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Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo

Brasil não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo

leia no “sítio” original: https://www.carosamigos.com.br/index.php/artigos-e-debates/10242-brasil-nao-tem-alma-nao-tem-carater-nao-tem-dignidade-e-nao-tem-um-povo

Por Aldo Fornazieri

O presidente da República foi flagrado cometendo uma série de crimes e as provas foram transmitidas para todo o País.

Com exceção de um protesto aqui, outro ali, a vida seguiu em sua trágica normalidade.

Em muitos outros países o presidente teria que renunciar imediatamente e, quiçá, estaria preso.

Se resistisse, os palácios estariam cercados por milhares de pessoas e milhões se colocariam nas ruas até a saída de tal criminoso, pois as instituições políticas são sagradas, por expressarem a dignidade e a moralidade nacional.

Aqui não.

No Brasil tudo é possível.

Grupos criminosos podem usar as instituições do poder ao seu bel prazer.

Afinal de contas, no Brasil nunca tivemos república.

Até mesmo a oposição, que ontem foi apeada do governo, dá de ombros e muitos chegam a suspeitar que a denúncia contra Temer é um golpe dentro do golpe.

Que existem vários interesses em jogo na denúncia, qualquer pessoa razoavelmente informada sabe.

Mas daí adotar posturas passivas em face da existência de uma quadrilha no comando do País significa pouco se importar com os destinos do Brasil e de seu povo, priorizando mais o cálculo político de partidos e grupos particulares.

O Brasil tem uma unidade política e territorial, mas não tem alma, não tem caráter, não tem dignidade e não tem um povo.

Somos uma soma de partes desconexas.

A unidade política e territorial foi alcançada às custas da violência dos poderosos, dos colonizadores, dos bandeirantes, dos escravocratas do Império, dos coronéis da Primeira República, dos industriais que amalgamaram as paredes de suas empresas com o suor e o sangue dos trabalhadores, com a miséria e a degradação servil dos lavradores pobres.

A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença

Índios foram massacrados; escravos foram mortos e açoitados; a dissidência foi dizimada; as lutas sociais foram tratadas com baionetas, cassetetes e balas.

A nossa alma, a alma brasileira, foi ganhando duas texturas: submissão e indiferença.

Não temos valores, não temos vínculos societários, não temos costumes que amalgamam o nosso caráter e somos o povo, dentre todas as Américas, que tem o menor índice de confiabilidade interpessoal, como mostram várias pesquisas.

Na trágica normalidade da nossa história não nos revoltamos contra o nosso dominador colonial.

Ele nos concedeu a Independência como obra de sua graça.

Não fizemos uma guerra civil contra os escravocratas e não fizemos uma revolução republicana.

A dor e os cadáveres foram se amontoando ao longo dos tempos e o verde de nossas florestas foi se tingindo com sangue dos mais fracos, dos deserdados.

Hoje mesmo, não nos indignamos com as 60 mil mortes violentas anuais ou com as 50 mil vítimas fatais no trânsito e os mais de 200 mil feridos graves.

Não nos importamos com as mortes dos jovens pobres e negros das periferias e com a assustadora violência contra as mulheres.

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Tudo é normal, tragicamente normal.

Quando nós, os debaixo, chegamos ao poder, sentamos à mesa dos nossos inimigos, brindamos, comemoramos e libamos com eles e, no nosso deslumbramento, acreditamos que estamos definitivamente aceitos na Casa Grande dos palácios.

Só nos damos conta do nosso vergonhoso engano no dia em que os nossos inimigos nos apunhalam pelas constas e nos jogam dos palácios.

Nunca fomos uma democracia racial e, no fundo, nunca fomos democracia nenhuma, pois sempre nos faltou o critério irredutível da igualdade e da sociedade justa para que pudéssemos ostentar o título de democracia.

Nos contentamos com os surtos de crescimento econômico e com as migalhas das parcas reduções das desigualdades e estufamos o peito para dizer que alcançamos a redenção ou que estamos no caminho dela.

No governo, entregamos bilhões de reais aos campões nacionais sem perceber que são velhacos, que embolsam o dinheiro e que são os primeiros a dar as costas ao Brasil e ao seu povo.

No Brasil, a mobilidade social é exígua, as estratificações sociais são abissais e não somos capazes de transformar essas diferenças em lutas radicais, em insurreições, em revoltas.

Preferimos sentar à mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna.

Preferimos sentar à mesa dos nossos inimigos e negociar com eles, de forma subalterna

Aceitamos os pactos dos privilégios dos de cima e, em nome da tese imoral de que os fins justificam os meios, nos corrompemos como todos e aceitamos o assalto sistemático do capital aos recursos públicos, aos orçamentos, aos fundos públicos, aos recursos subsidiados e, ainda, aliviamos os ricos e penalizamos os pobres em termos tributários.

Quando percebemos os nossos enganos, nos indignamos mais com palavras jogadas ao vento do que com atitudes e lutas.

Boa parte das nossas lutas não passam de piqueniques cívicos nas avenidas das grandes cidades.

E, em nome de tudo isto, das auto-justificativas para os nossos enganos, sentimos um alívio na consciência, rejeitamos os sentimentos de culpa, mas não somos capazes de perceber que não temos alma, não temos caráter, não temos moral e não temos coragem.

Da mesma forma que aceitamos as chacinas, os massacres nos presídios, a violência policial nos morros e nas favelas, aceitamos passivamente a destruição da educação, da saúde, da ciência e da pesquisa. Aceitamos que o povo seja uma massa ignara e sem cultura, sem civilidade e sem civilização.

Continuamos sendo um povo abastardado, somos filhos de negras e índias engravidadas pela violência dos invasores, das elites, do capital, das classes políticas que fracassaram em conduzir este País a um patamar de dignidade para seu povo.

Aceitamos a destruição das nossas florestas e da nosso biodiversidade, o envenenamento das nossas águas e das nossas terras porque temos a mesma alma dominada pela cobiça de nos sentirmos bem quando estamos sentados à mesa dos senhores e porque queremos alcançar o fruto sem plantar a árvore.

Se algum lampejo de consciência, de alma ou de caráter nacional existe, isto é coisa restrita à vida intelectual, não do povo.

O povo não tem nenhuma referência significativa em nossa história, em algum herói brasileiro, em algum pai-fundador, em alguma proclamação de independência ou república, em algum texto constitucional em algum líder exemplar.

Somos governados pela submissão e pela indiferença.

Não somos capazes de olhar à nossa volta e de perceber as nossas tragédias.

Nos condoemos com as tragédias do além-mar, mas não com as nossas.

Não temos a dignidade dos sentimentos humanos da solidariedade, da piedade, da compaixão.

Não somos capazes de nos indignar e não seremos capazes de gerar revoltas, insurreições, mesmo que pacíficas.

Mesmo que pacíficas, mas com força suficiente para mudar os rumos do nosso País.

Se não nos indignarmos e não gerarmos atitudes fortes, não teremos uma comunidade de destino, não teremos uma alma com um povo, não geraremos um futuro digno e a história nos verá como gerações de incapazes, de indiferentes e de pessoas que não se preocuparam em imprimir um conteúdo significativo na sua passagem pela vida na Terra.


♦ Aldo Fornazieri é Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)
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O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer

O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

déficit primário e nominal, Brasil: 2010-2017

 

[EcoDebate] A situação fiscal do Brasil é dramática e o presidente Michel Temer – para se sustentar no cargo durante 2 anos e meio – está comprometendo totalmente as finanças públicas e colocando o país na rota da falência e da inadimplência. O ex-vice-presidente que contribuiu para a deterioração fiscal, agora, como presidente, está batendo todos os recordes e gerando o maior rombo fiscal da história brasileira.

O gráfico acima mostra as contas públicas brasileiras conforme dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), WEO de abril de 2017. O superávit/déficit primário é o resultado do balanço da arrecadação, menos os gastos do governo, mas sem contabilizar os juros da dívida. Corresponde à geração de caixa do governo. O superávit ajuda a reduzir o endividamento. O déficit nominal acelera o crescimento da dívida pública. O conceito de déficit nominal inclui o déficit/superávit primário mais os gastos com o pagamento de juros. Quanto maior o déficit nominal mais rápido cresce a dívida pública.

Os dados são claros. O Brasil possuía superávit primário até 2013, sendo que o superávit foi de R$ 129 bilhões em 2011 e de R$ 91 bilhões em 2013. Mas em 2014, ano eleitoral, o superávit virou déficit primário de R$ 33 bilhões. Em consequência do aumento das despesas e dos juros, o déficit nominal cresceu assustadoramente de R$ 158 bilhões, em 2013, para R$ 344 bilhões em 2014.

Mas o que estava ruim ficou pior. Em 2015, primeiro ano do segundo mandato da gestão Dilma-Temer, o déficit primário foi para R$ 114 bilhões e o déficit nominal foi para R$ 616 bilhões (representando mais de 10% do PIB). Portanto, é falsa a alegação que o ministro Joaquim Levy provocou um austericídio. Na verdade, o ano de 2015 foi de grande recessão, grandes déficits e grande crescimento da dívida pública. 2015 foi um ano terrível.

Em 2016, o déficit primário cresceu mais ainda e o déficit nominal só não cresceu mais devido à queda da taxa de juros nominal (embora tenha tido crescimento da taxa de juro real). Depois de três anos muito ruins (2014-2016) – que marcaram a mais profunda e prolongada recessão da história do Brasil – esperava-se uma certa recuperação em 2017. Mas, se a variação do PIB não será tão negativa, as finanças públicas estão mostrando que a coisa continua feia.

O FMI estimava um déficit primário de R$ 159 bilhões e um déficit nominal de R$ 616 bilhões (conforme mostrado no gráfico). Mas a equipe econômica que prometia seriedade na gestão macroeconômica, está sendo vencida pelas ambições políticas da base aliada que está promovendo um verdadeiro “assalto” ao patrimônio público.

Como escreveu o jornalista Vinicius T. Freire, no jornal Folha de São Paulo (FSP): “Nesta terça (15/08), a equipe econômica anunciou um pacote desesperado a fim de corrigir a besteira e conter outras à espreita: a coalizão temeriana rasgou de vez a fantasia responsável depois da folia que manteve o presidente no poder. A casta burocrática e o estamento empresarial com amigos e representantes no Congresso hastearam as bandeiras piratas e planejam saquear o Estado quase falido. Parlamentares temerianos inventam gastos e rejeitam tanto aumentar impostos como votar remendos na Previdência. Planejam assim um colapso à moda do Rio de Janeiro, um modo de dizer apenas, pois o desastre teria outro feitio”.

Também na FSP, o ex-ministro da ditadura e ex-deputado, de linha conservadora, Delfim Neto, escreveu: “A semana passada foi triste. Revelou que boa parte da Câmara dos Deputados se recusa a entender a gravidade da situação nacional. Isso está gerando uma repugnância da sociedade para com a sua atividade, o que é prejudicial à democracia. Primeiro tivemos a reação intempestiva da Comissão Mista de Orçamento (CMO) aos vetos opostos à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2018. Logo depois, o resultado absolutamente indecente foi somado a um dispositivo de infantilidade estudantil apresentado pela Comissão de Reforma Política (CRP). Com relação à LDO, foi sancionada com 47 vetos. Atingiram dispositivos que aumentavam gastos. Por exemplo, permitir, nessa penúria, reajustes do Legislativo acima da inflação, que, combinados com o limite da despesa, consumiriam recursos de outras atividades mais necessárias, além de sugestões ”ad gustum” do populismo do qual o Brasil tenta se livrar. Alguns deputados acreditam que é o Orçamento que cria recursos. Infelizmente, o mundo físico é mais cruel: são os recursos que limitam o orçamento! ”.

O fato é que a política está vencendo a economia e o governo Michel Temer se mostra incapaz de cumprir a sua autodeclarada missão de recuperar as contas públicas e reativar a economia para diminuir o desemprego. Na realidade, aumentou o preço dos combustíveis, aumentou os déficits (primário e nominal), manteve as desonerações e subsídios, aumentou as benesses das emendas parlamentares e projetos de interesses partidários num ano eleitoral, propôs o novo Refis, pretende reduzir o ajuste do salário-mínimo, congelar o salário dos funcionários públicos, cortar gastos sociais, enquanto a previdência apresenta déficits insustentáveis. O povo e o meio ambiente estão sofrendo como nunca.

E além de tudo a Câmara Federal quer instituir um fundo eleitoral de R$ 3,6 bilhões, com dinheiro público, para os parlamentares fazerem campanha eleitoral e mentir descaradamente para o eleitorado que é refém do sistema partidário e eleitoral e ainda tem que pagar a conta deste despautério. Michel Temer está comprometendo ainda mais as finanças para conseguir uma base mínima de apoio no Congresso e a sua base parlamentar está espoliando tudo que pode, enquanto o país agoniza. A oposição, enfraquecida e sem propostas para tirar o país da crise, só pensa nas eleições de 2018. O Brasil está no limbo, como no último ano do governo Sarney. A história se repete, como uma tragédia.

O IBGE informou que a taxa composta de subutilização da força de trabalho caiu de 24,1%, no 1º trimestre para 23,8% no 2º trimestre de 2017, mas ainda representava 26,3 milhões de trabalhadores desempregados ou subutilizados. A taxa de desocupação entre os jovens de 14 a 17 anos de idade ficou em 43% e entre os jovens de 18 a 24 anos ficou em 27,3%. Uma tragédia social que atinge a juventude, criando uma geração perdida e sem futuro. A “criança esperança” vai receber uma herança maldita.

O alto desemprego e a alta capacidade ociosa (fábricas paradas, lojas fechando, consumo em queda em relação a 2010, etc.) fizeram a inflação cair para nível abaixo da meta do Banco Central e possibilitaram um grande superávit na balança comercial. Isto tem evitado um choque externo e uma maior desvalorização do real. Mas as exportações brasileiras (fortemente dependentes de produtos primários e commodities) pode sofrer um baque com a crise internacional que se avizinha.

O eclipse do dia 21/08 nos Estados Unidos parece ser um sinal de um eclipse econômico, provocado por um eclipse político da democracia americana e agravado pelas atitudes absurdas do governo Donald Trump. Uma crise internacional nesse momento agravaria ainda mais a crise brasileira.

Mas uma coisa parece certa, independentemente das variações da conjuntura, o fato estrutural é que a dívida pública brasileira cresce de maneira exponencial e se aproxima de 100% do PIB, conforme mostra o gráfico, com dados do FMI. O atual governo (que começou em 2014) está comprometendo totalmente o futuro da economia brasileira. E o mais grave é que Michel Temer e o Congresso estão fazendo políticas que prejudicam a maioria da população, favorecem uma minoria, e estão reduzindo os investimentos que poderiam reduzir o desemprego. Assim, Temer (e sua base no Congresso) está colocando o Brasil no caminho dos piores dias da tragédia grega.

 

dívida pública brasileira - % do PIB

 

Devido ao crescimento da dívida pública e ao desequilíbrio entre receitas e despesas o próximo governo (2019-2022) vai conviver com déficits primários e baixo crescimento da economia. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) colocou a nota de risco soberano do Brasil em observação negativa. O chamado “creditwatch”, com viés negativo, é um alerta de curto prazo para um possível rebaixamento rating e reflete o aumento da incerteza relacionada aos eventos políticos recentes e aos constantes casos de corrupção.

Desde que Michel Temer assumiu a vice-presidência no início da atual década (01/01/2011), o Brasil começou uma trajetória de declínio e sofrimento. Mas o que estava ruim no primeiro mandato, piorou muito no segundo e, principalmente, após o maior estelionato eleitoral da história republicana (em 2014). O país entrou num círculo vicioso de longo prazo, com alto desemprego, baixas taxas de poupança e investimento e estagnação do PIB e da renda per capita. É o pacto da mediocridade.

Considerando os últimos 4 anos, o Brasil vive o seu pior momento econômico de todos os tempos. O país já está na sua segunda década perdida e virou uma nação submergente. O “Gigante pela própria natureza” vai chegar aos duzentos anos da Independência, em 2022, como uma nação totalmente enfraquecida e dependente das finanças nacionais e internacionais.

Se não houver uma virada total de página urgentemente, o Brasil pode entrar em uma fase de regressão permanente e de des-desenvolvimento. O lema positivista do governo Temer é o mesmo da bandeira nacional: “Ordem e Progresso”. Mas a dura realidade está mostrando que, sem brilho, o “Florão da América” está mais para “Desordem e Regresso”.

Referências:

ALVES, JED. A explosão dos déficits primário e nominal e a mudança de governo, Ecodebate, 13/05/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/05/13/a-explosao-dos-deficits-primario-e-nominal-e-a-mudanca-de-governo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, JED. O descontrole da dívida pública e o futuro do Brasil, Ecodebate, 16/05/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/05/16/o-descontrole-da-divida-publica-e-o-futuro-do-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

 

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/08/2017

“O rombo nas contas públicas no governo Michel Temer, artigo de José Eustáquio Diniz Alves,” in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 21/08/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/08/21/o-rombo-nas-contas-publicas-no-governo-michel-temer-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

 

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

O ovo da serpente, por Thiago Rodrigues Cardin

leia direto no site:  http://jornalggn.com.br/noticia/o-ovo-da-serpente-por-thiago-rodrigues-cardin

do Coletivo Transforma MP

O ovo da serpente

por Thiago Rodrigues Cardin

Já há algum tempo, pessoas sérias vêm alertando sobre os riscos de estarmos chocando no Brasil ovos de serpente – metáfora para o nascimento de práticas e ideais fascistas com potencial para causar grandes prejuízos à sociedade.

Apenas para ilustrar um exemplo, em junho de 2015, destacou o jornalista Luiz Fernando Vianna, em sua última coluna (“A serpente no deserto”) publicada no jornal Folha de São Paulo[i]:

“Já se escreveu nesta coluna sobre uma espécie de ‘economia do ódio’ que vem contribuindo para a subsistência da imprensa. O lixo despejado nas áreas destinadas aos comentários de leitores – e nas redes sociais, onde se compartilham os textos publicados em jornais e revistas – resulta em audiência para os sites de notícias e, logo, em receita publicitária.

A economia nacional derrete. E o jornalismo enfrenta um período de dúvidas existenciais do qual não sabe com que cara sairá. Como pregar equilíbrio e inteligência num momento em que destempero e estupidez pagam as contas? É pregar no deserto.

(…)

Chega a ser pedagógico: graças à fraqueza do Executivo, o Congresso levanta as tampas dos nossos esgotos. Fascismos, racismos, intolerâncias religiosas e de classe, desejos genocidas… Elementos que marcam toda a história brasileira e andavam contidos pelo que se acreditava ser um amadurecimento democrático ressurgiram com força.

Se imprensa, forças políticas sérias – não as que, em busca de ganhos imediatos, endossam as vontades de Cunha – e setores da sociedade (mesmo minoritários, pois também têm direito à voz) não reagirem, a serpente sairá do ovo. Foi um pouco sobre isso que se tentou falar neste espaço nos últimos meses”.

Registra-se que os riscos dessa nova “guinada fascista” não seriam um fenômeno exclusivamente brasileiro, e aumentaram consideravelmente com a ascensão das redes sociais como plataformas de difusão de informação, conhecimento e, sobretudo, opiniões pessoais.

Pouco antes de seu falecimento, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco demonstrou sua preocupação quanto ao tema, afirmando que as redes sociais dariam o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. Com a internet, o “idiota da aldeia” teria sido promovido a portador da verdade, tendo “o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”[ii].

Se de um lado é inegável o papel verdadeiramente revolucionário da internet na história da humanidade, também salta aos olhos que foram as redes sociais o instrumento catalizador da insatisfação de pessoas historicamente favorecidas que, devido aos avanços civilizatórios das últimas décadas, perderam uma pequena parcela de seus privilégios ou, ao menos, o direito de falarem sozinhas.

Sobre o assunto, afirma a jornalista Eliane Brum, em trecho de magistral artigo (“A boçalidade do mal”) publicado em maio de 2015 no periódico El País[iii]:

“A boçalidade do mal, uma das explicações possíveis para o atual momento, é um fenômeno gerado pela experiência da internet. Ou pelo menos ligado a ela. Desde que as redes sociais abriram a possibilidade de que cada um expressasse livremente, digamos, o seu ‘eu mais profundo’, a sua ‘verdade mais intrínseca’, descobrimos a extensão da cloaca humana. Quebrou-se ali um pilar fundamental da convivência, um que Nelson Rodrigues alertava em uma de suas frases mais agudas: ‘Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava’. O que se passou foi que descobrimos não apenas o que cada um faz entre quatro paredes, mas também o que acontece entre as duas orelhas de cada um. Descobrimos o que cada um de fato pensa sem nenhuma mediação ou freio. E descobrimos que a barbárie íntima e cotidiana sempre esteve lá, aqui, para além do que poderíamos supor, em dimensões da realidade que só a ficção tinha dado conta até então.

Descobrimos, por exemplo, que aquele vizinho simpático com quem trocávamos amenidades bem educadas no elevador defende o linchamento de homossexuais. E que mesmo os mais comedidos são capazes de exercer sua crueldade e travesti-la de liberdade de expressão. Nas postagens e comentários das redes sociais, seus autores deixam claro o orgulho do seu ódio e muitas vezes também da sua ignorância. Com frequência reivindicam uma condição de ‘cidadãos de bem’ como justificativa para cometer todo o tipo de maldade, assim como para exercer com desenvoltura seu racismo, sua coleção de preconceitos e sua abissal intolerância com qualquer diferença.

Foi como um encanto às avessas – ou um desencanto. A imagem devolvida por esse espelho é obscena para além da imaginação. Ao libertar o indivíduo de suas amarras sociais, o que apareceu era muito pior do que a mais pessimista investigação da alma humana. Como qualquer um que acompanha comentários em sites e postagens nas redes sociais sabe bem, é aterrador o que as pessoas são capazes de dizer para um outro, e, ao fazê-lo, é ainda mais aterrador o que dizem de si. Como o Eichmann de Hannah Arendt, nenhum desses tantos é um tipo de monstro, o que facilitaria tudo, mas apenas ordinariamente humano”.

Pois bem.

O que defendemos é que não há mais qualquer sentido em discutirmos acerca dos riscos de uma eventual eclosão fascista: as serpentes já foram geradas, e circulam livre e impunemente entre nós.

E nem tratamos aqui de deputados racistas, homofóbicos e misóginos que louvam publicamente torturadores e comparam quilombolas a gado, tampouco de prefeitos que derrubam prédios com gente dentro e acordam pessoas em situação de rua com jatos de água no inverno.

Falamos do fascismo mais rasteiro, praticado cotidiana e abertamente por milhares (milhões?) de pessoas orgulhosamente autointituladas “cidadãos de bem” (em uma das mais espetaculares ironias do destino, “Cidadão de Bem” era o nome de um antigo jornal da Klu Klux Klan).

Tratamos do fascismo de “pessoas comuns”, que aderem sem qualquer reflexão a preconceitos que lhe são oferecidos, absorvendo-os e retransmitindo-os de forma livre e acrítica, sem nenhum medo de punição – uma nova espécie da “banalidade do mal” tratada por Hannah Arendt. Para se ter uma noção de quantos são e do nível de seus “argumentos”, basta passar os olhos em qualquer (mas qualquer mesmo) caixa de comentários de grandes portais de comunicação, quando o fato noticiado guarda mínima relação com direitos humanos ou envolve o nome de personalidade de alguma forma identificada com ideais progressistas.

Enfim, as tampas dos bueiros foram escancaradas e já não vivemos mais um tempo de civilidade, tampouco de normalidade democrática. O tempo agora é outro: de supressão de direitos e pequenas garantias conquistadas por minorias historicamente excluídas; de ofensas gratuitas e críticas ao “politicamente correto”; de relembrar às mulheres seu verdadeiro lugar (que inclui um papel de destaque na economia doméstica, controlando os preços do supermercado).

É tempo de pós-verdade e de direito penal do inimigo.

É tempo de espancar homossexuais em metrô; de tatuar a testa de delinquentes. É tempo de amarrar adolescentes em postes, de fazer justiça com as próprias mãos; é tempo de chacinar pobres em favelas – de preferência negros, a carne mais barata do mercado, como nos lembra Elza Soares.

É tempo de aberrações ultraconservadoras, como “escola sem partido”; é tempo de bancada “boi, bala e bíblia”.

É tempo de “bandido bom é bandido morto”, desde que, evidentemente, os bandidos sejam “quase todos pretos, ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres” (viva Caetano).

Em outras palavras, a discussão daqui em diante deve ser outra: sobre a premente necessidade de resistirmos a esses novos tempos e sobre de que maneira o combate deve ser travado.

Sobre a necessidade de resistência não há controvérsia: deve ser feita imediatamente e de forma ininterrupta, sem trégua, por todos aqueles que ainda possuem alguma aspiração por igualdade e justiça social. Quanto à forma, porém, ainda não há consenso, havendo os que pacientemente nos ensinam a difícil arte de conversar com um fascista, como Márcia Tiburi[iv], e os que pregam que “não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas [fascistas]”, como Vladimir Safatle[v].

Aos operadores do Direito, propomos algo mais simples: que a intransigente defesa da Constituição de 1988 bastaria para que marquemos posição e demonstremos claramente de que lado estamos nas trincheiras.

Para ilustrar, imaginamos uma conversa entre quatro amigos, discutindo quais objetivos que o Estado brasileiro deveria perseguir:

– O Estado deve diminuir de tamanho e abolir todos os impostos que recaem sobre os empresários, inclusive sobre seus lucros, já que são eles que geram empregos e levam esse país pra frente – defende um simpático adorador do Pato Amarelo.

– O Estado deve se preocupar apenas com a segurança de seus cidadãos, botando em cana os delinquentes (sem preocupação com sua integridade, já que cadeia não é hotel de luxo) e acabando com essa bandidolatria – argumenta com o dedo em riste um cidadão de bem.

– O Estado tem que acabar, só tem corrupto na política, devemos deixar tudo nas mãos dos militares, pra colocar ordem e disciplina nessa bagunça – vocifera com agressividade um contumaz paneleiro.

– Acho que o Estado deveria buscar a erradicação da pobreza e a redução das desigualdades sociais, combater todas as formas de discriminação e promover uma sociedade mais livre, justa e solidária[vi] – diz timidamente o quarto amigo, para espanto e indignação dos outros três, que bradam em uníssono:

– Vai pra Cuba, vagabundo!

Enfim, para o bem e para o mal, em tempos como os atuais, defender a Constituição se tornou um ato revolucionário.

Para o bem porque temos um norte claro e extremamente sólido a nos conduzir (aliás, enaltecemos o papel de todos os que de alguma forma foram responsáveis por gerir um documento tão extraordinário quanto a Carta de 1988, praticamente impensável em se tratando de história brasileira): a defesa da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III); o combate a todo tipo de preconceito (art. 3º, IV); a prevalência dos direitos humanos (art. 4º, II); a igualdade material entre homens e mulheres (art. 5º, I); o repúdio à tortura (art. 5º, III); a função social da propriedade (art. 5º, XXIII); a integridade física e moral dos presos (art. 5º, XLIX); a presunção da inocência (art. 5º, LVII); um salário mínimo que garanta necessidades vitais básicas como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social (art. 7º, IV); os princípios da liberdade de ensino e do pluralismo de ideias (art. 206, II e III); dentre tantas outras garantias constitucionais que poderíamos elencar por horas.

Para o mal porque, caso percamos essa batalha, com a retirada completa ou paulatina dos direitos civilizatórios previstos na Carta Magna (e o desmonte já está em pleno andamento), o período de trevas será bem maior que nossas previsões mais pessimistas.

Aliás, para os nascidos pós redemocratização e que jamais havíamos vivido dias tão sombrios, o atual momento é desesperador. Serve de alento, nesses momentos, os conselhos de amigos mais experientes, a nos lembrar do movimento pendular da História: mais cedo ou mais tarde, o horror vai passar.

Até lá, não nos enganemos, continuaremos presenciando barbaridades e retrocessos – ainda estamos longe do fundo do poço. Mesmo assim, é imperativo resistir desde já, todos os dias, religiosamente, combatendo sem tréguas atrocidades fascistas e defendendo de forma intransigente os direitos fundamentais e os parcos avanços civilizatórios conquistados nos últimos trinta anos. Se possível, sem perder o bom humor e a serenidade – deixemos o ódio para os covardes e os cidadãos de bem.

Como adverte Eliane Brum (sempre ela!) ao final de seu artigo “Em defesa da desesperança”[vii], é necessário resistir ainda que a fé desmorone, e mesmo que não tenhamos qualquer perspectiva de vitória a curto prazo:

“Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança. Autorizar-se à  desesperança ou pelo menos não linchar quem a ela se autoriza. Quero afirmar aqui que, para enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança, mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido.

Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético”.

Em resumo, e para que ninguém mais se engane: as serpentes já foram chocadas. Dias temer-ários virão. Resistir é preciso.

 

Thiago Rodrigues Cardin – Promotor de Justiça em São Paulo e membro fundador do Coletivo por um Ministério Público Transformador

 

 


[ii] “Redes sociais deram voz a legião de imbecis, diz Umberto Eco”, acessado in http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2015/06/11/redes-sociais-deram-voz-a-legiao-de-imbecis-diz-umberto-eco.jhtm

[iv] Como Conversar com um Fascista. Marcia Tiburi. 1ª ed. Editora Record, 2015.

[vi] Constituição Federal de 1988:

“Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:

I – construir uma sociedade livre, justa e solidária;

II – garantir o desenvolvimento nacional;

III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais;

IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”.

 

A teoria do cidadão de bem armado foi derrubada

POR UM PROJETO PARA AS CIDADES BRASILEIRAS

leia direto no sitte original:  http://controversia.com.br/4540

A GRITARIA DE JAIR BOLSONARO E O AVANÇO DO “MITO”

leia direto no site original:  https://theintercept.com/2017/07/22/a-gritaria-de-jair-bolsonaro-e-o-avanco-do-mito/

MILITAR DE RESERVA , político de carreira (sete vezes deputado federal, uma vez vereador) e presidenciável, Jair Messias Bolsonaro tirou alguns dias fora de Brasília, reino dos memes da corrupção brasileira, para vir até Florianópolis (SC) em maio. Em seguida, sua turnê passaria por Joinville, Blumenau e Jaraguá do Sul. Pela primeira vezde acordo com evento criado no Facebook, para uma palestra: 2,7 mil pessoas mostraram-se interessadasno encontro aberto ao público, sem cobrança de ingresso. Uma amostra dos 21% de eleitores brasileiros que dizem que, se a eleição fosse hoje, escolheriam Bolsonaro para comandar o país. Número que parece consolidar a direita mais radical como uma alternativa cada vez mais real de poder no Brasil.

A seu lado em Florianópolis estariam os deputados federais Eduardo “Mitinho” Bolsonaro e Rogério “Bancada-da-Bala” Peninha. Não havia muitos detalhes. A julgar pelo vídeo promocional, poderia muito bem ser um meet and greet com um desses YouTubers da moda que se veem internet adentro. A diferença é que era um político superstar e presidente do Brasil wannabe.

Mas sobre o que era a palestra? Nada constava. Teríamos de ir lá pra ver.

Para nós, não fazia sentido um homem com um discurso daqueles ser entendido como carismático. Também desconfiávamos de que a multidão agia ao seu redor como seguidores de um messias, com “m” minúsculo. Mas, principalmente, queríamos entender por que, para aquela fervorosa parcela de gente de bem, “político de estimação” não pode – mas mito, bem, aí são outros 200 mil.

#1. Os que não cansaram de esperar

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Admirador faz selfie com Bolsonaro ao fundo no aeroporto de Florianópolis.

Gabriel D. Lourenço/Brio Lab

Bolsonaro chegaria ao aeroporto às 10h20. Chegamos às 9h, e, obviamente, não éramos os primeiros a esperar por ele.

Algumas voltas clicando os vinte e tantos presentes, um senhor de cinquenta e tantos ralhou que não autorizava fotos dele. Acalmou quando explicamos que atrás dele estava a recepção ao deputado, e nosso trabalho era cobrir a vinda.

“Pena meu vôo sair antes do Bolsonaro chegar,” lamentou. “Queria ver o cara. Um dos poucos honestos que ainda sobraram por aí.”

“Então, você votaria nele?”

“Claro. Nele ou no Dória, são candidatos fortes na minha opinião. O Bolsonaro porque tá caindo de pau no Lula, no PSDB, nesses caras aí. E o Dória porque é um gestor de verdade. Essa eleição ou vai dar um, ou vai dar outro. O problema é o Nordeste.”

“Mesmo? Mas por que você acha isso?”

“O Nordeste é o forte da esquerda, é onde eles ganham voto. Porque lá o povo depende de Bolsa Família, de esmola, são massa de manobra. Eu sou de Campinas, moro aqui na ilha [Florianópolis] tem 15 anos e aqui, onde é mais desenvolvido, esses caras não se criam. Por que o Lula não tá fazendo campanha aqui no Sul, e lá no Nordeste já tem até outdoor dele, candidato a presidente? É verdade, recebi as fotos no meu celular e tudo…”

“O Bolsonaro não é homofóbico, não é contra os gays. Só não quer o Estado mandando no sexo das criança, pô.”

Logo depois, pedi a dois trinta-e-tantos de moletom do Bolsonaro que deixassem eu fotografar as estampas. O primeiro deles, mais alto e o único cabeludo lá além de mim, disse, desconfortável, que não. Seu amigo, de cabeça raspada, cutucou mandando se levantar, que não era pra ficar de frescura.

Na hora das fotos, fizeram cara de mau. E enquanto o primeiro voltou a seu mundinho, o segundo dizia por que Bolsonaro era o cara.

“Ele defende muita coisa que eu acredito. É de direita, defende punição pra bandido, porte de arma, é contra a ideologia de gênero – especialmente a ideologia de gênero. Esse negócio aí do Estado ficar mandando no sexo do meu filho, do que ele vai ser. Isso é um absurdo. Na criação da minha criança, mando eu.”

Chequei as fotos enquanto balançava a cabeça. Ele prosseguiu:

“O Bolsonaro não é homofóbico, não é contra os gays. Só não quer o Estado mandando no sexo das crianças, pô. É a favor da família, de  Deus, a favor do cidadão de bem. E ainda tem gente com a cara de pau de dizer que ele é preconceituoso, racista, homofóbico. Se ser a favor disso tudo é ser homofóbico, então eu sou um baita de um homofóbico.”

#2. Peregrinos, devotos e mártires das santas causas políticas

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Cartazes à espera do mito em Florianópolis

Gabriel D. Lourenço

Encontrei dois jovens, filiados ao Partido Social Cristão (PSC), que desceram os 68 km de Itapema até lá para ver o cara de perto. O mais falante deles vestia uma camiseta do político, autografada na semana anterior quando ele mesmo fora a Brasília. Era a terceira vez que estaria diante do ídolo.

Câmera no pescoço, me apresentei como repórter. Me olharam assustados, os dois, como se eu fosse um demônio saído das entranhas da Folha de S. Paulo. Cobraram meu alinhamento político. Respondi que não era aquilo que me faria deixar de ouvi-los nem de tentar entendê-los.

“Talvez vocês possam me responder uma coisa,” comentei. “Um amigo que trabalha na Câmara me contou que a sala do Bolsonaro é a única com uma cama. Isso é verdade?”

“Não. Não, não, não, não!”, protestava o de camiseta autografada. “Não tem, não!”

“É que faria sentido, afinal,” e joguei pela empatia. “Pensa comigo. Se você é um político e tem vários projetos para votar, passa a noite inteira votando…”

“Não é não, cara. O Bolsonaro é humilde, come marmita todo dia. Ele é que nem a gente, não tem isso, não.”

A comoção chamou a atenção de Leandro Chaplin, um simpático careca do Direita Santa Catarina e responsável pela organização. Expliquei a situação da mesma forma. Respondeu sorrindo.

“Deve ter. Faz sentido, afinal. Hoje mesmo mandou um vídeo pra gente, às 6h da manhã, direto no gabinete, teve de ficar votando projeto até mais tarde.”

Adiante, um trio comentava ter levantado cedíssimo para estar ali àquela hora. Era o casal Tayoana Schuller, 24 anos, e Gabriel Roberto, 23 anos, junto ao amigo Flávio Acquesta, 41 anos. Estavam lá desde as 7h. Tiveram de acordar às 3h da manhã para preparar tudo e encarar os 225 km de Lages até a capital.

“Esperança, cara. No meio de um país com tanta corrupção, com estes nossos políticos que só nos trazem vergonha,  vi nele uma esperança em si.”

Adiante, o professor de jiu-jitsu e medalhista mundial, Aron de Oliveira, 23 anos, tirava uma foto envolto na bandeira do Amapá – toda canetada por seus alunos. Planejou participar anteriormente de um campeonato em São Paulo só para facilitar a escala até Florianópolis, ver seu herói de perto. “Sem um puto no bolso, teria de pegar dinheiro emprestado dos amigos para se virar ali. Queria uma foto, um contato, e voltar pra casa com um autógrafo na bandeira para seus alunos do projeto social – privilégio para poucos de lá.

“Pra mostrar que lá no Norte também existem pessoas que o apoiam. Apesar de ser um povo meio esquecido, às vezes criticado por ignorante, no Norte também tem pessoas.”

“E o que significa pra você esse esforço de vir de tão longe só pra estar diante do Bolsonaro?”

“Esperança, cara. No meio de um país com tanta corrupção, com estes nossos políticos que só nos trazem vergonha, e quando eu comecei a pesquisar sobre ele – uns quatro, cinco anos atrás –, e mesmo ele sendo de outra cidade, vi nele uma esperança em si.”

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“Senta a pua!”: o slogan dos ex-comabtentes da segunda guerra foi resgatado em apoio ao ídolo.

Gabriel D. Lourenço

A multidão se aglutinava no aeroporto. Mais de cem pessoas chegaram no local, e a tendência era continuar crescendo. Na movimentação, branco, preto e verde-e-amarelo eram as cores majoritárias nas camisetas. Um sem-número de estampas do político superstar me fez pensar que talvez a direita sectária tenha arranjado um Che Guevara (ou, vá lá, um Lula) pra chamar de seu. Jovens ostentando alegremente o amarelo de suas ideologias, grandalhões com placas PVC de Senta a Pua (o famoso grito de guerra de combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial), um velho orgulhoso de vestir a camiseta com a Gadsden Flag na altura do peito – uma cascavel em riste voltada à esquerda, símbolo da bravura militar americana.

Dez e tanto, e a ensandecida entourage se direcionava para esperar a chegada do Bolsonaro na rua, pois desembarcaria no portão externo. Da organização, alguém disse que poderiam falar com ele, abraçá-lo, mas sem viadagem.

Risadas coletivas. Uma senhora gritou que queria beijar aquele homem maravilhoso. Em êxtase, aquelas duzentas e tantas pessoas gritavam “mito! mito!” do lado de fora.

#3. À espera do messias

A multidão à espera de Bolsonaro era feita de três-quartos êxtase e um-quarto de ansiedade.

Coros comuns e repetíveis, que iam de “Bolsonaro-Guerreiro-Orgulho-Brasileiro” a “Lula-ladrão-teu-lugar-é-na-prisão” eram mais do que um gesto de pertencimentoEra a prova freudiana de que o ser humano não é só um animal coletivo, mas um animal que precisa de liderança. Um líder que satisfaça o desejo de ser guiado, de dar sentido ao caos do mundo – e que afaste o medo da morte.

Ao se submeter a um líder, é como se magicamente você ganhasse os atributos que enxerga nele.

A isso é chamado de transferênciae quando é atendido, a sensação de poder, de sentido, de certeza é imensa. E desaparecem as ilusões, as ideias de que não podemos garantir nada, de que somos frágeis, de que talvez tudo o que façamos seja inútil frente à forças que não temos chance alguma de controlar. Ao se submeter a um líder, é como se magicamente você ganhasse os atributos que enxerga nele.

Medo e euforia, claro, não são exclusivos dos seguidores do político superstar, mas inerentes ao animal humano. E sabe qual a principal razão das massas serem perigosas? É que, nela, todos se afirmam coletivamente. Nada de ruim acontecerá consigo, quando em grupo – com os outros, talvez.

Pedi licença a um sujeito, um gordinho trintão de preto que se debruçava no muro, esperançoso de ver o desembarque do mito. Ao fundo, os coros continuavam. Cedeu espaço, e por algum tempo, nada do político. Quando agradeci e desci do muro, o sujeito gritou:

“Aqui, até a mídia é de Direita!”

Sem querem protagonizar debates profundos com meus observados, recorri ao manualzinho do jornalista padrão:

“Ei,” e fiz cara de indignado, “cê tá ciente que a imprensa tem que ser imparcial, né?”

“Caramba, velho,” e me respondeu sem graça, baixinho. “Desculpa. Eu me empolguei.”

Tentei negociar com a organização por um mínimo de espaço antes que aquele messias tempesteasse o mar de quase 300 pessoas que lhe aguardava. Talvez o corredor pudesse ser aberto, alguns minutinhos, só pra imprensa conseguir algumas fotos?

Não. Quando o fenômeno passou pelo portão, uma multidão de pessoas se acavalou. Eu e a câmera, dois náufragos no oceano de braços e celulares, diante do sessentão militarista, aclamado por eles como o futuro presidente do Brasil. Tanto faz se pelo PR, PRB, DEM, PSC ou PHS.

Cinco minutos depois, subiria a uma caminhonete com microfone para discursar. Foi recebido aos gritos de “mito”, “mas o que que é isso”, “dá que eu te dou outra”dentre outras banalizações do mal – todas satisfazendo desejos difíceis de realizar sem punição.

Não nos deixaram subir para tirar fotos de seu ponto de vista superstar. Tivemos de ficar junto aos seguidores.

As vozes só cessaram com o hino nacional, cantado até a primeira metade.

#4. O rei fala tudo e abranda logo depois

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Bolsonaro fala aos seus seguidores ainda no aeroporto de Florianópolis.

Gabriel D. Lourenço

As primeiras palavras do candidato para seus seguidores foram para fazer piada com gaúcho. Em seguida, afirmou depressa que era brincadeira. E logo mandou chamar o “negão” – Linston Souza, da organização – ao seu lado.

“Tá vendo esse cara aqui? Conheci esse cara agora, na descida do avião. Falei com ele e disse: ‘porra, no meu tempo de solteiro as loirona que eu queria não tavam nem aí pra mim. Naquele tempo, as loiras queriam tudo saber é do negão aqui, porra.

Hoje em dia a gente vive numa sociedade em que não se pode mais nem brincar um com o outro.”

E recebeu a primeira salva de palmas e urros.

“Isso aqui é uma brincadeira entre nós, claro. Hoje em dia a gente vive numa sociedade em que não se pode mais nem brincar um com o outro.”

Linston, no fim do dia, disse que considera Jair uma grande figura e nem um pouco preconceituoso. Ele mesmo é contra as cotas raciais, fez parte do movimento negro e considera a medida racista. “As cotas deveriam ser de classe, não de raça.”

Mas Jair Bolsonaro não é racista. Não se a sua concepção de racismo, claro, for algo entre “os negros são uma raça inferior” e “a escravidão não deveria ser abolida”.

Jacques Mick, doutor e professor do departamento de sociologia e ciência política da Universidade Federal de Santa Catarina, disse, em entrevista à reportagem, que a razão para existir um fenômeno Bolsonaro é a grande transformação social por que o Brasil passou nos últimos 30 anos.

O primeiro elemento dessa transformação, segundo Mick, seria o maior acesso à educação – ocorrida em especial no período lulista, embora já iniciada por Fernando Henrique – , o que, num país que sempre foi “uma nação de ignorantes”, significa muito. O próximo é o fortalecimento do movimento feminista, muito beneficiado pela intensa conexão em rede. Por fim, o sistema de cotas e outros incentivos foram essenciais para que os negros começassem a assumir espaços aos quais antes não pertencia. Lugares banais, como um avião, exemplificou o professor.

Essa junção de elementos, ou seja, o maior acesso à educação, o maior destaque dos negros,  das mulheres, dos pobres, dos LGBTTI – as principais vítimas do preconceito – e a perda de hegemonia da esquerda nas últimas eleições fizeram com que a direita saísse do armário. Como disse Mick, num espaço em que nunca houve um negro, “o racista nunca teve que se manifestar”. Ou seja, a direita estava “escondida”, envergonhada por ter entregado um país em condições horríveis após o período ditatorial. Mas o avanço social desses grupos fez com que o segregacionismo se evidenciasse numa sociedade que sempre foi conservadora.

No momento da visita de Bolsonaro a Florianópolis, a gravação-bomba de Joesley Batista no Palácio do Jaburu ocupava o centro do noticiário e colocou o governo em suspenso. Foi a deixa pra Bolsonaro largar mais uma de suas piadas-bordão: “se continuar desse jeito, vou acabar sendo presidente por W.O.. ”

Não era a primeira vez que ouvia aquilo – alguém de sua legião já havia dito antes. Também afirmou que queria um país em que vagabundo não se criasse, porque não se negocia com patrão e reivindica direitos com “porfavor” e “comlicença”. E que chefe nenhum abusaria de empregado se o cidadão tivesse direito a arma.

O que talvez não fosse útil, já que a arma do meu patrão com certeza estaria alguns calibres à frente da minha.

A arma, segundo o Mito – e Carlos “Mitinho” Bolsonaro apenas reforçou – era mais do que o direito da autodefesa. Era, acima de tudo, o direito da liberdade individual. E essas e tantas outras mudanças viriam pela frente, “era melhor Jair se acostumando.”

#5. Se os militares fechassem o Congresso, Bolsonaro ficaria dentro ou fora?

O momento político em que Florianópolis recebeu Bolsonaro não poderia ser mais instável para o Brasil. Na noite anterior, o jornal “O Globo” revelou que áudios gravados por Joesley Batista, dono da JBS, mostravam o Presidente da República, Michel Temer, dando aval para a compra de silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha, preso desde outubro de 2016. Essa informação faz parte da delação do empresário – a mesma que revelou que o senador Aécio Neves havia pedido R$ 2 milhões para pagar a sua defesa na Lava-Jato. A entrega desse dinheiro ao agora ex-presidente do PSDB foi filmada pela Polícia Federal.

Isso, pode-se dizer, nada tem a ver com o político superstar, porém, a semana também não estava sendo fácil para ele. Na segunda-feira, dia 15 de maio, a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem mostrando que o deputado admitiu, em 1987, ter cometido atos de indisciplina e deslealdade no Exército. Foi considerado culpado por um conselho de justificação composto por três coronéis, mas absolvido em seguida pelo Superior Tribunal Militar. Quando procurado pelo jornal, na sexta-feira anterior à publicação, a assessoria do deputado disse que “a pauta é uma merda” e questionou “quem estava pagando”.

Em 16 de maio, foi publicado que superiores de Bolsonaro no Exército o julgavam possuidor de uma “excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente.” O político respondeu por telefone: “Publica essa porra de novo sem falar comigo. Eu só falo com vocês gravando”.

“Tudo fake news”

A Folha aceitou o convite – ou ameaça – e enviou dois repórteres para uma entrevista, que durou aproximadamente uma hora. No vídeo, vê-se o deputado contra a parede,  agressivo na postura, defensivo nas respostas. Não poupou nem os leitores: referiu-se ao público do jornal como “tudo fake news”. Ao final da entrevista, fez uma live no Facebook acompanhado de seu filho, Eduardo Bolsonaro – que contribuiu traduzindo “independência ou morte” para o inglês –, e ainda chamou o Jornal do Brasil de “jornaleco que fechou.” A transmissão teve 4 milhões e 200 mil curtidas.

Os atos de indisciplina aos quais o jornal se referiu envolvem um artigo em que escreveu para a revista Veja, chamado “O salário está baixo”, e a sua liderança num protesto contra o valor do soldo dos militares. Na época, Bolsonaro era capitão no 8º Grupo de Artilharia de Campanha e estava no Exército havia 12 anos, quando entrou na Academia Militar das Agulhas Negras.

O feito ajudou-o a se tornar conhecido e a ser eleito, em 1988, como vereador no Rio e, dois anos depois, deputado federal pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Desde então, Bolsonaro passou por mais seis partidos e foi reeleito também mais seis vezes para o cargo, sempre vagando entre o baixo clero e breves relances de ascensão midiática baseados, invariavelmente, em declarações ultrajantes a ouvidos progressistas (embora, por muito tempo, tenha integrado os quadros do Partido Progressista…).

“matou foi pouco”

Se hoje seus clamores pela volta da Ditadura ou os elogios a Brilhante Ustra são o que, de certa forma, o impulsionam rumo à corrida presidencial, nos anos 1990 isso quase colocou em risco a sua carreira política. Em 1993, posicionou-se, na Câmara dos Deputados, a favor da Ditadura, crente que a irresponsável democracia não seria capaz de resolver problemas sérios da nação. O fechamento do Congresso acabaria com a corrupção e com a inflação. “Democracia de verdade é comida na mesa, a capacidade de planejar sua vida, a capacidade de caminhar na rua sem ser assaltado”, disse o deputado para o The New York Times à época.

Impressionado, o então presidente da Câmara, Inocêncio de Oliveira, até tentou cassar o mandato de Bolsonaro. Porém, os Bolsosmurfs enviaram cartas a vários jornais posicionando-se a favor do que o deputado havia dito, fazendo com que Inocêncio mudasse de ideia. Quem explica é Shawn C. Smallman. Como conta no livro “Fear & Memory in the Brazilian Army and Society, 1889-1954” (Medo e Memória no Exército e Sociedade Brasileiros, em tradução livre): “Os brasileiros de classe média escreveram cartas aos jornais brasileiros, enquanto os moradores de favelas publicaram banners dizendo ‘Forças Armadas, assumam’. O discurso de Bolsonaro certamente não representava os pontos de vista da maioria das autoridades brasileiras. Mas a resposta civil a seu discurso mostrou que o Exército ainda tinha alguma legitimidade.”

Bolsonaro ainda cometeria o mesmo “erro” em 1999. Em entrevista a um  programa da Band, disse que a ditadura militar “matou foi pouco” e que deveria ter fuzilado 30 mil corruptos, ‘‘a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso’’. O então Presidente do Congresso, o nada-famoso Antônio Carlos Magalhães, chegou a dizer: “Se ele prega isso [fechamento do Congresso], deveriam cassar o mandato dele. Não vi a entrevista e não tenho que tomar conhecimento das loucuras de alguém que, evidentemente, está perdendo o senso e o juízo”.

“Se eu não peço o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, ele [Jô] jamais estaria me entrevistando agora”.

Bolsonaro não estava, porém, perdendo a popularidade. Vários jornais receberam cartas de apoio ao que disse. E apesar do próprio FHC pedir que o deputado fosse punido, escapar foi fácil. O político superstar só teve de mandar uma carta de desculpas para o então presidente da Câmara à época, um político chamado Michel Temer.

Os anos 2000 não foram tão turbulentos para a estabilidade de Bolsonaro em seu cargo, mas, em entrevista ao Programa do Jô, resumiria a sua forma de propaganda: “Se eu não peço o fuzilamento de Fernando Henrique Cardoso, ele [Jô] jamais estaria me entrevistando agora”.

De polêmica em polêmica, o político enchia a própria bola. Cada vez mais visível, seus gritos militares e intolerantes começaram a ganhar eco nos anônimos silenciosos em tempos de internet – que encontraram nele um herói para chamar de seu – e reverberar virtualmente. Seja dizendo que: se pegasse filho fumando maconha, o torturariaparlamentar não deve andar de ônibusmulher deve ganhar salário menor porque engravida ou que nenhum pai tem orgulho de ter um filho gay. Assim, o político superstar começa a ver sinais de um público a atender. E que podia ouvir os gritos em Florianópolis.

Também virou celebridade. Deu entrevista à Playboy, apareceu na televisão e participou de game-show. Em 2014, foi o deputado federal mais votado no Rio de Janeiro, com 464 mil votos.

Essa popularidade e os quase 30 anos na política, no entanto, não garantem a ele relevância nos esquemas de poder em Brasília. Pouco consultado pelos colegas parlamentares, teve apenas quatro votos quando se candidatou a presidente da Câmara e não conquistou liderança pelos partidos em que passou. Logo, deve deixar o PSC, e entre os possíveis novos partidos já foram apontados o PR, PRB, DEM e PHS.

Para seu eleitorado, claro, isso não importa. Num esforço de revisionismo e boa vontade, serve até como prova mais de que não é “farinha do mesmo saco”.

#6. Não era herói (mas era tipo isso)

“Bolsonaro”, interrompeu o garoto, invisível na multidão, “sem viadagem cara, mas tu é muito mais bonito pessoalmente, puta que pariu.”

O nome do garoto era William, tinha dezoito anos, era aluno de terceirão do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC). Foi recebido como herói entre os amigos pelo seu gesto.

Todos riram. O deputado protestou, jocoso, preferindo que fosse uma mulher, “mas eu não tenho problema nenhum com o que cada um faz da sua vida.” Depois mandou o garoto subir com ele. Hastearam juntos uma bandeira do Brasil.

Naquele momento, William era o único que havia se destacado da multidão, trocado palavras, abraços e sido alvo da atenção especial do político superstar. Seus amigos estavam admirados. Para um jovem que é o único de sua turma que contesta o “discurso homogêneo de esquerda” difundido numa organização pública – e se sente oprimido com as tréplicas –, é capaz de estar sonhando com esse dia até hoje.

Quando perguntei a ele se considerava Bolsonaro um herói, respondeu que “não exatamente, mas era tipo isso.”

Pensei nisso por um bom tempo durante o trajeto até o centro. Procurei por um restaurante em que pudesse assistir aos cinco minutos de entrevista do presidenciável no jornal local do meio-dia, no qual o comentarista da afiliada da Globo o atacaria violentamente com perguntas não tão agressivas assim.

Quatro mesas adiante, um casal de meninas almoçava junto. Trocavam palavras e beijos antes da refeição.

As respostas de Bolsonaro iam equilibradas até o momento em que o entrevistador perguntou sobre “o que não era tolerável, na opinião do deputado, em relação às questões LGBT.”

“Olha, que façam o movimento que bem entenderem. O que eu não tolero, não posso admitir, é que esse tipo de informação chegue pra criancinhas a partir de seis anos de idade na escola. Não podemos admitir esses ativismos [sic] gay a partir dessa… tão pequena idade em sala de aula.”

O casal à minha frente não deu a mínima para ele.

#7. A sarrada voadora que erradica o Mal

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Manifestantes de esquerda à entrada do hotel em que aconteceria a palestra de Bolsonaro.

Gabriel D. Lourenço

Antes da palestra, um velhinho tentava, timidamente e por conta própria, arrecadar assinaturas para a fundação de um Partido Militar. Vendia seu peixe dizendo que, com essa fundação, Jair Bolsonaro seria o ícone e o candidato à presidência do novo partido.

Enquanto esperava lá fora, um sujeito trintão, de terno, gravata e credencial de imprensa veio falar comigo no saguão do hotel cinco estrelas onde Bolsonaro palestraria. Contou-me que tinha um sitezinho para cobrir festas e descolara aquelas credenciais só pra estar mais perto do político na coletiva de imprensa.

“Eu me identifico muito com ele, sabe?”

“Eu me identifico muito com ele, sabe? Em ideias, jeito, personalidade, pensamento… Mas eu não entendo essa da esquerda, de querer fazer baderna, fazer protesto. Por que tem que fazer bagunça?”

Ia dizer que não sabia, mas olhei para o lado e entendi as razões do assunto. Alguns sujeitos, uns trinta, no máximo, todos vestidos de preto, organizavam-se na rua. Um ato contra o deputado havia sido marcado para o momento de sua entrada no hotel. Quando cheguei, não havia ninguém.

Corri até a rua. A fila para os que queriam entrar para a palestra chegava a dobrar no quarteirão. A Polícia Militar logo formou um cordão de nove policiais equipados com cassetetes. Diantes deles, cartazes, músicas de protestos e gritos no megafone. Contrários a elas, uma massa de jovens de uniformes de escolas particulares, furiosos senhores nostálgicos e casais white-trash com a camiseta de seu político favorito.

Os manifestantes gritavam os discursos problemáticos do Bolsonaro que incitavam a violência. Os seguidores do político replicavam com os mesmos cantos do momento do aeroporto, num adicional de “vai comprar gilete”. Um adolescente negro batia no peito e no braço, agressivamente, bradando um eu sou Bolsonaro, eu sou brasileiro! Alguns musculosos, com penteados tão trabalhados quanto o corpo, faziam contagem regressiva para darem sarradasno ar e, depois, cumprimentos.

A chuva caía e obrigava os manifestantes a chegarem perto. A tensão era a mesma de um punhado de piranhas num balde d’água.

Durante a palestra, a dispersão dos manifestantes veio num estrondo só, numa bomba de efeito moral. Bolsonaro e os demais acharam graça.

#8. O que o deputado tinha a dizer

Eu já tinha visto aquela cena antes, algumas horas atrás. Com a diferença do número de pessoas (umas 600 lotando o pequeno auditório), todo o mais era igual. Foi recebido com a cantilena aplausos, uivos e gritos de mito. As considerações do seu filho, as piadas com Linston, o hino cantado até a primeira metade – se esticássemos a mão, ainda daria pra sentir o calor da receita pronta, aquecida quatro horas atrás.

A diferença dessa vez foi quem quebrou o silêncio antes do discurso. Tayoana Schuller, diante do político superstar, gritava freneticamente.

“Dá que eu te dou outra! Dá que eu te dou outra!” – uma referência a um arroubo de coragem, e clássico instantâneo do Bolsonaro way of life, quando o deputado respondeu a uma ameaça de bofetada da colega Maria do Rosário (PT-RS), que, segundo antes, havia recebido a seguinte gentileza do mito: “Jamais ia estuprar você porque você não merece”.

Bolsonaro, em Floripa, foi comedido o suficiente para, até onde eu acompanhei, em nenhum momento repetir referências ao incidente com Maria do Rosário. Sua seguidora, não.

“Dá que eu te dou outra! Dá que eu te dou outra!”

Enfim, sobre o quê ele falou?

Pode ser resumido em um parágrafo. Que o Brasil deveria ganhar dinheiro com as próprias terras, igual aos índios dos Estados Unidos que têm seus próprios cassinos. Que era um absurdo um livro com um buraco no meio para que se enfiasse o dedo e demonstrasse, a uma criança, como ocorre a penetração – e como a máfia do MEC faria de tudo para aquilo passar. Que nunca cogitou lançar candidatura com Aécio. E como a “Folha”, a mídia e tudo mais eram demônios por distorcer o que ele disse. Por muitas vezes falou que, no seu governo, levaria o país pra frente.

Mas Jair Bolsonaro não é candidato a presidente. Se fosse, aquilo seria campanha. E, se fosse campanha, estaria fora de época. Se fora de época, seria passível de punição por descumprir o Artigo 36 da Lei n.º 9.504/97, revisto em 2015. Da Propaganda Eleitoral em Geral: “A propaganda eleitoral somente é permitida após o dia 15 de agosto do ano da eleição.”

Bolsonaro veio para dizer que não era candidato à presidência, mas também para dizer tudo o que faria se fosse.

#9. O destino do ídolo é o mesmo que o nosso

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Rogério Peninha, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro cantam o hino no evento em Florinópolis.

Gabriel D. Lourenço

Em outras palavras, o antropólogo norte-americano Ernest Becker diz: o líder não é tão foda assim quanto parece. E isso precisa ser esclarecido.

Ele tem seu efeito na multidão, mas de maneira sugestiva. Não num sentido hipnótico, mas sim num condescendente. Diante de um coletivo, ele é a figura que estabelece até onde se pode ir, o que pode ser feito – e isso normalmente vai além do que os sujeitos se permitem.

As pessoas não atirariam tijolos em alguém só porque Bolsonaro mandou; mas se ele fosse o primeiro a jogar, seriam necessários vários dias para juntar o total dos cacos. As pessoas se utilizam da figura do líder para se dar a liberdade de agir. E o líder, sem a massa, não se sente seguro para quebrar seus limites pessoais.

Bolsonaro é muito limitado como político. Começa pelo fato de que ele representa apenas uma parte específica e conservadora da direita. Claro, ele cresce nas pesquisas, motivado pela crise política e pelo grande descontentamento do eleitorado com os candidatos tradicionais. Mas Jacques Mick não acredita que aguente o processo eleitoral.

Primeiro porque ele é tal qual Celso Russomano, que liderou as pesquisas para a prefeitura de São Paulo durante quase todo o períodos das eleições, mas perdeu no primeiro turno para João Dória. Segundo, porque o processo eleitoral é cruel e capaz de trucidar quem tem passado duvidoso, quem não consegue pagar a alta conta e não possui uma forte estrutura partidária (como é o caso do PSC de Bolsonaro).

“Num embate entre Bolsonaro, Lula e Dória, você tem dúvida de que o Bolsonaro vai ser destruído?”

A exceção talvez seja Fernando Collor, que conseguiu se eleger apesar de não ser muito influente ou estar em um grande partido (era membro do PRN). O seu trunfo, ao contrário de Bolsonaro, estava em ter o sistema ao seu lado e, em especial, pelo destaque dado pela Rede Globo, aponta Mick.

A sociedade se mobiliza para punir casos de racismo como nunca antes. Flagrar alguém na torcida chamando um jogador de “macaco”, algo que talvez ainda(!) seja apenas uma brincadeira para alguém, para a maior parte da sociedade, motivo de revolta nacional. Este é um período em que as novelas e outros programas abrem espaço para minorias e apresentam relacionamentos homoafetivos em suas tramas – propaganda gayzista, diriam alguns mais revoltosos contrários.

Se os grandes tubarões da mídia, de fato, decidirem escolher um candidato nas próximas eleições, quais as chances de ser um político superstar cuja fama é de cair matando contra o ativismo gay?

Como a política está cada vez mais surpreendente a cada dia que passa, descartar qualquer candidato é arriscado. Até porque a esquerda à esquerda de Lula, por exemplo, ainda não achou o seu principal candidato – e pode enfrentar a sua mais difícil eleição na história recente. Mick, no entanto, opina de forma clara: “Num embate entre Bolsonaro, Lula e Dória, você tem dúvida de que o Bolsonaro vai ser destruído?”

Mas a fragilidade do político – política também, mas sobretudo a humana – não é vista pela multidão. Conforme Becker: por debaixo da figura do líder, além do cumprimento de seu papel, ainda existe, em essência, um ser humano. Um ser que treme diante do peso do mundo, que busca proteção e maneiras fáceis de afirmar sua ilusão de poder numa realidade.

A única chance de perceber isso diante de Bolsonaro foi durante sua coletiva de imprensa. Em determinado momento, disse que não saía mais para jantar, para churrasco ou pizzaria com sua família porque tinha medo de que algo acontecesse.

O mesmo sujeito que tinha medo da violência era o cara que, na pergunta seguinte, dizia que questões dos direitos humanos eram meros gastos da máquina estatal.

Algo não fazia sentido.

Em “A Negação da Morte”,  Ernest Becker diz que o medo de morrer é a maior angústia na vida do ser humano. A consequência disso é a busca por negar essa consequência inevitável, negar que, no fundo, apesar de nosso maior entendimento, a vida humana é tão insignificante quanto a de qualquer outro animal. Para provar que temos significância no mundo, buscamos e esforçamo-nos pelo heroísmo.

Com isso em mente, no fim da coletiva, quando Jair Bolsonaro dirigiru-se ao elevador para ser recebido em sua palestra, corri para alcançá-lo. Tínhamos dois andares e uma única pergunta a ser respondida.

“Fala, cabeludo,” disse, suspirando. “Qual é a sua pergunta?”

“Eu vejo que você fala bastante contra essas questões dos direitos humanos. Minha pergunta é: por um acaso você tem medo da morte?”

Deu de ombros. Num riso sem graça, antes de sair pela porta que abria, em direção à palestra cujo discurso seria a repetição do mesmo dito de manhã, no aeroporto, respondeu:

“Não. A morte é a única certeza que eu tenho.”

Pós-verdade e política

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Charles Feitosa
Pós-verdade e política

(Arte Revista CULT)

 

Onde não há fatos, nada é verdade  O que Trump tem a ver com Nietzsche, Foucault ou Derrida? A resposta para o título desse texto é simples e cristalina como água que jorra da fonte: nada, mas nada mesmo. Mesmo assim ocorre no noticiário político e na internet volta e meia a associação, completamente indevida por sinal, entre as estratégias midiáticas de desinformação de Trump e os esforços de desconstrução das grandes narrativas da verdade pelos filósofos ditos “pós-modernos”.

Por exemplo, a famosa afirmação de Nietzsche, em um fragmento de 1887, de que “não existem fatos, apenas interpretações”, costuma ser escutada na filosofia como um alerta crítico de que a verdade não é única, nem definitiva, nem imutável, mas precisa ser continuamente discutida e tematizada. No contexto político atual a frase está sendo relida, ao contrário, como se fosse a legitimação para os estados de “tanto faz” ou de “liberou geral” reinantes, pois onde não há fatos, nada é verdade.

Um sinal sutil dessa tendência é o uso da palavra “pós-verdade” como se fosse o ponto de interseção entre política e filosofia na contemporaneidade. O termo “pós-verdade” é conhecido pelo menos desde os anos 90, mas se tornou especialmente popular em 2016, tendo sido escolhida a palavra do ano pela equipe do Oxford Dictionaries.

A pós-verdade costuma ser definida brevemente como uma estratégia de desvalorização dos fatos em prol de interesses pessoais. Também chamada de fake news (notícias falsas), várias amostras da pós-verdade na política costumam ser citadas, tais como as estatísticas fictícias divulgadas na campanha do Brexit em 2016 sobre os altíssimos custos para permanecer na comunidade europeia ou os rumores conspiratórios sobre a origem muçulmana extremista do ex-presidente dos EUA, Barack Obama.

No Brasil, são também inúmeros e infindáveis os exemplos: os boatos em torno de uma suposta encenação da morte de Marisa Letícia, esposa do ex-presidente Lula ou mais recentemente, a afirmação do atual prefeito de São Paulo de que os manifestantes da greve geral de 28.04.17 estariam recebendo dinheiro para irem às ruas.

Mas o grande garoto-propaganda da pós-verdade continua sendo Donald Trump. Em episódio emblemático, seus assessores, ao serem questionados sobre o número exato de pessoas que assistiram a posse presidencial em janeiro de 2017, alegaram que não estavam mentindo quando insistiam, a despeito de indícios contrários, que tinha mais gente na posse de Trump do que na de Obama em 2009, mas sim apenas apresentando “fatos alternativos”.

Onde não há fatos, não existe verdade única – Por que chamar essas formas midiáticas de manipulação de textos ou imagens como pós-verdade? A escolha do termo não é neutra, trata-se de uma interpretação que é ao mesmo tempo uma acusação. Tudo se passa como se a “pós-verdade” fosse a verdade típica dos tempos “pós-modernos”.

A própria expressão “pós-moderno” tornou-se muito frequente nos últimos trinta anos, tanto na imprensa, como na vida cotidiana. Falou-se muito e indistintamente de sociedade pós-moderna, de amor pós-moderno ou ainda de doenças pós-modernas. Trata-se de um conceito guarda-chuva, cujo uso inflacionário oculta a falta de clareza acerca de seu significado.

Etimologicamente o prefixo “pós” indica uma determinada fase histórica: não vivemos mais na modernidade, mas sim “depois”. Entretanto, o significado desse “depois” ainda é estritamente ambíguo e polêmico, podendo indicar tanto um “extra-“, um “anti-”, ou ainda como um “ultra-moderno”.  É preciso, antes de tudo, ter o cuidado de distinguir uma condição “pós-moderna” de um pensamento pós-moderno. Por condição pós-moderna entende-se, quer a celebremos ou a lamentemos, nossa situação histórica de viver e morrer na virada do século 20 ao 21.

Por pensamento pós-moderno, entretanto, entenda-se estritamente uma estratégia específica de lidar com essa condição, consolidada com a publicação em 1979 do livro La condition postmoderne de autoria do filósofo francês Jean-François Lyotard (1924-1998). Para Lyotard, o projeto dos modernos de liberar a humanidade da ignorância e da miséria produziu, ao contrário, sociedades que permitem o imperialismo, a guerra, o desemprego, a tirania da mídia e o desrespeito à vida humana em geral.

Contra a lógica da razão e do mercado seria preciso inventar outras lógicas, norteadas pelo reconhecimento do dissenso (a irredutível diversidade dos jogos de linguagem nas culturas) e por uma revalorização da dimensão estética. Em um tempo em que não é possível mais um discurso único e definitivo sobre o que é bom, justo ou verdadeiro, Lyotard propõe a emergência do pensamento pós-moderno, cuja característica fundamental é a afirmação das diferenças e do pluralismo.

Dentro desse contexto seria muito mais pertinente reconquistar o sentido mais original e positivo do termo “pós-verdade”, enquanto um esforço anti-dogmático de promover a pluralização e diversificação dos saberes. Então aqui cabem as seguintes perguntas: Isso a que se hoje se nomeia “pós-verdade”, não seria apenas uma nova fachada para um fenômeno bem antigo, a saber, a mentira na política? Não foi sempre assim, na história dos gestores políticos, manipular informações para se manter no poder? Ou será que há alguma diferença fundamental entre as mentiras tradicionais dos homens de estado e a onda contemporânea de desvalorização da verdade?

De fato, já desde Platão sabemos que a mentira não é apenas um incidente ocasional na vida política, mas é ela mesma um dos recursos disponíveis aos governantes na difícil e inglória tarefa da administração das cidades. Na descrição da sua utopia, a despeito do compromisso de cada cidadão de sempre buscar e defender a verdade, Platão argumentava que seus dirigentes, somente eles, teriam a permissão de mentir, pois a mentira, se usada adequadamente, pode contribuir para a realização do bem-estar comum.

Onde não há fatos, tudo é verdade – Desde então a ideia da mentira na política como um remédio amargo, mas necessário, se consolidou no nosso imaginário. Há exatamente 50 anos atrás, em 25 de fevereiro de 1967 na The New Yorker, a genial filósofa judia de origem alemã Hannah Arendt publicou um texto paradigmático sobre o tema, intitulado Verdade e Política (em relação ao qual o título do meu presente texto faz referência e reverência).

Arendt começa chamando de “lugar comum” a crença na incompatibilidade insuperável entre verdade e política, mas ao mesmo tempo ela extrai desse lugar comum uma pergunta incômoda,  que nos obriga a pensar: Será da própria essência da verdade ser impotente e da própria essência do poder enganar? A resposta de Arendt é complexa, pois se de um lado ela defende uma certa potência inerente à verdade de incomodar e questionar as tiranias, por outro lado ela também admite um certo uso tirânico das verdades absolutas, pois geralmente é em nome delas que se instalam discursos e práticas totalitárias.

Mas o mais importante é que Arendt defende que a natureza da verdade é essencialmente política, ou seja, “é sempre relativa a várias pessoas: ela diz respeito a acontecimentos e circunstâncias nos quais muitos estiveram implicados; é estabelecida por testemunhas e repousa em testemunhos; existe apenas na medida em que se fala dela, mesmo que se passe em privado”. Se a verdade é essencialmente política ela pode ser ameaçada pelas mentiras estratégicas dos poderosos e precisa continuamente ser defendida e conquistada com o máximo de questionamentos e debates públicos.

O que mais me interessa no texto de Arendt é sua tese de que, mesmo reconhecendo uma tensão estrutural entre verdade e política, existe uma mudança no modo clássico e contemporâneo do uso da mentira na disputa pelo poder.  A mentira clássica era dirigida estrategicamente para este ou aquele grupo de inimigos e por isso poderia ser facilmente detectada pelos historiadores como uma espécie de buraco ou de falha na rede dos acontecimentos.

O problema é que segundo Arendt a contemporaneidade é marcada por uma forma de “mentira organizada”, uma aliança entre os meios de comunicação e os regimes totalitários, onde toda a matriz da realidade pode ser falsificada através das estratégias midiáticas de manipulação em massa. O resultado não é mais apenas a substituição da verdade pela mentira, mas a paulatina destruição na crença em qualquer sentido que nos oriente pelo mundo. Em outras palavras, a mentira organizada contemporânea conduz a um cinismo niilista, uma recusa em acreditar na verdade de qualquer coisa. A descrença é a desistência da tarefa de fazer qualquer avaliação. Algo parecido acontece quando, no Brasil de hoje, se diz que todos os políticos são corruptos, como se não houvessem aí distinções mais finas ainda a serem feitas.

Onde não há fatos, há verdades em demasia – Talvez não possamos mais chamar de mentira essa versão sistêmica e explícita, onde todos estão sendo enganados ao mesmo tempo. Mas ao meu ver, “pós-verdade” também não é o nome mais adequado. Talvez o mais correto seria falar de hiper ou ultra-verdade, pois vivemos em uma época em que todos se sentem no direito de dizer qualquer coisa, seja nos discursos políticos ou nas redes sociais, embasados em dados fictícios ou não, mas garantidos pela crença tácita de que “tudo vale” e pela recepção acrítica da maioria dos tele-expectadores e internautas.

Quando há verdades em demasia o perigo não é mais apenas, como diz Arendt, a descrença generalizada na realidade, mas a sua contrapartida, a revalorização reativa, nostálgica e muitas vezes enceguecida dos fatos, como se eles existissem em algum lugar objetiva e efetivamente e pudessem funcionar como uma pedra de toque nas nossas falas.

Um sintoma dessa súbita revalorização dos fatos em si é a prática cada vez mais difundida de facts checking dos discursos políticos na internet. Embora seja muito saudável desvelar as falsas estatísticas citadas pelo MBL ou por Trump, é sempre bom lembrar aquela frase do Nietzsche citada do início desse texto, para não cair na armadilha inversa de achar que alguém tem o poder definitivo e inquestionável de dizer o que são os fatos.

Existem divergências de interpretações até mesmo entre os diferentes fact-checkers. Não podemos nunca deixar de nos perguntar criticamente quem são e como o fazem, estes que assumiram para si a tarefa de controlar a veracidade dos discursos dos outros. Avaliar continuamente não só os discursos, mas também os avaliadores e os próprios instrumentos de avaliação, é a tarefa política constante daqueles que ainda tem respeito pela liberdade e pelo pensamento. Isso inclui também o exercício da autoavaliação, pois a pós-verdade, entendida aqui não como a “não-verdade”, mas como a “verdade pluralizada e sob constante tematização”, exige sempre e de cada vez mais e melhores interpretações. Em suma, abaixo Trump e viva Nietzsche!

Charles Feitosa é Doutor em Filosofia pela Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIOChles Feitosa é Doutor em Filosofiala Universidade de Freiburg i.B./Alemanha; professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da UNIRIO