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Imperialismos Futebolísticos

leia no original:   ludopedio.com.br

 Édison Gastaldo

Quando morava em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, eu tinha muita simpatia pelo time local, o Aimoré. Antes de sair de lá, procurei uma camiseta do Aimoré para comprar numa loja de esportes local, mas em vão. A loja apresentava várias versões das camisas oficiais do Barcelona e do Manchester United, do Flamengo, do Corinthians, do Grêmio e do Inter, é claro, mas em pleno centro de São Leopoldo não havia nada do Aimoré!

Escudo do Clube Esportivo Aimoré

Fiquei pensando na dificuldade de ser torcedor de um time do interior. Além de seu time não jogar por metade do ano, por falta de competições, as finanças são invariavelmente deficitárias, e os custos com a manutenção do estádio e instalações crescem sem cessar. Caso um dia o destino permita que se monte uma equipe bem entrosada e razoavelmente competitiva, os grandes clubes da capital comprarão facilmente os melhores jogadores – ou o técnico, se for ele o responsável pelo sucesso. E o pobre clube do interior voltará à estaca zero, sem dinheiro – previamente consumido pelas dívidas – e sem os jogadores. Trata-se de um círculo vicioso de imperialismo futebolístico, que ocorre em vários níveis: os clubes do interior são “colonizados” pelos clubes da capital. Os clubes das capitais de estados periféricos, por sua vez, são colonizados pelos clubes das capitais dos estados centrais. Os principais times do Brasil, por sua vez, são colonizados por equipes das grandes ligas europeias. Não estamos sós: também os clubes da Argentina, da Colômbia, do Uruguai, do México e de muitos países africanos são colonizados pelas ligas europeias. De modo análogo à colonização propriamente dita, dos séculos XVI a XX, os colonizadores vêm e contra qualquer resistência levam para seus países nossos melhores recursos – açúcar, ouro, petróleo ou craques.

É fácil argumentar que os próprios jogadores e clubes desejam isso, que a liga europeia é uma vitrine, a Hollywood do futebol, e que a venda de um atleta a um clube europeu serve para cobrir os custos e as dívidas dos clubes brasileiros. O que esta suposta obviedade oculta é a naturalização de um sistema internacional de produção, circulação e dispensa de jogadores, uma verdadeira máquina de moer gente.

Como em muitos campos de atividade, as trajetórias exemplares de sucesso são raras, praticamente uma exceção. Mas são apresentadas como se fossem a regra, exemplo vivo a animar os sonhos de uma multidão de meninos que jamais serão profissionais do futebol.

Outro ponto a destacar é que, como torcedores, nos sentimos vítimas da colonização pelas ligas europeias, mas nunca algozes ao fazer o mesmo com as pequenas equipes do interior do Brasil. A soberba e o desprezo com que estas equipes – e seus jogadores e torcedores – são tratados pelos adversários “grandes” só não é maior do que o risco que implica perder para um time pequeno. A torcida do Palmeiras deve lembrar da zoeira que sofreu quando o grande time paulista foi eliminado pelo Asa de Arapiraca, do Alagoas, na primeira fase da Copa do Brasil, em 2002. A do Corinthians deve lembrar quando foi eliminada pelo Tolima da Colômbia na pré-Libertadores de 2011. Ou meus companheiros de sofrimento pelo Inter, quando perdeu para o Mazembe, do Congo, no Mundial Interclubes de 2010. Em todos estes casos, o vexame é proveniente de perder para um adversário considerado “inferior”. Nesta atribuição tácita de uma inferioridade a priori ao oponente (financeira, técnica, tática, midiática, nacional, regional, etc.) reside a soberba e a atitude imperial futebolísticas.

Este padrão é repetido dentro e fora de nosso país. As equipes europeias são valorizadas, admiradas e respeitadas, enquanto as equipes sul-americanas e africanas são desprezadas e ironizadas, numa versão viralatas de geopolítica futebolística, que reproduz lógicas, éticas e preconceitos que vão muito além de um campo de futebol.

Vamos pensar um pouco no futebol brasileiro: apesar de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro serem muito importantes e populosas, seria um equívoco dizer que somente elas e seus habitantes fazem parte do Brasil. Lugares como Itaquaquecetuba (SP) ou Tenente Portela (RS) jamais poderiam competir com essas grandes metrópoles em termos de poder, dinheiro ou influência. Entretanto, seria um grande equívoco desconsiderar o fato de que a maioria absoluta de municípios do Brasil são muito mais parecidos com Tenente Portela do que com São Paulo. De modo análogo, dos 662 clubes profissionais em atividade no país, somente 128 participam de alguma das 4 divisões nacionais. Na prestigiada série A, somente competem 20 equipes a cada ano. Ou seja, existe uma absoluta maioria dos clubes de futebol profissional do Brasil que é ignorada pelos próprios torcedores brasileiros.

Isso não significa que, por não disputar grandes títulos, um clube de cidade do interior não possa ter um conjunto de torcedores fiéis, para quem o clube representa sua cidade, seu “pedaço”, seu lugar no mundo. Como exemplo, cito um trecho da entrevista de um torcedor do Aimoré/RS para o Projeto Torcedores:

Torcer para um clube do interior é uma demência. Se o clube ganhar que bom, eu adoraria que o Aimoré fosse campeão mundial e tudo mais, mas do clube existir e o que ele representa, eu acho, vem um sentimento de identidade (…). O Aimoré representa isso, tu te sente representado, tu sente uma coisa que é tua, pertence a ti e sobretudo, pegando o caso de São Leopoldo, a gente tem poucas coisas que são nossas assim, e o Aimoré é uma delas. É amor mesmo, enfim. (Natan, estudante, São Leopoldo/RS)

Outro ponto importante da geografia futebolística no Brasil é a colonização de Estados periféricos pela torcida a clubes dos grandes centros. São notáveis neste sentido os casos de Manaus e Cuiabá. Apesar de serem Estados economicamente importantes e de existirem várias equipes locais, uma série de circunstâncias impede o desenvolvimento dessas equipes, de modo que, em grande número, os habitantes acabam torcendo para equipes do Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns fatores são estruturais: o campeão estadual do Amazonas, por exemplo, ganha como parte do “prêmio” uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série D. Assim, uma equipe amazonense hipotética teria que, após ser campeã estadual, vencer três campeonatos Brasileiros seguidos (da Série D, da Série C e da Série B) para finalmente conquistar uma vaga na primeira divisão. Nenhuma surpresa que isto jamais tenha acontecido. E não se pode culpar a pouca importância econômica ou a dimensão da população. Manaus tem população 30% maior do que Porto Alegre (2 milhões contra 1,4 milhões), e um PIB equivalente (Porto Alegre é o sexto município com maior PIB do Brasil, com 68 bilhões de reais em 2017 enquanto Manaus é o sétimo, com 67 bilhões).

Foto: Bruna Borecki, Projeto Torcedores

Outro fator a explicar a presença das grandes equipes do centro do país é o sistema da mídia. Como as grandes emissoras sempre estiveram localizadas no Rio e em São Paulo, seu ponto de vista “local” facilmente se torna “nacional”. A formação dessas massas torcedoras nos sertões está associada aos primórdios do rádio esportivo no Brasil. Os transmissores em ondas curtas já nos anos 1930 tinham potência de antena para cobrir todo o território nacional. A programação esportiva das emissoras apresentava a transmissão de matches entre os times das localidades das emissoras, Rio de Janeiro e São Paulo, para todo o território nacional, fazendo delas equipes de abrangência nacional.

Um terceiro fator a influenciar a formação dessas torcidas poderia ser chamado de “patrilinearidade futebolística”. Existe entre os/as torcedores/as que pesquisamos uma tendência majoritária em adotar o mesmo time do pai. Geração após geração sob esta tendência, e torcer para o mesmo clube se torna uma tradição familiar. Assim, a permanência de massas torcedoras em locais distantes da sede dos clubes se deve a uma circunstância de fatores estruturais, políticos, econômicos e culturais que operam concomitantemente, de modo a conservar a influência cultural imperial de algumas regiões, consideradas “centrais” sobre outras, ditas “periféricas”.

Essas e outras contradições me fazem duvidar da dimensão pretensamente democrática do futebol. Esses obstáculos simbólicos, financeiros, tecnológicos e políticos operam estruturalmente em conjunto para sustentar um sistema de exclusão e diferença, que explora algumas regiões para benefício de outras, e que opera pari passu com estruturas mais amplas de dominação e controle. Por isso eu simpatizo com times como o Aimoré, o Central de Caruaru ou o Independente de Limeira: como todos nós, eles lutam para sobreviver em circunstâncias desfavoráveis, nas periferias do sistema global, à margem do Grand Monde. Não nos iludamos: a extraordinária vitória do Inter sobre o Barcelona na final do Mundial Interclubes em 2006 foi também um vexame. Para o Barcelona.

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Uns mais iguais que outros

A  desigualdade está na raiz da formação brasileira. Espraia-se na estrutura socioeconômica de uma sociedade que se ergueu tendo como pilar a escravidão. A desigualdade está presente no mercado de trabalho, na educação, no acesso aos serviços de saúde. Na enviesada interpretação do mundo político, está cimentada na ideia nefasta de que todos são iguais, mas uns são mais iguais que outros. O Brasil fez-se assim uma nação desigual.

No Poder Judiciário, não poderia ser diferente.  Vivemos numa sociedade em que a justiça e o direito têm valores distintos em razão da posição que cada um ocupa na pirâmide social. Na expressão que um talentoso jornalista consagrou, regras que valem para o andar de baixo da pirâmide nem sempre valem para o andar de cima.

O arbítrio e a injustiça são obstáculos para uma sociedade mais pacífica. A cultura do “jeitinho” ou o bordão do “sabe com quem está falando?” sintetizam a ideia básica de que a lei não vale para todos. A distorção tem origens estruturais. Reflete a fraqueza das instituições na aplicação da lei. A generalidade do direito não alcança mundo tão fraturado.

Pesquisas já atestaram que o brasileiro desconfia de que a lei seja aplicada de forma igual para todos. Apenas um em cada dez acredita que haja igual acesso à Justiça. Sete em cada dez afirmam que o Judiciário brasileiro é pouco ou nada honesto. Nove em cada dez reclamam da lentidão do sistema.

Os exemplos cotidianos de falta de transparência, de corporativismo, ineficácia na solução de controvérsias complexas, arbítrio e falta de honestidade têm se mostrado mais fortes para a construção da imagem da Justiça no Brasil do que o trabalho árduo da grande maioria dos magistrados. Há uma profunda crise de legitimidade no sistema judiciário, que tem por responsabilidade aplicar o Direito de forma efetiva e justa.

A desconfiança no Direito e em suas instituições aumenta os comportamentos oportunistas dos atores sociais. Cria enormes custos para o desenvolvimento. Aumenta o fosso da desigualdade.

Controles sociais e republicanos têm de ser estimulados para que o Poder Judiciário avance. A ausência de mecanismos de responsabilidade, transparência e prestação de contas solapa a confiança no sistema.

ÉPOCA optou por destacar nesta edição um caso que permaneceu impune por quase uma década. Impunidade significa falta de castigo. Do ponto de vista estritamente jurídico, impunidade é a não aplicação de determinada pena criminal a determinado caso concreto. A lei prevê para cada delito uma punição. Quando o infrator não é alcançado por ela – pela fuga, pela deficiência da investigação ou pela inoperância do sistema –, o crime permanece impune.

Conforme célebre ditado latino, a impunidade estimula a delinquência. Está no centro do debate político brasileiro. Este tende a ser cada vez mais intenso e ruidoso. Sem resolver tal impasse, mais distante estará o país da harmonia social necessária ao desenvolvimento.

As misérias da intervenção

As misérias da intervenção


Luiz Gonzaga Belluzzo – A segurança pública não pode subsistir sem a segurança econômica como seu fundamento.

Começo a coluna com o último parágrafo do artigo de Benjamim Steinbruch estampado na Folha de S.Paulo na terça feira 20 de fevereiro: “Políticas econômicas irresponsáveis, que provocam desemprego, jogam jovens desocupados nos braços da criminalidade. O País precisa com urgência de crescimento econômico e criação de postos de trabalho. E isso não é tarefa para generais”.

Neste espaço, já aborreci o leitor de CartaCapital com o tema da violência no Brasil. Mas vou insistir. Com raras e pontuais interrupções, o Estado oligárquico brasileiro ocupa-se há séculos da produção da insegurança: omite-se diante das tragédias do desemprego, da falta de saúde e de moradia e recua diante da violência dos criminosos.

Como é do conhecimento geral, os ferrados morrem como moscas, sem atendimento médico, sem oportunidades na vida ou pelas armas dos assassinos à solta. Tal descaso é cúmplice da violação sistemática dos códigos da cidadania moderna, que foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista e reacionário dos que se imaginam com mais direitos e poderes.

Estes, no Brasil, invariavelmente imaginam uma sociedade sem a presença de um Estado democrático capaz de corrigir as desigualdades, mas se aprestam a reclamar um Estado autoritário, capaz de intimidar os que pretendem reivindicar os direitos da maioria.

A praga da violência dissemina-se nas grandes cidades brasileiras e atesta que a crise de segurança não é apenas uma questão de polícia, mas, sobretudo, escorre como uma gosma negra e purulenta da omissão do Estado diante do desemprego e das calamidades, como o colapso da saúde pública e da educação. Nas sociedades contemporâneas permeadas pela divisão do trabalho – e, portanto, submetidas à interdependência dos trabalhos e atividades dos indivíduos cidadãos urbanizados –, a segurança pública não pode subsistir sem a segurança econômica como seu fundamento.

Não é possível uma política de segurança pública apenas aumentando o poder repressivo das polícias ou mobilizando as Forças Armadas para misteres que escapam à sua competência. É ridículo, não fosse trágico, o projeto da intervenção militar no Rio de Janeiro, quando um contingente imenso de brasileiros deambula tragicamente entre a insegurança econômica e o crime.

Para escapar de arroubos anarquistas, vou relembrar O Processo Civilizador, de Norbert Elias. Ele considera a monopolização do uso da força pelo Estado como uma das invenções sociotécnicas mais importantes da espécie humana. Elias não imagina como a sociedade civilizada possa sobreviver sem a ação permanente da polícia, destinada a inibir os impulsos violentos de alguns indivíduos sobre os outros, com o propósito do domínio ou do aniquilamento físico.

No fervilhar da crise de segurança, chovem acusações de corporativismo e corrupção desferidas contra os policiais. Destreinados, mal apetrechados, despreparados, desmotivados e mal remunerados, os policiais foram incluídos no rol dos inimigos públicos pela tecnocracia econômica. As classes dominantes e dirigentes do Brasil Varonil não se cansam de surpreender os habitantes do País. Em sua inesgotável e feérica imaginação, insistem em homenagear Nietzsche e brindar os cidadãos com o “eterno retorno do mesmo”.

Ah, a democracia! Essa palavra circula nas rodas nada circunspectas dos Senhores da Terra Brasilis com a mesma desfaçatez que os perpetua no privilégio e no exercício da demofobia. Ocorreu-me relembrar que a vitória na Constituinte não conseguiu eliminar as consequências da derrota na campanha pelas Diretas.

O arranjo social do atraso preconiza uma sociedade submissa ao rentismo, refém da estagnação, prisioneira da defesa da riqueza estéril alimentada por fluxos de hot dollars. Imobilizados nos pântanos do parasitismo, os bacanas e sabichões acovardam-se diante dos azares da incerteza, avessos aos riscos de construção da nova riqueza. Aí está desvelado, em sua perversidade essencial, o “segredo” das reivindicações antissociais dos vassalos do enriquecimento sem esforço.

Alguns mais ousados celebram o aumento do desemprego como arma para combater a inflação e proclamam a necessidade de mais “sacrifícios”. Quem viveu 75 anos ouvindo essa patuscada dos que sonegam impostos, fogem para os paraísos fiscais e se orgulham de resolver tudo com dinheiro sabe que o sacrifício vai ser arrancado dos que sempre “pagaram o pato”. Esse é o alto preço que o presente agrilhoado ao passado cobra do futuro.

O povo contempla, entre perplexo e cada vez mais desencantado, o espetáculo da mudança sem esperança ou, como dizia um crítico de Adorno, “a realização das esperanças do passado”. Assim os senhores da terra concebem o progresso.

https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/As-miserias-da-intervencao/4/39485

Uma comparação que desnuda os dois Brasis

Uma família atendida pelo Bolsa Família e o casal Bretas, símbolo do Bolsa Juiz

Neste artigo, um quadro que apresenta a comparação definitiva entre os programas do Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação) e do Bolsa Família. Um retrato do comportamento das elites e do comportamento do povo; um exemplo concreto do tratamento que os ricos dispensam aos pobres no Brasil

Por Mauro Lopes

A diarista Selma Patrícia da Silva, de 42 anos, já foi beneficiária de programas de transferência de renda do governo, mas voluntariamente abriu mão depois que melhorou de vida. Selma diz ter recebido dinheiro do Auxílio Gás, do Bolsa Escola e do Bolsa Família na época em que ela e o marido faziam bicos como doméstica e pedreiro para sustentar os cinco filhos. Após construir a casa onde vive, em Formosa (GO), a diarista decidiu devolver o cartão, em 2013. “Pensei assim: da mesma forma que serviu para os meus filhos, vai ajudar outras pessoas. Acho muita covardia a pessoa não necessitar e ficar recebendo”, relembra Selma.

O juiz Marcelo Bretas tomou um caminho oposto ao de Selma. Ele tornou-se uma “celebridade” há cerca de um ano por suas sentenças duríssimas na Lava Jato, pelas citações bíblicas nas mesmas sentenças, pelo gosto pelas redes sociais e por se apresentar como paladino da moralidade. No entanto, apesar de ele a e mulher, Simone Bretas, também juíza, receberem mais de R$ 60 mil reais mensais, foram à Justiça para “exigir o direito” de ambos receberem o auxílio moradia no valor de R$ 8.754,00 mensais, apesar de morarem terem apartamento próprio no Rio de Janeiro, onde moram.  Bretas defendeu seu “direito” e o da mulher à mamata num tuíte (veja foto abaixo), apesar de resolução do Conselho Nacional de Justiça haver regulamentado o assunto em 2014 e vetado o auxílio moradia para juízes que têm residência na cidade onde trabalham. Não só brigaram para receber como ainda entraram numa queda de braço com Bradesco para reajustar o aluguel de um de seus imóveis próprios no Rio de R$ 10.685,80 para R$ 20 mil. Isso e ainda contar os R$ 907,00 que o casal juiz/juíza recebem como auxílio alimentação – o que cada um se apossa só em auxílio alimentação já é bem superior ao teto do benefício do Bolsa Família. Somados, os dois benefícios compõem o Bolsa Juiz do casal: R$ 9.661,00 mensais.

Selma e o casal Bretas: duas maneiras de ver a vida, o Estado e o Brasil

São duas maneiras de enxergar o Brasil, a relação com as pessoas e o Estado. Selma entendeu que os recursos do Estado são finitos e que o benefício que ela abriu mão de receber pode ajudar outra pessoas em condição pior que a dela –não por ter ficado rica, apenas por ter ficado menos pobre. Bretas e sua mulher são insaciáveis. Esfolam o Estado como os demais ricos do país. Para eles, os recursos públicos são um espólio de guerra –da guerra contra pobres- sobre o qual avançam com um apetite sem fim. O casal Bretas arranca mensalmente pelo menos R$ 80 mil do Estado direta ou indiretamente. Mas não basta –nunca basta.

O caso de Selma e do casal Bretas é um exemplo do abismo que separa ricos e os pobres no Brasil –e o dinheiro sequer é a maior distância entre eles. A elite brasileira não faz a menor ideia do que significam solidariedade ou compaixão, substantivos muito concretos no cotidiano duro dos mais pobres, que tecem frágeis redes de apoio entre si.

Bretas, Moro, os três desembargadores do TRF4 que condenaram Lula em 24 de janeiro com frases tonitruantes em seus votos, todos eles têm imóveis de alto valor nas cidades em que moram e trabalham –e todos recebem o Bolsa Juiz. Os exemplos não param: um desembargador de São Paulo, José Antonio de Paula Santos Neto, do Tribunal de Justiça, tem 60 imóveis registrados em seu nome na Prefeitura da cidade –mesmo assim açambarca mensalmente o Bolsa Juiz (auxílio moradia + auxílio alimentação).

O abismo entre a elite do país e os milhões e milhões de pobres tem o tamanho da distância que separa o Bolsa Juiz do Bolsa Família. Tudo o que neste artigo está exemplificado nos casos de Selma, do casal Bretas, de Moro, dos desembargadores do TRF4 e do desembargador dos 60 imóveis é a personificação dos programas Bolsa Juiz e Bolsa Família.

Veja o quadro abaixo e constate as diferenças brutais entre um e outro. Por trás do Bolsa Juiz está a defesa dos empréstimos subsidiados que os empresários colhem nos bancos públicos, o dinheiro sem conta que deixam de recolher porque impõem uma estrutura tributária que massacra os pobres enquanto isenta-os de todos os lados, os trilhões de dinheiro do povo dos quais apoderam-se há anos, recebendo os juros da dívida pública. Olhando o Bolsa Família é possível sentir o sofrimento, a vida dura, a pobreza do povo brasileiro –mas, igualmente, sua dignidade.

Veja o quadro/tabela –nele, um resumo dos dois Brasis que convivem e guerreiam no cotidiano do Brasil:

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Os anjos caídos do capitalismo

“A justiça eternal tinha disposto

Para aqueles rebeldes este sítio:

Ali foram nas trevas exteriores

Seu cárcere e recinto colocados,

longe do excelso Deus, da luz empíria,

Distância tripla da que os homens julgam

Do centro do orbe à abóbada estrelada.

Oh! como esse lugar, onde ora penam,

É diverso do Céu donde caíram!”

(John Milton, O Paraíso Perdido)

Diante do gozo coletivo das prisões espetaculares de políticos e empresários, típico de uma classe média alienada, culturalmente pobre e autoritária, gostaria de escrever sobre as duras sentenças aplicadas a um grupo da sociedade que nunca fez parte da população preferencial das cadeias brasileiras: os super-ricos, assim entendidos o 1% da população brasileira que recebe a renda mensal de R$ 23.128,71 para mais.

De um modo geral, a imensa maioria dos condenados às masmorras nesse país é composta por miseráveis, negros, pobres, semi-alfabetizados, moradores das periferias e favelas. O sistema de justiça criminal brasileiro é como um moedor de carne desses 99%.

Tendo atingido o inglório 4º lugar da maior população carcerária do mundo, com mais de 600 mil pessoas encarceradas, sendo 40% delas sem julgamento definitivo, esse contingente humano é composto por negros (67%), pobres e excluídos (1% possui curso superior completo), e seguimos insistindo na ideia da cadeia como solução para os males do país.

Quando, nas estranhas operações com nomes bizarros e larga cobertura midiática, esses milionários são apenados, em algumas ocasiões juízes, oriundos das classes médias em sua imensa maioria, e, portanto, ressentidos no sentido nietzschiano da palavra, valem-se de expressões de caráter moral para julgá-los.

Não é incomum o uso de termos como “valores espúrios”, “relação espúria”, “ganância” e “corrupção sistêmica”, expressões carregadas de conteúdo moral, e analisam as práticas comerciais como “transações que contrariam a lógica empresarial” para “limpar o capital sujo e reintroduzi-lo no sistema financeiro com aparência lícita”, já que o apenado “sabia ou deveria saber” da “origem ilícita dos valores”, posto que suas maquinações tornariam “mais difícil a identificação da procedência dos valores”.

Para esses julgadores, esses milionários faltam com a verdade, porque possuem todos contas em bancos sediados em paraísos fiscais, sob a forma de offshore, não raro possuem grifes, abrem lojas de luxo e restaurantes caríssimos que não possuem vendas suficientes para bancar as despesas do próprio negócio, e realizam transferências financeiras em transações eletrônicas de difícil compreensão [1], normalmente entendidos como provas da atividade criminosa.

Talvez esses privilegiados não deixem de ser vistos como anjos caídos, exemplares segregados de seu contexto, como aves rarae ou ovelhas negras do seu habitat: o sistema econômico do capitalismo.

Ocorre que esse milionário, inusitado frequentador do banco dos réus do tribunal midiático, não é uma avis rara, uma ovelha negra nem muito menos um anjo caído miltoniano.

O que não veem é que não há como considerá-los exceção. Como exemplares poluídos que se rebelaram contra a divina ordenação econômica e conspurcaram um sistema econômico sacrossanto. O que esses poucos e incomuns usuários do sistema de justiça criminal representam é um vislumbre da própria ordem econômica a qual pertencem.

Uma fagulha cintilando na noite escura do ressentido da classe média que volta contra o abastado sua representação da deus iræ. O que ele, admirador do capitalismo (que considera a expressão máxima da liberdade e da democracia) não compreende é o que está julgando.

O verdadeiro capitalista que senta no banco dos réus representa o próprio capitalismo. Ele o encarna no palco dos tribunais televisionados.

O sistema econômico do capitalismo é em si um roubo. Um roubo do tempo dos trabalhadores, um roubo das riquezas das nações, dos valores caros da vida como a liberdade, democracia, o meio ambiente, a felicidade, a educação e a cultura.

A mão invisível que tudo regularia é a mão fantasmagórica que tudo enlaça, que torna o capitalismo avesso a qualquer regulamentação e antagonista da verdadeira liberdade e da democracia efetiva.

Por si só exploratório e escorregadio, vive na promiscuidade com os supostos representantes do povo e de escapar a qualquer ônus social, desde a repartição da riqueza e até a mera tributação.

Daí suas intrincadas formulações nessa fase em que sequer produtivo é. Hoje a produção industrial é um acidente. A primeira grande crise especulativa, a bolha das tulipas do século XVII, é hoje a meta do capitalismo financeiro, que subordina os meios de produção à obtenção de lucro pelo mercado financeiro. Seu foco é gerar lucro a qualquer preço, a qualquer custo, sem limites.

Trabalho escravo, narcotráfico, tráfico de armas, de órgãos humanos, de seres humanos, prostituição, jogo ilegal, guerras, fome, miséria, destruição do meio ambiente, aquecimento global, assim como transferência de empresas para o terceiro mundo, que corre para desregulamentar os direitos dos trabalhadores, transferências incessantes de capital especulativo em formulações ultracomplexas, tudo é um negócio em suas mãos etéreas e ele não se desenvolve sem o ilícito, como ilícito ele é em sua gênese e existência predatória.

Daí que a maior coerência que teriam os juízes ressentidos seria considerar, tal como um tribunal maoísta, esses supostos “anjos caídos” do capitalismo como inimigos da classe trabalhadora.

Os julgamentos espetaculosos, as condenações morais, baseadas na barganha reiterada com o indigitado criminoso, nas legislações aprendidas nos bancos de faculdades americanas e nos programas de televisão detetivescos igualmente importados, enfim, os paradigmas classemedianos como fundamento da condenação seriam, nesse outro aberrante teatro do absurdo, minimamente coerentes.

Como nos encontramos nessa armadilha? Como construímos uma sociedade que aposta que os excessos, as prisões ilegais, a fragilidade de provas e as condenações em massa que levam centenas de milhares aos cárceres seria um critério para corrigir os males do país também no andar de cima?

Não existe possibilidade da superação da história sem um radical enfrentamento da nossa realidade. Um dos países com a maior concentração de renda do mundo, aporofóbico, profundamente racista, lgbtfóbico, misógino, não alterará esse cenário com boas discussões sobre o que é o Brasil.

O capitalismo não pode ser concertado ou humanizado. Ele é o defeito e ele é desumano.

Há nessas operações e seus rótulos de marketing uma grande perda de oportunidade histórica.

A pretensão de mudar um sistema exploratório político e econômico com a punição vingativa, produto do julgamento espetacular, moralista, típico da abraâmica lógica binária “bem versus mal” nada pode produzir de bom.

O que os milionários poderiam dizer, não em troca de uma tornozeleira e de ficar preso em casa, ou de décadas de condenação ao cárcere – a princípio, evidentemente – em uma Comissão da Verdade e Reconciliação como fez a África do Sul, dentro da filosofia ubuntu, para enfrentar os crimes do regime do apartheid?

Nessa filosofia, que em essência significa o que é ser uma pessoa humana, se entende que há interconectividade entre a vida e a humanidade, e se reconhece que a humanidade e bem estar de um depende da humanidade e bem estar dos outros.

Portanto, o mundo ubuntu valoriza a totalidade da comunidade e os seus indivíduos, transcendendo categorizações como raça, religião ou classe, criações humanas que não possuem relação com o ser-aí,  e, portanto, não existe a ideia do “outro” como parte da mesma comunidade. Ele é a comunidade, como a comunidade é ele.

Daí a necessidade de observar que o perpetrador atinge a comunidade com sua conduta e também a si mesmo, se desumanizando tanto quanto desumanizou a todos. O objetivo da reconciliação assim é auxiliar as partes conflituosas a se reconciliar, fazer tanto a humanidade da vítima como a do perpetrador poder ser restaurada. Nesse passo, a confiança pode ser restaurada e a harmonia social mantida.

Nesse tribunal, destinado a dar publicidade aos crimes do apartheid, os perpetradores que confessassem seus delitos ficariam imunes a qualquer punição, desde que apresentassem ampla colaboração com a sociedade, divulgando todas as práticas do regime, para que esse nunca mais voltasse a acontecer.

Essa foi a solução negra e africana para os crimes de um regime racista e, portanto, desprezível, mantido pelas potências ocidentais (EUA e Inglaterra) no poder por décadas.

Cabral, Cunha e demais alcaides do atual governo cumprem – até o presente momento – longas sentenças por levarem uma vida extravagante em que tentaram, como nouveau riches, mimetizar o mundo dos milionários.

O que teriam a dizer em um Tribunal para a Aplicação da Justiça Restaurativa em El Salvador para enfrentar os crimes de lesa-humanidade praticados por regimes autoritários apoiados pelos EUA?

Esse tribunal não tem a intenção de constituir uma justiça dos vencedores de guerra e punitiva, sujeitando abomináveis perpetradores à justiça dos ocupantes do território, leva-los até a forca como fizeram os aliados em Nuremberg.

Ele procura fazer o Estado criminoso contra a humanidade defrontar-se com seus crimes e que as vítimas tenham vozes ativas. Não busca pendurar genocidas numa forca ou jogá-los numa cadeia onde seus crimes serão esquecidos, onde serão considerados exceção de um regime perverso porque não poderia ser diferente do sistema econômico perverso que ele representa.

A esquerda brasileira – presa na ausência de diálogo com a massa de despossuídos – peca grosseiramente por apostar nas mudanças à Torquemada e à Savanarola. Fogueiras geram mais fogueiras, geram julgamentos de Salém e caça às bruxas.

A fratura do sistema conspurcado pelo capitalismo e, portanto, insuperável, pode nos levar, pela enésima vez em nossa história, para outra ditadura cruenta e igualmente corrupta, que promoverá mais exclusão social e miséria.

A esquerda brasileira tem o dever de superar suas inacreditáveis divisões e não reagir, de modo ressentido e despreparado, às investidas contra os direitos humanos. Tem o dever de propor soluções que nos tirem das armadilhas históricas de tentar fazer mais com o mesmo, ou de apostar na solução autoritária para se vingar do inimigo de classe.

Estará aberta para o multiculturalismo, para uma justiça humanizada e transformadora, para a emergência de uma democracia radical, para o enfrentamento real e não pontual das desigualdades desse país?

André Tredinnick é Juiz de Direito no Rio de Janeiro, membro da AJD – Associação Juízes para a Democracia.

Bullying, retrato de um sistema

 Bullying, retrato de um sistema

Em novo livro, dois sociólogos propõem: é hora de perceber que as intimidações violentas não são desajustes individuais. Elas reproduzem a disputa incessante que o capitalismo estimula

Charles Deber e Yale Magrass, entrevistados por Mark Karlin, em Truthout | Tradução: Camila Teicher

O que causa o bullying? Ao analisarem o fenômeno nos Estados Unidos, em Bully Nation, os sociólogos Charles Derber e Yale R. Magrass mostram como as desigualdades de poder, o militarismo e o capitalismo agressivo tornam tanto o bullying pessoal como o institucional um lugar-comum. A seguir, em entrevista à revista Truthout, Charles e Yale abordam otema a partir de um ponto de vista original. Para eles, as crianças que intimidam as outras, de forma violenta, não estão se mostrando desadaptadas. Ao contrário, são as que assimilaram, de maneira crua e não mediada, algumas das características centrais de um sistema cada vez mais reduzido à luta de todos contra todos.

Mark Karlin: Costumamos abordar o bullying a partir de uma perspectiva individual. Por exemplo, alguém pode começar uma campanha para combatê-lo nas escolas. O subtítulo do seu livro, no entanto (How the American Establishment Creates a Bullying Society, ou “Como o Establishment norte-americano cria uma socieade de Bullying”) indica que o bullying não pode ser detido considerando casos isolados:. Como vocês chegaram a essa visão?

O bullying é uma forma de controlar as pessoas, colocando-as em “seu lugar”, talvez desde que os seres humanos existem. Até cerca de 20 anos atrás, era visto como algo sem importância, um rito de passagem que crianças e adolescentes deveriam enfrentar e superar. Alguns sofrem relativamente pouco com isso – talvez eles mesmos sejam intimidadores – e o impacto a longo prazo é muito pequeno. Para outros, é um trauma que deixa cicatrizes para toda a vida.

Em grande medida, o discurso acerca do bullying sempre foi controlado pelos psicólogos, que o veem como um problema para indivíduos que precisam de terapia. M as precisamos examinar por que é algo tão arraigado. Será que as pessoas e instituições poderosas têm algum tipo de interesse em incentivá-lo e perpetuá-lo?

Vivemos no capitalismo militarizado. O capitalismo pressupõe competição – vencedores e perdedores. O militarismo requer violência, agressão e submissão à autoridade. O bullying constrói exatamente essas características. A psicologia é inadequada para entender sua causa e o seu poder. De fato, seu cerne é o poder e a psicologia praticamente não tem esse conceito; ela lida com indivíduos mudando suas atitudes. A sociologia e a política são muito melhores para compreender o poder. C. Wright Mills, sociólogo dos anos 1950, falava da “imaginação sociológica”. Argumentava que não podemos separar “problemas pessoais” de “questões públicas”. Precisamos da imaginação sociológica para entender o bullying – como as crianças foram criadas para se incorporarem ao capitalismo militarizado? De que tipo de sistema escolar o capitalismo militarizado precisa? Como as autoridades escolares incentivam uma cultura estudantil que prepara para o capitalismo militarizado e vê o bullying como uma parte “normal” da vida?

Duas expressões do livro me intrigam: “capitalismo militarizado” e “bullying do capital”. Vocês podem explicar a diferença?

Nem todas as sociedades capitalistas são militarizadas (pense na Costa Rica ou Suécia) e nem todas as sociedades militarizadas são capitalistas (pense na Rússia ou na Arábia Saudita). Às vezes esquecemos disso porque os EUA combinaram perfeitamente o militarismo e o capitalismo, criando assim o “capitalismo militarizado”. O militarismo é inerentemente uma força de bullying e, de forma independente, o capitalismo é, em muitos sentidos, um sistema de intimidação. Portanto, todos os Estados militarizados, mesmo os não capitalistas, são intimidadores. E o mesmo se aplica aos Estados capitalistas que não são militaristas.

Porém, quando se tem um sistema capitalista militarizado, os efeitos se multiplicam. Tanto os elementos militaristas quanto os capitalistas do sistema geram o bullying – e a sinergia cria o superbullying. Essa é uma das razões pelas quais os EUA são a nação intimidadora mais poderosa e mais perigosa.

O termo “bullying do capital” – que é o título do capítulo 2 – refere-se ao bullying inerente ao capitalismo. O bullying do capital remete ao bullying realizado pelas elites capitalistas mesmo nas sociedades não militarizadas. A classe capitalista (que inclui as corporações) intimida os trabalhadores, consumidores, fornecedores, os rivais e abastecedores corporativos. Obviamente, Marx construiu toda sua teoria da exploração capitalista como uma relação de bullying entre a classe capitalista e a classe trabalhadora. Como ele desenvolveu essa ideia em sua obra O Capital, consideramos que seria apropriado chamar esse tipo de “bullying do capital”.

Como Donald Trump ilustra a ideia de “nação intimidadora”?

Trump personifica a imagem que a maioria das pessoas tem do intimidador. Com suas ofensas, humilhações e até mesmo ameaças violentas, ele parece um valentão grande e velho no pátio da escola. Mas, como já dissemos, é preciso ter cuidado para não sermos excessivamente psicológicos.

Há uma questão sociopolítica mais importante: por que ele é tão popular, pelo menos em determinados círculos? As pessoas costumam dizer que Hitler era louco, mas isso nos leva à pergunta: como um lunático conquistou milhões de seguidores e dominou um dos países mais avançados do mundo? Ainda que sejam brutais e cruéis, os intimidadores normalmente são admirados. Quando Trump tinha seu reality show – “O Aprendiz” –, as pessoas vibravam quando ele anunciava “Você está demitido!”. Em uma era de ansiedade, em que os salários estão estagnados há décadas, em que os homens brancos temem que seu status esteja sendo ameaçado pelas mulheres e pessoas negras, em que os povos do terceiro mundo podem desafiar os Estados Unidos no Vietnã, Iraque e Afeganistão, alguns talvez sintam a necessidade de um protetor que “tornará a América grandiosa novamente”.

Com “grandiosos”, Trump quer dizer que os Estados Unidos devem se sentir livres para ir aonde quiserem, fazer o que quiserem, em qualquer lugar do mundo, impunemente. Ninguém pode ter a permissão de mexer com a América. Um homem forte – um valentão – é necessário. Para te proteger, ele precisa se assegurar de que ninguém pode desafiá-lo – ele deve ser capaz de te destruir. Quanto maior a eficiência das ameaças do valentão, mais segurança sentiremos. Podemos nos sentir até empoderados por seu brilho; podemos fazer parte da casta dominante, do time vencedor. Pessoalmente, sua vida pode não ser grandiosa, mas pelo menos você pode ser parte de algo grandioso: o intimidador do mundo.

Vocês podem falar um pouco sobre o bullying racial e de classe?

O capitalismo é bullying; é competição – vencedores e perdedores. A desigualdade social está no cerne do capitalismo. Os fracos merecem seu destino. Qualquer um que seja intimidado fez por merecer. Os pobres não têm resistência nem correm atrás. Eles devem se submeter ao poder daqueles que tem a força para construir indústrias, fortunas e impérios. Os fortes foram feitos para dominar os fracos. Para que a economia cresça, 1% deve ser livre para intimidar os outros 99%.

O bullying racial não é essencial ao capitalismo militarizado, mas é útil. Os Estados Unidos começaram quando os europeus cruzaram o Atlântico para tomar as terras dos índios e aniquilá-los. Eles tinham a liberdade para fazer isso porque os índios foram definidos pelos europeus como inferiores e não civilizados, inaptos para ser livres, ter sua própria cultura e sua própria terra, talvez até mesmo inaptos para estar vivos. Os europeus foram escolhidos por uma força superior. Eles tinham “destino manifesto” para intimidar, dominar e prevalecer.

A princípio, tentaram escravizar os índios e os intimidaram para que fizessem seu trabalho por eles, mas isso mostrou-se pouco prático porque os índios morriam ou escapavam terra adentro, já que a conheciam melhor. Então os europeus recorreram aos africanos, que, novamente, foram definidos como criaturas inferiores aos humanos, incapazes de cuidar de si mesmos, que necessitavam do processo civilizatório e da proteção da Europa. Precisavam ser intimidados para seu próprio bem, porém 20 milhões foram forçados a cruzar o Atlântico e a metade morreu no trajeto.

Talvez a escravidão dos negros tenha tornado os homens brancos pobres ainda mais pobres, aumentado as divisões sociais e intensificado o bullying de classe – mas pelo menos os brancos pobres podiam sentir que eram parte da raça que fazia o bullying. Entretanto, também enriqueceu muito alguns poucos, com mais riqueza vinda da escravidão do que da terra, das colheitas, ferrovias ou fábricas. O bullying racial reforçou o bullying de classe; dividiu os 99% e fez com que muitos deles se identificassem com o 1%, em vez de desafiá-lo.

Quando a escravidão acabou, o bullying racial contra os negros continuou na forma de segregação e, mesmo depois dessa época, subsiste em evidências como a brutalidade da polícia contra os negros. O bullying racial ajuda a explicar a popularidade de pessoas como Donald Trump.

Muitas pessoas provavelmente não pensem em bullying ambiental. Vocês podem explicar esse conceito?

Em nossa era de aquecimento global catastrófico, é difícil não pensar em “bullying ambiental”. No entanto, embora todo o capitalismo militarizado gere efeitos ambientais devastadores, não encontramos nenhum trabalho que use esse termo.

Na vida cotidiana, obviamente, a maioria sabe que algumas pessoas fazem bullying com seus cachorros ou outros animais domésticos. As pessoas também percebem que há uma cultura de bullying animal – como o negócio mortal de rinha de cachorros [ou de galos]. E a maioria das pessoas também tem consciência de que o agronegócio transforma o bullying de animais em uma engrenagem impiedosa de lucro.

Porém, ainda que seja muito óbvio que os animais sofrem bullying, pode ser menos claro que as plantas e o solo ou as rochas também possam ser alvos. O bullying pressupõe que a vítima tem a capacidade de experimentar algum tipo de consciência. Embora muitas culturas indígenas acreditem que todas as formas de vida e da natureza têm espírito e consciência, as sociedades ocidentais construíram uma visão não senciente das plantas e de toda a natureza, permitindo assim que os humanos ataquem e destruam todas as formas de vida.

A ciência agora mostra que, na verdade, muitas plantas têm formas extraordinárias de consciência e comunicação. Estudos recentes sobre as árvores mostram que elas se comunicam por meio do entrelaçamento de suas raízes, sobrevivendo e prosperando através da construção de “comunidades”. Os cientistas que estudam as florestas agora falam de árvores “solitárias”, que ficam isoladas e acabam morrendo rapidamente.

Mas e as pedras? É possível fazer bullying com uma pedra? Se você cortá-la ou explodi-la, ela sofrerá ou sentirá dor? Isso está menos claro, então nós introduzimos o conceito de “vandalismo ambiental”. É o nosso termo para descrever a violência humana contra os objetos naturais que podem não ter consciência. O livro explora a relação entre bullying ambiental e vandalismo ambiental – e mostra como o capitalismo militarizado alimenta ambos, ameaçando agora destruir não só os humanos mas também todas as espécies e, talvez, a própria natureza.

Em seu epílogo, vocês discutem novas formas de pensar a redução do bullying. Vocês podem descrever algumas de suas ideias?

A visão psicológica convencional – de que o bullying é simplesmente um tipo de distúrbio pessoal ou doença mental – leva à ideia de que a terapia é a única solução. Isso gera uma indústria virtual de orientação educacional – dando empregos a psicanalistas, psicólogos, assistentes sociais e professores – em um esforço que não foi capaz de deter a persistência do bullying entre as crianças (nos pátios escolares ou online).

Isso não nos surpreende em absoluto, já que a abordagem terapêutica desconsidera a principal raiz do problema. Quando as crianças ou os adultos fazem bullying, eles estão reagindo às normas ou incentivos de suas empresas e de sua sociedade militarizada. Eles não estão “doentes” ou perturbados nem são “antissociais”; na verdade, estão bem adaptados ao sistema e não precisam de terapia para se ajustar ainda mais.

Nós discutimos o surgimento de um significativo movimento “antibullying” nas escolas e na sociedade, com boas intenções, mas que continua contaminado pelo enfoque psicológico. O bullying permanecerá desenfreado até que descartemos a sabedoria convencional e nos concentremos nas raízes do problema.

Isso significa usar a “imaginação sociológica” e ver que muitos problemas pessoais – e o bullying é um excelente exemplo – são, na verdade, problemas sociais. A melhor maneira de reduzir o bullying é mudar nossa sociedade reduzindo o militarismo e nos encaminhando a um sistema menos capitalista.

Os países social-democráticos, como a Suécia, têm taxas baixas de bullying. Isso acontece porque não são militarizados e podem ser vistos como o que Bernie Sanders chamou de “socialismo democrático”. Seu bem-estar social universal e seu forte movimento trabalhista reduzem as desigualdades de riqueza e poder, que são as causas sistêmicas do bullying.

Essa “mudança de regime” nos EUA acontecerá somente quando se fortalecerem os movimentos sociais contra o capitalismo militarizado e as hierarquias sociais baseadas em raça, classe e gênero. Tais movimentos estão difundidos, porém fragmentados e precisam trabalhar juntos (o que [Derber] chama de “resistência universalizada” em um próximo livro). Como o bullying é um problema sistêmico, são necessários movimentos que busquem uma ampla mudança sistêmica para reduzi-lo.

Alguns grupos antibullying nos Estados Unidos – que crescem entre grupos como mulheres, afrodescendentes, latinos, muçulmanos, membros da comunidade LGBTQ e deficientes – estão começando a reconhecer que o bullying é um problema social. No entanto, para serem efetivos, eles precisam universalizar seus movimentos. Isso significa trabalhar juntos para reduzir todas as hierarquias sociais e criar uma alternativa ao capitalismo militarizado que garanta igualdade de direitos, poder e respeito a todos.

Onde nasce o ódio?

por Gisele Pereira publicado 13/09/2017
A censura à exposição patrocinada pelo banco Santander e a violência contra a comunidade LGBT são gumes de uma mesma faca
Divulgação
Onde nasce o ódio?

Uma das obras que provocaram reações histéricas e fundamentalistas

Nelson Mandela nos advertia em meados da década de 1990 que o ódio é algo aprendido. Eis uma de suas célebres frases: “Ninguém nasce odiando outro pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”. Às suas palavras devemos acrescentar que ninguém nasce odiando outro por sua identidade de gênero ou sua orientação sexual.

O ensinamento de Mandela, contudo, permanece inacessível a uma humanidade incapaz de evoluir coletivamente e superar tragédias históricas como aquela do apartheid na África do Sul ou do regime nazista na Alemanha. O ódio segue um ensinamento contumaz.

Mudar a chave deste aprendizado nefasto não tem se mostrado fácil. Em nossa limitada existência particular, não somos capazes de enxergar a olho nu os mecanismos e processos pelos quais se aprende a odiar. Invisível aos nossos olhos, o ódio é plantado nos corações humanos de maneira sutil, gradativa e dissimulada, o que o torna extremamente difícil percebê-lo.

Só nos damos conta do desenvolvimento do ódio quando ele está demasiadamente arraigado nos corações de pupilos convictos de que a afirmação de sua existência só é possível com a anulação simbólica ou concreta da existência alheia.

Vemos o ódio brotar dos argumentos e ações de uma  legião de convictos em uma única verdade, um único modo de ser e estar no mundo, “determinado” por um ser superior ao qual acreditam servir e honrar ao negar a diversidade humana. Não vemos nascer o ódio, mas sabemos que ele nasce da negação de uma existência diferente ao seu semblante narcisístico diante do espelho.

A este respeito Luis Antônio Baptista dos Santos, às vésperas do irrompimento do novo milênio, nos fazia refletir sobre os discursos que nutrem os crimes de ódio, ao que ele denomina de amoladores de faca.

Dizia ele: “O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro nos olhos, possui alguns aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, artistas, padres, psicanalistas etc.”

No Brasil do século XXI, lugar onde mais se mata trans no mundo, o fundamentalismo religioso assume evidentes contornos de esmeril no (des) serviço de amolar as facas contra a população LGBT, as religiões de matriz africana e a autonomia sexual e reprodutiva das mulheres.

O fundamentalismo é responsável por amolar as facas de tragédias cotidianas que vitimizam Dandaras, Luanas, Danielles, Lilis e tantas outras a quem só se reconhece como “travesti”, mulheres cuja existência é negada, subtraída, dizimada.

Esse mesmo fundamentalismo foi responsável por amolar as facas que censuraram a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, em Porto Alegre, encerrada precocemente devido a protestos que alegavam conteúdo ofensivo e desrespeitoso contra símbolos religiosos. Movimentos de caráter conservador fizeram uso de um discurso religioso fundamentalista para mobilizar sentimentos educados pelo ódio em torno de seus interesses políticos e econômicos.

O Santander Cultural reage frente a única gramática que reconhece e lhe interessa: a econômica. Com ela, imprime seu poder e garante sua imunidade, as facas direcionadas momentaneamente a ele estão cegas e pouco se prestam a sangrá-lo de fato. O golpe desferido contra a exposição artística tem como alvo o direito de toda a população LGBT de representar o mundo, de ser representada, visibilizada, reconhecida. É uma faca amolada contra sua existência.

A mostra que buscava evidenciar questões relativas ao gênero, diversidade e práticas sexuais foi destroçada em seu propósito pelos discursos de ódio que a associaram levianamente à  promiscuidade, pedofilia e zoofilia.

A censura de uma exposição artística e os crimes de ódio são, pois, gumes de uma mesma faca cuidadosamente afiada pelo discurso fundamentalista religioso que reivindica em torno de si a autoridade moral para definir desde o que é arte a quem deve ou não existir.

As gritas em torno de símbolos religiosos dos quais se julgam proprietários é tão desprovida de sentido quanto esvaziar um pote de água para poder carregá-lo deserto afora. Esvaziado de sua substância, o símbolo religioso não tem sentido algum. Cultivar o ódio justificado por uma crença religiosa é da mesma forma jogar fora a substância para carregar seu receptáculo completamente vazio.

Onde nasce o ódio é preciso ensinar o  amor. Este sentimento que, como nos ensinou Jesus Cristo, é radical e exigente, que nos impulsiona ao pensar e fazer coletivos, nos move no sentido de  desenvolver conjuntamente nossa força criativa e transformadora. A humanidade, contudo, ainda não foi foi capaz de entender o valor da diversidade e de amá-la como a si mesma. Oxalá ainda nos dê tempo de aprender e ensinar a amar como acreditava Mandela.