Brasil – físico (quadro natural)

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Brasil Físico

Robôs dominam debate político nas redes sociais

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Política

Tecnologia

Perfis falsos na internet tornaram-se parte da comunicação política e podem influenciar o discurso online
por Deutsche Welle — publicado 24/08/2016 04h08

Por Thomas Baerthlein e Albert Steinberger

É comum no Twitter encontrar os chamados bots, robôs que geram contas falsas e espalham conteúdo em escala industrial. Aquele novo seguidor que não tem foto de perfil e compartilha uma mensagem aleatória apenas uma vez ao dia, provavelmente é uma dessas contas automatizadas.

Há os bots para fins comerciais – muito difundidos na internet –, mas há também aqueles criativos, como o perfil @MagicRealismBot, programado para gerar, a cada duas horas, pílulas de sabedoria que imitam citações de escritores famosos como Jorge Luis Borges e Gabriel García Márquez.

O aumento do uso de robôs nas redes sociais tem aberto uma série de discussões, principalmente quando são utilizados para fins políticos. Para especialistas ouvidos pela DW, essa prática pode afetar a credibilidade da internet e até a própria democracia de um país.

Bots políticos podem trabalhar de diferentes formas: contas falsas são principalmente usadas para amplificar a rede de seguidores de um determinado político, mas também são capazes de inflar discussões sobre um determinado tema, a fim de marginalizar outros pontos de vista.

“Já vimos bots discutindo uns com os outros. E já vimos pessoas reais discutindo com eles”, explica o especialista Phil Howard, professor do Instituto de Internet da Universidade de Oxford, à DW.

Em comparação com outras plataformas sociais, como o Facebook, os robôs são mais eficazes e mais fáceis de implementar no Twitter – e é nessa rede social que eles têm sido mais comumente usados para fins políticos.

Os bots se tornaram uma ferramenta comum entre regimes autoritários e ditatoriais, que têm o interesse de manipular as discussões na internet. Também são empregados em democracias a fim de influenciar a opinião de cidadãos sobre questões controversas ou para fazer diferença nas eleições.

México, Turquia e Rússia, por exemplo, são países amplamente afetados por essa prática. “Os bots são eficazes em semear confusão ou sufocar uma conversa política sobre uma questão global que envolva um governo autoritário. Por isso, eles são bastante ativos na Rússia, onde fazem parte de uma estratégia de sucesso do governo para espalhar a desinformação”, diz Howard.

A pedido da DW, o especialista em redes sociais Torsten Müller analisou as contas no Twitter do presidente interino Michel Temer e da presidente afastada Dilma Rousseff. O teste usou a ferramentaTwitter Audit, software capaz de avaliar quem são os seguidores reais e os falsos dentro de um perfil.

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Michel Temer e Dilma Rousseff tiveram suas contas de Twitter analisadas pelo especialista em redes sociais Torsten Müller. (Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Na conta de Temer (@MichelTemer), 78% foram detectados como sendo perfis reais. Entre os quase 613 mil seguidores, 132.962 seriam falsos e 479.766, reais.

Já no perfil de Dilma (@dilmabr), o resultado é um pouco pior: 71% dos usuários que a seguem seriam pessoas de verdade. Ou seja, entre os 4,8 milhões de seguidores da presidente afastada,1.406.220 seriam falsos e 3.409.603, reais. O Twitter Audit alerta que a pesquisa contém margem de erro. Müller explica que contas inativas ou com pouco uso podem ser contadas como falsas.

Perfis falsos e bots muitas vezes vêm de locais conhecidos como click farms, fazendas de cliques onde pessoas trabalham criando perfis falsos e aumentando a popularidade de clientes. Índia, Arábia Saudita e Madagascar são alguns dos locais conhecidos por abrigarem click farms.

O especialista acredita que o uso de bots é mais comum do que os políticos querem admitir. “Com mais seguidores, as pessoas vão achar que você tem mais influência. Mas os bots também vão ajudar a espalhar o seu conteúdo. Eles vão te retweetar, por exemplo. Então, é uma ferramenta que muita gente usa, inclusive partidos políticos”, afirma ele.

Os algoritmos das redes sociais que definem o que aparece na timeline de cada usuário dão preferência a temas que estão sendo comentados por muitas pessoas. Por isso, os bots têm o papel de criar um efeito de manada dentro da internet e, assim, influenciar a opinião pública.

“Algumas vezes basta uma simples fagulha e, por meio dos bots, a coisa se espalha por todo o mundo. E isso pode colocar em risco a democracia”, opina o especialista em marketing digital Hendrik Unger. “Por isso, os administradores das redes sociais devem cuidar para que os robôs, por meio de medidas de segurança, sejam completamente bloqueados.”

Unger estima que a quantidade de bots nas redes sociais varia de 10% a 30%, dependendo da plataforma. “O que algumas vezes notamos em páginas de Facebook ou de Instagram de famosos, como a do cantor pop Justin Bieber, é uma queda súbita na quantidade de fãs e seguidores. De repente, elas têm meio milhão de fãs a menos. E isso acontece quando os administradores de redes sociais fazem uma limpeza e apagam todas as contas falsas detectadas”, explica.

O especialista ainda alerta que o uso de bots é uma praga na internet, mas que só traz efeitos de curto prazo. “É realmente como o doping: os meus músculos crescem e eu fico bombado, super forte, mas não dura muito tempo”, avalia. Ele acredita que a compra de cliques é arriscada, podendo gerar danos à imagem de empresas e políticos e resultar na perda de confiança.

Já Saiph Savage, cientista da computação da Universidade de West Virginia, não está muito preocupada com a ameaça dos robôs na internet. “Eu acho que é muito provável que nós, como sociedade, iremos estabelecer normas sobre quais tipos de bots são inofensivos para uso – e quais não”, diz Savage. “Por exemplo, se um candidato é flagrado com um exército de robôs, isso é algo que a sociedade vai punir.”

Por outro lado, os políticos que usam bots de uma forma mais sofisticada, a fim de se comunicarem melhor com seu eleitorado, poderiam muito bem ser recompensados, acrescenta ela. “É tudo uma questão de usar a mídia social para permitir colaborações entre os candidatos e os cidadãos”, opina.

Deutsche Welle

A desigualdade social chega a níveis alarmantes

A concentração de riqueza no mundo é hoje semelhante à da Inglaterra de charles Dickens ou da França de Victor Hugo

 Noor Khamis/ Reuters/ Latinstock
Os Miseráveis

Há mais gente, menos posses e mais dívidas na base da pirâmide

 Na Europa, a parcela detida pelo décimo superior subiu de 60% em 1970 para 64% em 2010 e a do centésimo superior de 21% para 24%. Nos EUA, o décimo superior subiu de 64% para 72% e o centésimo superior de 28% para 34%. Na falta de políticas ativas contra a desigualdade (como, por exemplo, impostos progressivos sobre o capital), esses países retornarão em meados do século XXI a um patamar de desigualdade semelhante àquele do fim do século XIX e início do XX.

Nesse período, o 1% mais rico (“classes dominantes”, na terminologia de Piketty) detinha metade de toda a riqueza, o décimo superior (“classes superiores”, sendo os não incluídos no primeiro 1% referidos como “classes abastadas”) , quase 90%, enquanto o 50% mais pobre (“classes populares” na terminologia do economista) ficava com meros 5%. A nostalgia chama esses tempos e de belle époque, mas poucos, mesmo nos países mais ricos, puderam usufruir de sua beleza.

O ano de 2010 foi também aquele no qual o banco Credit Suisse publicou o seu primeiroGlobal Wealth Report (Relatório da Riqueza Global). Naquele ano, os 50% mais pobres dos 4,44 bilhões de adultos possuíam pouco menos de 2% dos ativos mundiais estimados em 194,5 trilhões de dólares, “embora a riqueza esteja crescendo rapidamente para alguns membros deste segmento”, acrescentava esperançosamente o relatório. Os 10% superiores possuíam 83% da riqueza mundial e o centésimo superior, 43%. A riqueza média equivalia a 43,8 mil dólares líquidos. Era preciso possuir 4 mil para deixar de pertencer aos 50% mais pobres, 72 mil para chegar aos 10% mais ricos e 588 mil para o centésimo superior.

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Piketty: sem medidas ativas, como imposto sobre o capital, vai piorar ainda mais.

Cinco anos depois, o relatório de 2015, publicado em 13 de outubro, mostra que a concentração de renda mundial alcançou níveis tão críticos quanto o do mundo industrializado antes da Primeira Guerra Mundial. Apesar do relativo otimismo de 2010, a metade mais pobre dos 4,8 bilhões de adultos ficou ainda mais depauperada: agora possui menos de 1% da riqueza planetária estimada em 250,1 trilhões de dólares, enquanto o décimo mais alto controla quase 90% (87,7%, para ser exato) e o centésimo no topo, exatos 50%. A riqueza média líquida subiu para 52,4 mil, um aumento nominal de 19,6% que se reduz a 9,3% se descontados 9,5% de inflação do dólar nos Estados Unidos em cinco anos, mas os níveis de corte passaram para 3,21 mil (27% mais baixo em termos reais), 68,8 mil (13% mais baixo) e 759,9 mil (18% mais alto), respectivamente.

Percebeu-se há algum tempo, em vários países, como a limitada recuperação da economia após a crise de 2008 fluiu para os bolsos dos privilegiados, enquanto as classes média e popular ficaram ainda mais pobres pela estagnação (ou mesmo redução) dos salários reais, o aumento do desemprego e o maior endividamento. Na Espanha, por exemplo, o número de milionários em dólares (pelo critério do Capgemini e Royal Bank of Canada, que ao contrário do Credit Suisse, não inclui residência e bens de consumo) cresceu de 127,1 mil em 2008 para 178 mil em 2014, enquanto a renda per capita caiu de 35,6 mil para 30,3 mil, o desemprego subiu de 11% para 26% e a dívida pública saltou de 39,4% para 99,3% do PIB.

Nos EUA, o 1% mais rico absorveu 95% do crescimento após a crise financeira e o empobrecimento da camada inferior reflete-se até na mortalidade. Em 1960, os 20% de homens com 50 anos mais pobres podiam esperar viver até os 76,6 anos, enquanto, em 2010, esse número caiu para 76,1. No caso das mulheres, a queda foi de 82,3 para 78,3. Enquanto isso, a expectativa de vida para os 20% mais ricos atingiu 88,8 anos para homens e 91,9 para mulheres.

Na União Europeia, a renda combinada dos dez mais ricos, 217 bilhões de euros, superou o valor total das medidas de estímulo de 2008 a 2010, cerca de 200 bilhões. A novidade do relatório está em oferecer, em números, um panorama sintético dos resultados desse processo na escala do planeta.

O efeito do crescimento das dívidas na riqueza líquida foi tão importante que resultou no paradoxo de que agora há entre os 10% mais pobres (inclusive os de patrimônio negativo) mais europeus e norte-americanos do que chineses. Nem todos esses vivem na miséria. Alguns, principalmente nos EUA, são jovens cujo patrimônio foi zerado por crédito educativo, hipoteca ou cartão de crédito, mas têm diploma, um padrão de consumo decente e o sonho de um dia chegar ao topo, mas a precariedade da sua situação ficará evidente se tiverem de enfrentar uma crise ou uma doença inesperada.

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Parte do aumento recente da desigualdade está relacionada à valorização do dólar perante a outras moedas do mundo. Quem não vive nos Estados Unidos ou em países de câmbio fixo ficou, só por isso, mais pobre em dólares. Em muitos países, esse efeito é neutralizado ou amenizado pela queda do custo de vida local em moeda estadunidense. Mas quando se refere às relações internacionais de poder e riqueza, esse empobrecimento é real, como constata qualquer brasileiro ao viajar para o exterior, pagar por serviços de internet ou, se está no topo da escala, ao negociar com bancos como o Credit Suisse.

Para usar a terminologia do banco suíço, o número de adultos na “base da pirâmide” (com menos de 10 mil dólares líquidos) cresceu de 3,038 bilhões (68%) para 3,386 bilhões (71%), sua irrisória fatia no bolo da riqueza mundial caiu de 4,2% para 3% e sua riqueza média, ou melhor, pobreza média, caiu de 2,7 mil para 2,2 mil, um tombo de 26% em termos reais.

A camada do meio (10 mil a 100 mil dólares) diminuiu de 1,045 bilhão (24%) para 1,003 bilhão (21%), sua parcela caiu de 16,5% para 12,5% e sua riqueza média passou de 30,7 mil para 31,2 mil, ilusão monetária sobre uma queda real de 7,2%. Em 2000, 3,6% dessa camada vivia na China, em 2010, pouco menos de um terço e hoje, 36%.

Os não milionários da camada superior (100 mil a 1 milhão de dólares) perderam em termos relativos. Seu contingente passou de 334 milhões (7,5%) para 349 milhões (7,4%) e sua participação na riqueza mundial diminuiu de 43,7% para 39,4%. Em tese, não têm do que se queixar: em termos absolutos, sua riqueza média passou de 254 mil para 282 mil dólares, com leve aumento real de 1,3%.

Compare-se, porém, com o que aconteceu com os milionários: seu número aumentou de 24,2 milhões (0,5%) para 34 milhões (0,7%) e sua riqueza passou de 2,86 milhões para 3,32 milhões, o que significa um aumento real de 6,1%. Sua fatia, já grande, aumentou de 35,6% para 45,2% e passou a ser a maior de todas. A parte do Leão, por qualquer critério. O perfil geográfico desse grupo também se concentrou. Cinco anos atrás, 41% viviam nos EUA, hoje são 46%. Os únicos outros países com ganho perceptível de participação foram o Reino Unido, que ao passar de 5% para 7% tomou o segundo lugar por muito tempo ocupado pelo Japão, a China (de 3% para 4%), a Suíça (de 1% para 2%) e a Suécia (idem). Alguns caíram muito, inclusive Japão (de 10% para 6%), França (de 9% para 5%) e Itália (de 6% para 3%).

O relatório não faz uma estimativa independente do número de bilionários, mas, segundo a revista Forbes, ele aumentou de 1.011 com uma riqueza total de 3,6 trilhões para 1.826 com um valor agregado de 7,05 trilhões. Em 2010, esse grupo possuía praticamente o mesmo que a metade mais pobre da humanidade. Cinco anos depois, açambarca mais que o triplo. Basta juntar num ônibus os 85 mais ricos (com 13,4 bilhões ou mais, incluídos os brasileiros Jorge Paulo Lemann e Joseph Safra), para usar a imagem do Nobel de Economia Joseph Stiglitz, para igualar a metade de baixo da pirâmide, 3,7 bilhões de seres humanos (2,4 bilhões das quais adultos), cujos patrimônios somados igualam os mesmos 2,1 trilhões de dólares.

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O relatório de 2015 do Credit Suisse inclui também pela primeira vez um estudo da “classe média global” com critérios não diretamente comparáveis ao da pirâmide acima. Esta foi definida como possuidora de riqueza líquida de 50 mil a 500 mil dólares nos EUA em meados de 2015 e valores equivalentes em outros países segundo o poder aquisitivo local do dólar conforme a estimativa adotada pela instituição – por exemplo, de 13,7 mil a 137 mil dólares na Índia, 28 mil a 280 mil no Brasil ou na China e 72,9 mil a 729 mil na Suíça, de forma a obliterar o efeito da variação cambial. Em todo o mundo, 664 milhões se encaixam nessa definição, com um patrimônio total de 80,7 trilhões (32% do total mundial), média de 121,5 mil per capita. Acima deles estão 96 milhões, com 150 trilhões (60% do total), 1,56 milhão por proprietário. As duas camadas juntas detêm, portanto, 92% de todos os bens do mundo.

É só nos países ricos que esse conceito de “classe média” se aproxima daquilo que Piketty entende pelo termo, ou seja, aqueles cujas posses estão acima da mediana, mas abaixo dos 10% superiores. Nos menos desiguais (Austrália, Cingapura, Bélgica, Itália e Japão) chega a constituir 60% da população ou mais. Mas no contexto mundial soma só 13,9% da população (com outros 2% no topo) e é na realidade mais comparável às “classes abastadas” de Piketty. Isso é verdade também para quase todos os países pobres e emergentes. Qualificam-se como “classe média” 3% dos indianos, 4% dos argentinos, 8,1% dos brasileiros, 10,7% dos chineses e 17,1% dos mexicanos. No Brasil, em especial, essa “classe média” abrange quase toda a camada conhecida pelos pesquisadores de mercado como A2 (3,6%) e a metade superior da B1 (9,6%), ou seja, é a maior parte do que chamaríamos de “elites”. Acima dela, só a classe dominante no sentido estrito, 0,6% dos brasileiros (a camada A1 conta com 0,5%).

Apesar disso, hoje é a China o país com o maior número de indivíduos na “classe média”: nada menos de 109 milhões, ante 92 milhões nos EUA. Onze outros países têm mais de 10 milhões: Japão, com 62 milhões; França, Itália, Alemanha, Índia, Espanha e Reino Unido, com 20 milhões a 30 milhões; Austrália, Brasil, Canadá e Coreia do Sul, com 10 milhões a 17 milhões.

Que ninguém se engane: essa “classe média” é uma elite em termos planetários, vive com conforto, tem em geral uma educação superior e é muito relevante como consumidora, talvez também como contribuinte. Porém, do ponto de vista do poder econômico e político e do interesse de grupos financeiros internacionais, são os 29,8 milhões de milionários, no mínimo, que contam.  Aqueles com 5 milhões a 10 milhões de dólares são 2,5 milhões e com 10 milhões a 50 milhões, 1,3 milhão, mas o foco visível do interesse do Credit Suisse está nos ultrarricos com mais de 50 milhões, que cresceram de 81 mil em 2010 para 124 mil em 2015 ou 0,0026% dos cidadãos do mundo. Destes, 59 mil vivem nos EUA (48%), 30 mil na Europa (24%), 9,6 mil (9%) na China e Hong Kong e 1,5 mil (1%) no Brasil. A Suíça tem 3,8 mil nessa categoria, mais que a França (3,7 mil).

Esses multimilionários são o equivalente aproximado, quanto ao seu número relativo, à classe senatorial da Roma antiga (600 senadores, mais os filhos adultos, em uma população de 60 milhões) ou à alta nobreza titulada nas grandes monarquias europeias do século XVIII (algumas centenas em populações de dezenas de milhões). Os meros milionários podem ser equiparados à classe curial da antiga Roma (mercadores, conselheiros e funcionários municipais) ou à pequena nobreza não titulada da Europa pré-revolucionária, ambas perto de 1% da população da época.

Conforme Piketty, as grandes novidades do século XX, atribuídas por ele aos choques políticos e econômicos das duas guerras mundiais, foram a redução da participação da classe dominante na riqueza, para cerca de 20% do total em vez dos 50% tradicionais até 1913, e o surgimento de uma  verdadeira classe média, formada por algo como 40% da população e 35% ou 40% da riqueza. Sua parcela é constituída fundamentalmente de residência e bens de consumo e poupanças, representando pouco poder econômico, mas uma razoável segurança. Nas sociedades mais antigas, os 90% inferiores formavam uma massa pouco diferenciada e possuíam 10% ou menos da riqueza social.

O relatório do Credit Suisse mostra uma sociedade global cada vez mais próxima desses padrões antigos e medievais, e mais distantes daqueles atingidos pelos países mais desenvolvidos nos anos do pós-Guerra. Desde o início da era neoliberal, a riqueza acumula-se cada vez mais no topo, enquanto as maiorias empobrecem em termos relativos e até absolutos. As crises mostraram-se, sobretudo, oportunidades de radicalizar esse processo: para conter as falências em massa que agravariam a crise, valores imensos são mobilizados pelos Estados para financiar os poderosos, cuja incompetência é premiada também com cortes de impostos, salários e direitos trabalhistas, enquanto as massas pagam a conta com um salário congelado ou reduzido e impostos mais altos, quando não perdem o emprego e se endividam ainda mais.

O crescimento de alguns países emergentes, principalmente a China, foi o único fator importante a contrariar essa tendência geral, ao incorporar camadas maiores da população à “classe média” mundial (apesar de, no caso chinês, isso também aumentar sua desigualdade interna em relação às massas camponesas). Mas esse fator está em desaceleração, ao passo que as pressões para privilegiar ainda mais os ricos e lhes dar maior liberdade de ação estão em alta em quase toda parte e as crises em formação só tendem a reforçá-las.

*Reportagem publicada originalmente na edição 873 de CartaCapital, com o título “No mundo de ‘Os miseráveis”

A desigualdade no Brasil

 

As 26,7 mil pessoas que estão no topo da pirâmide detêm 6% de toda a renda e riqueza daqueles que declararam o imposto de renda. Este grupo ganha 6.100% a mais do que a renda média dos que declararam imposto de renda e têm um volume de riqueza (bens e direitos) 6.450% superior à média dos declarantes. Os dados para os 1% ou 5% mais ricos também são revoltantes”, constata Clemente Ganz Lúcio, sociólogo, diretor técnico do DIEESE, membro do CDES – Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social e do Grupo Reindustrialização.

Eis o artigo.

Tempos difíceis no mundo e no Brasil. Crise econômica profunda, desemprego, arrocho salarial, precarização dos direitos, violência crescente, migrantes em fuga, xenofobia, descontentamento com as instituições e insatisfação com a política compõem uma lista e tanto, mas são apenas parte dos problemas. Em busca de solução, há o desafio de entender o que está acontecendo, identificar causas e consequências. E há um desafio maior ainda que é transformar, pelo conhecimento, os problemas em questões que mobilizem a sociedade para atuar e intervir.

A desigualdade é uma das questões mais complicadas e a causa estrutural da maioria dos problemas que vivemos. Nasce na sociedade com e devido ao modo pelo qual se produz e distribui riqueza e renda. É isso que diz Thomas Piketty no livro O capital no século XXI. Como afirma o autor, não há determinismo econômico na distribuição da renda e da riqueza, pois esta é uma construção histórica, feita em sociedade e, por isso, política. O debate sobre o que é justo e sobre as escolhas coletivas fazem parte do jogo social.

Recentemente (maio),a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda divulgou, pela primeira vez,breve estudo com base nos dados do Imposto de Renda da Pessoa Física 2014-2015 (Relatório da Distribuição Pessoal da Renda e da Riqueza da População Brasileira). Disponível do site do Ministério, o trabalho permite uma comparação com os dados produzidos por Piketty.

O estudo analisa os dados do imposto de renda de 26,5 milhões de pessoas, de um universo de 101 milhões que trabalharam nesse período, ou seja, um quarto desse contingente. Examina o rendimento e a riqueza (bens e direitos) por faixa de salários mínimos e por decil e centil de renda(como se dividíssemos o grupo de 26,7 milhões em 10, 100 ou 1.000 grupos de igual tamanho).

As 26,7 mil pessoas que estão no topo da pirâmide detêm 6% de toda a renda e riqueza daqueles que declararam o imposto de renda. Este grupo ganha 6.100% a mais do que a renda média dos que declararam imposto de renda e têm um volume de riqueza (bens e direitos) 6.450% superior à média dos declarantes. Os dados para os 1% ou 5% mais ricos também são revoltantes.

Considere que esses dados comparam a renda e a riqueza entre aqueles que declaram imposto de renda. Há, porém,75 milhões de pessoas que estão no mundo do trabalho e não fazem declaração de IR, a grande maioria, justamente porque possui renda muito baixa. Incluindo-os na comparação, a desigualdade aumentará muito.

Considere ainda que esse dado trata de cada CPF, ou seja, de cada pessoa e que os ricos distribuem riqueza e renda entre os CPFs da família. Agregando CPFs de uma família, são obtidos números ainda mais assustadores de concentração de renda e riqueza num mesmo núcleo. E se for considerado ainda que se trata da renda e da riqueza de pessoas físicas e que os ricos detêm muito mais patrimônio e renda (lucro) como pessoas jurídicas, os números aumentam mais e mais. Levando em consideração ainda que muitos ricos, como revelam as operações denunciadas em paraísos fiscais, deixam parte relevante da riqueza escondida do fisco naqueles países, a riqueza dessas pessoas chega à estratosfera. Para expressar qualquer opinião sintética sobre essa situação toda, é necessário um longo e sonoro palavrão.

A desigualdade revelada nesse importante relatório é de obrigatório conhecimento, pois é essencial para fundamentar uma atuação incisiva para a tributação sobre a renda, a riqueza e os dividendos. Há outros importantíssimos estudos sobre o tema, que valem comentários em outras oportunidades.

Com o trabalho é produzida muita renda e riqueza, que poderiam gerar bem-estar e qualidade de vida para todos. Mas o que acontece, o que se cria, é essa absurda desigualdade, que produz muitos dos problemas que abrem esse artigo. É fundamental atuar, intervir e transformar esse quadro perverso.

(EcoDebate, 17/08/2016) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

 

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O mito da economia verde e o aumento da extração de recursos naturais

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Por mim ficaria contente se todos os prados do mundo ficassem em estado selvagem
como consequência das iniciativas dos homens para se redimirem”
Henry Thoreau (1817-1862)

 

160810

 

[EcoDebate] A ideia de economia verde, assim como as propostas de desenvolvimento sustentável, são iniciativas que tentam defender a continuidade do crescimento econômico, mas com uma capa de inclusão social e de redução da degradação ambiental.

A Iniciativa Economia Verde da ONU (Green Economy Initiative, da UNEP) define a Economia Verde como aquela que resulta em melhoria do bem-estar humano e da igualdade social, ao mesmo tempo em que reduz significativamente os riscos ambientais, a escassez ecológica e a perda de biodiversidade. Ela tem três características preponderantes: é pouco intensiva em carbono, eficiente no uso de recursos naturais e socialmente inclusiva (2011, p.7)

Porém, considerar que se pode atingir estes objetivos da Economia Verde por meio do crescimento econômico é ignorar a observação de um dos fundadores da economia ecológica, Kenneth Boulding, que disse: “Acreditar que o crescimento econômico pode continuar infinitamente num mundo finito é coisa de louco ou de economista”.

A economia verde só seria viável em um quadro de decrescimento econômico, com redução do metabolismo social (“modelo extrai-produz-descarta”) e a diminuição da degradação ambiental. Mas o que tem acontecido nos últimos 240 anos é um enorme crescimento demoeconômico com grande agressão ao meio ambiente.

Entre 1776 e 2016, a população mundial cresceu 9,5 vezes e a economia global multiplicou por cerca de 125 vezes. Em 240 anos, o crescimento anual da população ficou em torno de 0,9% ao ano e a economia em torno de 2% ao ano. Sendo que o período de maior crescimento demoeconômico ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, quando a população passou de cerca de 2,5 bilhões de habitantes para quase 7,5 bilhões de habitantes em 2016 e a média anual de crescimento do PIB ficou acima de 3,5% ao ano. O consumo de matérias primas e de recursos naturais cresceu de maneira exponencial. Este processo trouxe muito lucro para a humanidade (por exemplo, aumentou a esperança de vida ao nascer de cerca de 25 anos em 1800 para 72 anos em 2016), mas provocou grandes prejuízos para a natureza e a biodiversidade.

O crescimento das atividades antrópicas provocou o desmatamento das florestas para explorar as madeiras de lei, fazer carvão e ampliar as atividades da agricultura e da pecuária. Represou rios, drenou pântanos, alterou a paisagem natural. Danificou os solos, ampliou as áreas desérticas e gerou desertos verdes que provocam a defaunação. Os oceanos tendem a ter mais plásticos poluidores do que peixes. Dezenas de milhares de espécies desapareceram e outras centenas de milhares estão em riscos de extinção. Para manter o crescimento econômico a terra foi revolvida para extrair minérios, para buscar petróleo no fundo do subsolo e para outros usos que emitem gases de efeito estufa que alteram a química da atmosfera, provocando o aquecimento global e a acidificação dos solos e das águas, além do aumento do nível dos mares, o que ameaça bilhões de pessoas que vivem ou dependem das áreas costeiras.

Portanto, o que tem acontecido desde o início da Revolução Industrial e Energética é o aprofundamento de uma economia “marrom” que tem provocado grande dano ambiental (além de grande desigualdade social). Até agora a economia verde e o desenvolvimento sustentável são apresentados como utopias, mas na prática são apenas distopias.

O próprio UNEP mostra que o mundo está longe de cumprir as metas da economia verde. O desacoplamento e a desmaterialização têm sido apenas ilusões. O relatório “Global Material Flows And Resource Productivity” (UNEP, julho de 2016) aponta que, enquanto a população mundial duplicou de tamanho, a extração de recursos naturais globais aumentou três vezes nos últimos 40 anos. A quantidade de matérias-primas arrancadas do seio da natureza subiu de 22 bilhões de toneladas em 1970 para 70 bilhões de toneladas em 2010, com os países mais ricos consumindo duas vezes mais do que a média mundial.

O aumento do uso de materiais globais acelerou rapidamente nos anos 2000, com o crescimento das economias emergentes, em especial com o crescimento da China que passou por grandes transformações industriais e urbanas que demandaram enorme quantidade de matérias-primas, de ferro, aço, cimento, energia, material de construção, etc. O crescimento na extração de recursos naturais passou de 7 toneladas per capita em 1970 para 10 toneladas per capita em 2010.

Se a extração de recursos continuar, em 2050, haverá uma população de 9 bilhões de habitantes e uma demanda de 180 bilhões de toneladas de material a cada ano para atender às demandas antrópicas. Esta é a quantidade quase três vezes a situação atual e provavelmente vai aumentar a acidificação dos terrenos e das águas, a eutrofização dos solos do mundo e dos corpos de água, além de aumentar a erosão e aumentar a poluição e as quantidades de resíduos.

O mais grave é que, desde 1990, tem havido pouca melhoria na eficiência no uso dos materiais globais. Na verdade, a eficiência começou a declinar por volta do ano 2000. A economia mundial atual precisa de mais material por unidade do PIB do que na virada do século, pois o crescimento econômico tem diminuído em economias mais eficientes como Japão, Coreia do Sul, EUA e Europa e aumentado em economias menos eficientes no uso dos recursos como China, Índia e Sudeste Asiático. Isto levou a um aumento da pressão ambiental para cada unidade de atividade econômica.

Ou seja, em vez de haver “desacoplamento” (decoupling), a economia internacional está utilizando cada vez mais recursos da natureza per capita e por unidade do PIB. O modelo marrom continua. O sonho da economia verde tem sido, na verdade, um pesadelo, com destruição dos ecossistemas e grande perda da biodiversidade. As emissões de carbono e de metano continuam em ritmo perigoso.

A América Latina tem sido um caso de retrocesso da estrutura produtiva. A região, e especialmente o Brasil, entrou em uma fase de desindustrialização e de reprimarização, com o agigantamento de um sistema neo-extrativista, que tem gerado grandes desastres ambientais, como no caso do rompimento das barragens de rejeitos de mineração que inundou de lama e destruiu o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), no dia 05/11/2015, e provocou o maior desastre ambiental da história do Brasil com a degradação do rio Doce.

O acidente, que é um exemplo do modelo “extrai-produz-descarta”, ocorreu na unidade industrial de Germano, localizada em Minas Gerais, entre as cidades Mariana e Ouro Preto. A mineradora responsável pelas barragens é a Samarco Mineração, uma joint venture da Cia Vale do Rio Doce com a mineradora anglo-australiana BHP Billiton. A produção de minério visava atender principalmente a demanda chinesa. O rio Doce possui 853 km de extensão e o desastre da Samarco/Vale/BHP é um triste sinal que a economia verde está longe de ser uma realidade ou um sonho a ser alcançado no curto prazo.

A economia verde e a chamada Quarta Revolução Industrial são narrativas otimistas que encantam muitas pessoas. Os tecno-otimistas ou “tecnófilos cornucopianos” tecem loas à tecnologia e consideram que todos os problemas sociais e ambientais podem ser resolvidos pela inventividade humana. Considero que a tecnologia sempre foi e continuará sendo muito importante para melhorar o padrão de vida humano e para reduzir os impactos antrópicos da degradação ambiental.

Mas como mostrou Ted Trainer (2007), a tecnologia pode resolver muita coisa, mas não é capaz de sustentar a atual sociedade de consumo. Trainer defende uma vida mais regrada e a simplicidade voluntária, pois não se pode olvidar o fato de que a economia mundial já ultrapassou a capacidade de carga do Planeta. Michael and Joyce Huesemann, no livro: “Techno-Fix: Why Technology Won’t Save Us or the Environment” também alertam que a nossa confiança na tecnologia e na crença de que ela vai nos salvar é “suicida” e que muitas das nossas invenções estão causando mais mal do que bem. As promessas da geoengenharia até agora são um fracasso e se mostram incapazes de resolver os problemas ambientais.

A Pegada Ecológica está 64% acima da biocapacidade da Terra. Quatro das nove fronteiras planetárias já foram ultrapassadas. Os dramas estão atingindo o ponto de não retorno. Utilizar a ideologia da economia verde para defender o crescimento econômico desregrado, neste contexto de agravamento da exploração da natureza e de redução da biodiversidade, parece mais irresponsabilidade do que cegueira.

Referências:

UNEP. Towards a green economy, 2011

UNEP, Global Material Flows And Resource Productivity: Assessment Report for the UNEP International Resource Panel, Jul 2016

TRAINER, Ted. Renewable Energy Cannot Sustain a Consumer Society, Springer 2007

Michael and Joyce Huesemann. Techno-Fix: Why Technology Won’t Save Us or the Environment, 2011 https://www.youtube.com/watch?v=1MsUypIHZhc

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 10/08/2016

“O mito da economia verde e o aumento da extração de recursos naturais, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/08/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/08/10/o-mito-da-economia-verde-e-o-aumento-da-extracao-de-recursos-naturais-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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Bônus demográfico e envelhecimento no Brasil

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

 

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[EcoDebate] Toda crise recessiva é ruim para o bem-estar humano. Mas a atual crise econômica e política do Brasil veio, particularmente, em má hora, pois o país vive o seu melhor momento demográfico e precisava de políticas públicas corretas e adequadas para aproveitar o bônus demográfico.

No passado, todos os países tinham altas taxas de mortalidade e natalidade. Consequentemente possuíam uma estrutura etária rejuvenescida. Mas, com o processo de desenvolvimento e a melhoria das condições de vida e saúde, teve início a transição demográfica, que é o processo de redução da taxa bruta de mortalidade e natalidade.

A transição demográfica só acontece uma vez na história de cada país e é um fenômeno fundamental para a decolagem do padrão de vida e para o aumento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Toda nação de alta renda e alto IDH, sem exceção, passou pela transição demográfica.

Portanto, um dos principais segredos da riqueza das nações está na transição demográfica que, inescapavelmente, gera um bônus demográfico que, se bem aproveitado, pode turbinar o desenvolvimento econômico e garantir alto nível de progresso humano. O efeito puramente demográfico do bônus acontece devido à mudança na estrutura etária da população. Historicamente, o bônus também só acontece uma vez e é um fenômeno temporário.

As transformações demográficas podem ser vistas nas pirâmides populacionais do Brasil. Na pirâmide etária (homens no lado esquerdo e mulheres no lado direito) de 1970, o grupo de 0 a 14 anos representava 42,3% da população total e o grupo de idoso (considerando aqui como 65 anos e mais) representava somente 3,7%. Já a população em idade ativa (PIA) abarcava 54% da população total. Quanto o Brasil foi tricampeão do mundo, tinha uma estrutura etária muito jovem, segundo os dados da Divisão de População da ONU.

Mas, nos anos e décadas seguintes, a estrutura foi envelhecendo, isto é, a base da pirâmide foi se estreitando e os grupos etários superiores foram se alargando. Na pirâmide de 2010, a proporção do grupo de 0 a 14 anos caiu para 25,5% da população total e o grupo de idoso aumentou ligeiramente para 6,9%. O grande aumento aconteceu entre a população em idade ativa (PIA), de 15 a 64 anos, que passou para 67,6% da população total. Ou seja, cresceu a parte da população em idade potencialmente ativa e diminuiu a parte considerada inativa (ou ativa em menor proporção).

Em artigos anteriores já mostrei que o Brasil conseguiu aproveitar grande parte do seu bônus demográfico entre 1970 e 2010, pois, nesse período, houve acelerado crescimento da população economicamente ativa (PEA) e melhorias na qualidade do emprego (maior formalização), na educação, na saúde, na proteção social e na redução da pobreza.

Todavia, para o Brasil dar o saldo de país de renda média para alta renda precisaria aproveitar o restante do bônus que vai até 2030. A razão de dependência demográfica vai estar em seu nível mais baixo no quinquênio 2020-25, quando a proporção da PIA deve ficar em torno de 70% da população total.

A pirâmide etária de 2030 vai ter a mesma proporção da PIA ocorrida em 2010. A diferença entre as duas pirâmides é que a parcela de jovens diminuiu e a parcela de idosos aumentou, vinte anos depois. Portanto, a parcela da população potencialmente ativa estará nos níveis mais elevados de toda a história do Brasil entre os anos de 2010 e 2030. Esse é o auge do bônus demográfico no país.

Mas para que o bônus se transforme em melhoria da qualidade de vida é preciso haver aumento das taxas de matrícula e melhoria na qualidade da educação, redução das taxas de mortalidade e morbidade e a inserção de uma força de trabalho mais eficiente e produtiva num quadro de pleno emprego.

Isto teria de ocorrer, sem tergiversação e sem procrastinação, até 2030, pois depois desta data a estrutura etária sairá de uma situação de bônus para ônus, com o aumento da razão de dependência e a elevação da proporção de idosos. A pirâmide etária de 2060 mostra que a PIA vai voltar para a casa de 59% e a proporção de idosos com 65 anos e mais vai ultrapassar 26%.

 

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A gravidade da crise econômica e política atual é que ela está jogando fora a última chance de o Brasil dar o salto de país de renda média para renda alta. A atual recessão está reduzindo o número de trabalhadores do país, aumentando o contingente de desempregados e frustrando uma enorme quantidade de jovens que investiram tempo e dinheiro em maiores taxas de escolaridade e agora temem fazer parte de uma geração perdida.

O desemprego aberto no território nacional ultrapassou o significativo número de 10,3 milhões de indivíduos em fevereiro de 2016, segundo a PNADc do IBGE. Além disto existem as pessoas que nem trabalham, nem estudam e nem procuram trabalho (é a chamada “geração nem-nem-nem”). Quanto mais pessoas fora da PEA, menor é a qualidade de vida das famílias e da sociedade.

O Brasil não terá um futuro brilhante se o mercado de trabalho não incorporar os jovens e adultos que se qualificaram para fazer parte da estrutura produtiva, no sentido de contribuir com o progresso da nação. E sem o suporte da PIA, os idosos não terão como sustentar suas aposentadorias, pensões e benefícios de proteção social. Os direitos das pessoas no topo da pirâmide dependem da efetivação do direito ao trabalho das gerações que compõem a PIA. Não existe milagre que garanta a sustentabilidade do topo da pirâmide, cada vez mais alargado, quando o meio da estrutura se estreita por conta da redução do número de trabalhadores efetivos.

Os idosos só manterão um padrão de vida sustentável se as gerações mais jovens estiverem plenamente engajadas na escola e no trabalho. A pirâmide populacional é uma estrutura integrada, pois os grupos etários são interdependentes. Ou se estabelece uma solidariedade orgânica intergeracional, ou a arquitetura pode apresentar rachaduras e, sem reformas, pode colapsar.

Veja também:
ALVES, JED. O fim do bônus demográfico e o processo de envelhecimento no Brasil. São Paulo, Revista Portal de Divulgação, n. 45, Ano V. Jun/jul/ago 2015, pp: 6-17, (ISSN 2178-3454)

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, 03/08/2016

“Bônus demográfico e envelhecimento no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” inPortal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 3/08/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/08/03/bonus-demografico-e-envelhecimento-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

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Custos econômicos da poluição e degradação ambiental no Brasil

artigo de José Galizia Tundisi

Poluição na baía da Guanabara

 

Há uma permanente e inexorável degradação ambiental no Brasil, resultante de décadas de má administração na área ambiental, descaso de autoridades municipais e de muitos estados relativamente à poluição, e o avanço permanente de urbanização e de infraestrutura que alteram os ambientes naturais e contribuem para um crescimento dos problemas de poluição e contaminação.

A expansão de fronteira agrícola com o aumento do desmatamento; o uso intensivo do solo e das bacias hidrográficas, com práticas agrícolas defasadas, aplicações exageradas de fertilizantes e defensivos agrícolas; a crescente urbanização que trata somente 40% dos esgotos domésticos do Brasil; os inúmeros problemas resultantes da disposição de resíduos sólidos, que contribuem para uma poluição difusa persistente, do solo, da água e do ar; e um aumento da toxicidade em geral do solo, água e ar, que seguramente afetam a saúde humana, o funcionamento dos ecossistemas, reduzem a biodiversidade e comprometem os recursos naturais são todos causas efetivas.

A mineração é uma das atividades que mais causam problemas na deterioração da qualidade das águas superficiais e subterrâneas, na paisagem e na biodiversidade terrestre e aquática. Além dos acidentes, como o caso da Samarco no Vale do Rio Doce, que causam enormes impactos e grandes prejuízos em pouco tempo.

As áreas costeiras também são afetadas por estuários contaminados e com alto grau de poluentes, e por degradação gerada por sedimentos em suspensão e deterioração das regiões costeiras.

Dentre os principais problemas de contaminação e poluição do Brasil, está o da deterioração das águas superficiais e subterrâneas. Muitas reservas de águas doces que abastecem cidades e condomínios estão contaminadas, o que demanda um enorme investimento para o tratamento da água a fim de torná-la potável. Há poucas regiões do Brasil atualmente com águas naturais pristinas e sem contaminação.

Todo este conjunto de problemas, que resulta da intensificação das atividades humanas-urbanização, produção de alimentos, produção de energia, resulta em um impacto econômico certamente de grandes proporções ainda não mensurado adequadamente, mas certamente muito significativo (Tundisi et al., 2015).

Por exemplo, o tratamento de água para produção de água potável é extremamente dispendioso. São precisos de R$ 200,00 a R$ 300,00 reais para a produção de 1.000 m3 de água potável a partir de fontes degradadas. O custo para tratar águas pristinas e não contaminadas pode chegar, no máximo, a R$ 10,00 reais (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 2010). Este é um exemplo. Há outros custos não contabilizados: internações por doenças de veiculação hídrica; número de horas de trabalho perdidas por ausência devido a doenças com origem nas águas contaminadas; número de horas perdidas nas escolas por ausência devido a doenças de veiculação hídrica; intoxicações por substâncias tóxicas – não custa repetir.

Sobre este conjunto complexo deve-se ainda considerar o impacto das mudanças climáticas e o acúmulo dos POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes) nas águas superficiais e subterrâneas

Há, portanto, um enorme conjunto de danos à saúde pública, não contabilizados ou dimensionados, resultantes da poluição e contaminação. Em áreas metropolitanas a baixa qualidade do ar pode produzir inúmeras doenças respiratórias cujo impacto econômico deve ser mensurado.

A degradação ambiental no Brasil decorre de um quadro cada vez mais difícil de controlar: as leis existentes são adequadas, já a fiscalização é, no entanto, ineficiente e o treinamento e capacitação de agentes públicos são precários ou reduzidos. O monitoramento é pouco efetivo em escala nacional. Esta deveria prover um banco de dados competente e útil para promover políticas de recuperação e conservação.

Quanto custa a poluição no Brasil? Com a palavra os economistas, para apresentarem os estudos com as ferramentas de que dispõem

Um dos problemas que mais afetam a população está relacionado com a qualidade das águas. Recreação, turismo, abastecimento público ficam ameaçados pela eutrofização, que representa o impacto de nitrogênio e fósforo por esgotos não tratados. Sobre esse conjunto complexo deve-se ainda considerar o impacto das mudanças climáticas e o acúmulo dos POPs (Poluentes Orgânicos Persistentes) nas águas superficiais e subterrâneas.

Tais poluentes, uma inexorável e permanente contaminação, são resultado da adição de medicamentos, cosméticos, antibióticos, hormônios dissolvidos nas águas de rios, represas e águas subterrâneas e constituem a mais recente ameaça à saúde humana, à biodiversidade e ao funcionamento dos ecossistemas (Young et al., 2015).

O Brasil muito se beneficiaria se o custo agregado deste conjunto todo de degradações fosse contabilizado. Deve-se ainda considerar o investimento na recuperação de sistemas degradados, o que amplia a necessidade de investimentos nessa área. Quanto custa a poluição no Brasil? Com a palavra, os economistas para apresentarem os estudos com as ferramentas de que dispõem.

Investir em saneamento básico no Brasil para colocá-lo em um lugar mais privilegiado juntamente com os países desenvolvidos deve ser uma política de Estado de longa e permanente duração.

Para tanto, é necessário calcular e dimensionar quanto se deve investir ao longo dos próximos 20 anos. O País progrediu em modernização. O País não progrediu em desenvolvimento. Este é o dilema que precisa ser resolvido para ingressar o Brasil definitivamente no século 21. Ainda estamos longe. Existem tecnologia, conhecimento, informação. A execução é, no entanto, precária. (Tundisi & Matsumura-Tundisi, 2016).

Bibliografia

Tundisi, J.G. & Matsumura-Tundisi, T., 2010. Impactos potenciais das alterações do Código Florestal nos recursos hídricos. Biota Neotrop. 10 (4), pp 67-76, 2010. http://www.biotaneotropica.org.br/v10n4/pt/abstract?article+bn01110042010, ISSN 1676-0603.

Tundisi, J.G., Matsumura-Tundisi, T., Ciminelli, V.S., Barbosa, F.A.R., 2015a. Water availability, water quality water governance. In: Cudennec, C. et al. (Eds). Hydrological Sciences and Water Security: Past, Present and Future, vol. 366. PIAHS, pp. 75-79.

Tundisi, J.G. & Matsumura-Tundisi, T. Integrating ecohydrology, water management and watershed economy: case studies from Brazil. Ecohydrology & Hydrobiology. vol. 16, pp. 83-91, 2016.

Young, G., Demuth S., Mishra, A. & CUDENNEC C. Hydrological Sciences and Water Security: and overview. In: CUDENNEC, C. et al. (Editors). Hydrological Sciences and Water Security. Past, Present, Future. IAHS Publ. 366, pp. 1-6, 2015.

José Galizia Tundisi é professor titular aposentado da Escola de Engenharia de São Carlos da USP, professor titular da Universidade Feevale (RS) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências

 

Artigo socializado pela Agência USP de Notícias, in EcoDebate, 28/07/2016

“Custos econômicos da poluição e degradação ambiental no Brasil, artigo de José Galizia Tundisi,” in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/07/2016,https://www.ecodebate.com.br/2016/07/28/custos-economicos-da-poluicao-e-degradacao-ambiental-no-brasil-artigo-de-jose-galizia-tundisi/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à Ecodebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

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