977 o “8 de março” foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas.

“O 8 de março deve ser visto como momento de mobilização para a conquista de direitos e para discutir as discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres, impedindo que retrocessos ameacem o que já foi alcançado em diversos países”, explica a professora Maria Célia Orlato Selem, mestre em Estudos Feministas pela Universidade de Brasília e doutoranda em História Cultural pela Universidade de Campinas (Unicamp).

No Brasil, as movimentações em prol dos direitos da mulher surgiram em meio aos grupos anarquistas do início do século 20, que buscavam, assim como nos demais países, melhores condições de trabalho e qualidade de vida. A luta feminina ganhou força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 30, que conseguiram o direito ao voto em 1932, na Constituição promulgada por Getúlio Vargas. A partir dos anos 1970 emergiram no país organizações que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, o feminismo passou a manter um diálogo importante com o Estado, com a criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo, e em 1985, com o aparecimento da primeira Delegacia Especializada da Mulher.